9.7.09

Keep writing, my love

2.7.09

Cromo


O primeiro obstáculo é a sala. Pontuada por objetos, transcrições físicas de memória. É bom desfazer-se deles, fechá-los sob um plástico impermeável e deixá-los pendurados no portão, aguardando pelo caminhão do dia seguinte.


O caminhão segue. Uma família anônima pode estar mobiliando uma nova casa cheia de objetos velhos — minúsculos, mas em quantidade suficiente para preencherem um espaço imenso.

É preciso ter parcimônia. Assim, ao esvaziar uma coisa, mesmo sendo essa coisa uma casa. Apoiar-se sob um dos pares de parafusos da prateleira para, enfim, desengastá-la da parede. Lavar o chão com química. Fazer pilhas sem uso. Rasgar papéis em pequenos pedaços. Despachar os documentos falidos.

Haverá tempo para cada cômodo e esvaziar cada um deles é um pequeno vício saudável. Todos os humanos, sem exceção, são guiados pelo vício. Mesmo os que se vangloriam de não os tê-los. Mesmo os que utilizam técnicas para desvencilharem-se deles, meditando, fazendo coisas saudáveis, verduras e respirações que sejam; acabam viciando-se em desviciarem-se.

É bom começar a esvaziar uma gaveta e subitamente, parar. Interromper a atividade paulatina. Tocar violão. Tirar notas simples desarmoniosas e sentir certa dor nos ossos da mão esquerda. Há uma música, e dentro dela, uma letra recorrente na memória: o inferno é cromo.

Não a estampa colorida — e sim o cromo, elemento químico, liso e limpo, do qual é feito o inferno na música. Um lugar grandioso, polido e agradável. Cheio de edificações imensas e precisas.

Impossível, quando se é afeito a tal, não se sentir pertencido àli. Os amigos com apertos de mão sincrônicos. Uma paisagem sem a possibilidade do medo. O ar quente na medida certa. Terrivelmente agradável. E como o inferno se tornou isso? Simples. Todos os maiores cientistas estão aqui e a ciência pode resolver todas as coisas. Mesmo os maus, mesmo as piores pessoas que chegam aqui encontram a cura através da misericórdia da ciência. Uma misericórdia cega e perfeita: Sobre o leito, um par de ajudantes estica o corpo do monstro recém-chegado e um terceiro lhe aplica remédios à base de cromo. Ele se ergue, agradecido, não mais doente, e nos será infinitamente grato porque nem na terra e nem no céu ele teria tal oportunidade. Suas novas roupas ainda carregam o morno do recém-passado. Na terra reina o descaso. No céu reina a falta de lógica. Ambos aqui são inadmissíveis — A mão de meu novo amigo me toca o ombro com cordialidade. Vamos, ele diz.

Ainda não existe possibilidade para tal inferno perfeito. Apenas iniciações. E contrafeito a elas existe o quarto com a sua força barroca aglomerante. O quarto na penumbra. Sem relógio. Ignorante do tempo contido pela cortina. Esse lugar é o inferno: a boca de cantos perfeitos dando a entender não ser possível sair dali tão fácil. Não, esse lugar não é meu inferno, digo; pelo contrário: o inferno é cromo e não há cromo aqui. Ela diz concordo.

Permutamos. Quando na porta do seu quarto desconhecido ouço a voz feminina dizer entra. A voz ainda gravada nalgum lugar do ouvido. A sala com tacos salientes, velhos como os outros cômodos. Observo: Lençol desfeito, livros sobre a cama. Existem centenas de milhares de letras aqui e ainda assim você dorme. Quê? Nada. Um balbucio perdido. Mas não perco duas das mais raras e perfeitas palavras proferidas pela boca feminina: entra e concordo.

A mulher se debruça em busca dum livro sem título. Um diário-agenda. Mostra um conto: uma narrativa sobre pessoas que por vontade própria não possuem casa. Sua única responsabilidade é cuidar do corpo. Não existe nada que as acomode, as guarde e elas não sofrem porque não conhecem tal possibilidade: esta, a de ter uma casa financiada em três mil vezes, com água, luz, gás, eletricidade e formigas.

Obviamente o enredo se perdeu. Não houve como sustentar tal argumento. Ela abandonou o casal de namorados à noite, numa praça, com duas garrafas de vinho vazias. Nem título teve a narrativa.

O conto faliu porque mesmo em tal realidade alternativa o casal de namorados estava morando na praça quando do exato momento do abandono. Falharam no argumento de sua história falsa porque, assim como o vício, a gente tem a necessidade primordial infinita de morar nalgo.

A necessidade de morar sempre existe. Mesmo quem paira, como um fantasma ridículo, mora no ar. Dentro das cabeças. Apertado no sangue dos pensamentos porque lá é melhor do que o imenso vazio de carne do resto do cérebro.

Eu mesmo estou morando aqui agora, momentaneamente, nesse quarto que até então me era desconhecido e agora é um pouco menos: Esse ar de cheiro novo, esses retratos cheios de coadjuvantes, essas roupas usadas, aglomeradas a ponto de perderem a identidade e confundirem suas funções e suas cores, esses livros sendo aos poucos retirados de sobre a cama.

Eu poderia morar aqui de bom grado, nesse vão negativo perfumado de clavícula, aquecido; e meu céu seria o cabo tenso do sutiã. Sorrimos. O céu desaparece e tudo se faz numa desordem escura, a qual encontra, por si só, o seu sentido: surge um céu cego até então inalcançável. Nunca é o mesmo. Eis o segredo: nunca ser o mesmo. Um abrigo e um desabrigo permutado de forma única.

A gente precisa comer algo. A primeira frase inteligível após uma pilha de horas. Mais uma das milhares de necessidades em série. Comer. Beber. As mãos com unhas cortadas e polidas empunham uma tigela cromada com comida saudável dentro. Senta e diz adorar esses utensílios cromados, inoxidáveis. Por ela, todos os utensílios do gênero seriam feitos da matéria do cromo. A centelha ressurge.


23.6.09

Nick Belane


"Frequentemente, os melhores momentos na vida são quando a gente não está fazendo nada, só meditando, ruminando. Quer dizer, a gente pensa que todo o mundo é sem sentido, aí vê que não pode ser tão sem sentido assim se a gente percebe que é sem sentido, e essa consciência da falta de sentido já é quase um pouco de sentido. Sabe como é? Um otimismo pessimista."
(BUKOWSKI, Charles. Pulp. pg 131)


19.6.09

Desde o século 20

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fazem treze anos que o Green Day é a melhor banda de punk rock do mundo.


Afirmo isso após considerar três fatos:

1. O fim dos Ramones, em 1996;

2. O de todas as bandas punk de verdade (e os Ramones foram a melhor que já existiu) reelaborarem seu som com o passar dos anos e nem por isso deixarem de serem punks;

3. O de que todas as bandas contemporâneas do Green Day com o passar dos anos ficaram repetitivas e por isso datadas e por isso constrangedoras.


O Green Day, muito pelo contrário, continua na ascendente com o seu novo álbum: 21st Century Breakdown.

Sério. Eles põem no bolso todas as bandas de punk rock em atividade.


Suas músicas possuem todos, repito, todos os maneirismos possíveis surgidos no punk rock desde que Joey e Johnny o inventaram e foram seguidos por tantos outros caras geniais de personalidade duvidosa.

Seguindo a mesma linha do seu antecessor, American Idiot, o álbum de agora também circula em torno duma temática que é algo “o que está acontecendo com o mundo e como a América está no meio da coisa toda”. Títulos como East Jesus Nowhere, The Static Age e Last Of American Girls são uma amostra imediata dessa busca por um sentido patriota sem ser babaca: o grande pecado estadunidense agravado ainda mais nos últimos oito anos.


O álbum nos faz pensar na boa América. A que tenta respirar agora. A mesma que se faz presente nas músicas caipiras do Wilco e nas músicas bissextas do Marcy Playground.

Um país cujas contribuições possuirão, acima de todas as outras, porn, Apple e hotdog, uma grande colaboração redentora: a de ter criado o rock and roll.

O bom, velho e repetitivo rock and roll remendado na lógica trinária do punk rock: poucas notas, porém tocadas de formas diferentes; vigor, raiva passional e, principalmente, inspiração.


Será que todas essas qualidades tornam o cara atemporal? Eles estão com 37 anos e parecem cada vez mais jovens. Os Ramones, quando na banda, continuaram todos com a mesma cara mesmo um tanto quanto decrépitos. Porém sempre legais .

Não sei. Pode ser.

Na dúvida, vou continuar ouvindo 21st Century Breakdown de novo e de novo.


17.6.09

Janelas


Meu curso de Letras está terminando de forma tranquila e morosa. Sem tantas aulas, sem dramas para fazer o trabalho final por este ser um artigo sobre algo que gosto muito e que vinha pensando ao longo de certo tempo. Acho que ainda teremos mais duas semanas de aula e depois, finalmente, o fim. Sem mais faróis inclinados na ladeira da Leonardo, digital no leitor embaçado, tolerância com os extremos da sala de aula.



Tudo passa muito rápido. Me espanto quando vejo a data da última publicação por aqui. Quase um mês. Várias tarefas. Janelas paras as quais olho dentro e devaneio para outro nível de realidade. Esta tela. A revista que li há pouco. Um livro. Os cigarros abandonados ao lado do telefone. A televisão ligada à frente.


Enquanto me dou conta dessas pequenas janelas vejo na tevê uma Neve Campbell lendo Celine sobre a cama. Garotas Selvagens: um filme tão ruim que virou cult. Nunca lembro da trama, apenas da cena do beijo. Apesar de sortudo, o Matt Dylon só afastou a fama de canastrão quando interpretou o Hank em Factótum e pegou umas mulheres feias. Se deu bem porque o Hank em si era um canastrão por natureza. Se um dia filmarem Pulp, o ator será novamente uma boa escolha; até porque o Hank sempre é o mesmo. No momento não consigo pensar em quem interpretaria Celine.


Eu estava no escritório relendo Celine. Acendi um dos cigarros adormecidos por dias e dias e Dona Morte veio novamente falar comigo. Sempre o mesmo vestido deixando à mostra as panturrilhas e os peitos. O mesmos cabelos úmidos e alinhados recendendo a cloro de piscina.


Um começo de conto.