Eu não escrevo mais aqui — escrevo em qualquer lugar. Blocos de nota e de rua. Chats. Bancos estáticos e de ônibus. Paredes de banheiros. Quadros brancos. Moleskines. Fichas. Listas de frequência. Guardanapos. Torpedos. Calçadas enquanto espero. Livro de ponto. Cadernos de aulas. Recados para mim mesmo observando com sono a porta da geladeira e achando ter sido aquilo obra de um fantasma. Formulários de inscrição. Papel prateado do maço de cigarros antes de transformá-lo numa pequena esfera e comparar a beleza das coisas. Na palma da minha mão direita. Em pernas femininas adormecidas em um sono inverso. Em seios adormecidos (neles retendo-me aos símbolos). Cadernos de amigos inaptos a uma carta romântica ou tímidos para uma carta pornográfica. Carbono para a videolocadora (e quando vi meu canhoto em branco tive medo). Boletins escolares. Telefone. Bilhetes escusos depositados numa pequena parte solta do rodapé para serem encontrados depois e além da resposta terem neles inclusos fotografias 3 x 4 de partes mínimas e crucias do corpo. Pequenas letras mutantes formadas com os cabelos da nuca repousando sob meu colo. Ponta das unhas escrevendo de forma simultânea na parte interna das tuas pernas para que não me esqueças — oh musa ensejante que se oferece à ponta de meus dedos trêmulos finos e medíocres mas com insistência apaixonada em tê-la aqui leve aguda e gratuita no peito confundindo-se com tristeza e paixão para que me sujes com tua tinta invisível de perfume ocluso espalhando-se sobre o papel inaugurando páginas escondendo-se sob minhas unhas aninhando-se sobre minha clavícula forçando carinhosamente meus braços mãos e dedos de amante exigindo amor num dia quente moroso e invisível no qual a cama torna-se movediça e os lençóis, pedra.
2.11.09
Todos os Lugares
Eu não escrevo mais aqui — escrevo em qualquer lugar. Blocos de nota e de rua. Chats. Bancos estáticos e de ônibus. Paredes de banheiros. Quadros brancos. Moleskines. Fichas. Listas de frequência. Guardanapos. Torpedos. Calçadas enquanto espero. Livro de ponto. Cadernos de aulas. Recados para mim mesmo observando com sono a porta da geladeira e achando ter sido aquilo obra de um fantasma. Formulários de inscrição. Papel prateado do maço de cigarros antes de transformá-lo numa pequena esfera e comparar a beleza das coisas. Na palma da minha mão direita. Em pernas femininas adormecidas em um sono inverso. Em seios adormecidos (neles retendo-me aos símbolos). Cadernos de amigos inaptos a uma carta romântica ou tímidos para uma carta pornográfica. Carbono para a videolocadora (e quando vi meu canhoto em branco tive medo). Boletins escolares. Telefone. Bilhetes escusos depositados numa pequena parte solta do rodapé para serem encontrados depois e além da resposta terem neles inclusos fotografias 3 x 4 de partes mínimas e crucias do corpo. Pequenas letras mutantes formadas com os cabelos da nuca repousando sob meu colo. Ponta das unhas escrevendo de forma simultânea na parte interna das tuas pernas para que não me esqueças — oh musa ensejante que se oferece à ponta de meus dedos trêmulos finos e medíocres mas com insistência apaixonada em tê-la aqui leve aguda e gratuita no peito confundindo-se com tristeza e paixão para que me sujes com tua tinta invisível de perfume ocluso espalhando-se sobre o papel inaugurando páginas escondendo-se sob minhas unhas aninhando-se sobre minha clavícula forçando carinhosamente meus braços mãos e dedos de amante exigindo amor num dia quente moroso e invisível no qual a cama torna-se movediça e os lençóis, pedra.
Conselho N° 10
Go for walks. Dance. Pull weeds. Do the dishes. Write about it.
Continuo o esforço com as caminhadas. Tanto as necessárias quanto as desnecessárias são úteis. As mais longas são as que vez ou outra faço do trabalho até em casa. Quase uma hora completa. E na melhor hora, início da noite. Preciso cruzar bairros e caminhar por ladeiras inteiras com músicas nos ouvidos até chegar a um planalto de quinze minutos para então experimentar uma inclinação quase imperceptível além da diminuição do esforço dos músculos guiando-me até minha porta. É um grande exercício de persistência, esse de não poupar tempo; pelo contrário: gostar de vê-lo passar em maior quantidade. Uma contrarte à correria que sente orgulho em poupar tempo para logo em seguida desperdiçar as economias não fazendo nada e ainda ficar cansado com isso.
*
Amo a organização. Porém confesso possuir imensa preguiça em limpar as coisas. Talvez pelo fato de ser um trabalho de formiga: Ao contrário das coisas arrumadas que poderão permanecer ali para sempre; no dia seguinte a poeira estará de volta lembrando a ordem irreversível da vida. Mesmo assim as exceções existem. As louças são as minhas. Gosto de lavá-las, enxugá-las, pô-las nas gavetas. Talvez por haver uma linha comum entre a organização e a limpeza: uma vez lá postas, nunca mais serão mexidas; ao menos até o próximo rompante de fome. Além disso, o ato de lavar louças pode ser um belo recipiente subjetivo para amenizar a tristeza ou a fúria: as mãos sendo enxugadas, os dedos engelhados sentido a realidade mais amena.
*
Quando a natureza exagera, puxo o mato da passarela do portão até a calçada. Senão a coisa se agarra às pernas, tenta me fazer não sair de casa e, quando desvencilhado a muito custo, saio pontuado por carrapichos e pequenos pedaços de matos nos cadarços. Por vezes existem perfumes remanescentes e as formigas sendo despejadas os gravam nas narinas ou antenas, não sei; e quando tu caminhas descalça elas te reconhecem e se afastam respeitosamente. Mesmo assim não impedem o mato e as folhas crescendo em silencio furioso: é preciso chamar um profissional desbastador de plantas. Puxar o mato: não sei ao certo se o sujeito servil, quase totalmente calado, possui tal hábito escuso por ser ilegal. Talvez sim. Talvez misture o mato a pó de cereja e pimenta e observe, de sua varanda mínima com sua única cadeira de macarrão solto, a natureza que combate para tirar sustento revelar subitamente um novo significado e cor.
*
Cheguei ao lugar logo após os primeiros minutos do dia das bruxas. Um galpão com pretensas réplicas de peixes-espadas e seus primos distantes fixados nas paredes. Sente-se certa culpa em julgar certo tipo de música como sendo de mal gosto quando percebe-se ser ela executada com certa paixão. Mas era. Dane-se: Era uma merda de música cafona e datada oscilando do deprimente ao ridículo sendo seguida por dançarinos exagerados a ponto de mostrarem as axilas. Mesmo assim dançamos. Mesmo eu sem um tostão no bolso e tendo que pedir cervejinha por cervejinha dos caras na cabeceira da mesa que ao final de tudo dividiriam a conta desigualmente. E a garçonete recolhendo meu copo depois de cada ida minha ao banheiro e, como consequência somatório, causar minirridículos espasmos de fúria por não poder controlar o tempo. Meu e dos outros. Um direito ao qual me reservo, mesmo sem saber dançar.
A Que Não Sabemos ao Certo
"Salvo alguns casos, como os daqueles citados moribundos de olhar penetrante que a enxergaram ao pé da cama com o aspecto clássico de um fantasma envolto em panos brancos ou, como a proust parece ter sucedido, na figura de uma mulher gorda vestida de preto, a morte é discreta, prefere que não se dê pela sua presença, especialmente se as circunstâncias a obrigam a sair à rua. Em geral crê-se que a morte, sendo, como gostam de afirmar alguns, a cara de uma moeda de que deus, de outro lado, é a cruz, será, como ele, por sua própria natureza, invisível. Não é bem assim. Somos testemunhas fidedignas de que a morte é um esqueleto embrulhado num lençol, mora numa sala fria em companhia de uma velha e ferrugenta gadanha que não responde a perguntas, rodeada de paredes caiadas ao longo das quais se arrumam, entre teias de aranha, umas quantas dúzias de ficheiros com grandes gavetões recheados de verbetes. Compreende-se portanto que a morte não queira aparecer às pessoas naquele preparo, em primeiro lugar por razões de estética pessoal, em segundo lugar para que os infelizes transeuntes não se finem de susto ao darem de frente com aquelas grandes órbitas vazias no virar de uma esquina. Em público, sim, a morte torna-se invisível, mas não em privado, como o puderam comprovar, no momento crítico, o escritor marcel proust e o moribundo de vista penetrante. Já o caso de deus é diferente. Por muito que se esforçasse nunca conseguiria tornar-se visível aos olhos humanos, e não é porque não fosse capaz, uma vez que a ele nada é impossível, é simplesmente porque não saberia que cara pôr para se apresentar aos seres que supõe ter criado, sendo o mais provável que não os reconhecesse, ou então, talvez ainda pior, que não o reconhecessem eles a ele. Há também quem diga que, para nós, é uma grande sorte que deus não queira aparecer-nos por aí, porque o pavor que temos da morte seria como uma brincadeira de crianças ao lado do susto que apanharíamos se tal acontecesse. Enfim, de deus e da morte não se têm contado senão histórias, e esta não é mais que uma delas."
(SARAMAGO, José. As Intermitências da Morte. 2005. São Paulo: Companhia das Letras. Pgs 145-146)
10.10.09
Portaluz
A luminária, ao lado, no criado-mudo, irradia uma falha intermitente. Apaga quase, volta forte e logo esmaece. Ilumina apenas metade do rosto; ora contém, ora absorve o escuro. Porta-luz. Semi. Quase inteira: assim te observo. E a expressão grave compenetrada do sono de respiração inconstante e parte do maxilar na palma de minha mão.
Acorda. A voz faz-se imperativa. Joga-se no banheiro. Batiza-se pro dia novo. Acorda, ele diz a si mesmo. Escolhe roupas. Cruzetas lembrando clavículas. Umas vazias, outras com pano sobre.
É esse o problema, marcos. As letras o atormentam. Você não vai as organizar sobre isso? Digamos assim, no sentido de narrar. Seria bom. E ele diz não ainda porque os rancores e as paixões possuem as estruturas verbais mais fortes. Desde o início funcionando como sequencias antepensadas. Estruturas para depois dos trinta.
Ainda existe muito papel a ser sujo com letras.
9.10.09
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