9.2.18

É OK Ficar Velho e Tocar Guitarra


Um entre tantos motivos que me fizeram querer e voltar a tocar guitarra novamente é o fato de você ficar velho e poder continuar a tocar guitarra de boa, sem enjoar, piorar ou se tornar ridículo por isso. 

Pelo contrário, guitarristas mais velhos (mesmo os medíocres) tem meio que uma aura de respeito. Se um cara (eu) decidir tocar guitarra aos quarenta, ao chegar aos cinquenta, já com seus cabelos brancos (se ainda tiver cabelos), quem não o conhece vai pensar que ele toca guitarra desde a adolescência. Até os meus sessenta anos dá pra aprender muita coisa. Serão mais de vinte anos até lá e, se vivo, espero estar aqui em casa (já quitada, acho) reforçando os licks e os riffs que memorizei ao longo dos anos. Até mesmo uns solos, quem sabe. Tenho preguiça de solar, mas as coisas mudam. Estou sendo otimista, o que é crucial para iniciar qualquer coisa na vida. 

A imagem deste post é a da guitarra que comprei e que ainda está viajando pelo Brasil graças a anti-celeridade dos Correios. Ao decidir comprar uma Epiphone SG Gothic, você também está decidindo tocar coisas cavernosas, tipo Black Sabbath, Ghost, e tudo o que tem riff tendendo ao grave, muito grave. Não dá pra imaginar alguém tocando qualquer outra coisa funky ou bonitinha com uma guitarra dessas, bicho.

Quando comprei a minha primeira guitarra (uma Ibanez modelo Stratocaster) lá no começo dos anos 2000, a internet ainda era algo meio complicado de ser acessado. Uma conexão banda larga, se disponível, custava uma fortuna, e encontrar tablaturas era bem complicado. Hoje, além disso não ser mais problema, também existe muita, mas muita coisa no YouTube para quem quer aprender a tocar guitarra. A grande dificuldade não é encontrar; e sim selecionar o que vai ser visto. 

Agora é sentar e esperar a SG chegar. Um dia lá para o final do mês eu passarei pela portaria e serei avisado que chegou uma encomenda. Aí a coisa (re)começa.


31.1.18

Quando Dá Certo


Encontrei o amplificador dos sonhos na única loja de instrumentos musicais em um shopping center. O lugar onde menos podia esperar encontrar um modelo Marshall incrivelmente melhor e mais barato que o modelo mais simples disponível online. Não irei explicar porque é tão difícil encontrar algo legal e em conta na loja onde comprei o amplificador. Também não direi o nome da loja. Mesmo offline, os Google ads nos observam.

Caso eu não tivesse arriscado entrar na lojinha escura e ser mal atendido, até o vendedor perceber que além do encordoamento para violão eu também decidira comprar um amplificador, eu teria que passar por aquela dúvida de mais de um mês, meio que preocupado se o produto vai chegar em casa do jeito que imaginamos.

Não sei se um amplificador antes da guitarra equivale ao carro à frente dos bois. Na verdade, não. Uma guitarra e um amplificador se completam. Os bois odeiam os carros e não precisam deles para nada. O meu (amplificador) está aqui, ainda em silêncio, esperando sua contraparte que ainda está viajando pelo país ou empilhada junto a tantas outras caixas de diferentes direções e formatos.

Às vezes fazemos bons negócios. Quando isso acontece, de tão calejado com coisas que não dão certo, eu suspeito da Providência.


24.1.18

Bloqueio


Algo frustrante que sempre me acontece em sonhos é o fato de nunca conseguir realizar uma compra. Já perdi a conta das situações e das frustrações de estar em um plano onde tudo pode ser comprado e mesmo assim saio de mãos vazias. Livrarias, bancas de revista, lojas de presente: o produto que procuro não está lá.

A última experiência, ocorrida há poucas horas, foi a de não conseguir comprar um amplificador. Contrariando a aleatoriedade das marcas-fantasia que sempre me aparecem em sonhos, desta vez encontrei dois amplificadores Marshall. Porém desta vez ocorreu algo ainda mais irritante aconteceu: eu buscava um atendente e ninguém aparecia. Uma situação bem parecida com a realidade, mas desta vez eu sabia que realmente não seria atendido.

O controle dos sonhos é delicado e confuso. Coisas mudam de forma e lugar. Eu saí da loja e encontrei outra ainda maior, mas esta, desafortunadamente, estava de portas fechadas. Voltei à loja inicial, dos amplificadores Marshall, e os mesmos não estavam mais lá – em seu lugar estavam caixas amplificadas coloridas.

Não efetuei compra alguma em dinheiro de sonhos. Não tive ao menos a calma e o controle de pegar um amplificador e simplesmente sair andando sem pagar ou, de forma mais dramática, voar na direção de casa.

20.1.18

Intermission: Pepper










Segunda


Ficar velho é sentir a inexistência do tempo. Um pensamento constante quando caminho é o de ver-me e ver a todos como o gato de Schrödinger. Vivos e mortos ao mesmo tempo; e quando não mais existir não existo e etecétera e isso é chato. Morrer é chato. Se era um estorvo vivo, morto pior ainda: precisamos carregá-lo com gente chorando ao redor.

Estranho ter começado um texto cuja motivação é a de escrever sobre quanto o meu segundo ano de férias em minha  casa foi produtivo e começar escrevendo sobre a baboseira lugar-comum que é a morte e o tempo. Irei ignorá-los em meus posts daqui pra frente. Vou inclusive criar um marco para que isso em frente não se repita:


F   R   E   N   T   E


Estar de férias me possibilitou bastante. Fiz de tudo não indo longe. Fiz reparos em casa. Passei no CPE com média A. Avancei nas séries Star Trek. Limpei a casa. Reparei a casa. Reprovei no teste prático de direção (devido a causas injustas). Li. Pesquisei. Aprendi a fazer feijão. Me reapaixonei pela guitarra. Comprei uma guitarra e já sei ao que me dedicar pelos próximos anos. O meu pequeno para sempre.

Fiquei muito, mas muito feliz nessas férias. A desmistificação do A no Exame de Cambridge teve ligação com a vontade de encarar novamente a guitarra. Já sei tocar. Aprendi sozinho, como quase tudo na vida. 

Curioso isso. Nunca fui aprendiz de ninguém. Aprendi as coisas por conta própria. Não que o mundo tenha me virado as costas e ninguém nunca tenha visto potencial algum em mim; eu simplesmente não fui alavancado por ninguém. Isso é estranho de se escrever. Por mais amor e confiança que eu tenha tido, as pessoas meio que me superestimaram erroneamente, achando que eu conseguiria as coisas naturalmente por ter inteligência e boa índole. Estavam enganados. 

Eu consegui, tenho conseguido e conseguirei mais coisas. Curiosamente, bem depois do que se espera de um indivíduo. As coisas conquistadas na minha vida resumem-se em três regras:

1. Acontecem porque eu quis que acontecessem

2. Acontecem sempre depois do tempo normal

3. Acontecem e permanecem

Isso serve para tudo o que aconteceu em minha vida a partir de ponto onde a minha decisão realmente serviu para que algo mudasse. Minha vida em si não é nada; eu sei. Li alguns livros sobre isso, o ser e o nada; mas é a única que tenho. E não reclamo. Há inúmeros fatos que me fazem não reclamar de tê-la e de ser. Ver alguém com a sua idade, ou mesmo menos, já no segundo casamento e no terceiro filho; ou aparentando ter dez ano a mais do que eu. Ver muita gente da minha idade que nunca leu um livro na vida.

Preciso exaurir um punhado de coisas para tornar-me melhor. Já livrei-me de algumas: Deus e religiosidade. Vontade de ser o melhor. Comentar sobre outros. Detestar a minha cidade com se a minha cidade fosse alguém.

Outras ainda não exauri. Ira que me faz quebrar objetos. Não ter uma carteira de motorista (conseguirei em breve). Ser intolerante com pessoas intolerantes. 

Então penso em construção. Penso na minha família. Não a família original, meio chata e desconexa, mesmo amada em silêncio. A minha família própria. Minha mulher, nossa gatinha. Temos ainda muito a viver aqui. E eu gosto da minha vida. Porque hoje é hoje. Estou saudável e bebericando enquanto as meninas, as minhas meninas, dormem protegidas.


6.1.18

Poeira


Nos dois últimos dias, tive a noção da complexidade que um pequeno reparo pode se tornar. Um serviço curto de revestimento de uma parede pequena e a substituição de menos de dez peças de cerâmica derivou-se em uma quantidade absurda de poeira que cobriu a casa inteira em porções mais ou menos invisíveis. 

Limpei a casa ao limite. Uma pré-limpeza, na verdade, para que a limpeza seja feita amanhã e, com a casa ainda não totalmente limpa, possa se passar à limpeza de fato; a que salta aos olhos e traz a aura de ambiente limpo. Por enquanto, ainda sinto uma finíssima camada de poeira no teclado de agora onde escrevo. Ou não ele, e sim meus dedos empoeirados. 


29.12.17

Os Seios que Salvam os Filmes Ruins







Decidi assistir Blind Date (1984) movido por dois desejos que não mais podem ser considerados tardios, e sim eternos: o de gostar de filmes que de tão ruins são interessantes, e o de gostar de seios. 

Explico. Sou de um tempo onde não escolhíamos os filmes - os filmes nos escolhiam - e seios eram difíceis de serem vistos. Na minha época, para olhar um par de seios anônimos ou famosos você precisava ter idade e coragem suficientes para ir a uma banca de revistas ou aguardar sessões pós-meia noite na televisão para observar, inocentemente boquiaberto, seios anônimos ou famosos. 

Em contrapartida, durante os anos 80, 90 e comecinho dos 2000, nunca tantas modelos e atrizes famosas toparam participar de ensaios fotográficos. Movidas pelo clamor silencioso do público masculino, as editoras não mediam esforços para chamar patrocinadores e bancar ensaios caríssimos que brevemente pagavam os investimento ao vender milhões de cópias. Era um acordo entre damas e cavalheiros.

Até a internet e os escâneres chegarem com tudo e acabarem com a exclusividade e o charme das revistas, tornando-as peças de colecionador. Hoje ainda possuo uma pequena coleção de clássicos, aceitos pela esposa, e discretamente visíveis na prateleira mais alta de minha modesta biblioteca.

O grande mérito de tais décadas passadas foi o fato de todas as famosas nuas estarem ali por seu próprio consentimento. Um ato voluntário, pensado, negociado e legalizado. Ao contrário das fotos infames hackeadas e vazadas de forma covarde das quais as celebridades modernas vez ou outra tornam-se vítimas. 

Voltando ao filme ruim que em português recebeu o título de 'Visão Fatal'. Tudo nele é ridículo e anacrônico. 

É a história de um sujeito babaca que anda de walkman pra cima e pra baixo e joga videogame usando seis televisões de tubo. O cara é babaca a ponto de namorar a Kirstie Alley e ainda assim seguir uma modelo que parece sua com a sua ex-namorada. Em uma ocasião ele é descoberto, literalmente, atrás da moita observando a modelo. Ele corre desesperado pela floresta e dá de cara com um tronco, o que o faz perder a visão. 

Após se oferecer como cobaia para um experimento ultra-tecnológico, ele consegue desenvolver uma visão sonar 8 bits interligada ao seu walkman que o torna apto não somente a locomover-se como um Daredevil movido à pilha, mas a investigar e perseguir um serial killer que anda pelas ruas de Atenas matando moças sem saber que uma delas era a Marina Sirtis. 

Falando nela (o grande motivo de eu ter decidido assistir a tal filme ruim) posso dizer que nem tudo no filme é ridículo e anacrônico. As mulheres, famosas ou não, então utilizadas apenas como chamariz (palavra velha, sei) são hoje o que o torna digno de ser visto. 

A história, a trilha e os argumentos risíveis o desintegraram. A beleza de Kirstie Alley e, principalmente, a primeira aparição de Marina Sirtis em uma cena curta e absurda onde ela nem parece ela mesma, é o que mantém os torrents de Blind Date ativos até hoje.



27.12.17

A tarde aguardada por todo um ano




Ano passado, em um tarde nublada como esta, estava aqui em casa assistindo Entrerprise, na razão de uma cerveja e meia por episódio. Assistia no celular episódios baixados para serem assistidos offline porque não tínhamos internet permeando a casa. Naquela tarde conforto crescente fez com que eu tivesse o embraçamento do lugar. Minha casa. O meu lugar aguardado por tanto tempo. 

O ano passou e com ele as suas turbulências. Ao contrário de Star Trek, elas não foram resolvidas em menos de cinco minutos. Algumas, porém, resolvidas nos cinco minutos finais. Minha casa melhorou e continuará melhorando; e como o membro anônimo do crew que, mesmo vestindo vermelho, consegue escapar por um ano difícil, e ao mesmo tempo como o capitão que, ao final do episódio, senta em sua cadeira e sorri internamente, sabendo que os créditos pós-edição passarão à sua frente, eu observo o final do dia, quarta-feira, após uma breve pausa entre episódios para escrever este post.

26.12.17

O Dia do Nada

Sempre falo para os meus alunos sobre uma reunião de seres malignos ocorrida há muitos e muitos milênios. Em tal reunião definiu-se que, mesmo sem qualquer motivo realmente necessário, todos os seres humanos seriam forçados a acordar cedo, mesmo contra a sua vontade. 

Falo em tom de brincadeira, porém excetuando-se a fábula de forças malignas, tal convenção de que devemos acordar cedo para sermos mais produtivos não faz o menor sentido quando é fato que a imensa maioria das pessoas detesta acordar cedo e só vai produzir algo realmente consistente após uma, duas ou várias horas se passarem; quando não raro passam todo um dia sem fazer nada de realmente produtivo porque não dormiram na noite anterior. Vivem um dia de dor que poderia ter sido evitado.

Penso que o ideal seria existir um programa de catalogação para pessoas que acordam cedo espontaneamente. Elas, e apenas elas teriam a permissão de trabalharem de manhã cedo. O horário de trabalho das demais também obedeceria ao relógio biológico. Os despertantes matinais, vespertinos, e mesmo os notívagos trabalhariam quando estivessem no seu horário desperto. 

Uma segunda decisão, mais radical, seria a de proibir qualquer atividade antes das nove horas da manhã seguida de uma terceira, que proibiria o funcionamento de lojas e serviços não fundamentais em horários inadequados. Exemplo: uma loja de brinquedos não funcionaria às oito da manhã de uma quarta-feira pelo simples fato de não ser de menor urgência alguém comprar um brinquedo em tal horário. Mas digresso em um texto sem postulados.

Hoje, dia de natal, fiquei feliz também pelo fato de ser segunda-feira e praticamente tudo na cidade estar fechado. O nome Jesus ainda consegue fazer certos milagres. Voltamos para casa durante o horário de almoço. Não vimos o trânsito lento e irritante de costume. Vimos sim uns tantos mas poucos carros transitando porque, assim como em nosso caso, era realmente necessário locomover-se, sair ou voltar para casa. 

O comércio parou. Todos ficaram em casa, encolhidos por causa da chuva. Em uma realidade senão ideal, bem melhor que a nossa, ninguém trabalharia na segunda-feira. A segunda-feira serviria para descansar do domingo, ficar em casa, sem fazer esforço. Seria o dia do nada.


21.12.17

Filmes Pretensiosos




Todo filme é, via de regra, pretensioso. Seu objetivo é o de levar o maior número possível de pessoas ao cinema, ou acumular a maior porcentagem de críticas positivas ou, fato ideal, aliar os dois e ainda conseguir se incluir no panteão dos grandes filmes. Movidos por esse desejo, vários diretores e roteiristas usaram de toda a sua criatividade e ação para conseguir tal feito. A consequência de tal ambição é que, infelizmente, eles quase sempre deixam a pretensão guiá-los e erram na mão, criando um resultado desagradável. Existem inúmeros exemplos de tal falta de sucesso, sendo o mais recente o filme Mother!, escrito e dirigido por Darren Aronofsky.

Partindo da estrutura clássica dos filme de suspense, mais especificamente os de Roman Polanski, acompanhamos por horas câmeras em plano fechado no rosto de Jennifer Lawrence enquanto a mesma presencia comportamentos estranhos tanto por parte do marido quanto por um casal de visitantes que insiste em se tornar parte do convívio do casal e visivelmente possuem uma cumplicidade incômoda que torna o mistério mais e mais crescente. Fantasmas? Paranóia? Conspiração satânica para sacrificá-la? Nenhum dos motos são a justificativa; e é apenas neste momento que o filme mostra certa originalidade. O espectador mais atento ou dado a interpretações literárias logo percebe que o filme é uma grande alegoria sobre a criação artística. 

A mãe é a musa do escritor/poeta e toda a tensão se dá pelo fato do mesmo não consegui criar algo novo. Quando ela decide engravidar, o processo de criação se desencadeia, a obra se concretiza. O livro é impresso e o escritor claramente sente mais orgulho dele do que da criança prestes a nascer. Não demora muito até a sua casa ser invadida pelo público: gente anônima e de todo tipo, que não se importa em saber como a obra foi criada, e sim em consumi-la em causa própria. Envolvo pelo público e pela vaidade, o escritor esquece de sua musa, a abandona, não precisa mais dela. A beleza da arte é consumida. 

O grande problema do filme é que esta última parte da alegoria é mostrada de forma muito, mas muito violenta. Um vilipêndio gratuito que tem como mera explicação chocar visualmente o público. Tudo poderia ser narrado de forma mais curta, menos violenta. Sem tanta pretensão. A musa, mãe ou outro paralelo que o valha, se deixa morrer, e ainda pede que o escritor retire o seu coração para que, assim, ainda seja apto a dar vida a outra musa e assim continuar criando. A casa queimada, exaurida pelo fim da primeira obra e invasão antropofágica do público, se recompõe e outra musa desperta. 

A história funcionaria bem em um romance seguindo o estilo de Homem Lento ou Desejo e Reparação, onde a narrativa se rompe de súbito e nos damos conta de que a realidade na qual envolvemo-nos era na verdade outra. Em forma de filme, a alegoria de Mother!, além de consumir milhões e, mais gravemente, beleza, talento e juventude de Jennifer Lawrence, falhou.



O Desodorante


Estava em casa, aguardando a hora do encontro. A hora marcada era às cinco e o relógio ainda marcava duas e meia. Não havia nada que pudesse ser feito a respeito. O problema é que tomara banho muito cedo, em torno das dez da manhã e, sob o calor desde então, começou a suspeitar que o desodorante não estava fazendo o efeito desejado. Após o banho, constatou que o desodorante estava no fim, no estágio em que não sabemos se o que sai é líquido desodorante ou apenas o resto do gás comprimido. Se eu sair para comprar desodorante, vou precisar trocar de roupa e andar por mais dez minutos sob  o sol assassino das três da tarde, se eu ficar em casa, o desodorante (ou quase desodorante) que tenho sob o corpo pode vencer de vez e todo o disfarce da minha condição inerente de bicho irá por água abaixo porque começarei a cheirar da forma que cheiro realmente. É preciso correr, pensou. É sensato não se brincar com a animalidade. Dobrou as roupas cuidadosamente e, com passos apressados, foi até a drogaria a dez minutos de casa. 

O Dono do Edifício


É comum observar edifícios sendo construídos. É incomum, porém, realizar como uma única pessoa ou um grupo de pessoas foi capaz de pensar e concretizar tal ideia. Imagino a satisfação do dono do edifício. Para observá-lo apropriadamente, é necessário que ele (ou ela, ou eles) entre e suba em outro edifício algumas quadras adiante, para que só então tenha uma noção mais exata do tamanho do edifício, seu agora. Seria como possuir um elefante, caso se gostasse de elefante, apenas sendo esse um elefante inorgânico, cheio de tubos por onde correm fios e água vinda de fora, uma caixa que emana luz e também despeja dejetos. O dono do edifício tem consciência disso. E enquanto circula pelos corredores, toca levemente as paredes. Os construtores, elfos humanos silenciosos e anônimos, já foram pagos e agora constroem outro edifício. Isso tudo é meu, ele pensa, enquanto um carteiro apressado e esbarra nele sem pedir desculpas. 

Andando por Entre Roupas


Os breves momentos de confusão mental ao despertar, sem saber qual a hora exata, ou o mesmo o dia, a acomete tanto quanto a todos os seres vivos. O despertar da planta, se se dá ou não, não é o mais importante. O seu trabalho humano é atender a uma loja de roupas para todas as idades, exceto a terceira, idade onde ou você costura as suas próprias roupas ou tem que adaptar roupas de faixas etárias inferiores a sua. Recebe brevemente as diretrizes do dia, sempre as mesmas, convencer pessoas a incluírem mais um cartão em sua carteira cheia de papéis que não são moeda. O time dá as mãos e solta um breve grito motivacional. O dia começa às nove da manhã e terminará às dez da noite. Durante este período ela caminhará entre roupas, organizando-as, ajudando pessoas que não tem consciência do tamanho do próprio corpo. Em cada corredor curto e simples, de paredes baixas compostas por roupas em cruzetas, ela pensará em como sairá deste lugar. Por hora, encanta-se com um novo modelo de saia. Pede a colega do caixa que a separe.

As Mandíbulas


Você tenta contê-las de forma a usar a força mas não causar trauma. Ela porém as abre e dá um grito raivoso, abafado, contido. Tuas mãos tremem porque não sabem como agir com algo selvagem sem usar a força. O canto dos lábios prestes a romper-se, e lá de dentro algo, bicho, se insinuando. Você sente as mandíbulas tornarem-se fortes a ponto de rasgar quem tu és. Algo te observa lá de dentro enquanto a mulher cessa os gritos para respirar, recompor-se. Sua caixa torácica se comprime e se expande,  a temperatura do quarto se altera, esfria. Todos os barulhos cessam e de dentro dela sai uma cadela, farejando todo o quarto - a mim - e abandonando a pele de antes. Seu hálito próximo é o mesmo.

As Bordas


Atualmente trabalho em postulados sobre a minha Teoria Geral das Bordas e Típicos Contratos Sociogeográficos que as Tornaram ou Tornarão  Bordas. Até onde avançar a mão ou o discurso ou, caso ainda mais delicado, apesar do mais macroscópico, avançar sobre a borda de um país. É difícil postular equações sem um zero fixo: por exemplo, o beijo no canto dos lábios, se acidental ou calculado e os efeitos motores e consequentes do mesmo. A entonação da voz também é um problema. O que a bordeia como anódina ou um grito de desespero? Durmo tão tarde a ponto de ser cedo ou acordo tão cedo por curtos minutos e começo a dormir: acordei muito, mas muito cedo e decidi dormir mais um pouco. O abraço, sua duração e abertura dentro do abraço caso um dos abraçados possua seios e o outro não e o primeiro indivíduo decide voluntaria ou arbitrariamente que o volume dos seios possa ser sentido de forma breve, semi-crassa pelo outro não pode ser expresso em gráficos, ainda.

A Anti-Lótus


Enquanto todos se preparam para dormir ou para ler um livro nem tão bom assim ou para trepar ou beber o primeiro café, nossa gata apenas se larga, como que arrebatada pelo deus do sono. Ela dorme entre espaços mínimos tão bem quanto quando tem permissão para dormir em nossa cama de casal. Não importa se o som é de um telejornal horroroso ou Coltrane; o dormir e acordar tão simples e tão rápido dos gatos, sem frescura de lugar ou tempo, é fato de uma paz de espírito e elevação física que jamais teremos. Seus planos? Ficar em casa pelos próximos treze ou quinze anos e depois não mais ser gato. Chega. 

20.12.17

O Prêmio


Todos a observaram ganhar o prêmio. Um reconhecimento e um envelope cujo conteúdo era desconhecido tanto para a audiência quanto para o premiado. O que é estranho. Você ganha um prêmio por algo e o prêmio, o teor recompensa, é incógnito. "Quero agradecer a K.". Não dá para abrir o prêmio de imediato. As pessoas mais próximas o cumprimentam efusivamente, outras simplesmente desviam o olhar. O ambiente corporativo, mesmo nas mais diminutas corporações, é segregativamente silencioso, todas as castas sendo definidas através de olhares e cumprimentos. Uma novela mexico-liliputiana. O conteúdo do envelope? Um cartão impresso com votos de felicidades e elogios.

Paulistanos Gritam Relacionamentos


Na praça de alimentação dos shoppings, nas ruas, sentados em lugares públicos e em bares, como todas as pessoas, em frestas e lugares sem gravidade, em todos os lugares, os paulistanos gritam sobre os seus relacionamentos. É como um compartilhamento indesejado automático de um contato em uma rede social. Você não quer ler, não quer ver, mas está lá. Todos os depoimentos lançados no ar anônimo levemente poluído de São Paulo tendem para a infelicidade. São problemáticos sem exceção. Os paulistas e paulistanos parecem não se importar com a altura da voz e a quantidade de pessoas ouvindo suas desventuras amorosas (cujo desenlace será solitário e acima do peso, em um apartamento com vinte anos restantes para quitação e infelizmente desvalorizado porque dentro deste imóvel foi encontrado um corpo já em estado avançado de decomposição) pelo fato de as pessoas não se olharem nos olhos ou, mesmo que se olhassem, possivelmente não se esbarrarão novamente pelos próximos três anos.

–– Intermission: Amarna



O Bolo


Você sabe que está tentando emular certo aspecto da criação. Reunir ingredientes conhecidos e cuja dosagem é proporcionalmente determinada e o tempo de cada parte no processo. Apenas siga a receita, mas não. Não é assim que funciona. Existe o incerto durante todo o processo. A qualidade do material, a temperatura ambiente. É comum ouvir alguém dizendo ter seguido a receita detalhadamente e, no final de tudo, o bolo não ter dado certo. Culpa do forno ou de um ovo que não se dissolveu como o esperado porque, por dentro, estava corrompido ou, simplesmente, o fermento. Bolo como gente.