22.11.09

Aprendizado

Gullar, em "Barulhos"
Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste

ao fundo

e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

18.11.09

Cadente


As tempestades internas. Acordo. E depois do quase despertar semelhante ao que era o normal, surge pura, sem tradução, uma expressão grudada:
coldheartachefeeling.


Ela não virá: está. E se estabelece, fria e pesante; um quadrado comprimindo o peito, o coração.
Misto de dimensões, me esfria e dolore mesmo antes do começo do dia.

Que passa rápido. Mas surgem rompantes inevitáveis. Descubro um lado novo da casa. Cheio de árvores. Agora é noite. A dor vem e volta. Descontrola. Meus cabelos cortados. Sento na calçada e fumo alguns Marlboros Azuis enquanto observo as árvores e olho os muros. Imagino um jardim selvagem verde e branco. É o que me permito citar: verde e branco. Verde. Branca. Jardim trancado por fora.


Jogo as pontas de cigarro e crio estrelas cadentes para as formigas. Nenhuma delas me toca ou incomoda. Involuntariamente as exorto: água e sal que sai de meu corpo. Água e sal e amor sendo purgado à força.


Preciso dormir, mas o sono não é mais sono; e sim um repouso horizontal antes do dia e do trabalho onde devo não transparecer meus demônios para as crianças. O senhor, elas dizem; o senhor cortou os cabelos. Os alunos mais velhos, adultos, percebem meus olhos tristes quando rapidamente me distraio entre os exercícios.


Não sei se escrevo. Mas sei que devo. É pra isso que estou aqui. Para escrever, contar histórias. Mesmo elas sendo por vezes tristes. Mesmo sabendo dos tantos, mas tantos, verbos desperdiçados. Tantas vozes minhas desperdiçadas. Tantas mãos e tantas bocas minhas desperdiçadas.


Partes dum corpo que é meu mas não o sinto e mesmo assim, uma após as outras, surgem palavras contidas pelas idéias que tento fazer não serem mais minhas. Mas elas vêm e voltam e me abraçam e me guiam até o leito.


17.11.09

I can read... and understand

jjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjj



Via

16.11.09

Domingo


Cheiro involuntariamente a fumaça dos ônibus. Encosto nos prepassageiros correndo com medo de não chegarem em casa. Suo. É noite de domingo, faz frio — porém minhas roupas e minha mochila experimentam uma união úmida.

Precisarei subir escadas com espelhos desproporcionais quase em movimento. Empurrar meu corpo e pagar taxas. Equilibrar-me em meio a solavancos até encontrar um repouso temporário. Caminhar quarteirões até chegar ao portão de casa.

Antes. Lia a Bravo! com o Rubem Fonseca na capa: sua mão sobre a boca. Sobrancelhas caindo sobre os olhos. Continua misterioso, o maior escritor policial da Língua Portuguesa. Após tornar-se viúvo (a mulher, amara a vida inteira) viu o seu apartamento criar pústulas geométricas planas na forma de estantes e sobre elas resolveu colocar seus livros e livros: “leio um por dia”, diz.

Misturo-me indevidamente a ele e ao personagem do Clint Eastwood em Gran Torino: Esses homens fortes que carregam sobre si, silenciosamente e com brio, traumas e mulheres mortas antes do tempo. Tocam a falência desnudando-a da tragédia, transformando-a não no louco da casa que permanece no porão; mas o que pacificamente risca e faz canudos no papel o dia inteiro — Incômodo, porém possível de adequar-se. Convivível.

Mesmo assim surgem monstros. Sob a cama. Antes do sono. Entre as teclas. Sorrindo entre os vincos duplos das roupas. Espiando pelas frestas da cortina azul. Forçando um frio misterioso no estômago. Monstrando-me que nada, João, é o que parece. Os semáforos falham. Mansos e de forma prosaica revelam-se os inimigos.

Os dias vindouros serão escuros. Vazio entre o travesseiro e a cama. O coração feito pedra perdido entre dimensões é um despertador crudelíssimo. O tom pálido e claudicante da decepção quando dela levanto e preciso caminhar quatro quilômetros e meio de volta. Os rostos incultos. Meus cabelos crescendo. O ano no fim (e as festas). O sol queimando minha pele desprotegida de roupa. Braços. Pernas. Rosto menos os óculos.

A chuva fazendo chorarem os sapatos: os furos laterais planejados apenas para respirarem agora vertendo lágrimas inadequadas. Fora de hora. Desmerecidas. O céu ruge em cima. Forte. Cospe torrentes. Tento esquivar-me. Não consigo. A enxurrada me enche os pés e os sapatos. Piso forte. É preciso pisar forte sempre. Eles esguicham. Continuo a caminhada.

Troco de roupa. Olho meus livros. Berkeley diz que nada existe e nada existiu. Camus diz que o absurdo é como um acidente automobilístico no meio duma noite calma de domingo. Ponho músicas no radio: Jeff Tweedy se desculpa pela apropriação indevida de sua obra poética. Simpático que é, rosto de leão sofrido, me estende um cigarro.

Acendo e e observo três tijolos no muro ao lado do meu quarto: um tem o rosto tomado por névoa, outro é raivoso. Sou bem esses dois. Um terceiro rosto dorme, porém possui um olho esquerdo desperto, ansiando pelo futuro.


E esse futuro acontecerá: e entre todas as vozes imaginárias impressas e constantes, uma se fará mais importante do que todas porque será real.

O ar entre a boca e meus ouvidos será real não será frio e terá a consistência de sol no começo do universo de todas as coisas. Os seios pontuados por sinais entre. Os olhos a meio palmo e o resto do corpo aninhado ao meu dirá à voz doce saindo da vigília:




acorda, o mundo é grande.



13.11.09

A Little Anarchy


"Do I really look like a guy with a plan? You know what I am? I’m a dog chasing cars. I wouldn’t know what to do with one if I caught it. You know, I just… do things. The mob has plans, the cops have plans, Gordon’s got plans. You know, they’re schemers. Schemers trying to control their little worlds. I’m not a schemer. I try to show the schemers how pathetic their attempts to control things really are. So, when I say… Ah, come here.

When I say that you and your girlfriend was nothing personal, you know that I’m telling the truth. It’s the schemers that put you where you are. You were a schemer, you had plans, and look where that got you. I just did what I do best. I took your little plan and I turned it on itself. Look what I did to this city with a few drums of gas and a couple of bullets. Hmmm? You know… You know what I’ve noticed? Nobody panics when things go “according to plan.” Even if the plan is horrifying! If, tomorrow, I tell the press that, like, a gang banger will get shot, or a truckload of soldiers will be blown up, nobody panics, because it’s all “part of the plan.” But when I say that one little old mayor will die, well then everyone loses their minds!

Introduce a little anarchy. Upset the established order, and everything becomes chaos. I’m an agent of chaos. Oh, and you know the thing about chaos? It’s fair!"


(The Joker, in Batman: The Dark Knight. Warner Bros. 2008)

2.11.09

Todos os Lugares


Eu não escrevo mais aqui — escrevo em qualquer lugar. Blocos de nota e de rua. Chats. Bancos estáticos e de ônibus. Paredes de banheiros. Quadros brancos. Moleskines. Fichas. Listas de frequência. Guardanapos. Torpedos. Calçadas enquanto espero. Livro de ponto. Cadernos de aulas. Recados para mim mesmo observando com sono a porta da geladeira e achando ter sido aquilo obra de um fantasma. Formulários de inscrição. Papel prateado do maço de cigarros antes de transformá-lo numa pequena esfera e comparar a beleza das coisas. Na palma da minha mão direita. Em pernas femininas adormecidas em um sono inverso. Em seios adormecidos (neles retendo-me aos símbolos). Cadernos de amigos inaptos a uma carta romântica ou tímidos para uma carta pornográfica. Carbono para a videolocadora (e quando vi meu canhoto em branco tive medo). Boletins escolares. Telefone. Bilhetes escusos depositados numa pequena parte solta do rodapé para serem encontrados depois e além da resposta terem neles inclusos fotografias 3 x 4 de partes mínimas e crucias do corpo. Pequenas letras mutantes formadas com os cabelos da nuca repousando sob meu colo. Ponta das unhas escrevendo de forma simultânea na parte interna das tuas pernas para que não me esqueças — oh musa ensejante que se oferece à ponta de meus dedos trêmulos finos e medíocres mas com insistência apaixonada em tê-la aqui leve aguda e gratuita no peito confundindo-se com tristeza e paixão para que me sujes com tua tinta invisível de perfume ocluso espalhando-se sobre o papel inaugurando páginas escondendo-se sob minhas unhas aninhando-se sobre minha clavícula forçando carinhosamente meus braços mãos e dedos de amante exigindo amor num dia quente moroso e invisível no qual a cama torna-se movediça e os lençóis, pedra.