28.1.07

Troféu

O garoto carregava um troféu. Fitou alguns lugares e sentou ao meu lado. Pouco depois perguntou se eu iria descer no terminal. Não, um pouco antes, mas esse ônibus passa no terminal, sim - achei que ele estivesse desnorteado. Além de todos os defeitos, garotos também não sabem andar de ônibus. Confundem rotas, calculam mal as distâncias. Vez ou outra eu mesmo ainda cometo equívocos. Na verdade, não raro. Por isso compreendi o garoto com metade da minha idade carregando um troféu com a metade da sua altura.

Algum tempo entre curvas e freadas bruscas. Ele encostou a cabeça no banco da frente. A lateral do seu braço estava fria. Suor, pressão baixa. Pálido, agora. Só então entendi a pergunta: necessidade de vento ou de vômito.

Ele perguntou se eu me importaria em trocar de lugar: “Preciso vomitar”. Respondi claro que não. Ergui-me. O garoto colocou o rosto pra fora da janela e, com o troféu pousado ao lado, produziu alguns barulhos discretos. Além de mim, ninguém percebeu. Em seguida, cheirou o braço. Braço e pasta de dente – minha mãe também me ensinou isso para conter o vômito. Nunca funcionou.

Tomou um ponto de vento no rosto, se recompôs e, ainda pálido e constrangido, disse que se eu quisesse sentar novamente no meu lugar não haveria problema. Meu ponto é ali logo, fica tranquilo. Ele aquiesceu e rearrumou o troféu em seu colo. Na placa havia alguns escritos ininteligíveis em pincel atômico. O garoto pálido havia se autodeclarado campeão de algo e, sozinho e sem glória externa, desentendera-se com o seu organismo de vencedor.

26.1.07

Pacífico

Agora me persegue o Pacífico. Oceano. Pê maiúsculo porque pacífico nunca fui nem nunca serei. Pertenço ao exército. Ao meu e ao dos outros. Morro pela causa. Não a morte literal, idiota, dos outros; e sim a minha: própria, intensa e transitória. A velha rígida e desmanchante morte em par.

Abstraio-me. Persegue-me o Pacífico desde que ouvi Minhas Lágrimas. Observe as maiúsculas, você que lê correndo como se tivesse algo útil a fazer depois. Não as minhas lágrimas, raras e densas (mentira – chóro discreto quando assisto a um filme com clímax dramático) e sim a música do Caetano, álbum novo, notado até pela New Yorker lá no outro lado do mundo, onde as pessoas não falam o idioma correto.

Nunca pensei que fosse me agradar das músicas do cara, Caetano, sessenta e quatro e à frente de um power trio. Na verdade, ouvindo algumas músicas antigas constatei que realmente não gosto. Reconheço o valor, mas não gosto; exceto as desse álbum recente, excelente, sincero, lascivo, orgânico e rancoroso. É preciso coragem para ser assim – exposto aos sessenta e quatro – e essa coragem é um trunfo porque quando ouço as suas letras e músicas a convenção cronológica desaparece. A capa do álbum é roxazul.

E a minha mulher do outro lado do país? Franja (recebi foto), sombra negra ao redor dos olhos, assim como deve ser. “Para as mulheres, instituo as sombras negras ao redor dos olhos e proíbo o aumento ou redução dos seios naturais”, direi quando (finalmente) for rei reconhecido. Josephine com a mão no queixo, sinto boas saudades imensas – esse lado ansioso/ambicioso do amor sincero.

A língua inglesa da New Yorker não expressa as saudades que eu sinto agora. Miss you, girl – Garota, você é uma miss. Miss you, guys – Caras, vocês são gays. Sinto pena de um idioma tão pobre, com aquela “simplicidade de índio”, como disse o Tom que hoje completou oitenta anos para nós, que ainda o forçamos à existência. Não sei porque os gringos não instituem a palavra saudade, assim como os japoneses tiveram a humildade ao instituirem a palavra kissu, já que, apesar de toda a milenaridade, os coitados não tinham um termo para beijo na boca. Abstraio-me.

21.1.07

Novamente

A encontrei estirada na cama, imóvel e magérrima, como uma vaca no fim da vida: outrora vasta e cheia de leite; agora oca, inútil.

Preparei caldo de legumes. Água da torneira. Verduras desidratadas, ressussitadas pela água fervente, pequenos zumbis vegetais inchados boiando nas bordas do prato.

Era um favor mínimo, e ela mal engolia o líquido. Entre as gengivas e os dentes, o intervalo de quase um milímetro. Esfriei o líquido na colher. Bactérias minhas. Abriu a boca.

O caldo a hidratava. Ela mesma um legume seco, guardado dentro de um quarto. A língua sentiu sabor, ganhou vida. Em seguida vez movimento de víbora e lá de dentro da boca saiu uma intenção de voz, distorcida em chiado e arroto.

Mais um prato e mais outro. Pronunciou palavra: maçã. Sempre ando com uma na bolsa. Polida, vermelha como nas fotografias. Os dentes não estavam mais frouxos quando da mordida vigorosa. Mais uma e mais outra. Maçã engolida com o caldo verde. Ela ficando mais forte.

Ao redor dos olhos ainda havia poeira. Os músculos contraídos, tomando forma de corpo. Terceira panela. Panela, artefato humano, palavra feia, panela. Antes semimorta, vaca trágica, agora transpirando por cada poro, espantando o cheiro de mofo, esboçando sorrisos.

No penúltimo prato já se olhava no espelho, beliscava a própria pele, testando a consistência, capaz de sentir dor, agora. Abraçou-me respirando novamente, com vigor, como se eu fosse o seu salvador, como se eu fosse bom por natureza e não apenas cumprisse a minha função de carcereiro metafísico.

Deixei-a feliz, tocando a si mesma, e no criado algumas cédulas e meia-dúzia de maçãs para que ela se recompusesse de vez. Antes de sair, lavei o prato e a panela, abri as cortinas, espantei as formigas, recolhi os caroços de maçã. Mais um pouco, fica – o pedido carente me apertando o braço. Não posso... minha função sempre foi e sempre será essa.

Não sei quanto tempo eu precisaria procurá-la novamente: Mais uma vez abandonada. Mais uma vez à beira da morte que para ela nunca viria. Mais uma vez vítima de falsas promessas, essa para quem todas as consciências viraram as costas exceto eu: sempre mal entendido, sempre mal intencionado, mas o único que ainda se importa, o único que se importou sempre.

15.1.07

Quinze Cartas

Ela na minha frente, encostada ao balcão. Da sua bolsa de mágico retirou um relógio daqueles que parecem um botão de fogão, com um minuto apenas, dividido de quinze em quinze segundos. Em seguida torceu o botão e segurou o relógio em frente ao peito e me perguntou onde diabos estavam as cartas escritas tão alardeadas em momentos eufóricos.

Vez penúltima, ela arfante, meu corpo em baixo tentando erguer-se. Vez última, não tinha muita certeza, mas ali no íntimo havia aquele sentimento de encerramento de algo. Minimorte. Fizemos a coisa com força, sentimento de fim. “Deixa um pouco, só um pouco”, a voz no meu ouvido tentando prolongar o tempo, como se eu fosse partir para a menor cidade depois do Pacífico. Obedeci. Se eu soubesse que seria a última tudo seria diferente.

Mentira. Sempre prevemos em silêncio o final de tudo; exceto a tragédia não-iminente. Açúcar, filme, dinheiro, vida; nossa e dos outros. Não damos a mínima mesmo quase ouvindo o barulho do fim, como uma freada silenciosa, uma desaceleração gradual até chegar o frio irreversível da constatação de impotência que amolece os braços. Baita comodismo que assegura a nossa sanidade contestável. Talvez a última vez não se consolidasse última se a coisa toda se revertesse.

Barulho de matraca, o relógio: um minuto para explicações convincentes sobre o porquê das cartas alardeadas em momentos eufóricos nunca terem passado sob a sua porta. “Você tem um minuto para explicar o porquê das não-cartas e dizer onde diabos elas estão”. Senti vergonha de apontar para a minha cabeça: “Estão aqui, assim como o diabo... estão aqui”.

Estou com elas no caderno, falei com palavra firme. “Ah sempre o caderno!” O relógio correndo, mudo, contagem regressiva para uma bomba subjetiva que me tornaria uma vítima oriental absurda, erradicada e distante. Também pensei no relógio duplo das partidas de xadrez, aquele jogo levado à sério apenas por gênios ou idiotas. O meu primeiro lance foi nulo, se não negativo: o caderno, sempre o caderno onde guardo as coisas, inacessível a todo o resto da humanidade que não eu, desumano em esconder tais coisas: “Sou eu! Sou eu quem está ali! Tenho o direito de ver!... Ou então não sou eu... Sou eu ou não sou eu? Onde estão as cartas que você jurou serem minhas?”

A verdade é que tamanha falta de disposição física e de tempo minguou a vontade das cartas. Tal fato me causou um sentimento estranho, versão subjetiva do cara que trabalha muito com o físico e não comparece à noite, a mulher deitada ao lado, fingindo um sono que na verdade é uma vontade erótica velada que aguarda abordagem desesperada e silenciosa pelas costas: o homem é você, idiota, faça alguma coisa! Então você se vira e todos os seres humanos possuem sententa por cento de água no corpo. Algumas mulheres, setenta e cinco.

Pensei em outros sujeitos, mais solícitos e ousados, passando sob a sua porta cartas ridículas cujas palavras eu nunca tive coragem de por no papel e então ela leria as cartas e marcaria um encontro. Imaginei toda a cena e a escrevi e observei o resultado: metalinguagem cruel que cumpria o meu objetivo – escrever algo tendo-a como protagonista – só que de uma forma assustadoramente palpável. Não poderia mostrar isso a ela; obteria um resultado negativo, e mais uma noite fechei o caderno cheio de rabiscos insólitos. O caderno tornou-se um presídio de cartas. Dezesseis delas engastadas na espiral metálica, prisão de pensamentos perigosos, capa cinza.

Os peitos cercando o relógio silencioso atrapalhavam o meu raciocínio lógico: “Eu só te peço uma carta, uma carta é tudo. Começo a pensar que tu és incapaz”. A palavra irritou-me: Minha filha, eu sou o senhor das cartas! Eu escrevo quantas cartas quiser a hora que eu quiser! Enquanto você flertava com imbecis trêmulos e idiotas, esses jovenzinhos de merda, eu já escrevia cartas tão grandiosas que chegavam quase a sublimar o sexo! Só não sublimavam porque eu escolhia não sublimar para, lógico, ver a mulher nua, quase que pedindo para que eu escrevesse em seu corpo com uma caneta esferográfica, daquelas que doem. “Você fala como se nunca tivesse sido jovem! Como se nunca tivesse nascido, sido adolescente e criança!” Eu nunca fui jovem, nunca fui criança! Fui encontrado dentro de uma rocha úmida, com o corpo adulto e um livro nas mãos! Nem eu mesmo sei a minha idade. Existi, sempre.

Quando a discussão entrava em um terreno absurdo ela se irritava, quase tanto quanto eu com o “incapaz”: palavra-peça que a deixou mais uma vez em vantagem. Eu não tinha obrigação de nada, nem de disso nem daquilo, disse, prendendo o relógio com os dedos, esse negócio está me deixando nervoso, fui quase ríspido. Ela pareceu em estado choque, paralisada. Pensei tê-la assustado com frases que nem eram assim tão graves, mas na verdade não. Tudo estava parado ao redor, ela, bar e relógio. Líquido a meio caminho do copo, pálpebras a meio palmo. Soltei o botão e tudo esboçou movimento. Prendi novamente. Tudo parou.

A sua bolsa de mágico estava sobre o balcão. Apelidei de bolsa de mágico porque dali de dentro ela tirava todas as coisas possíveis, independentes do tamanho. Nunca compreendi a estranha relação de espaço existente dentro das bolsas femininas, algo não muito distante da Mary Poppins: cabides, guarda-chuvas e toda a sorte de objetos, menos o que se procura naquele exato momento. Queria algo que prendesse o relógio. Encontrei chicletes, talvez servissem. Após algumas mastigadas consegui compor a goma doce para parar o tempo: pressionei-a com força, como se a estivesse escondendo em um banco de igreja. Serviram. O espaço se manteve estático. Não sei como estava lá fora, e também não queria saber. A partir do relógio parado ninguém mais entrou no bar e não perdi tempo tentando imaginar qual desculpa daria para um possível e incauto novo cliente que entrasse naquele estranho e absurdo universo-estátua. Havia cartas a serem escritas.

Procurei algo para beber. Cerveja, para a prosa fluida. Os objetos reagiam ao meu corpo. Excelente. Voltei para o banco onde estava, abri a cerveja e o caderno e comecei a imprimir as cartas que estavam na minha memória. Uma, duas, encerrei com a décima quinta. A coisa toda levou meia-dúzia de horase uma de cervejas, ou nada, referencialmente, já que tudo estava parado. Achei um tanto trapaça, esse lance de parar toda a coisa, depois achei um acaso justo: havia uma mulher a ser compensada pela minha falta de tempo, os peitos ali, pressionando o relógio, comprimindo todo o tempo e espaço. Eu já experimentara tal sensação, a de estar ali, entre eles, e desde a primeira vez suspeitei de algo sobrenaturalmente quântico entre aquelas curvas. Talvez fosse apenas o relógio, talvez fossem os peitos, ou os três em conjunto. Organizei os papéis, amassei-os um pouco, escolhi datas aleatórias. Precisaria tirar a goma de uma vez só para que o movimento do espaço não se tornasse como o de uma fita vhs defeituosa. Tentei relembrar em qual posição eu estava tantas horas antes. Assim, mais ou menos, de cabeça baixa e expressão compenetrada, quase raivosa. A goma saiu com um puxão forte antes que eu pousasse a mão novamente.

“Não adianta prender o relógio, não vai resolver o teu comportamento relapso”. O discurso era desprovido de lógica, mas a lógica havia sido algo ausente nas últimas horas. Disse que não seria necessário. Eu estava com as cartas. Ela se desarmou, deixou o relógio de lado. A goma verde ali perto, aderida ao balcão.

Ficou surpresa com a quantidade, “Imaginei que fosse só uma”, e esboçou um sorriso de carinho crescente. Não, não começa a ler aqui, tem coisa quente aí nesse monte; alguém pode ler sobre o teu ombro e você pode ficar constrangida com você mesma nua e exposta aí dentro. Não, que é isso... Não foi trabalho nenhum, não te entreguei antes por pura falta de tempo. Se duvidar todas as quinze constituem uma unidade, vai saber. Na sua alegria ela ia esquecendo o relógio sobre o balcão. Deixa que eu levo, e o guardei na mochila. Em casa haveria uma cama e inúmeros experimentos quânticos.

13.1.07

O Olho Mágico do Amor

Essa semana o Canal Brasil exibiu O Olho Mágico do Amor, filme de 1981, realizado pela dupla José Antônio Garcia (1955-2005) e Ícaro Martins.

O filme possui lugar cativo em qualquer lista de filmes cult por se destacar pela ousadia e variedade erótica apresentada ao longo dos seus 85 minutos; além dos elementos humorísticos e nonsense característicos das pornochanchadas nacionais. Assisti o filme pela primeira vez há uns quinze anos, na Bandeirantes, e as suas cenas permaneceram no meu imaginário ao lado de outros filmes como Mulher Objeto (protagonizado por Helena Ramos) e Matou a Família e Foi ao Cinema (protagonizado, entre outras, por Claudia Raia e Louise Cardoso).

Se há dois dias as cenas ainda me surpreenderam, imagino quando, no baixo dos meus onze anos, as assisti pela primeira vez. Conscientemente ou não, estes diretores ousados e suas atrizes sem-vergonha apaixonadas por cinema prestaram um enorme serviço à formação cultural erótica de seus garotos espectadores, entre eles este que vos escreve.

O argumento do filme é mínimo, o roteiro parece ter sido improvisado em tempo real, a abertura é horrenda, a cenografia é mínima e paupérrima e o áudio (por ter sido gravado depois) é dessincronizado e exagerado, não raro com trechos toscos onde os gemidos e risadas não parecem terminar nunca. Mesmo assim, além da ousadia e da libertinagem que transcende qualquer temática feminista ou machista (sendo esta quase sempre lugar-comum nos outros filmes do gênero), em nenhum outro filme podemos ouvir uma trilha sonora onde John Lennon, Luis Gonzaga, Jorge Mautner e Roberto Carlos andam ao lado de temas intrumentais horrorosos que fazem fundo às peripécias de Tânia Alves e Carla Camurati: a primeira, demoníaca; a segunda, linda, jovem e ousada em seu primeiro papel no cinema.


A história começa quando Vera (Carla Camurati) é contratada pelo Dr. Prolíxenes (Sérgio Mamberti) para ser secretária da estranha Associação Paulista de Ornitologia (ramo da biologia que estuda as aves). Logo no primeiro dia de trabalho, Vera percebe que existe um furo na divisória do escritório e que, através dele, é possível ver o quarto de Penélope (Tânia Alves), uma prostituta que recebe clientes nada convencionais: um pederasta católico adepto da inversão com vela (acesa); um padrasto afeminado voyeur da enteada lésbica; um marginal dominador; uma dupla de músicos (interpretados por Jorge Mautner e Nelson Jacobina); além dos clientes convencionais, como o próprio Dr. Prolíxenes e um estudante interpretado por Casagrande (irreconhecível), que paga metade do preço até ser descoberto por Átila (Ícaro Martins), cafetão de Penélope, um homem agressivo pelo qual Vera começa a sentir-se estranhamente atraída.

Não demora muito para que o clima lúgubre, erótico e perverso do quarto passe a influir na vida de Vera. Além da crescente atração por Átila e Penélope, ela se torna mais ousada com o namoradinho e começa a passar mais tempo no escritório do que em casa. Não demora muito para que ela resolva entrar no universo paralelo ao lado do escritório: vai à procura de Penélope e acaba encontrando Átila que, usando a agressividade característica, transa com Vera em plena calçada da Rua do Triunfo, na Boca do Lixo. Após o susto e a resolução dos conflitos internos, Vera decide retornar à rua para vingar-se de Átila e finalmente conhecer Penélope. O final do filme é uma espécie de epifania lésbico-anárquica.


Recentemente, li na revista Piauí um excelente texto da Fernanda Torres que falava sobre as agruras do ofício de ator. Entre outras coisas e casos, ela comentou que entre eles, os atores, o Canal Brasil foi apelidado de “quem deve treme”, por estar constantemente revisitando “clássicos” da pornochanchada ou adaptações hardcore das peças de Nelson Rodrigues. Exceto por Amor, Estranho Amor (filme onde a rainha dos baixinhos mostra porque merece a alcunha), vez ou outra são exibidos títulos onde atrizes que hoje já dobraram o Cabo da Boa Esperança (ou que estão desaparecidas) ainda esbanjavam juventude, beleza e libertinagem.

Seria um puta falso moralismo condena-las por estes filmes pobres e picarescos; muito mais ainda de chamá-las de desavergonhadas ou hipócritas (exceto pelo já citado exemplo da rainha) por terem participado, na época, da única forma de cinema possível e interessante ao grande público.

Considero filmes como O Olho Mágico do Amor cults absolutos. Tentativas corajosas e desesperadas de fazer cinema que, mesmo pobre, sacana e despretensioso, chegava a ser heróico pelo empenho e por não fazer concessões morais em uma época onde a censura não só perseguia (como ainda hoje persegue) como também ditava as regras do que era exibido. Além de criar semideusas nuas e marginais que ainda hoje permanecem vivas no imaginário do público e que, a exemplo do quarto de Penélope, sempre serão referências paralelas, saudáveis e desavergonhadas.

7.1.07

Alguns Filmes

Carne Branca (La Peau Blanche, 2004), parte de um pressuposto totalmente ilógico e sem sentido: o seu protagonista tem ojeriza às mulheres e pele branca, principalmente se forem ruivas. Mesmo assim, as leis naturais (ou sobrenaturais) da natureza e da lógica se fazem mais fortes quando ele observa pela primeira vez a tez semitransparente de Claire (Marianne Farley) enquanto a moça toca flauta em uma estação de metrô. Os dois se envolvem e a trama se complica quando questões que até então pareciam ser somente sociológicas – ojeriza ao branco ou ao negro – passam a esbarrar no sobrenatural, com estranhas teorias envolvendo súcubos e bebedores de sangue. No final das contas, apesar de não transitar com a devida harmonia entre as duas realidades paralelas, o filme termina se salvando pela originalidade e seriedade com a qual é tratado o argumento. Além de alguns sonhos estranhos, não pude evitar uma leve preocupação com um amigo recém chegado ao Canadá.

Falando em sonhos, levei um susto quando vi o nome Neil Gaiman no topo de um dos títulos sobreviventes à noite promocional de domingo. Quando olhei mais de perto vi que era Mirrormask e que, além de Gaiman, a colaboração do roteiro e a direção do filme era de Dave Mckean, criador das capas de Sandman, ou melhor, as melhores capas das melhores histórias em quadrinhos de todos os tempos. Qualquer obra, literária ou de quadrinhos quando é adaptada para o cinema corre o risco de ser imensamente mais fraca, quando não decepcionante. No caso da linguagem de Gaiman, que transita com extrema harmonia entre os dois estilo, tal risco é ainda maior. Mesmo assim o filme não decepciona, apesar da sua trama desconexa (pelo simples fato de ser onírica) ser carregada de gravuras de Mckean em movimento e por criaturas estranhas e originais criadas com o apoio da Jim Henson Pictures. A coisa toda deve ter um efeito mais interessante se for assistida com os sentidos alterados. Como diz Gaiman, em um dos extras, quando perguntado sobre qual foi a reação dos executivos da produtora quando viram o resultado final: "Looks like Jean Cocteau´s The Beauty and The Beast... on acid... for kids."

6.1.07

O Prazo das Luzes

Bela noite lá fora. Luz incandescente. Gente amiga a caminho. Madeleine minimalista, se soltando aos poucos da caixa de som. A iluminação de Natal ainda permanece; o Dia de Reis só terminará à meia-noite e penso que ainda bem que não existe o ato destrutivo de caça às luzes quando o dia termina, como era antigamente com os bonequinhos do eucariotes. Ainda no caminho havia os papais-noéis mal encarados e as índias e macacos luminosos escolhidos pela prefeitura. Seria ótimo não vê-los mais amanhã, mas a contar pela eficiência municipal, as caretas possivelmente terão alguma função carnavalesca. Talvez tenha sido isso, a escolha dessa feiúra em forma de careta natalina.

Aqui na janela do prédio, logo ao meu lado, ainda vejo as mesmas sete luzes que na direção do céu. Tomadas e iluminação entre as nuvens: seria assim, se a coisa toda não tivesse fim e o homem dominasse de fato a tecnologia. Amanhã ou daqui a alguns dias um dos homens solícitos subirá ao topo do prédio e, enquanto desarma a estrutura de luzes, pensará na vida e no abismo sob os seus pés que termina sobre a rua deserta; ou talvez não porque esta é a sua tarefa ao longo de anos e, como bom homem, ele acostuma-se a tudo.

Josephine armou uma mesa vintage, simples e de extremo bom gosto, quase não dava vontade de mexer os petiscos. Quase. Então a noite se dá aos poucos: morosa no primeiro terço, célere nos outros dois e quando se vê é quase dia, hora de ir embora quem precisa ir embora, hora de ir para cama aguardar o domingo. Com parcimônia e alguns tossidos constrangedores, tive uma conversa, já bastante galgada no onírico, com o irmão de Josephine e lá em baixo a rua recusa a se acalmar, apesar da hora alta. A conversa já galgada no onírico não era tanto por sono e sim pelo coquetel civilizado que não poupou nem mesmo um frasco de perfume que foi maldosamente comercializado ao Wilson sob o nome de Tequila Don Julio. Uma noite lúcida, iluminada e com as trilhas ao nosso comando.

5.1.07

Fé no Magnetismo

Hoje em dia em preciso fé na hora de pedir as bebidas: você entrega o cartão magnético e o cara digita lá qualquer coisa. Chope servido em canecas, alguns caras de meia-idade caçando garotas sem sucesso. Continuo observando os solitários expansivos com uma discrição cruel: os atos exagerados, os comentários paralelos, a preparação para a abordagem para, cinco minutos depois, voltarem com as mãos abanando e um falso otimismo desesperado no rosto, ainda esperando que a noite os salve dali a pouco.


Apesar de mal ensaiada, a primeira banda era bem intencionada. Todo mundo que começa um show tocando uma música do Weezer, qualquer que seja (a música ou a banda), merece um crédito. Dois terços do show foram dedicados ao Oasis. Depois veio a banda principal, certinha e querendo agradar a todos, como está previsto em todo set-list remunerado. É legal constatar que, por mais eclético que seja, o ponto alto de qualquer set-list sempre são as músicas dos Beatles.

Realmente não dá para criticar o espaço onde estávamos. Não era tanto ambiente nosso, mas ao menos não estava tão óbvio e caído como o antigo ambiente nosso que agora frequentamos pouco, ao modo daqueles espíritos iluminados (ou menos apagados) que saíram do purgatório e agora vão lá só de visita para ver quão pernóstica era a época que lá passaram. A empolgação dos mais jovens ou dos velhos babacas com músicas que não mudam há quinze anos, os arquétipos que permanecem apesar da troca do ator (como nas novelas mexicanas), o chope cujo gosto piora e o preço aumenta, enfim... coisas das quais não resta nenhuma saudade. O lugar, apesar de aburguesado, era discreto e possuía sombras. Dois pontos positivos a serem acrescentados à boa vontade musical de antes.

3.1.07

Mesas

A mesa tinha pano bege e no final das contas minha dupla terminou ganhando. "Péssimo jogador de sinuca" – tópico relevante na minha (imensa) lista de não-talentos. Mesmo assim tenho os meus momentos, uma seqüência ou outra de jogadas que dão certo. Tudo requer prática, disciplina para fugir da meia-boca.

O ideal seria fazer como o protagonista de About A Boy : duas unidades de tempo dedicadas à mesa bege durante a semana; duas unidades de tempo pesquisando discos na loja; três unidades de tempo para não se fazer absolutamente nada; quantas unidades fossem necessárias para ganhar fôlego na leitura de um livro ou martelando textos com as pontas dos dedos. São tantas coisas e atividades que exigem ao menos uma unidade de tempo que, se fôssemos nos dedicar ao menos à metade delas não sobraria tempo para as outras pessoas, apenas nós mesmos. Ibiza.

Ainda existe o fôlego para as caminhadas, mas já não existe tanto tempo. Apenas para a caminhada útil: a que leva a algum lugar, não apenas ao ponto de origem do circuito, aquela coisa ramster de andar em círculos. Os exercícios físicos também exigem o seu quinhão. Não dá para ficar em casa apenas escrevendo e comendo laranjas. Em parte é bem legal, mas logo o físico cobra o seu preço, sente cansaço, ganha vincos e dores.

Caminhar à noite no Centro sempre será algo estranho, meio tenso, apesar dos vigias das bancas, apesar de um ou outro policial fazendo ronda. É sempre aquele silêncio, aquelas ruas vazias que remetem a um possível toque de recolher. Umidade, caixas vazias esmagadas em um canto. Um ou outro mal encarado zanzando sozinho e sem sentido na vida ou descansando dessa falta de sentido em um vão sombrio ou calçada. Quando alcançamos a rua dos ônibus, como que por sincronia cada um dos veículos apareceu na hora certa. Dispersamo-nos em direções opostas. Fabio, que não tem medo do Centro, ficou por lá mesmo. A sua rua era um quarteirão à frente.

Ainda não era hora de casa. Durante o percurso entraram no ônibus as duas putas mais feias do mundo: ambas secas, com maquiagem de filme de terror e o corpo pontuado por cicatrizes. Elas falavam em tom alterado, em dialeto próprio, e vez ou outra se cumprimentavam com batidinhas na mão por uma tirada, comentário ou conclusão ininteligível. Olhei para um sujeito ao lado e ele arqueou as sobrancelhas, como que dizendo "é, cara, os macaquinhos são assim mesmo: por mais feios, defeituosos ou grotescos que sejam sempre precisam de outro macaquinho para fazer-lhes companhia, para lhes darem batidinhas na mão e trocarem sorrisos sem dentes. Baita raça maluca e solitária espalhada pelo mundo..." Concordei com um aceno silencioso de cabeça.

Minha garota estava à espera, e com ela o seu irmão-meu-amigo e mais alguma gente amigável, conhecida ou anônima. Todo mundo parecia feliz e concordou não ser tão simples assim permanecer dez anos juntos. Como crianças ou fãs todos se admiraram e os cercaram de méritos. Eu também parabenizei os dois. A desproporção entre o casal e a dupla de algumas horas antes me trouxe esperança: eles pareciam mais felizes que todos.

2.1.07

Dígitos

Todos parecem estar de férias. Eu estou de férias. Curtas. Dispensa, na verdade. Semana que vem termina mas, como diria Forrest, eu não quero falar sobre isso.

As ruas ainda se movimentam em ritmo lento, com vagas duplas entre um carro e outro. Até mesmo o sol resolveu acordar após o meio-dia mas, após uma leve abertura de olhos e um bocejo suficiente para esquentar o topo da minha cabeça, voltou a dormir.

Antes disso, fui consultar o meu saldo no endereço eletrônico do Banco do Brasil. Tentei o Explorer duas vezes e nada. Abri o Firefox (que é melhor em tudo, mas tem problemas com o computador da casa da minha garota) e apareceu apenas um cabeçalho onde estava escrito “Banco do Bruno”, certamente o nome do cara que invadiu o endereço. Fiquei sem saber o meu saldo, mas acredito que o dinheiro deve estar lá, virtual, infalível, apesar do Bruno.

Agora há pouco, uma colega do trabalho me ligou para saber se eu tinha visto meu saldo pela internete. Tive dois segundos de pânico: achei que ela me ligava do trabalho com alguma dúvida ou problema bobo e irresolvível, mas logo lembrei que ela também está de férias e atendi sem medo. Todos estão de férias. Os artistas da televisão, os operários da fábrica, os funcionários da Esquina do Pastel, deus, todos estão de férias.

Ela – minha colega, não deus que, segundo dizem tem (ui) uma face feminina – estava na fila do banco e receava disperdiçar mais uma hora de vida indo ao encontro de uma conta vazia constatada por um sorriso cínico do caixa. Falei a ela sobre o Banco do Bruno e recomendei que tivesse fé nos dígitos que surgem do nada e dão mais sentido à nossa vida e que, em caso de uma tragédia momentânea – os dígitos ainda não terem aparecido – ela me ligasse. Até agora nada. Bom sinal.

Quando vejo os dígitos, meus vícios fervilham. Lembro do cheiro de livros novos, encartes de discos novos, café de máquina, perfume da minha garota no meio de uma noite barulhenta e dispendiosa, chope do meu bar preferido que, suspeito eu, deve estar cobrando não por tulipa, e sim por segundo passado lá dentro. Tudo cada vez mais caro. Soa irônico eu ter anseios consumistas pela edição mais recente de Os Demônios. Suspiro fundo e espero passar. Não passa.

Contas. Locomoção. Alguns excelentes momentos íntimos. Livros. Tudo deve estar contido dentro do misterioso PI. Espirais. Códigos genéticos. Banho e remédio de doze em doze horas. Ralo. Comprimidos. Espelho redondo que me auxilia a extirpar cravos para, logo em seguida, à semelhança dos cabelos dos vampiros, constatar que eles estão de volta. As pequenices relevantes têm como clímax um leve incômodo o qual, como todo clímax, dura pouco.

1.1.07

Dia Primeiro

Então ela tinha um vestido preto incrível, ainda mais quando visto de perto. Havia dourado sobre os olhos e um perfume que assimilo ao sentimento amor. Vez ou outra eu dava uma sacada na sua bunda.

A meia-noite chegou bem rápido, mal deu tempo de carregar as tulipas com o mini-espumante. Tão logo eu expliquei ao meu amigo que proghouse era algo obscuro e irreconhecível o dj começou a tocar Sweet Dreams, com todas as paradas e interlúdios que estamos acostumados a ouvir desde a infância. Ainda não era a tal modalidade obscura. Todos dançaram à beça.

É curioso como as coisas mudam. Este ano se quisermos ouvir músicas das bandas novas e legais é mais provável encontra-las em uma pista de dança do que num showzinho de rock numa das duas ou três casas noturnas de rock. Muse, Klaxons, CSS, BDR, Vive La Fète, Gnarls Barkley, The Bravery, Goldfrapp e etc vez ou outra aparecem em um lugar inusitado, enquanto nos locais que aparentemente se propõem a isso ainda continuam os playbacks de Enter Sandman e covers ridículas. Lugares-comuns.

Havia um saxofonista na programação noturna. Começou com um solo curto e depois ficou acompanhando o dj. Lance alternativo, resultado legal, por vários momentos lembrou a faixa-título do Kid A, a que tem um saxofone raivoso: everyone, everyone around here, everyone is so near, so alone...

Quando eu estava assimilando a coisa toda, surge o infame puxador da escola de samba. Aquela coisa de superação, catarse carnavalesca. Não gosto disso.

Encostei na amurada de madeira e emborquei uma dose de Red Label com o irmão da minha garota. Whisky + cerveja = sinceridade agressiva. As pessoas legais foram embora, prenúncio do final da noite. O sambista permaneceu, incansável, entretendo o povo.

Nos dividimos em dois carros. O meu ainda parou em um posto. A pack of Heinekens. Eu e Mauro conversamos sobre guerra. Dois mil e sete será um ano interessante.