22.6.18

Dois Livros Físicos de Contos


Há dois ou três anos decidi ter o meu primeiro leitor de livros digitais. Após uma pesquisa simples pelo fato de haverem apenas três leitores possíveis, o onipresente Kindle, o estranho Kobo e o nacional Lev, optei pelo último. 

O estranho Kobo foi o primeiro a ser riscado da lista por ser exclusivo da Livraria Cultura. Um leitor meio antipático em sua exclusividade e meio sem razão de ser por representar o grande templo nacional dos livros físicos. Jamais trocaria a experiência de entrar na Livraria Cultura do Conjunto Nacional e sempre me abismar discretamente com a quantidade absurda de livros e possibilidades; ou na Livraria Cultura da Brigadeiro Faria Lima, mais compacta porém não menos elegante que a sua irmã gigante. Um download silencioso na madrugada manauara anularia umas das melhoras coisas sobre ir a São Paulo.

Rejeitei e tenho rejeitado o Kindle pela mesma antipatia pura e simples pela qual até hoje rejeito o iPhone. O Kindle é um leitor muito fechado em seu formato e também é metido a sofisticado, chegando em suas versões mais avançadas a ser um tablet cheio de aplicativos que certamente dissipariam a minha atenção média e empolgada de EJA tecnológico. 

O Lev se mostrou resolvido. Seu formato pode ser encontrado em todas as boas casas de torrents do ramo e, além disso, possui a função 'flow', que permite não apenas baixar arquivos em .pdf; mas também redimensionar tais arquivos para torná-los mais fáceis de serem lidos. 

Mesmo as páginas não ficando tão harmoniosas quanto as em fomato .epub, o Lev resolve o drama. Para mim ainda é mais fácil encontrar e ler o Moby Dick editado pela Cosac Naify do que ler um .pdf de cem páginas na tela do computador. 

Meu primeiro Lev, presente da minha mulher, foi muito bem utilizado. Até ter sido levado em um assalto em maio do ano passado junto a toda a minha mochila. Imagino os assaltantes ou quem quer que o tenha achado ligando o leitor digital e comportando-se como os macacos de 2001 em frente ao monolito. Para que serve isso? Pensou um deles levando o tablet ao rosto. Tem Facebook ou WhatsApp? Não, não tem. Pode ter acontecido a possibilidade mínima dele ainda estar sendo usado até hoje única e exclusivamente para leitura. Não acho, mas quero acreditar.

Não muito tempo depois, minha mulher me deu de presente um Lev Neo. Ele possui luz própria, é mais leve e tem botões laterais para avançar e voltar páginas. O tenho sempre comigo. Tenho mais apreço por ele do que pelo meu telefone. Além da simbologia de recuperação e melhora, é por conta do Lev que quase sempre chego perto de bater minhas metas de leitura no Goodreads. Fosse eu ainda adepto apenas dos livros físicos, tal meta de quarenta a sessenta livros por ano não chegaria nem a um terço disso.

Os livros físicos são escolhidos pelo prazer. O prazer do acaso de entrar em uma livraria e simplesmente gostar de um livro de título desconhecido e ir ao caixa sem nem ao menos consultar qual o preço. Ou o prazer de ter acompanhado o hype da divulgação das grandes editoras com suas frases curtas e de efeito dizendo o quão revolucionário e rejuvenescedor é o livro. Ou, claro, melhor ainda, encontrar o título sobre o qual já houvera lido em uma seção de promoção. 

Todo leitor fetichiza o papel. Todo leitor finge não ligar para resenhas empolgadas mas faz questão de conferir se o livro é tudo aquilo mesmo. Todo leitor compra livros por impulso. Todo leitor é um muquirana. 

Hype, resenhas positivas e preços compatíveis foram os motivos que me fizeram ter em mãos, de forma muito feliz, dois livros físicos que não apenas cumpriram com o que prometiam em suas resenhas, como me surpreenderam pela qualidade.

O primeiro foi O Sol na Cabeça, livro de estréia de Geovani Martins, e o segundo foi As Coisas que Perdemos no Fogo, de Mariana Enríquez. Livros de contos intensos e simples, no melhor sentido da palavra. Dois livros sobre o terror cotidiano. E é isso. 

Este não é um post para resenhá-los, e sim para dizê-los físicos e dignos das resenhas esperançosas sobre como tais autores podem dar gás e salvar a literatura, como se a literatura precisasse ser salva. 

Todo leitor sabe que a literatura foi salva há séculos e não há a mínima necessidade da existência de qualquer livro novo ser escrito, mas sempre anseia por mais.



31.5.18

Apto

Depois de dois processos expirados e um terceiro em margens de tornar-se dramático, finalmente consegui minha licença para dirigir.

Cresci não fazendo caso em dirigir um carro. Os dois únicos motoristas constantes da minha infância e adolescência eram o meu avô paterno e o meu tio marido-da-minha-tia-por-parte-de-mãe. Entrar em um carro era, então, algo distante. Uma coisa a ser feita por alguém, não eu.

Meu avô não deixava ninguém dirigir o seu carro porque ele, o meu avô e o carro, pertenciam à mesma empresa. Cara, meu avô é o único homem que eu conheço que trabalha aos domingos, eu pensava, mas em compensação é o único cara que eu conheço que pode usar o carro da empresa para fazer o que quiser quando não está trabalhando. Todo domingo, uma hora antes do almoço, meu avô buzinava à porta da minha casa. Eu e minha irmã entrávamos no carro e descíamos dele às nove da noite, após ter passado a tarde em uma casa de velhos e adultos onde não consigo mais lembrar o que fazíamos para o dia passar tão rápido. 

Meu avô só largou a chave do carro depois de morto. Nunca incentivara nenhum dos quatro filhos a dirigir; pelo contrário. Não sei se por proteção, ou por relacionar o carro ao trabalho constante. Ele sempre fora um motorista constrangedoramente lento: não passava dos quarenta por hora. Lembro de uma época onde ele mandou instalar uma buzina extra.  Um botão negro, disfarçado sob o painel. Quando acionado, imitava um mugido. Lembro do som do boi-buzina chamando a atenção dos transeuntes do bairro da Redenção ou do Alvorada. Meu avô sorria alheio a qualquer constrangimento: um adolescente que mandou instalar uma buzina bovina no carro da empresa. Após a sua morte, o carro continuou na família. Eu não mais.

Mal-humorado e fechado, meu tio era e ainda é, não sei, o cara mais difícil do mundo para oferecer uma carona a quem quer que fosse. Ir da Praça 14 até Flores (dez minutos de viagem) parecia ser para ele o mesmo que uma viagem interestadual de trinta e seis horas. Até onde sei, ele também não encorajou os meus primos a dirigirem seu carro ou qualquer outro. Porém, ao contrário de meu pai e de meus tios, meu primo mais velho nasceu na Praça 14 e não deu a mínima pra isso. Fez autoescola e, pouco tempo depois, estávamos saindo sorrateiramente para o Porão do Alemão. No carro do meu tio. Sem ele saber.

Me habituei a ser passageiro. Não fazendo questão de dirigir um carro não por não poder fazê-lo; e sim pelo fato de não ter tido inclinação social a isso. Algo como não ter licença pra velejar ou pilotar. Encontrei as vias de me locomover iguais à da maioria. Ônibus, terminais de ônibus, Sinetram, voltar a pé do Manaus Show Clube ao Manoa, táxis sazonais. E minha vida continuaria assim, se não fosse Joanne.

É estranho não ter um carro e a tua mulher ter um carro. O carro não é teu, é da tua mulher. Sendo assim, você não tem obrigação de dirigir: o carro não é teu. Mas e se a tua mulher precisar de alguém pra dirigir o carro dela? O carro não é teu, mas a mulher é tua. Você tem o dever de cuidar dela para sempre. Incluindo, aí, ter que entrar em um carro e dirigi-lo sem problemas caso o problema surja. Daí a necessidade da aptidão para dirigir. Estar legalmente ok pra entrar na máquina para apertar os pedais e, ao mesmo tempo, guiar o volante e observar os três espelhos.

Cada uma. Cada. Uma. Das vezes onde eu poderia ter dirigido um carro que não é meu e não pude por não saber ou, mais pra perto do agora, saber, mas não poder por não ter uma licença, surgia um sentimento ilógico, desmasculinizador, pelo fato de eu não poder entrar em uma máquina automotora e guiá-la. Spock me reprovaria em um teste de lógica básica. Por tudo. Quase tudo em relação à culpa social, e bastante por eu só ter sido, vinte anos após aos meus dezoito anos, habilitado.

Mesmo assim, ainda mantenho a minha defesa de menino pobre, sem carro na família e sem ninguém para me incentivar ou, melhor, bancar o meu processo de habilitação. Ninguém. Nenhuma das pessoas da minha família, apesar de acreditarem em mim, não colaboraram em nada como tutores ou financiadores de uma carteira de motorista. 

Voltando após o drama. Porra, man. Era pra você ter passado na porra do primeiro teste de direção em janeiro. Você não passou. A tua mulher, tua mulher, vai fazer uma cirurgia em fevereiro, olha só, ela fez, e tu não podes leva-la no carro dela mesma porque tu não passaste na porra do exame de direção! A família dela ajudou no volante. Percorri todos os perímetros dentro de nossa casa para ajuda-la na recuperação. Deu tudo certo.

Ok, tem uma segunda chance. Aí tu falha, né? De novo? Porra, esquecer de acionar a luz de saída? Duas vezes?! Puta merda. Ok, tem a terceira. Aí nessa tu reprovas e nem sabe o porquê. Complicado. Tu vai te juntar ao coro dos traumatizados ou, pior, ao dos lisos que nem nunca pegaram uma carona com um avô ou um tio calado e contido. Aqueles senhores de mais de sessenta anos que conseguem assentos nos ônibus por pena e andam com uma sacola de supermercado em cada mão. 

Aí vem a quarta tentativa. Tu faz tudo a uma semana do teste. Procura uma autoescola barata onde duas atendentes gêmeas estão em silêncio e uma terceira, quase semelhante a elas, te atende e agenda o serviço de um carro da mesma marca do qual tu treinaste e isso é tudo que tu tens: uma marca, uma data e uma placa. 

O dia chega e o instrutor é pelo menos quinze anos mais novo que tu. O carro, entretanto, parece mais velho que tu. O Palio morre continuamente durante a aula extra. O teste começa. Puta merda, a mesma coisa. E se eu queimar a garagem e ser eliminado? Não queima. E se eu errar a baliza? Não erra. O carro morre à tua revelia.

Saio para o percurso apenas com uma vida das duas possíveis. O examinador entra no carro e logo após o bom dia diz: qualquer erro médio você sabe que tá eliminado, certo? Sim, mas vamos com fé, eu digo. Recolho uma simpatia muda do homem de meia-idade que passa a semana andando em círculos, mas que tem o poder de barrar gente a entrar legalmente em um veículo por não ter dado um sinal à esquerda. 

O teste termina quando pergunto onde devo parar e, ato contínuo, ele aponta um spot, arranca a minha carteira de identidade grampeada junto ao teste (eu ainda com 15 anos de idade na carteira) e a joga sobre o painel do carro para sair sem dar tchau. A porta fica aberta. Escancarada. Eu me inclino e a fecho. 

O instrutor volta para pegar a chave do carro. Eu agradeço pelo seu tempo e digo, em tom divertido, que espero nunca mais precisar dele. Apertamos as mãos. Atravesso a avenida para fumar um cigarro. E meio, porque chega o micro-ônibus.

Intermission: Talvez assim eu te beberia





25.4.18

Professores controlados por botões



Iniciei mais uma pós-graduação, desta vez em Língua Inglesa. Diferentemente da primeira, em Tecnologias na Aprendizagem, essa tem um vasto material em vídeo, tendo cada módulo dez horas ou mais de aulas filmadas. É como maratonar uma série. A primeira temporada sobre tempos verbais e a segunda, ainda pela metade, sobre preposições e todas as suas variações. Parece chato, mas não é. Não para mim.


Ao final do primeiro módulo, tive uma surpresa. Após mais de uma dezena de horas assistindo aulas cara a cara com o professor discorrendo doutoramente sobre gramática e hacks linguísticos, descobri, dias depois, que ele havia morrido há quase uma semana. 


As aulas são assíncronas. Sendo assim, não só ele permaneceu vivo em vídeo, como possivelmente permanecerá pelo menos mais algum tempo. Vários alunos possivelmente ainda estão terminando este módulo sem estarem cientes do fato de o professor não mais estar no mundo além de sua versão gravada, assistida por centenas de alunos cujos rostos nunca viu e jamais virá.


Apesar de não ser muito diferente de uma música ou um livro, nestas horas a tecnologia mostra esta face triste. Até o final do curso, ainda farei mais dois módulos com o professor que agora é apenas vídeo e slides. 

Sua relevância, porém, é a mesma. Vivo ou não, um professor, quando em sala de aula, deve ser somente e apenas professor. Vivo ou não, o que é é difícil.



7.3.18

Pássaro



Nessas horas depois das cinco onde resolvi sentar e escrever algo, há dois sons. 

O primeiro é o do condensador de nosso ar-condicionado. Não conheço uma palavra específica em português. Sempre leio barulho. O inglês tem uma palavra mais específica para esse ruído baixo e constante: hum.  

O segundo é o de um pássaro raivoso gritando no vazio do terreno à frente. 


Ele não pia ou chilreia ou qualquer outra palavra maluca que algum ornitólogo linguista inventou no passado. 

O pássaro grita. Grita.

Talvez para acordar os outros passarinhos, ou simplesmente para fazer barulho. Essa criatura não enfrentará filas e mesmo assim vive uma revolta intensa. Uma força física cega  que o faz vibrar todo o corpo. 




5.3.18

Amigos


Os melhores amigos do meu pai morreram. 

Na verdade, metade deles. 

Quando vou à sua casa, ou ele vem à minha casa, invariavelmente ele mostra fotos dos seus amigos que já se foram e de outros tantos vivos. 

Não mostro fotos dos meus amigos mortos e não mostro fotos dos mortos-vivos.

Redes


Precisa ir ao banheiro. É madrugada, duas ou três da manhã, e o barco está no meio do rio e mesmo assim deixando uma margem escura visível. O que se passa dentro das margens, um conjunto úmido e verde, é vazio e desconhecido. Solo úmido e bichos. As redes balançam. Vários passageiros roncam de firma quieta. Põe o pé para fora da rede e o recolhe. Está no segundo andar das redes atadas. Logo abaixo dele uma senhora dorme. Calcula o pulo breve e acerta. Seus pés estão sobre o chão metálico. Tudo ao redor são redes. Esgueira-se. Chega ao corredor que o levará até o banheiro. Entra. O banheiro parece ter sido construído sobre o motor do barco. Tudo nele vibra. Termina e abre a porta. O que vê é uma redisposição de tudo o que vira antes. Precisa voltar à sua rede.


Barco


Eu irei ou não embarcar em algo. Penso na analogia. Alguém decidindo se entra ou não em um barco de estaleiro desconhecido ancorado no porto da Manaus Moderna. Dentro dos barcos sempre toca alguma música ou sons vem de embarcações ao lado. Há uma prancha. Aí algumas decisões da vida levam desvantagem. No barco se pode voltar. Na vida às vezes logo após você seguir bambo pela prancha e embarcar, a prancha desaparece. 

Nada de bom acontece em um barco, ou em qualquer outro veiculo de transporte. Aí a vida leva vantagem. Em uma viagem de horas de confinamento, sempre se sai mais velho e cansado. Semelhante à vida, nesse aspecto, mas realmente sem possibilidade de mudar. A viagem muda várias gentes, mas sendo viagem em si. O viajante com os pés no chão e conhecendo outros portos. Estar em um barco não. Vive-se um estado suspenso. Água mantendo todos em estado de sonho. As redes, umas mais simples, outras mais confiantes, com bordas longas, balançam no mesmo ritmo quando é tarde da noite.

9.2.18

É OK Ficar Velho e Tocar Guitarra


Um entre tantos motivos que me fizeram querer e voltar a tocar guitarra novamente é o fato de você ficar velho e poder continuar a tocar guitarra de boa, sem enjoar, piorar ou se tornar ridículo por isso. 

Pelo contrário, guitarristas mais velhos (mesmo os medíocres) tem meio que uma aura de respeito. Se um cara (eu) decidir tocar guitarra aos quarenta, ao chegar aos cinquenta, já com seus cabelos brancos (se ainda tiver cabelos), quem não o conhece vai pensar que ele toca guitarra desde a adolescência. Até os meus sessenta anos dá pra aprender muita coisa. Serão mais de vinte anos até lá e, se vivo, espero estar aqui em casa (já quitada, acho) reforçando os licks e os riffs que memorizei ao longo dos anos. Até mesmo uns solos, quem sabe. Tenho preguiça de solar, mas as coisas mudam. Estou sendo otimista, o que é crucial para iniciar qualquer coisa na vida. 

A imagem deste post é a da guitarra que comprei e que ainda está viajando pelo Brasil graças a anti-celeridade dos Correios. Ao decidir comprar uma Epiphone SG Gothic, você também está decidindo tocar coisas cavernosas, tipo Black Sabbath, Ghost, e tudo o que tem riff tendendo ao grave, muito grave. Não dá pra imaginar alguém tocando qualquer outra coisa funky ou bonitinha com uma guitarra dessas, bicho.

Quando comprei a minha primeira guitarra (uma Ibanez modelo Stratocaster) lá no começo dos anos 2000, a internet ainda era algo meio complicado de ser acessado. Uma conexão banda larga, se disponível, custava uma fortuna, e encontrar tablaturas era bem complicado. Hoje, além disso não ser mais problema, também existe muita, mas muita coisa no YouTube para quem quer aprender a tocar guitarra. A grande dificuldade não é encontrar; e sim selecionar o que vai ser visto. 

Agora é sentar e esperar a SG chegar. Um dia lá para o final do mês eu passarei pela portaria e serei avisado que chegou uma encomenda. Aí a coisa (re)começa.


31.1.18

Quando Dá Certo


Encontrei o amplificador dos sonhos na única loja de instrumentos musicais em um shopping center. O lugar onde menos podia esperar encontrar um modelo Marshall incrivelmente melhor e mais barato que o modelo mais simples disponível online. Não irei explicar porque é tão difícil encontrar algo legal e em conta na loja onde comprei o amplificador. Também não direi o nome da loja. Mesmo offline, os Google ads nos observam.

Caso eu não tivesse arriscado entrar na lojinha escura e ser mal atendido, até o vendedor perceber que além do encordoamento para violão eu também decidira comprar um amplificador, eu teria que passar por aquela dúvida de mais de um mês, meio que preocupado se o produto vai chegar em casa do jeito que imaginamos.

Não sei se um amplificador antes da guitarra equivale ao carro à frente dos bois. Na verdade, não. Uma guitarra e um amplificador se completam. Os bois odeiam os carros e não precisam deles para nada. O meu (amplificador) está aqui, ainda em silêncio, esperando sua contraparte que ainda está viajando pelo país ou empilhada junto a tantas outras caixas de diferentes direções e formatos.

Às vezes fazemos bons negócios. Quando isso acontece, de tão calejado com coisas que não dão certo, eu suspeito da Providência.


24.1.18

Bloqueio


Algo frustrante que sempre me acontece em sonhos é o fato de nunca conseguir realizar uma compra. Já perdi a conta das situações e das frustrações de estar em um plano onde tudo pode ser comprado e mesmo assim saio de mãos vazias. Livrarias, bancas de revista, lojas de presente: o produto que procuro não está lá.

A última experiência, ocorrida há poucas horas, foi a de não conseguir comprar um amplificador. Contrariando a aleatoriedade das marcas-fantasia que sempre me aparecem em sonhos, desta vez encontrei dois amplificadores Marshall. Porém desta vez ocorreu algo ainda mais irritante aconteceu: eu buscava um atendente e ninguém aparecia. Uma situação bem parecida com a realidade, mas desta vez eu sabia que realmente não seria atendido.

O controle dos sonhos é delicado e confuso. Coisas mudam de forma e lugar. Eu saí da loja e encontrei outra ainda maior, mas esta, desafortunadamente, estava de portas fechadas. Voltei à loja inicial, dos amplificadores Marshall, e os mesmos não estavam mais lá – em seu lugar estavam caixas amplificadas coloridas.

Não efetuei compra alguma em dinheiro de sonhos. Não tive ao menos a calma e o controle de pegar um amplificador e simplesmente sair andando sem pagar ou, de forma mais dramática, voar na direção de casa.

20.1.18

Intermission: Pepper










Segunda


Ficar velho é sentir a inexistência do tempo. Um pensamento constante quando caminho é o de ver-me e ver a todos como o gato de Schrödinger. Vivos e mortos ao mesmo tempo; e quando não mais existir não existo e etecétera e isso é chato. Morrer é chato. Se era um estorvo vivo, morto pior ainda: precisamos carregá-lo com gente chorando ao redor.

Estranho ter começado um texto cuja motivação é a de escrever sobre quanto o meu segundo ano de férias em minha  casa foi produtivo e começar escrevendo sobre a baboseira lugar-comum que é a morte e o tempo. Irei ignorá-los em meus posts daqui pra frente. Vou inclusive criar um marco para que isso em frente não se repita:


F   R   E   N   T   E


Estar de férias me possibilitou bastante. Fiz de tudo não indo longe. Fiz reparos em casa. Passei no CPE com média A. Avancei nas séries Star Trek. Limpei a casa. Reparei a casa. Reprovei no teste prático de direção (devido a causas injustas). Li. Pesquisei. Aprendi a fazer feijão. Me reapaixonei pela guitarra. Comprei uma guitarra e já sei ao que me dedicar pelos próximos anos. O meu pequeno para sempre.

Fiquei muito, mas muito feliz nessas férias. A desmistificação do A no Exame de Cambridge teve ligação com a vontade de encarar novamente a guitarra. Já sei tocar. Aprendi sozinho, como quase tudo na vida. 

Curioso isso. Nunca fui aprendiz de ninguém. Aprendi as coisas por conta própria. Não que o mundo tenha me virado as costas e ninguém nunca tenha visto potencial algum em mim; eu simplesmente não fui alavancado por ninguém. Isso é estranho de se escrever. Por mais amor e confiança que eu tenha tido, as pessoas meio que me superestimaram erroneamente, achando que eu conseguiria as coisas naturalmente por ter inteligência e boa índole. Estavam enganados. 

Eu consegui, tenho conseguido e conseguirei mais coisas. Curiosamente, bem depois do que se espera de um indivíduo. As coisas conquistadas na minha vida resumem-se em três regras:

1. Acontecem porque eu quis que acontecessem

2. Acontecem sempre depois do tempo normal

3. Acontecem e permanecem

Isso serve para tudo o que aconteceu em minha vida a partir de ponto onde a minha decisão realmente serviu para que algo mudasse. Minha vida em si não é nada; eu sei. Li alguns livros sobre isso, o ser e o nada; mas é a única que tenho. E não reclamo. Há inúmeros fatos que me fazem não reclamar de tê-la e de ser. Ver alguém com a sua idade, ou mesmo menos, já no segundo casamento e no terceiro filho; ou aparentando ter dez ano a mais do que eu. Ver muita gente da minha idade que nunca leu um livro na vida.

Preciso exaurir um punhado de coisas para tornar-me melhor. Já livrei-me de algumas: Deus e religiosidade. Vontade de ser o melhor. Comentar sobre outros. Detestar a minha cidade com se a minha cidade fosse alguém.

Outras ainda não exauri. Ira que me faz quebrar objetos. Não ter uma carteira de motorista (conseguirei em breve). Ser intolerante com pessoas intolerantes. 

Então penso em construção. Penso na minha família. Não a família original, meio chata e desconexa, mesmo amada em silêncio. A minha família própria. Minha mulher, nossa gatinha. Temos ainda muito a viver aqui. E eu gosto da minha vida. Porque hoje é hoje. Estou saudável e bebericando enquanto as meninas, as minhas meninas, dormem protegidas.


6.1.18

Poeira


Nos dois últimos dias, tive a noção da complexidade que um pequeno reparo pode se tornar. Um serviço curto de revestimento de uma parede pequena e a substituição de menos de dez peças de cerâmica derivou-se em uma quantidade absurda de poeira que cobriu a casa inteira em porções mais ou menos invisíveis. 

Limpei a casa ao limite. Uma pré-limpeza, na verdade, para que a limpeza seja feita amanhã e, com a casa ainda não totalmente limpa, possa se passar à limpeza de fato; a que salta aos olhos e traz a aura de ambiente limpo. Por enquanto, ainda sinto uma finíssima camada de poeira no teclado de agora onde escrevo. Ou não ele, e sim meus dedos empoeirados. 


29.12.17

Os Seios que Salvam os Filmes Ruins







Decidi assistir Blind Date (1984) movido por dois desejos que não mais podem ser considerados tardios, e sim eternos: o de gostar de filmes que de tão ruins são interessantes, e o de gostar de seios. 

Explico. Sou de um tempo onde não escolhíamos os filmes - os filmes nos escolhiam - e seios eram difíceis de serem vistos. Na minha época, para olhar um par de seios anônimos ou famosos você precisava ter idade e coragem suficientes para ir a uma banca de revistas ou aguardar sessões pós-meia noite na televisão para observar, inocentemente boquiaberto, seios anônimos ou famosos. 

Em contrapartida, durante os anos 80, 90 e comecinho dos 2000, nunca tantas modelos e atrizes famosas toparam participar de ensaios fotográficos. Movidas pelo clamor silencioso do público masculino, as editoras não mediam esforços para chamar patrocinadores e bancar ensaios caríssimos que brevemente pagavam os investimento ao vender milhões de cópias. Era um acordo entre damas e cavalheiros.

Até a internet e os escâneres chegarem com tudo e acabarem com a exclusividade e o charme das revistas, tornando-as peças de colecionador. Hoje ainda possuo uma pequena coleção de clássicos, aceitos pela esposa, e discretamente visíveis na prateleira mais alta de minha modesta biblioteca.

O grande mérito de tais décadas passadas foi o fato de todas as famosas nuas estarem ali por seu próprio consentimento. Um ato voluntário, pensado, negociado e legalizado. Ao contrário das fotos infames hackeadas e vazadas de forma covarde das quais as celebridades modernas vez ou outra tornam-se vítimas. 

Voltando ao filme ruim que em português recebeu o título de 'Visão Fatal'. Tudo nele é ridículo e anacrônico. 

É a história de um sujeito babaca que anda de walkman pra cima e pra baixo e joga videogame usando seis televisões de tubo. O cara é babaca a ponto de namorar a Kirstie Alley e ainda assim seguir uma modelo que parece sua com a sua ex-namorada. Em uma ocasião ele é descoberto, literalmente, atrás da moita observando a modelo. Ele corre desesperado pela floresta e dá de cara com um tronco, o que o faz perder a visão. 

Após se oferecer como cobaia para um experimento ultra-tecnológico, ele consegue desenvolver uma visão sonar 8 bits interligada ao seu walkman que o torna apto não somente a locomover-se como um Daredevil movido à pilha, mas a investigar e perseguir um serial killer que anda pelas ruas de Atenas matando moças sem saber que uma delas era a Marina Sirtis. 

Falando nela (o grande motivo de eu ter decidido assistir a tal filme ruim) posso dizer que nem tudo no filme é ridículo e anacrônico. As mulheres, famosas ou não, então utilizadas apenas como chamariz (palavra velha, sei) são hoje o que o torna digno de ser visto. 

A história, a trilha e os argumentos risíveis o desintegraram. A beleza de Kirstie Alley e, principalmente, a primeira aparição de Marina Sirtis em uma cena curta e absurda onde ela nem parece ela mesma, é o que mantém os torrents de Blind Date ativos até hoje.



27.12.17

A tarde aguardada por todo um ano




Ano passado, em um tarde nublada como esta, estava aqui em casa assistindo Entrerprise, na razão de uma cerveja e meia por episódio. Assistia no celular episódios baixados para serem assistidos offline porque não tínhamos internet permeando a casa. Naquela tarde conforto crescente fez com que eu tivesse o embraçamento do lugar. Minha casa. O meu lugar aguardado por tanto tempo. 

O ano passou e com ele as suas turbulências. Ao contrário de Star Trek, elas não foram resolvidas em menos de cinco minutos. Algumas, porém, resolvidas nos cinco minutos finais. Minha casa melhorou e continuará melhorando; e como o membro anônimo do crew que, mesmo vestindo vermelho, consegue escapar por um ano difícil, e ao mesmo tempo como o capitão que, ao final do episódio, senta em sua cadeira e sorri internamente, sabendo que os créditos pós-edição passarão à sua frente, eu observo o final do dia, quarta-feira, após uma breve pausa entre episódios para escrever este post.

26.12.17

O Dia do Nada

Sempre falo para os meus alunos sobre uma reunião de seres malignos ocorrida há muitos e muitos milênios. Em tal reunião definiu-se que, mesmo sem qualquer motivo realmente necessário, todos os seres humanos seriam forçados a acordar cedo, mesmo contra a sua vontade. 

Falo em tom de brincadeira, porém excetuando-se a fábula de forças malignas, tal convenção de que devemos acordar cedo para sermos mais produtivos não faz o menor sentido quando é fato que a imensa maioria das pessoas detesta acordar cedo e só vai produzir algo realmente consistente após uma, duas ou várias horas se passarem; quando não raro passam todo um dia sem fazer nada de realmente produtivo porque não dormiram na noite anterior. Vivem um dia de dor que poderia ter sido evitado.

Penso que o ideal seria existir um programa de catalogação para pessoas que acordam cedo espontaneamente. Elas, e apenas elas teriam a permissão de trabalharem de manhã cedo. O horário de trabalho das demais também obedeceria ao relógio biológico. Os despertantes matinais, vespertinos, e mesmo os notívagos trabalhariam quando estivessem no seu horário desperto. 

Uma segunda decisão, mais radical, seria a de proibir qualquer atividade antes das nove horas da manhã seguida de uma terceira, que proibiria o funcionamento de lojas e serviços não fundamentais em horários inadequados. Exemplo: uma loja de brinquedos não funcionaria às oito da manhã de uma quarta-feira pelo simples fato de não ser de menor urgência alguém comprar um brinquedo em tal horário. Mas digresso em um texto sem postulados.

Hoje, dia de natal, fiquei feliz também pelo fato de ser segunda-feira e praticamente tudo na cidade estar fechado. O nome Jesus ainda consegue fazer certos milagres. Voltamos para casa durante o horário de almoço. Não vimos o trânsito lento e irritante de costume. Vimos sim uns tantos mas poucos carros transitando porque, assim como em nosso caso, era realmente necessário locomover-se, sair ou voltar para casa. 

O comércio parou. Todos ficaram em casa, encolhidos por causa da chuva. Em uma realidade senão ideal, bem melhor que a nossa, ninguém trabalharia na segunda-feira. A segunda-feira serviria para descansar do domingo, ficar em casa, sem fazer esforço. Seria o dia do nada.


21.12.17

Filmes Pretensiosos




Todo filme é, via de regra, pretensioso. Seu objetivo é o de levar o maior número possível de pessoas ao cinema, ou acumular a maior porcentagem de críticas positivas ou, fato ideal, aliar os dois e ainda conseguir se incluir no panteão dos grandes filmes. Movidos por esse desejo, vários diretores e roteiristas usaram de toda a sua criatividade e ação para conseguir tal feito. A consequência de tal ambição é que, infelizmente, eles quase sempre deixam a pretensão guiá-los e erram na mão, criando um resultado desagradável. Existem inúmeros exemplos de tal falta de sucesso, sendo o mais recente o filme Mother!, escrito e dirigido por Darren Aronofsky.

Partindo da estrutura clássica dos filme de suspense, mais especificamente os de Roman Polanski, acompanhamos por horas câmeras em plano fechado no rosto de Jennifer Lawrence enquanto a mesma presencia comportamentos estranhos tanto por parte do marido quanto por um casal de visitantes que insiste em se tornar parte do convívio do casal e visivelmente possuem uma cumplicidade incômoda que torna o mistério mais e mais crescente. Fantasmas? Paranóia? Conspiração satânica para sacrificá-la? Nenhum dos motos são a justificativa; e é apenas neste momento que o filme mostra certa originalidade. O espectador mais atento ou dado a interpretações literárias logo percebe que o filme é uma grande alegoria sobre a criação artística. 

A mãe é a musa do escritor/poeta e toda a tensão se dá pelo fato do mesmo não consegui criar algo novo. Quando ela decide engravidar, o processo de criação se desencadeia, a obra se concretiza. O livro é impresso e o escritor claramente sente mais orgulho dele do que da criança prestes a nascer. Não demora muito até a sua casa ser invadida pelo público: gente anônima e de todo tipo, que não se importa em saber como a obra foi criada, e sim em consumi-la em causa própria. Envolvo pelo público e pela vaidade, o escritor esquece de sua musa, a abandona, não precisa mais dela. A beleza da arte é consumida. 

O grande problema do filme é que esta última parte da alegoria é mostrada de forma muito, mas muito violenta. Um vilipêndio gratuito que tem como mera explicação chocar visualmente o público. Tudo poderia ser narrado de forma mais curta, menos violenta. Sem tanta pretensão. A musa, mãe ou outro paralelo que o valha, se deixa morrer, e ainda pede que o escritor retire o seu coração para que, assim, ainda seja apto a dar vida a outra musa e assim continuar criando. A casa queimada, exaurida pelo fim da primeira obra e invasão antropofágica do público, se recompõe e outra musa desperta. 

A história funcionaria bem em um romance seguindo o estilo de Homem Lento ou Desejo e Reparação, onde a narrativa se rompe de súbito e nos damos conta de que a realidade na qual envolvemo-nos era na verdade outra. Em forma de filme, a alegoria de Mother!, além de consumir milhões e, mais gravemente, beleza, talento e juventude de Jennifer Lawrence, falhou.



O Desodorante


Estava em casa, aguardando a hora do encontro. A hora marcada era às cinco e o relógio ainda marcava duas e meia. Não havia nada que pudesse ser feito a respeito. O problema é que tomara banho muito cedo, em torno das dez da manhã e, sob o calor desde então, começou a suspeitar que o desodorante não estava fazendo o efeito desejado. Após o banho, constatou que o desodorante estava no fim, no estágio em que não sabemos se o que sai é líquido desodorante ou apenas o resto do gás comprimido. Se eu sair para comprar desodorante, vou precisar trocar de roupa e andar por mais dez minutos sob  o sol assassino das três da tarde, se eu ficar em casa, o desodorante (ou quase desodorante) que tenho sob o corpo pode vencer de vez e todo o disfarce da minha condição inerente de bicho irá por água abaixo porque começarei a cheirar da forma que cheiro realmente. É preciso correr, pensou. É sensato não se brincar com a animalidade. Dobrou as roupas cuidadosamente e, com passos apressados, foi até a drogaria a dez minutos de casa. 

O Dono do Edifício


É comum observar edifícios sendo construídos. É incomum, porém, realizar como uma única pessoa ou um grupo de pessoas foi capaz de pensar e concretizar tal ideia. Imagino a satisfação do dono do edifício. Para observá-lo apropriadamente, é necessário que ele (ou ela, ou eles) entre e suba em outro edifício algumas quadras adiante, para que só então tenha uma noção mais exata do tamanho do edifício, seu agora. Seria como possuir um elefante, caso se gostasse de elefante, apenas sendo esse um elefante inorgânico, cheio de tubos por onde correm fios e água vinda de fora, uma caixa que emana luz e também despeja dejetos. O dono do edifício tem consciência disso. E enquanto circula pelos corredores, toca levemente as paredes. Os construtores, elfos humanos silenciosos e anônimos, já foram pagos e agora constroem outro edifício. Isso tudo é meu, ele pensa, enquanto um carteiro apressado e esbarra nele sem pedir desculpas.