29.12.07

A Rainha da Feira Úmida


É concunhada, a denominação parentesca de laço sanguíneo inexistente. Palavra feia, concunhada. Parece que foi cunhada com a ajuda do cunhado, irmão da irmã que por sua vez é a minha namorada.

Enfim, eu e minha concunhada fomos a uma anti-feira. Me explico. Era sábado, dia sem feira no sobrenome, era tarde, chovia bastante e fomos comprar pastéis e qualquer outra guloseima que se enquadrasse no orçamento modesto. Os que ficaram em casa tinha fome e, quando se é assim, se sai na chuva. O vidro subindo e descendo, tentando impedir a água de entrar no carro.

A feira estava quase toda coberta por lonas azuis. O chão encharcado, e a água caindo em pequenas cachoeiras nos cantos das lonas. Mesmo assim os feirantes ignoravam a tudo, conversavam em voz alta, ofereciam os produtos de sempre acrescidos de um ou outro elemento moderno: filmes piratas, cds piratas e jogos de vídeo-game. Descobri que o Guitar Hero III já estava no mercado, sendo vendido bem ao lado da banca de pamonha.

Acomodamo-nos sob a lona azul da banca de pastel paulista. Pedimos os nossos in loco enquanto o rapazinho velho preparava os outros para viagem. Senti uma vontade mórbida de beber caldo de cana, mas logo vi que não seria possível: ao invés do parceiro líquido, até então inseparável, os pastéis só eram servidos com refrigerante. Havia caldo de cana só do outro lado, o vendedor informou com uma expressão gentil de se quiser que vá lá buscar.

Então apareceu uma espécie de rainha proporcional àquela feira de sábado. Imensa, um metro e setenta, com uma criança e uma mulher menor, pajem, segurando o seu guarda-chuva. Houve uma tensão silenciosa entre o chefe e o funcionário quando a mulher chegou na barraca de pastel paulista e sentou em uma das mini-cadeiras de plástico. O funcionário foi servi-la com um sorriso.

A mulher tentava exprimir superioridade e sensualidade enquanto decidia entre queijo e presunto. Terminou ficando com o misto, e fez o atendente buscar outro porque não gostava de pastel muito frito. O seu rosto tinha espinhas e havia óleo empastando os seus cabelos pretos. Cruzou e descruzou as pernas brancas e toda a feira percebeu a sua calcinha vermelho sangue.

Mais ainda um feirante que, furiosamente e em passo rápido, súdito baixinho, cruzou as pequenas circulações encharcadas e, com um copo de caldo de cana na mão, prestou uma reverência à mulher de perna semi-abertas, com pequenas porções de cascalho não muito fritos sobre os peitos fartos e flácidos mal contidos pelo top escuro.

Servil ao ver o branco, o úmido e o vermelho rescendendo a poucos centímetros do rosto, o feirante voltou satisfeito.

26.12.07

Véspera


Recebi uma mensagem natalina pelo correio eletrônico interno que era um misto de cristianismo ocidental modificado por milênios com as três últimas versões do sistema operacional windows. Algo como: Formate os seus rancores e brigas! Faça uma limpeza na lixeira da sua consciência e empregue Jesus como o seu sistema operacional! Jesus não trava, não falha e não te deixa na mão!

Finalmente transformaram Jesus em Neo, pensei. E, após ler a mensagem cyberevangelizadora, observei se o cursor se movimentaria sozinho ou se apareceria um chat divino (através do Gtalk, lógico) me oferecendo conselhos certeiros — como naquele Animatrix do garoto —, mas nada aconteceu. Talvez na próxima versão.

Minha mãe fez questão de montar a sua própria ceia natalina para confraternizar com a família e um casal de irmãos. A irmã deixou para vir no dia seguinte, o dia de Natal propriamente dito e, à véspera, noite, apenas o irmão veio com a família. Todos muito agradáveis com exceção do vínculo principal, o tal do meu tio: mal-humorado e ressaqueado, não deu uma palavra durante toda a noite.

Perto da meia-noite faltou energia. Apenas algumas casas permaneceram iluminadas — talvez as mais crentes, pensei — e minha mãe e minha irmã ficavam contabilizando qual casa estava no escuro e qual casa não estava no escuro. A nossa ficou metade no claro e metade no escuro e o fato de o meu ventilador continuar funcionando a meio-motor deu-me certa paz de espírito.

Tal contabilidade inútil (olha aquela ali, apenas o pisca-pisca continuou aceso e nem pisca mais) continuou até bem perto da meia-noite exata, quando foguetes coloridos relembraram o nascimento de Cristo. Olha eu aqui! Olha eu aqui! O cristo dos homens explodindo no céu. Todos se abraçaram meio sem jeito: feliz natal, tudo de bom pra ti.

A lua alta, luz azul, infalível, perdeu a importância quando voltou a energia elétrica. Graças a Deus. Todos fecharam as portas e foram dormir.

14.12.07

Olarias


Do outro lado do rio existem olarias. E nas olarias existem crianças que não sabem muito bem o que está acontecendo ou porque precisam estar ali além do trabalho que é finalidade da existência: comida, algum pano sobre a pele. Também sem entender muito, ato contínuo mecânico, as mãos sem muito tamanho separam porções definidas de barro em quantidades amorfas que, imprensadas em grandes formas, são direcionadas às fornalhas. Lá dentro, fechada a boca flamejante, são produzidos tijolos.

Talvez tenha sido moldada a partir do barro, a primeira criança de todas. Por um único homem, invisível, super, que ordenou a crianças invisíveis para que cada uma moldasse uma parte até que, por fim, toda a nova escultura grotesca — barro mal cheiroso, ornado com pêlos e preenchido por ossos — fosse levada ao forno por um tempo imensurável até que ficasse pronta e fosse abandonada no centro geográfico do mundo.

Além dela havia outras, cada uma em um marco proporcional a partir do centro, onde a primeira criatura moldada se resfriava, esturricada, sem entender bem qual seria a sua função dali para frente.

Elas se reproduzirão: O homem invisível — explorador de crianças com mãozinhas sujas de barro e cabelos e sobrancelhas esturricadas pela proximidade que tiveram com o forno — pensou. Ele não entendeu muito bem a razão de ter produzido tais criaturas quebráveis, com vários orifícios.

Alguns jovens se admiram com o argumento fantástico do jogo de representação de personagens que narra uma terra dos mortos — Aparição — onde, quando susceptíveis e dominados, os espíritos são transformados em tijolos ou em moedas.

Os jovens mal sabem que todos os tijolos ao redor vieram de uma olaria do outro lado do rio onde dois ou três jovens morreram ano passado, consumidos pelo trabalho e pela fumaça. Mal sabem, também, que a terceira fileira de tijolos antes do parapeito da varanda foi assentada por um homem que virou moeda:

Pedro, sem qualquer experiência em construção civil, foi trabalhar ainda bêbado e, exatamente naquele ponto bem ali, parapeito da varanda, onde se atrelam os pisca-pisca na umidade natalina manauara, perdeu o equilíbrio e o seu corpo se misturou ao solo vinte metros abaixo.

...Sucumbiu, e após ver o barro se aproximando furiosamente, virou muitas moedas simbólicas em uma conta-poupança que a empresa mui gentilmente ofereceu à família chorosa.

Pedro foi recebido por vinte e cinco crianças — semelhantes às que moldaram o corpo da primeira criança, semelhantes às nossas que moldam tijolos — e conduzido novamente para a sua forma original, sem entender muito bem o que estava acontecendo.

12.12.07

A Ciência Mágica das Fotografias


Abstenho-me da fé no desconhecido e a perturbo repetindo sentenças dawkinianas com sotaque britânico fajuto: the absence of reason... the dangerous process of non-thinking called faith.

A ausência de crença no curso acadêmico é bem menos divertida do que uma aliteração despretensiosa. Ao redor, os crentes e a sua iliteratura. Tudo fica chato, liso e creme como o piso elevado que amplia os ruídos. A professora passa então a soar com fonética incompreensível e tudo fica demasiadamente chato.

Então secretamente recorro à sua fotografia três por quatro e todo o meu universo interno se enche de ternura. Você posando anos antes, expressão séria, e então as suas pequenas gêmeas passaram por uma sala escura e depois chegaram a você e você deu uma delas a mim e agora eu a observo — você — e todo o meu universo interno se enche de ternura.

Sua correspondente real, não imaginária; mas de imaginário tão presente, impregnada da melhor forma possível em todos os meus lampejos longos e curtos de mentalidade e sentimento ou os dois.

Não necessito de fé no desconhecido quando tenho presa à palma um exemplar da ciência mágica das fotografias: Real, mas tão real, que chega a ser mágica. Uma ciência que todo mundo sabe mais ou menos como funciona mas, a exemplo do avião e do arco-íris, não sabe explicar direito e não se importa: melhor é viver a mágica; não explica-la.

Mesmo não sendo a última, eu guardo a gemeazinha séria esboçando sorriso com a mesma certeza com a qual guardo as outras em situações diferentes. Minhas.

Minha, a origem delas à qual pertenço.

6.12.07

A Coruja Lilás


Pousou uma coruja lilás na frente do auditório onde acontecia a última noite da Semana de Letras.

Asas de papel coladas na parede, abertas. Cabeça de isopor e patinhas de isopor: possuía jeito de má, a coruja. Aspecto agravado pela luz estrobosfópica e uma sonoplastia repetitiva do que seria uma possível voz de coruja: aquela língua seca que é mistério até para a Lingüística mais avançada dos bichos.

O aspecto final ficou semelhante a um fabuloso personagem de um trem fantasma do mundo das larvas; ou um instrumento de tortura para epilépticos e pessoas que porventura possuíssem fobia de corujas. Certamente devia haver alguém por lá e esse alguém passou baixo e teve pesadelos, talvez desistiu do curso. Existe fobia para tudo.

A coruja, dizem, é o símbolo do curso. Talvez porque nos livros infantis vez ou outra é desenhada com um par de óculos, um livro e um chapéu de formando. Pela expressão séria, Edwiges, presume-se que a coruja analfabeta saiba das coisas, ler até, quiçá discutir literatura contemporânea. Até então, eu pensava que a ave fosse mascote apenas da Filosofia. Aumentaram-na? Dividiram-na? Rebaixaram-na?

Cri, cri, cri... O barulho saindo do rádio escondido. A coruja impermeável: isopor pintado, olhos luminosos, verdeamarelos. Não desamarrava a cara de forma alguma. Ameaçadora. Vez ou outra, efeito especial, também soltava uma névoa de gelo seco para dar mais dramaticidade ao número fixo. Cheiro de baunilha queimada, a névoa da coruja de quase quinhentos reais.

Um aluno tomou conta da coruja, e da fumaça e dos barulhos. Dedicação louvável. Eu jamais tomaria conta de uma coruja daquelas — Na verdade jamais tomaria conta de coruja alguma, isopor ou carne, nem valendo ponto. O aluno fez uma espécie de guarda, sentinela à coruja. Impassível, não se abalou com as reclamações e com as piadinhas sobre a ave ridícula pregada na parede.

Dentro do auditório, assistíamos a uma palestra informal. Certamente um dos dez melhores poetas vivos do país, ou um dos cinco. Nos momentos de silêncio, a discoteca intermitente de som de coruja nos fazia lembrar do ridículo: cri, cri,cri. Semana de Letras: Uma Homenagem a Ed Wood e Clóvis Bornay.

Realmente não entendi a falta de autocrítica e senso estético das pessoas que elogiaram a coruja. Ao invés de assumir a feiúra do bicho de isopor, divertirem-se com ela, alguns alunos gostaram, acharam "diferente", até mesmo se revestiram de um estranho senso de dignidade pelo trabalho cumprido.

Uma perguntou se eu gostei: eu disse que não e ela não gostou da resposta, quase me chamou de feio. Não entendi a contrariedade. A obra não era deles, não era do aluno dedicado: e sim de um artista charlatão explorador de alunos de Letras, escultor desconhecido de corujas ridículas, proscrito de Parintins, farsante.

A mãe coruja não percebe quão feios são os filhotes: Isso foi o que me incomodou realmente. A coruja é feia: paciência. O escultor que usa os dentes ao invés das mãos superfaturou a coruja: acontece, raça humana. A coruja é linda e eu gostei dela, gostei da luz estrobosfópica, do cri cri cri e da fumaça de baunilha: incompreensível.

A relação de cegueira estética é mútua: os filhotinhos feios também acham a mãe coruja bonita — Eis um problema. O mundo lá fora é avesso a corujas lilases — Outro.

A palestra termina. O poeta e a coordenadora do curso, como que hipnotizados pela luz estrobosfópica, posam sob a coruja: os olhos apertados, mal conseguindo enxergar a câmera. Cri, cri, cri... o poeta tem nas mãos um diploma desproporcional de amigo do curso. Um dos dez melhores poetas, ou um dos cinco. A cabeça privilegiada bem perto das patinhas da coruja. Ele sai pelo portão lateral. A coruja fica.

A esta altura, já temia que a criatura de isopor se transformasse em um semi-ídolo. Todos se submetendo à nova arte, feia e farsante: Alunos decorando apostilas sob os pés da coruja, os olhos verdeamarelos luminosos os ligando à grande rede dos resumos prontos, dos macetes para entender os clássicos; Sentados ao redor da coruja, em posição de lótus mal feita, incenso de almíscar, lendo livros do Augusto Cury e organizando os fichários com datas de provas e números de faltas. Estou por um fio em Literatura: me ajuda, mãe coruja!

Por sorte, a coruja se foi na mesma madrugada. Após a meia-noite, o escultor cheio de isopor entre os dentes mostrou as axilas e disse: Filha eu te liberto! Voa! E dentro de cada um do seu par de bolsos havia duzentos e cinqüenta reais, quase. A coruja voou para o reino da cafonice e dobrou as asas, repousou a cabeça que não sente mormaço ou gelado e dormiu. O escultor calhorda voltou para casa de táxi.

Na semana seguinte, a ordinariedade, com os seus elementos vazados e o seu chão creme se revelou positiva: sou sem graça mas sou normal, sã e limpinha, não incomodo com chiados, fumaças e luzes.

Retiraram o bode da sala... Quer dizer, a coruja. Melhor assim.



30.11.07

No Automático


Lembro daquele filme do Adam Sandler — Click —, bobo como todos os outros mas que, entre os lugares-comuns e a ficção nonsense, traz o fato incômodo de que, na maioria do tempo, funcionamos no piloto-automático.



Após o trabalho, me ocorre um processo gradual de afastamento. Primeiro o corpo, leve sem o uniforme; Depois o pensamento, quando a cidade começa a correr pelas laterais do vidro ou desencadeio o fluxo da leitura de um livro. Só então me sinto realmente desperto.

Fora do olhar fixo na tela, começo a observar coisas móveis: A inscrição infame sobre o painel do ônibus: “world trade center — aqui só entra avião”; O caderno de uma moça ao lado onde está escrito em letra redonda: Arcadismo em Portugal — título grifado com caneta rosa — e imagino o quão terrível seria uma versão guei do arcadismo: Padre José Agostinho de Macedo versando com um colar de plumas ao redor do pescoço; Bocage compondo obscenidades homo absurdamente legais. Desço.

Enquanto faço a minha conexão de ônibus, sem túneis, painéis ou ares refrigerados, vejo dois carros batidos logo abaixo do sinal: uma mulher (picape maior) e um homem (picape menor) discutem. Nestas horas vejo o lado bom de possuir um ritmo moroso de subidas de degraus e aquisições: ao invés de estar ouvindo Sky Blue Sky e passeando livre de volta pra casa, poderia ser eu ali, sob o mesmo sol, com um carro exagerado amassado, com quilos a mais e cabelos a menos e, pior, com menos idade, como o cara (picape menor) que estava claramente errado dentro da estrutura estúpida do acidente.

Esse lance de picape sempre me lembra a primeira musica do álbum novo da M.I.A. que canta a cena de pessoas famintas batendo nos vidros de uma Hummer e arrastando sacos como se fossem hienas. Manaus aos poucos está se transformando nisso, nesse Simba Safari ridículo. Comparação interessante, a da letra. Não é à toa que me sinto realmente atraído pela M.I.A. Desço.

Marco alguns minutos caminhando sob o sol, realmente empolgado com a música que me entra pelos ouvidos e, quando finalmente chego em casa — banho —, retiro o relógio e percebo que ganhei uma pulseira branca para a Festa do Sol.

25.11.07

Símile



















O meu corpo recém-nascido, engastado e negro, junto ao teu ventre de formiga. Presa, tu a mim. Sinto tuas entranhas, tuas centenas de braços e pernas. Porções generosas de amora em grandes pedaços, líquido doce entre os dentes, escorrendo pelos cantos da boca. Natureza imensa e fértil em sua forma mínima. Fertilidade entre as falanges. A tua boca espeta-me a pele, lembro.

O teu passo era lento e carregavas um sol na boca. E a tua pele era terra úmida onde eu afundava os dedos e as tuas órbitas eram verdes e o teu sorriso era simétrico. O sol decadente criava sombras em teu vestido branco quando caminhaste no sentido oposto. Tentei prender-te ao meu amor de vidro translúcido e não consegui. Fugistes antes.

Quando te vi presa a um braço estranho pressenti teu velório: morta de velhice, a mulher mais velha do mundo. Havia repórteres e os teus setenta e dois descendentes idênticos estavam ao redor do túmulo.

Um holocausto, mostrava a foto. Corpinhos negros irreconhecíveis: Quando li as letras imensas do jornal preto-e-branco, subiu-me um engulho inevitável de constatação de tragédia comum. Minha boca cerrada e fria, hálito de geladeira vazia; há muito sem pronunciar ofensas mínimas que flagelavam formigas.

A potencialidade morta junto a um saudosismo pacífico. O tempo é não-coisa estranha. Lembro do tamanho de cada folha abandonada no chão quando olhei a notícia. O sentimento de outrora repetido agora. O cabeçalho do papel-jornal de agora idêntico à imagem de antes. O tempo acumulado dentro do meu corpo exausto pelo trabalho. Negro e envolto por ossos minúsculos, eu e o tempo.

Você não mais existe; mas ao meu redor transitam criaturas idênticas com a tua mesma formação de pelos, com o teu exatoesqueleto. Ainda pouco vi uma de você e senti trinta insetos ainda menores que eu andando pelas minhas pernas. A criatura símile, exatamente como tu fazias, pediu minha ajuda para coçar as suas costas em uma região inalcançável pelas suas dezenas de braços.

Monossilábico, trêmulo. Nessas horas unir frases dá trabalho. Claro, porque não, e tudo aquilo na frente dos outros. Era você alguns anos antes, o que não caracterizava traição. Substância desconhecida expelida pela imitação de um sentimento de outrora. Dislalia em uníssono. Frases fora de forma. Lábios secos, garganta a dentro. Frases tremonossilábicas. A minha linguagem que só se desenvolveria dali a milhares de anos. Garganta seca proclamando frases diminutas sem nexo através de antenas que nos separavam um do outro tarde da noite. Um olhar mais atento perceberia meu rastro inconstante até o sítio desconhecido onde a símile pela primeira vez me mostrou as suas particularidades.

O seu corpo sem ossos em posição de cópula sobre o lugar onde durmo. Acordei no meio da noite com uma dormência que deixava em falta um dos meus braços: ela adormecida, como nunca estivestes realmente; curvada como larva, recém-nascida, bloqueando minha circulação fria.

Tu já não mais estavas em meu quarto, não mais te escondias sob a minha cama. Não mais me esperava adormecer para me morder o corpo e caminhar entre os meus pertences como se estivesse ali antes deles e de mim. Eu era um Sísifo diminuto e escatológico carregando uma culpa infundada. O papel-jornal escondido sob a forma de calço, dobrado em mil pedaços (como se tornou o teu corpo), agora torna minha cômoda plana.

A símile moveu-se e deixou exposto o seu ventre de formiga. Enlaçamo-nos uma, duas vezes. Lembro.

(27 de outubro de 2006)

23.11.07

O Amigo Chato



Há muito não tenho interesse em ler resenhas. Escrever, muito menos. Minha opinião quanto a livros, musica e afins não é lá grande coisa. Vivo mudando. Para ter uma certeza cultural, levo anos.


Interpol, por exemplo: achava a banda uma imitação rasteira de Joy Division, então conheci a música Mammoth e todo o resto e mudei de idéia. Os dois primeiros álbuns realmente não têm nada de especial; mas o mais recente tem requintes grandiosos que me fizeram rever as opiniões.

Quanto a outras bandas recentes, como o She Wants Revenge (que na verdade é uma dupla), gostava e gosto mais ainda. O álbum novo do She Wants Revenge é uma imitação comovente de Depeche Mode; assim como o álbum mais recente do Arcade Fire é uma imitação comovente do Bowie.

Vou passar a usar este termo atenuante: imitação comovente. Os garotos parecem se comover realmente com o Arcade Fire. Eles são uma imitação comovente dos garotos de antes.

Concordo com as críticas feitas à contaminação dos mecanismos de busca com opiniões meia-boca. Claro que a culpa não é dos mecanismos, Google e os deuses menores, e sim dos caras que se metem a opinar sobre tudo e terminam colocando os resultados relevantes lá para a oitava página.

Dizer que gosta ou não gosta de algo é um direito sagrado — tentar escrever tratados com base em conceitos vagos e comichões emotivos é uma baita perda de tempo.
Nada melhor do que ter idéia própria, guardadinha na cabeça para mais tarde discutir com os colegas.

Canso se ver endereços que disponibilizam álbuns para download e que, além do linque precioso, não se contêm e escrevem um monte de bobagem sobre o álbum e o artista; deixando a impressão de que, apesar de bem informado e intencionado, sua percepção não é grande coisa. Uma espécie de amigo chato que, antes de te dar o álbum de presente, te diz um monte de bobagens sobre o mesmo.


De resenha já me bastam as obrigatórias. José de Alencar e aquém. Fazer uma resenha literária sobre José de Alencar equivale a fazer uma resenha sobre um álbum do Altemar Dutra. Simplesmente não se enquadra no meu índice de paciência.

Inferno é não saber quando se está sendo chato. Acho que o José não sabia quão chatos eram os seus livros. Queria que todos os acadêmicos chegassem a um consenso sincero e limassem todos os autores históricos, porém chatos, das grades curriculares.

Há pouco fiz uns slides sobre Fernando Pessoa. Desses sim, gostei muito. Gosto de fazer slides. A falta de tempo seria algo bom se eu fosse dado a fazer resenhas aleatórias, pop, já que não teria tempo para escrever parcialidades superficiais. Mas como não gosto de resenhas, não é tão bom assim porque me prejudica em outros campos. Bem ou mal, gosto realmente de escrever.


20.11.07

Hank and Manny


— Você é casado, Manny?

— Sem chance.
— Mulheres?
— Às vezes. Mas nunca dura.
— Qual é o problema?
— Uma mulher é um emprego de turno integral. É preciso escolher sua profissão.
— Acredito que há um esgotamento emocional.
— E físico também. Elas querem trepar dia e noite.
— Consiga uma que você goste de comer.
— Sim, mas se você bebe ou joga elas pensam que isso deprecia o amor que elas sentem por você.
— Arrume uma que goste de beber, jogar e foder.
— Quem quer uma mulher assim?
(BUKOWSKI, Charles. Factotum, pg.88)

16.11.07

O Vectra Cristão

Frank entra no seu Vectra Cristão. Adesivo no pára-brisa dianteiro: Propriedade do Senhor Jesus Cristo. O nome Jesus Cristo nas laterais, com letras imitando velocidade e, no pára-brisa traseiro, um adesivo do próprio dono do nome: o dedo em riste, apontando à frente, naquele estilão Tio Sam.

Os traços vazados da figura messiânica colada no pára-brisa traseiro também têm muito de norteamericano. Melhor assim do que desgrenhado e queimado de sol, aramaico, com a barba mal feita e a unha do dedo em riste cheia de sujeira sob. A cor do adesivo vazado é branca como a cor do Vectra. Eu quero você, diz a legenda.

O automóvel branco de Frank desrespeita o limite de velocidade. Uma célula móvel e refrigerada, cristã a 90 Km por hora, cheirando a chiclete, mudando de faixa sem dar sinal, enfrentando ônibus e picapes pagãs. Os xingamentos dos outros são abafados pela música gospel em volume alto. No chaveiro engastado à ignição, uma foto com a namorada; uma garota loira e com seios divinos a ponto de fazerem Frank (e ela) reinterpretar constantemente as leis de Javé.

Deus está no comando. Frank gosta de pensar assim. E, parado em um sinal que exige que o respeitem, vê um sujeito magro lendo a Bíblia no ponto de ônibus, alheio ao sol e a tudo, imerso na história de Judite: “Ao mesmo tempo, cada israelita suplicou insistentemente a Deus, e todos se humilharam diante dele”. Frank pára no acostamento: Quer uma carona, irmão?

O homem queimado de sol não sabe como agir à oferta inusitada. Poderia desconfiar da intenção do ato, se aquele carro branco não tivesse Jesus por todos os lados. Não seria de todo impossível ter sido mandado pelo próprio Javé para tira-lo daquela angústia esturricante, raciocinou. Melhor aceitar, não queria aborrecer ao Deus lá em cima. Pediu licença a Judite, fechou o livro e entrou no carro. Meia-dúzia de aguardantes tiveram inveja da sua sorte e depois se sentiram intimidados ao verem o messias bidimensional os encarando com o dedo em riste.

Vai pra onde, irmão? O homem, sentindo uma vergonha cardeal, disse que ia para a Zona Leste. Tô indo pra lá! E ambos ficaram abismados com o arranjo divino. Os dois na mesma faixa de idade, algo além dos vinte, e mesmo assim tão diferentes. No caminho, conversaram, e Frank descobriu que o irmão não tinha um emprego fixo: era um marceneiro que para sobreviver fazia pequenos biscates. Ainda assim conseguia colaborar com o dízimo para o seu templo de cadeiras de plástico e sentia orgulho por isso.

Eu preciso de gente como você na minha loja, irmão. Frank entregou ao homem um cartão branco, a estrela de Davi como marca d´água: ELOIM MAT. DE CONSTRUÇÃO — Deus lhe dá a força, os instrumentos nós fornecemos. O primeiro impulso de alegria do homem foi colocar o cartão na Bíblia, como um marcador involuntário para logo em seguida agradecer a ele, Frank, e a Deus, que colocara no seu caminho aquele irmão tão bem intencionado. É isso que Jesus, o Senhor nosso Deus, quer, irmão. Não precisa agradecer tanto.

O homem desceu do carro em uma das inúmeras rótulas que dividiam a sua Zona em sub-direções, sub-bairros. Dali até a sua casa seria fácil; só mais 20 minutos depois que o ônibus passasse. Que sorte, meu Deus, que sorte.

Frank acenou e arrancou o seu Vectra branco. Cortou um carro que vinha em velocidade alta e estável. Quase causou um acidente.

13.11.07

Borrifadas

Espargia colônia de flores sobre os peitos com vinte anos de vida. Na verdade bem menos idade; já que começara a contar a idade deles apenas há alguns anos. Antes era apenas a ânsia e a espera. Antes era empinar o tórax pra frente e aguardar o tempo.

Aqueles quase seres ali, presos como que por mágica e cheirando a brinquedo novo. Brancos e com sistema de irrigação azul que não falhava nunca. Motivos de orgulho, os mais jovens que ela. Os de pele mais lisa, infinita. Os que atraíam olhares.

Nervos novos em folha naquele espaço fantástico que se expandira furiosamente. Grandes, tanto que os aguardara. Os outros, leigos, apenas se surpreenderam com o resultado final. Uma mulher! E ela acreditava, fingindo constrangimento. Mantinha os mesmos pensamentos de sempre.

Vira aquelas salvavidas na televisão: bundinha seca, perninha fina; porém toda uma pujança de peitos que as tornavam cegas a todas as outras descompletudes, preenchimentos, e as faziam ser pujantes como eles. Quero ser assim como elas e quero que vocês sejam assim como eles, pensou.

Então a natureza — mãe de tetas enormes que pingam constantemente como torneira frouxa — foi extremamente generosa com a sua filhinha de cílios espessos e maldosos, e fez com que tudo crescesse de forma harmoniosa e desproporcional, graças.

Antes de sair, ela espargia borrifadas simétricas de colônia de flores sobre os seus orgulhos, seus cuidados. Lindos, lindos, pensava. A reação vibrátil. Meus.

Sentia-se adulta, norteamericana.

6.11.07

O Barbeiro

Há muito eu achava que o meu barbeiro havia desaparecido completamente, tragado pelo capitalismo e pela velhice, quando no lugar da sua barbearia surgiu uma lanchonete vagabunda que logo depois cedeu lugar a um salão de beleza que permanece lá até hoje.

Resignei-me. Pessoas conhecidas desaparecem; o que dirá um barbeiro de contato bimestral, quando não depois de mais tempo. Nessa época eu ainda podia escolher quando cortar o cabelo, agora quase não posso.

Lembro que sempre pensava no preço baixo do corte e na possibilidade absurda de todos os seus clientes desaparecerem e ele ficar apenas comigo e mais dois ou três. Ainda bem que havia vários. Aplico o exemplo de desenvoltura social do barbeiro a todos os outros grupos de pessoas.


Sábado último eu precisava cortar o cabelo. O sistema pedia silenciosamente a mim. Então resolvi caminhar pela Praça 14, pleno sábado abrasante, para encontrar alguém que me enquadrasse novamente na ordem capilar secular da instituição. Não obtive sucesso: o barbeiro indicado pelo meu primo também desaparecera do mapa.

Preocupado com as possibilidades, resolvi arriscar uma olhada no tal salão novo, o que tomou o lugar da velha barbearia de um homem só que me aparava os cabelos desde a minha infância. Pela vitrina vi que de fato o salão era bem clichê, com manicuras e rapazes alegres que entendem muito de cabelo, desde que não seja o próprio. Não me coube a possibilidade de entrar ali. Em seguida, alguns metros à frente, vi uma saleta menor, aberta para a rua, e o velho barbeiro de sempre lá dentro; diminuído a uma rua minúscula, perpendicular, porém com a dignidade de sempre.


Barbeiros não cortam cabelos de mulher e nem sabem fazer cortes femininos. Cabeleireiros cortam dos dois sexos e, lógico, faturam muito mais. Existe aí um curioso paralelo inverso com a idéia da bissexualidade: enquanto o primeiro, conservador, se contenta com apenas uma metade (a menor) da humanidade; o segundo corta dos dois lados e, segundo dizem, se realiza de forma mais completa.

A questão é que nem tudo na vida é simples como esse dois e dois permissivo: barbeiros poderiam, sim, também cortar pelos maiores, femininos, mas, se o fizessem, perderiam toda uma postura perante o mundo e deixariam de ser barbeiros.Não existe necessidade e desejo para mudar tal estilo. Não existe razão quando se diz que para se tornar pleno é preciso abraçar a humanidade inteira.


Sua opção profissional parcial e conservadora está quase na fase final. Ele agora possui uma alegria estranha, quase senil (comparada ao coroa que resmungava tanto), quando me disse que três vezes por semana o seu filho mais velho vinha no seu Gol geração três e lhe dava uma carona até a rua da sua casa de barbeiro sobrevivente.

Mesmo com tal final incomodamente próximo e o anacronismo de sempre, com navalha na medida certa e tesouradas lentas ele conseguiu o que o seu colega mais jovem não consegue há três anos: fazer com que novamente o meu cabelo tenha um corte, mesmo dentro dos padrões curtos.


2.11.07

Fé Preto e Branca


Blind (Faith), originally uploaded by dollen.

31.10.07

Esse Povo da Areia e A Garota de Lábios Finos

Esse povo da areia, que se acumula como argamassa dentro de caixas não irá atrapalhar o meu pensamento sobre o que existe e muito menos a minha capacidade criativa.

A vida ignorante se concentra dentro de motores. Os motoristas irritados, tentando ultrapassar uns aos outros, amaldiçoando uns aos outros, ouvindo música alto ou monologando com apenas meia-dúzia de palavras. A necessidade de chegar mais rápido com os seus faloszinhos coloridos prateados com motores barulhentos que peidam monóxido de carbono e prejudicam a atmosfera azul, imóvel e estúpida.

O senhor não vai nesse?

Ia mas não vou mais, digo. Agora estou pensando em uma história e essa gente toda certamente vai atrapalhar o meu andamento invisível.

Eu nunca penso em história — o homem jovem de roupa barata mascara certa soberba ignorante.

Já atrasou alguma vez no trabalho?

Já.

Inventou ou disse a verdade?

Inventei.

Então.


Eu digo: mocinha de ombros largos, talvez bibliotecária, talvez nadadora, me empreste novamente esse código aqui desse livro aqui.

Vai renovar? A garota de lábios finos, com meio milhão de cachos desarrumados harmoniosos e de nome composto disperso: cada um para um lado, com personalidade própria, talvez opção do pai e da mãe em dupla, como os da princesa Beth Odeth Bernadete Suely, só que não tão exagerados: dois, apenas, como os lábios finos quase arrogantes que a garota — que correria o risco de ser feia, se não se esgueirasse com tanta graciosidade através das estantes particulares — possui.

Vou sim, renovar é importante — e, apesar de certa recepção mútua de sorriso, é válido admitir que não falo essas frases de improviso com a desenvoltura que eu gostaria. Sempre invento um nome diferente na hora de assinar o canhoto.

16.10.07

Ensaio de Continuidade


Estranho encontrá-la naquela forma de pássaro abatido. Noite alta e aquele corpo inusitadamente magro, com uma incômoda e definida fonte irreversível de sangue.

Abati-a sem querer. Na verdade ela abateu a si própria. Triste ver uma criatura, mesmo que racional, assim, abatida por si própria, entregue sobre um lençol branco, pronta para um ato que para ela será tão vago e absurdo quanto uma cirurgia mediúnica: No dia seguinte ela acordaria e tudo estaria feito: ele esteve aqui e entrou em ti, mexeu em ti por dentro, te mudou e tu não percebeste nada. Incrível.

A pequena metamorfose aconteceu quando ela foi ao banheiro. Pediu licença e não fechou a porta por puro esquecimento. A ouvi brigar com os tecidos para conseguir se livrar deles, deixando-os, um a um, amontoados no lavatório.

Então ouvi contorções e barulhos de líquidos sendo expelidos. Descarga. Mais barulhos. Após vários minutos, ela ressurgiu sem as peles por cima, magra, incontáveis miligramas a menos. Era outra, a que se deitou ao meu lado.

É incrível como alguns panos, pós e líquidos disfarçam a verdadeira aparência dos seres. Ela permanecia deitada, inconsciente quase, tentando esboçar um sorriso; aquele brio biológico que a fazia pensar, mesmo entre tanta névoa e abatimento, que ali era eu quem estava sendo favorecido.

O pano branco supostamente esterilizado e a luz fluorescente do quarto transformavam definitivamente a promessa quente e vibrante em algo mórbido e frio. O corpo abatido sobre o pano, fazendo movimentos sem nexo.

Apaguei a luz e disse ao seu ouvido que a deixaria dormir um pouco enquanto saía para comprar pão fresco e preparar um café da manhã ensolarado pra ela. Depois nós dois passaríamos o dia namorando.

Ela sorriu debilmente, acreditando em tudo. Vi uma pontinha de luz do passado ali, entre os seus dentes, antes deles se apagarem em um imediato sono profundo. Destranquei a porta e ela ainda conseguiu ressucitar do torpor por alguns segundos: volta logo, disse. Nunca.

7.10.07

Coetzee


J Coetzee, originally uploaded by Siegfried Woldhek.

2.10.07

Narrativas


José Viana decidiu que afinal não ia arrumar papéis nenhuns mas simplesmente deitar fora aquela tralha toda. Daqui em diante, caixas de vinho só com garrafas cheias de vinho lá dentro.


A partir dessa decisão fundamental, havia outras que deveriam seguir-se naturalmente. Seria só questão de organizar as narrativas adequadas para as alternativas possíveis. Pegou num papel, fez um risco vertical ao meio, duas colunas. Escreveu no topo do lado esquerdo: despedir a secretária. No topo do lado direito: casar com a secretária. A seguir, à esquerda: vender o apartamento. À direita: comprar um cão. À esquerda: largar a advocacia. À direita: viver dos rendimentos. Esquerda: aderir aos renovadores. Direita: desistir de foder. Esquerda: Júlia. Direita: um tiro nos cornos.


(MACEDO, Helder. Sem Nome. Pg 207)

29.9.07

As Pessoas Que Querem Se Formar de Qualquer Forma


O auditório da faculdade onde estudo vez ou outra é ocupado pelas pessoas que querem se formar de qualquer forma.


A presença da turma com o grau quase colado é fácil de ser percebida: logo na entrada, ao lado das roletas eletrônicas, fica um cabide com várias becas e no banco à frente algumas pilhas daquele chapéu ridículo que se usa com a beca. Conforme os formandos chegam, escolhem a que melhor lhe encaixa nas formas e seguem para o hall do auditório.

O hall do auditório é apenas uma circulação de menos de três metros de largura que é a única ligação dos alunos do meu pavilhão com as salas de aula.

Sendo assim, somos forçados a passar pelo meio daquela semi-cerimônia e precisamos nos esgueirar das câmeras fotográficas e ter cuidado para não pisar nos panos decorados na frente dos quais os formandos abrem sorrisos e posam com familiares e colegas preferidos.

Não raro os alunos não-graduados precisam esperar os fotógrafos conseguirem a pose ideal para poderem seguir com os seus salgados da cantina, com as suas fotocópias de apostilas, com livros da biblioteca ou com a sua liberdade de zanzar à toa.

Passar pelo meio daquele que, para muitos, é o momento mais importante da vida acadêmica, causa certo constrangimento. Não por nós, mas por eles, com a sua roupa preta alugada e chapéu que remete à possibilidade de um cérebro bidimensional.

Eles, agora desligados de nós, gastaram energia, tempo e dinheiro para ter uma graduação medíocre, mas que ainda assim é uma graduação, e nem neste momento raro conseguiram ter algo realmente íntegro, com aquela simulação volátil de especialidade causada pelas cerimônias.


Não sou muito admirador de cerimônias, mas se é pra fazer uma, é bom fazer direito. Se à minha época de graduação só houver essa possibilidade abafada, bagunçada e constrangedora, prefiro não fazer.

Prefiro apenas pegar o diploma, por em minha pasta transparente e tomar um porre merecido depois. Pode ser no Centro.



26.9.07

Curto


Apoiada no centro da parede branca do apartamento, ela se esgueira irritada e faminta, quase que regredida a uma forma de gato.


Recusa-se a ingerir alimentos realmente sólidos e doces, torrões. Prefere os líquidos, sopas, carne sem massa, ração.

Um dia chegarei em casa e a encontrarei progredida a uma forma de gato. Ou somente os peitos e as ancas. Ou somente os olhos.

O milagre dos olhos. Fenômeno, na verdade: Bilhares de anos para que pudéssemos olhar uma para a outra dessa forma nossa: Aquele par de abisminhos cercados por verde.


13.9.07

Carta Um, Dois

Josephinne,

É complicado ficar imune a tantas evidências e não me aborrecer com todos. Ficar imune a essa cadeia de elementos que me dizem de forma clara que grande parte das coisas nas quais acreditamos não existem e são até bem ridículas.


Tenho aqui ao meu lado esse livro do Dawkins. Capa lilás e folhas com aquele cheiro gostoso de novidade e frases com fluidez rara, lubrificadas em Garamond. As idéias do cientista são tão lúcidas e claras, e os contra-argumentos são tão ingênuos que até acho bom estar lendo sozinho; senão possivelmente ruborizaria (como você) com a minha própria ingenuidade ou, mais provavelmente, me irritaria (como eu mesmo) com toda a superstição que permeia tudo.

O livro é, de fato, excelente, tanto que achei estranho — ao sentir a cama confortável, e o clima agradável, as posses — não ter a quem agradecer depois. Senti-me bem com o conjunto de tudo, com o encadeamento do dia e dos anos, e isso foi suficiente para assegurar um sono excelente.

Logo ali ao lado, na fila da prateleira, está A Vida dos Animais, do J.M. Coetzee. Você também sabe que se pronuncia quétsia e não coétzi depois de tanto eu te encher o saco até você deixar os textos psicológicos um pouco de lado para finalmente ler Desonra e constatar quão grave pode ser a falência e quão grandiosa pode ser a criação literária. Acredito que as palavras de Elisabeth Costello não devem ser assim tão secas, mas já estou me preparando para me sentir mal pelo fato de comer a carne dos bichos. Veremos.

E na faculdade (aquele deserto frio de pavimento creme sobre o qual eu falarei depois) o que me interessa, Literatura, está totalmente mergulhado no Realismo Português. E os contos do Eça, e os livros do Eça com aquele cinismo laico que reforçam ainda mais as constatações céticas. O conto Adão e Eva no Paraíso, cercado de referências darwinianas e pré-existencialistas que encontram encadeamento com a literatura de anos antes sobre o mundo mais velho que nós, sobre a necessidade da invenção do sobrenatural quando passamos dificuldades e constatamos o nosso abandono.

Enquanto escrevo esta carta, deixo as músicas correrem em tom aleatório, e a lista encadeia duas músicas do Paulinho da Viola que também são totalmente céticas e realistas dentro do seu lirismo. Constato, mais uma vez, esta redefinição de conceitos pessoais e essa racionalidade me causa uma sensação apaixonada não de descoberta; mas de maior amplitude na percepção das coisas. “Quem quiser gostar de mim, eu sou assim”, ele canta.

Ao invés de um aumento de pessimismo, nestes dias curiosamente ocorre o contrário: surge um otimismo e uma alegria; surge uma maior valorização dos atos e das palavras. O mundo se apresenta mais sólido e claro, um mundo absurdamente improvável que, por ser assim, absurdo, faz com que eu necessite valorizar cada vez mais o tempo que resta pelo fato dele, tempo, ser incerto. E o nosso, ambos, está aqui correndo denso.

Sei que se ocorresse o inverso você me consolaria com a sua voz doce e sem intermediários, sei que você agradaria os meus cabelos curtos e arrumaria as minhas sobrancelhas e me faria — com o seu amor — recuperar o meu estímulo por todas as coisas, torna-lo melhor do que era antes. Isso sem tanto esforço, acho. Apenas existindo comigo, Amor.

Pessoalmente, não levo ninguém muito a sério. Também não acredito muito em ninguém porque não preciso acreditar em ninguém. Não que isso seja negativo; é apenas uma postura lúcida. Os outros chegam, no máximo, a um David Blane: alguém que cria uma ilusão tão bem urdida e interpretada que parece ser, de fato, real. Mas não é.

Em você, exceção mais bela, Josephinne, acredito plenamente.


11.9.07

Inox


Circulamos entre as prateleiras com produtos em aço inoxidável e plástico e cerâmica. Pensamos em muitas possibilidades mas, de imediato, desejei comprar uma garrafa térmica pequena, cor de laranja.


Terminei não levando, mesmo precisando de café só meu na madrugada entre semanas.

Talvez dê tempo de comprar na loja de artigos tecnológicos com explicações microscópicas e telas em cristal líquido. Lá tudo é muito caro, mas a garrafa é barata e simples. Um produto simples e bem resolvido em meio a outros cujos manuais são piores que livros de álgebra.

A garrafa térmica, simbologia surgida de improviso súbito, é como o marco inicial de tudo, o primeiro ponto do consumismo necessário.

É isso. Pelos corredores se desejam coisas e o chão é de mármore e essa sensação de limpeza e possibilidades causa um desejo danado no cérebro, vermelho, escuro, cheio de tempo.

A atendente de cabelo preso nos olhou como um casal experiente comprando um presente para um casal neófito. É bom quando compartilhamos essa sensação de dois perante o outro.


2.9.07

Granulometria


Escondidos na areia horas antes. Barrigas pra cima, sol. Ele sentindo os sintomas de uma forte azia. Eu tenho remédio aqui, ela abrindo a bolsa de lona.

Rompeu o invólucro metálico, papel-alumínio, e o antiácido, pastilha gigante, era semelhante a um preservativo maciço e rígido.

Água. Tanta água ali na frente e delas todas não se aproveitava nem um copo. Água do mar parecia gente: tanta, e não se aproveita nem um copo. Mas dentro da bolsa de lona havia água mineral. Água do fundo da terra dentro de uma piscina cristalina e inviolável com o horizonte circular azul perfeito plástico e silencioso.

Toma. A pastilha se debatendo desesperadamente, afundando e voltando à superfície, desfazendo-se, morrendo afogada. Obrigado por cuidar de mim, obrigado mesmo: olhares de gratidão mútua, com as mãos sobre os olhos, aba improvisada para bloquear o sol.

Deitaram-se. Sal em todos os lados, permeando tudo, todo mundo feito de sal, anônimos como a água, prontos pra virarem estátua. Beijaram-se de forma intensa, granulométrica, provando o sal dos vincos. Areia sob as unhas. Restos de antiácido nos cantos das bocas.

Depois correram e se lançaram na água móvel e forte, salgada. Misturaram-se como se misturaram outrora, antes da corrida breve, vestígios íntimos um no outro.

Não se misturaram ao mar sem nome.


31.8.07

Quase, quase.


Mês complicado é esse, agosto. Vá, desbastado, e não mais volte.

Farei questão de aguardar a meia-noite para ver o ponteiro pender para o outro, setembro: O ponteiro fazendo barulho expressivo, como naqueles filmes sobre ginásio norte-americano.

Bye bye, eu direi. Não mais volte.

Nada de trágico ou problemático, graças. O problema é a morosidade mesmo. Eita mês que barrou até janeiro: também considerado moroso e chato mas que ao menos carrega certa leveza de ano novo e ainda no quarto se espalham presentes. Já nesse agosto quase no fim nem feriado tem ao menos.

Então depois da meia-noite a balança penderá, finalmente, para o fim do ano. Ainda haverá um leve esgotamento físico pelo sete de setembro, mas não há de ser nada, não há de ser nada.

Tudo agora, dias, vira ladeira descendo.

25.8.07

Juventude Sônica

No endereço Tokyo Eye você encontra toda a discografia do Sonic Youth.

PLUS os eps, singles, lados-B, performances ao vivo e trabalhos solo.

Você começa a entender a coisa toda com o tempo.

Monstros.

18.8.07

O Pequeno Quadrado Branco


O pequeno quadrado branco de plástico posto contra a luz: Uma pequena luneta sem lente de aumento com uma fotinha dentro, espontaneamente tecnicolor. Os dois personagens pareciam antigos mas não eram, eram de agora e sorriam.

Ao contrário dos artifícios digitais das máquinas do centro de compras, a fotinha dentro da luneta foi realizada em tomada única. Sem correções ou preocupação com enquadramento. Um contratempo que tornaria a foto semi-cômica era bastante possível mas não aconteceu. O casal saiu belo ao extremo. Um sorriso aberto daqueles.

Agora observa a mini-luneta e vê como os dois permanecem felizes ali dentro. Aquele tempo preso miniaturizado. Esqueceu que dia era hoje mas tem memória clara do gosto do sorvete do dia da luneta-miniatura. Que coisa, esses arranjos de memória.

E ela está ou não está? Está.

Certa raça de mulheres não envelhece. E a sua pele negra, e a sua pele negra mais bela entre todas as peles de todas as cores. Os dentes imensamente brancos, destacando-se mesmo ali, em miniatura, e os peitos que veria horas depois da fotografia.

Então ele irá até lá novamente e a encontrará mais palpável do que nunca. Certa raça de mulheres não causa cansaço além do físico previsto e necessário e prazeroso e a raça de ambos está devidamente descrita nos livros:

Tu e ela (diz o livro) estarão assim mesmo presos nessa alegria — e isso não será loucura não, filho — e tu e ela viverão assim pra sempre porque só existe uma vida e quando uma vida de um acabar não será mais vida então será pra sempre. Essas coisas aí, filho, de invisibilidade se movendo em força, não existem.

Fecha o livro. Que ano é? Não importa. Fecha os olhos e tateia até o quarto. A canela margeia toda a borda da cama. Os dedos tateiam o lençol e sentem a pele negra do corpo ao lado, já adormecido. Que corpo é esse, meu deus que não existe...Organismo vivo.

A toca e recebe como resposta uma respiração profunda. É feliz.


17.8.07

Quatro Vincos até o Hálux


Ela usa sapatos de salto alto que deixam oito pequenos vincos expostos.

Em inglês, dedo do pé é diferente de dedo da mão. Um é toe, o outro é finger. Os dedos dos pés e das mãos pertencem a países diferentes. Tudo é muito definido.

Aqui não. Aqui tudo é dedo. Isso causa uma ambigüidade divertida, gostosa: “Ela enfiou dois dedos na minha boca” não possui qualquer limitação de interpretação além do puritanismo de cada um.

“Ela enfiou dois dedos na minha boca e os dedos tinham gosto de chiclete por causa da sandália cor-de-rosa, só que um pouquinho mais amargos”. O português possibilita que você crie uma pequena incerteza antes da ouvinte se contorcer com asco infundado ou dar um sorrisinho safado.

Hálux, o primeiro pododáctilo: é o nome do dedão do pé que encerra a curva que parte do mindinho e que, senso comum, deve ser harmoniosa, sem disputa de tamanho, desunião ou mesmo desrespeito à evolução quando o segundo pododáctilo (o vizinho do dedão) toma a dianteira e se insinua como uma cobra.

Uma estranha lei do comportamento faz com que as mulheres com os pés mais feios façam maior questão de deixá-los à mostra; desunidos, desproporcionais, cobertos com poeira branca. Existe ali uma beleza errada, um exibicionismo sem sentido com esmalte descascado.

Os harmoniosos, como os da minha mulher, quase sempre estão protegidos sob sapatilhas incolores. Alguns dizem que, por serem perfeitos é que eles estão sempre protegidos; Outros atribuem a perfeição dos pezinhos a essa proteção:uma adaptação do segredo de Tostines à arquitetura dos pés femininos.

Já provei algumas marias, mas até hoje nenhuma que tivesse os pezinhos com o gosto dos tais biscoitos.


15.8.07

Rumo ao Centro do Interior do Estado





















As missões surgem quase sempre com pouco menos de um dia de antecedência para nos prepararmos e sem previsão de duração. Na dúvida, marcam tudo para muitas horas mais cedo.

Três e meia da manhã, chuva e dó de deixar o calor da cama. Antes do sol nascer já estávamos no porto do Ceasa que não é porto porque é apenas uma ladeira que termina no rio e onde ancoram balsas que levam cargas e pessoas ao outro lado, Careiro, lugar até então desconhecido por todos: o motorista, eu e os três caras não sei se técnicos ou engenheiros.

Confusão na entrada porque alguns cretinos queriam furar a fila dos veículos. Tudo se atrasa uma hora e meia, tempo que seria crucial no final da noite e nos faria voltar além do tempo imprevisto. Resolvido o imbróglio, acompanhamos o andar moroso da balsa com o sono torto no banco da picape.


Os técnicos ou engenheiros se escoravam e dormiam, reclamavam da demora e do desconforto e se comportavam como mestres de uma gincana: Apenas quando chegávamos a certo ponto do trajeto eles, apenas após indagados, diziam qual seria o próximo.

O nosso objetivo, meu e do motorista, era acompanha-los estrada a dentro para fazerem levantamentos. Depois da primeira balsa, cruzamos todo o Careiro, 100km de extensão, e ainda pegaríamos mais duas balsas distantes 100 Km uma da outra. As três parcelas de 100Km, somente na ida, levaram quase quatro horas para serem concluídas.

Entre as pausas para esperar as balsas menores, os técnicos comiam biscoitos e comidas enlatadas. Comi o pior sanduíche da minha vida: salsicha em conserva enrolada num pão de forma seco com um leve gosto de óleo diesel. Os caras reclamavam da floresta e do calor, reclamavam da estrada esburacada que transformou a nossa locomoção em rali. Eu e o motorista, resignados há muito, nos entreolhávamos e vez ou outra aceitávamos um dos enlatados horrendos ou um waffle de chocolate.

A penúltima balsa foi atracada por um cara negro totalmente ensaboado, coberto por espuma branca. A última balsa atracou no próprio vilarejo, finalmente revelado como ponto final. Sem dar muitas satisfações, os técnicos saíram para fazer medições na mata. Eu e o motorista permanecemos na viatura branca.


O vilarejo era uma espécie de tribo evoluída onde os moradores passavam a tarde de sábado à toa, na rede, sem dizer palavra. O fio da rede elétrica terminara 100Km antes e a música popular que saía da taberna vinha de um rádio à bateria e o refrigerante da taberna se mantinha gelado porque fora conservado em isopor com gelo.

Era dia de festa, e um transeunte nos perguntou se tínhamos visto o “caminhão da festa”; o que traria gelo, bebidas e cantores. Dissemos que sim, que ele estava atolado algumas dezenas de quilômetros antes e que não pudemos fazer nada porque nada poderia ser feito: homens totalmente cobertos de lama enfiavam pedaços de madeira para tentar calçar o lamaçal e desatolar o caminhão forte e anacrônico.

Em seguida, uma senhora empática se aproximou e perguntou o que estávamos fazendo ali. Tentamos passar a ela o pouco que os técnicos haviam comentado e ela ficou empolgada porque eu e o motorista representávamos uma instituição e logo pediu que fôssemos a um tapiri mais à frente onde estava o representante do prefeito.

O subsecretário ou cargo do gênero mesmo estando ali no meio da floresta onde todos usavam roupas de casa, vestia roupas sociais e passava gel nos cabelos. Ele nos perguntou se dessa vez a estrada seria realmente concluída. Dissemos que sim, com certeza, e ao vermos os olhares sorridentes nos descobrimos na posição inusitada de portadores de boas-novas.


Voltamos para a picape e mantivemos as portas abertas para circular o vento enquanto esperávamos os técnicos terminarem o seu levantamento misterioso. Uma garota pequena, quatro cinco anos, encostou na porta e ficou nos olhando alguns minutos sem dizer palavra. Perguntei o seu nome. Daiana, ela disse, depois de um tempo.

Daiana tinha os cabelos desgrenhados e queimados pelo sol, vestia uma camisa velha da rede pública de ensino e tinha uma tatuagem de chiclete grudada no meio da testa. O motorista perguntou se as crianças dali estudavam, se ela estudava. Com a mesma demora ela respondeu que sim, que estudava na Escola Municipal Duque de Caxias. Qual série? Primeira. Sabe ler mesmo, Daiana, de verdade? Sei sim — e só aí saiu o primeiro sorriso, curto e envergonhado.

No seu braço pequeno também havia inúmeras tatuagens de chiclete e, ao olhar mais à frente, vi que algumas crianças grudavam tatuagens umas nas outras. De volta ao silêncio curioso e infantil, Daiana permaneceu nos olhando até que passou um homem feio, seu pai ou avô, e a repreendeu dizendo que deixasse os homens em paz, que deixasse de ser apresentada. Mesmo constrangida, ela ainda permaneceu encostada à porta por mais algum tempo. Eu disse a ela que não ligasse para os comentários. Ela não pareceu dar a mínima para o meu conselho. Em seguida, retornou para o grupo das crianças.


São Sebastião, aquele santo retratado com aparência afeminada, todo perfurado por flechas, dava nome àquele lugar de fortes, distante e íngreme. Lá em São Sebastião havia mais de oitenta crianças, um senhor nos disse. População total ele não sabia ao certo. Sempre tem alguém indo e vindo, sempre tem um novato chegando. Novato — termo curioso que eles dão aos forasteiros que ali decidem morar. Não sei se eles consideraram a mim e ao motorista como forasteiros, estrangeiros, novatos.

Espero que não. Tenho uma empatia espontânea pelas pessoas do interior do Estado. São o meu povo e eu me incluo nele de uma forma irreversível, apesar das diferenças. Tenho por eles respeito desprovido de qualquer dó repulsiva pelo fato deles estarem tão longe de tudo somente porque uma empreiteira suja não concluiu a estrada mesmo tendo recebido todo o dinheiro. Milhões da União que se fossem divididos entre cada um dos habitantes de São Sebastião (incluindo as mais de oitenta crianças) traria a eles todas as possibilidades do mundo.

A esta altura, já tinha diminuído bastante a minha irritação pela morosidade dos técnicos. Eles retornaram com as suas tornozeleiras anti-cobras e as suas trenas e mochilas-camelo e disseram que por ali o trabalho estava feito. Ainda os acompanharíamos em outras medições, bem menos interessantes, que nos tomariam todo o sábado e metade do domingo.


Alguns moradores deram adeus quando partimos na balsa. Retribuímos. Alguns quilômetros à frente, o caminhão da festa passou por nós e os seus passageiros deram gritos de alegria.

5.8.07

Mais Uma Nota Sobre a Falência


Os operários abriram uma grande reentrância por todo o meio-fio e dentro dela soldaram grandes tubos metálicos e depois colocaram a terra de volta.

Sobra a terra que corresponde ao volume que agora esta lá dentro, tubo, através do qual passará água. As ruas ficaram com essa grande faixa de barro exposto, como se o meio-fio estivesse prestes a receber um canteiro central desproporcional.

Não haverá canteiro, e sim asfalto reposto. E nesse meio-dia, domingo, todo o pó desterrado criava uma atmosfera desértica em plena rua principal. Poeira entre os pés e as sandálias; poeira passando por baixo da porta da sala e ocupando o sofá.

O conjunto habitacional regredido a quase deserto. O nome, Hiléia, significa floresta e o que vejo e sinto é poeira e calor e isso me remete a deserto. Fajuto, mas deserto. O conjunto habitacional faliu.

Todos os outros conjuntos progridem como tempo, mas aqui ao redor parece acontecer o inverso. Tudo cada vez mais feio. Gente e cachorros que latem intermitentemente. Animais que ouvem música ruim em volume alto e parecem ignorar a poeira.

Chego ao ponto de ônibus e o cimento das calçadas parece ter rachado há pouco. Sentados em um banco de concreto estão uma velha e uma criança que são um passado e um futuro de uma resistência e uma abnegação que jamais terei e não quero. Temo, na verdade. Entre os dois há um pacote de frango assado.

Quando ouve o barulho do veículo já ali próximo, a velha meio que tateia cega o embrulho e a mão do garoto e me pergunta se aquele ali é o zero quinze. Eu reduzido a órgão, olhos, e nem tão bons assim, digo que não, não é. Ela senta e reassume a posição de antes.

O veículo serve pra mim. Ele me tirará dali. Ele, promovido a indivíduo, me fará esquecer a poeira e a falência do conjunto habitacional por algum tempo.

3.8.07

Heather


speculate, originally uploaded by Heather Corinna.

2.8.07

Classificados


Os pulsos eletrônicos em forma de números sob a telinha, o seu mercado financeiro particular e de orçamento curto. Mercado financeiro com o tempo de vida de uma borboleta ou de uma mosquinha da banana.


Frente à máquina, três garotos, um após o outro, experimentam o constrangimento ao verem a frase “saldo insuficiente” aparecer de súbito e monopolizar a tela. Frase desagradável como uma outra, “game over”, só que agravada por ser real.

“Sem grana não tem jogo, bebê”. Era preciso estar com saldo positivo para amainar as necessidades do corpo. Coisa do diabo, isso de vontade sempre. Diabo porque você nunca resolve por si só: Por mais que tente e tente, para o desafogamento pleno é preciso do outro, e o outro, como todos de bom senso sabem, é o inferno.

Os nomes no final dos classificados são o inferno e ele se remói em despossibilidades. Se não bastasse, ainda existe a coincidência irônica de ouvir alguns homens lendo os mesmos anúncios que lera antes, só que não ali, na fila do banco: recém-chegada, boquinha de veludo, 35 reais, discrição, fantasia, etc. “Vamo chamar uma dessa, cara, vamo mermo, vamo”. E os homens riem, sem qualquer vestígio de seriedade ou culpa.

Então era isso. Alugam gente como se aluga casa ou apartamento. Alugam carne, na verdade. Comem carne no almoço e o animal delicioso morreu com os olhos tristes, sem entender coisalguma da vida além do alívio que sentia quando montava em uma fêmea de cheiro intenso. Os homens são como os bichos, só que um pouco mais relativos.

Os homens deverão encontrar a mulher dos classificados. Receberam hoje alguns montantes de trinta e cinco reais e estão com os cabelos recém-penteados e recendem a sabonete barato e os braços não conseguem esconder vestígios de pó de cimento e as carnes das suas mulheres perderam o gosto há muito.

No quarto, eles verão as suas carnes e ainda darão arrotos com gosto de carne porque comeram muita carne no almoço e mais um salgado oleoso cheio de carne dentro antes de irem ao banco verem os dígitos sob a tela e a mulher de carnes que custam 35 terá um fogão de 2 bocas e uma panela cheia de carne e pelo preço módico de 40 reais todos comerão carne nevrálgica depois do prato principal de carne cheia de terminais nervosos e os dois sairão do quarto com cheiro de carne e dando arrotos de carne ainda mais fortes.

“Ela tem local, trinta e cinco... Acho que é negócio”. Pelo tom inferior de voz dos dois, tal ficção inferior sua era bastante possível.

Viram-se e perguntam se ele tem uma caneta para circularem o anúncio. Ele diz que não, apesar de ter duas na bolsa.

30.7.07

Coleta Seletiva


Assistimos a uma palestra sobre coleta seletiva de lixo. E o que deveria ser uma explanação simples de dados e especificações de cores (verde-vidro etc) terminou em tom incômodo e melancólico: A palestrante exibiu slides que contavam textualmente como será a vida em 2070 se a coisa continuar da forma que está indo: Entre outras quimeras, desertos e pessoas carecas tomando banho com óleo porque não existirá mais água potável para se usar à toa e os insetos continuarão cuidando do planeta a seu modo.

A palestrante, empregada da prefeitura, odiava lixo (plástico, principalmente) e, vez ou outra, não conseguia disfarçar o desprezo que sentia pelas pessoas que não colaboram com a limpeza; Pessoas que jogam pets em igarapés — palavra tomada dos animaizinhos ingleses para nomear os garrafas descartáveis de refrigerantes — a irritavam mais do que todas as outras.

Antes de encerrar com os slides (com uma sonata de Chopin como música de fundo), ela mostrou uma lista do que se recicla e do que não se recicla, várias vezes com o mesmo tom irritadiço ao falar sobre a ignorância dos que não sabem cuidar do próprio lixo.

Lembrei das pessoas nos barcos que chupam laranja e jogam o bagaço embaixo da rede; Lembrei de uma vizinha estúpida que todos os dias molha a sua calçada e a sua porção de rua com água de poço artesiano. Imaginei punições para elas no estilo daquele juiz norte-americano que aplica penas alternativas como obrigar a passar uma noite no mato, sem comida e sem abrigo, uma garota que abandonou no mato gatos recém-nascidos.

Esse pragmatismo divertido baseado no constrangimento seguido de trauma certamente funciona para evitar a repetição de um ato estúpido; mas não é o caminho: entre um homem vestido de frango e um homem esperando uma lâmina para retribuir o seu ato violento, o caminho é curto e a lógica, apesar de distorcida, é a mesma.

Melhor preferir não fazer, não jogar, não desperdiçar, não praguejar e não pensar que 2070 teoricamente ainda está na minha possibilidade de vida.

28.7.07

Vampiros Russos


O filme possuía tudo, mas tudo mesmo para ser fantástico. Vampiros russos e outros seres sobrenaturais ridículos — quando comparados à nossa realidade ridícula — mas muito mais interessantes do que os banais, mesmo atuando sobre aquela luminescência simulada que causa divertimento e espanto.


Lembrar de filmes e esquecer de fatos reais e vice-versa não são pontos contrastantes. Tudo é uma recepção mesma. Tudo é luz entrando pelos olhos que modifica pulsações e tenta se alojar no cérebro. Tudo é uma recepção que às vezes escapa pro peito. Solipsismo. Lumière.

Se for em três dim
ensões ou não, não importa: Qual a diferença? Qual a diferença entre atores chapados sob o vidro e pessoas chapadas sob um vidro próprio? Qual a diferença ente personagem e personagem?

Havia uma cena muito bem filmada: o vampiro russo identificando seres maléficos bem ali, no meio do metrô, com um artefato simples: uma lanterna daquelas baratas e prateadas com uma lâmpada mais barata ainda modificada para ser mágica, para focar e destacar apenas o que é maléfico.

A cena escurece de súbito e o foco intensifica duas criaturas que se fingem de humanas. O vampiro age e a cena pede que a ele se atraque aos maléficos: gritos, lutas, fumaça e mesmo assim todos os seres comuns continuam alheios a tudo. Esse filme tem tudo, mas tudo pra ser muito bom, penso.


Engano. No final tudo se perde. O tal do roteiro (existe algo mais feio e insosso em aparência do que um roteiro?) se perde no final. Faltou talento e recursos. Faltou criatividade. A sensação final é a de quase logro, embuste.

Mesmo assim, de qualquer forma, o filme mal realizado ainda se mantém como exemplo: potencialidades falsas amontoando-se em uma fila do setor de empatia que quase nunca abre as portas; cenas em potencial que findaram ridículas por terem sido mal dirigidas e encenadas, personagens inúteis... Enfim... Frases vagas e mal escritas encerradas provisoriamente com reticências... E nada mais resguardável e falso do que uma interpretação que necessita de reticências para tentar criar algum mistério. O verdadeiro mistério deve ser escrito a seco; assim como a verdadeira tragédia e o verdadeiro terror.

Sim, talvez o diretor não quis fazer um filme literal sobre criaturas da noite; e sim criar uma metáfora sobre o insucesso das relações humanas, sobre as falsas potencialidades. Mas claro que não foi isso. Ele quis ser criativo, renovador e vibrante e o que conseguiu foi um resultado medíocre: você termina o filme e, em silêncio, torce para que a conta de luz do produtor e dos roteiristas esteja atrasada.

E, principalmente, lamenta que um filme tão barato e mal realizado (apesar de bem-intencionado) sirva de metáfora perfeita para relações humanas falidas que, em dinheiro e praticidade, não valem um doze avos da pior cena do filme.

18.7.07

Woody and Scarlet

15.7.07

Nariz Assimétrico

Passou por uma casinha antiga que possuía aspecto de purgatório. Várias pessoas, jovens em sua maioria, mastigavam um estrangeiro ridículo para cantarem músicas sem sentido.

Os jovens não eram os piores, os velhos eram os piores: velhos irreversíveis ou ainda tornando-se. Assim como ele, tornando-se velho. Tornando-se, não ainda. Ainda falta muito para se tornar um velho.

A cena era triste, de certa forma. Humanidade, essas coisas. Há muito não fazia sentido continuar tendo fé na raça geral dos homens. Mesmo assim não nutria qualquer raiva ou desprezo. Era uma desistência, apenas.

Entre ele e o coroa balançando a cabeça em frente a uma caixa com som extravasado havia uma barreira irreversível. Eles nunca se falariam, jamais gostariam ou mesmo simpatizariam um com o outro. Olhou ao redor e viu quantas mais não precisariam de tal contato mútuo.

Muitas. Exceto a garota de nariz torto, branca, de uma palidez quase impossível para alguém que desce no ponto de ônibus e traz agregada a si toda a rotina do povo pobre, irremediavelmente exposto ao sol e com os braços e o rosto marcados por ele.

Ela não, era uma mulher branca. E as mulheres eram o único motivo de impulso social que possuía. Totalmente atrelado ao impulso erótico, mas ainda assim um impulso social. Teve a idéia boba de que ela não devia usar roupas íntimas porque, se usasse, elas fariam uma marca negativa, mais escura que a pele exposta. Pensamento ridículo. Olharam-se. Pouco depois, ela caminhou em direção ao balcão de azulejo gasto no qual ele estava encostado, paralelo.

O nariz, torto e branco, era quase a conseqüência de um acidente. Possuía personalidade à parte: Um nariz com um corpo emprestado, engastado e ele, nariz. Enquanto aguardava, a garota sorriu para ele. Braços finos, unhas roídas, peitos que já alimentaram um mamífero. Um cardigã preto tornava a sua figura ainda mais alheia ao clima e à rotina que todos na cidade estão submetidos.

Um sorrisinho. Sim, havia uma boca. Bastante perceptível, até. A confusão estética entre o belo e o exótico cuja conseqüência era o atraente. Ele estendeu a mão e, segundos depois, ambos conheciam os nomes próprios e tinham idéia vaga do cheiro do rosto um do outro.

Uma barreira irreversível a menos, apesar do desequilíbrio em relação ao geral, sempre era algo positivo.

12.7.07

Renton


— Sr. Renton, o senhor não tinha a intenção de vender os livros?


— Nem. Quer dizer, hã, não, Excelência. Eu pretendia lê-los.

— Então o sr. lê Kierkegaard. Fale um pouco sobre ele, sr. Renton — pede o viado arrogante.

— Eu me interesso por seus conceitos de subjetividade e verdade, particularmente por suas idéias a respeito de escolhas; a noção de que as escolhas genuínas surgem da dúvida e da incerteza, sem recurso à experiência ou ao conselho de outros. Poderíamos dizer, com certa propriedade, que é uma filosofia existencial primariamente burguesa, e que assim busca minar a sabedoria coletiva da sociedade. Entretanto, é também uma filosofia libertadora, pois quando tal sabedoria coletiva da sociedade é negada, as bases que justificariam o controle social sobre o indivíduo são fragilizadas e... mas eu estou me alongando — calo minha boca. Esses caras odeiam espertinhos. É bem fácil acabar pegando uma fiança maior, ou até mesmo uma porra de uma sentença mais longa. Demonstre respeito, Renton, demonstre respeito.


(WELSH, Irvine. Trainspotting. Pgs 169-170)

11.7.07

Ranulpho

Eu deitado em seu colo, e meus cabelos são uma massa densa, moldável. Massageados antes, só que com água e sabão. Punk entre os ladrilhos úmidos. Pós-punk deitado na cama, assistindo filme.

Árido-movie preso sob a tela. Seco. Nacional com legendas porque não queremos perder os diálogos: Toda aquela coloquialidade como se os atores fossem de fato os personagens e não soubessem que estão sendo filmados. Como se não houvesse câmera. Mais ou menos como aqui, a gente.

Grande Irmão, aqui tudo é macio e eu não me importo. A sua Grande Irmã nos possibilita muitas coisas, mas talvez a sua grande utilidade tenha sido a de me ensinar a fazer um nó (simples) de gravata. Ok, nó pronto e ajustado, mas não sei se o nó é legal. Procuro referências seguras nos livros. Olho uma: Borges. Então o nó está perfeito. Mais uma vez e mais outra. Pronto.

O nó é pequeno, menor do que eu. Alegria silenciosa é ver alguém menor que a gente.

A frase me faz voltar a pensar em Ranulpho e toda a identificação universal com a narrativa-romanceada. Incômoda, lógico; senão não seria existencialista: Ranulpho acha o seu povo incômodo e mal-educado e sente sem jeito quando se vê forçado a dizer depois de uma lacônica dialética germânica que, sim, também pertence a ele, ao seu povo, só que mais ou menos.

Ranulpho é a prova de que o não-pertencer, de que a insatisfação transcendente e de que o gosto pelo físico e pelo existir, apesar dos percalços, deve ter como conseqüência, sempre, a busca pelo melhor e que esse melhor deve ser proporcional à paixão de cada um.

Serzinho universal, personagem, perfeito e bem construído, esse Ranulpho: Quando todos nós, incluindo eu (com meus cabelos já secos há muito), achamos que ele irá fugir de seu povo em busca de um melhor, mesmo que fugitivo, ele vai contra a ordem.

Ir contra a ordem pretensamente lógica quando se tem uma certeza (daquelas certas mesmo) é primordial porque sem certezas — mesmo que controversas, porém essencialmente próprias — não se é devidamente existencialista como o Ranulpho, que não dá a mínima pro Norte.

O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...