28.2.07

José

Recebi um telefonema de minha mãe. Fora de hora, meio segundo de preocupação antes de ligar-me ao outro ponto. Cumprimentos e satisfações que atravessam rios, ares e cabos dentro de caixas oxidadas e chegam até meu ouvido. Amenidades curtas. Então ela me dá a má notícia de que morreu um conhecido.

Distante e próximo porque havia simpatia e respeito entre as famílias que quase não mais existem, famílias que acumulam mortos; de meu avô e de seu Emílio, sujeito forte e rígido, mas de olhar claro e simpatia latente. Quando soube de sua morte, eram sete horas na noite.

Infarto. Único, rascante e fulminante. De uma vez: É assim que morrem os fortes. Pedi à minha mãe que desejasse os meus pêsames ao primo distante, o que acompanhava o pai e cuidava dele com um carinho rígido para não causar constrangimentos. Primo por afinidade, quase, visto que entre as famílias há apenas uma linha tênue de sangue vinda de um casal que dormiu junto e já morreu há tempos, quando Emílio ainda era criança sem alcunha na frente do nome.

A última vez que o vi foi em junho passado. Dediquei dez dias de férias à cidade de minha mãe. Fiz nada e projetos, rabisquei croquis e assisti a ensaios folclóricos, andei um pouco pela cidade curta e, apesar de tantas árvores ao redor de tudo, só dediquei um dia e meio para as atividades naturais que não levo jeito. Não sei quais motivos levaram meu tio a pensar que eu gostaria de pescar com ele e com seu Emílio; apenas recebi o convite já com hora marcada: seis da manhã – cedo pra mim, dia alto pros peixes. Às seis em ponto ele apareceu na frente do hotel usando boné e passos firmes. O povo do interior não possui neurose de atraso, perda de horário; apenas acorda e chega na hora e pronto.

Quadra e meia, chegamos na casa de seu Emílio. Na frente da casa já estavam as duas motos que nos levariam até a beira do lago para, de lá, seguirmos de casco motorizado. Meu tio foi na garupa de Henrique, filho de seu Emílio, e eu fui na garupa do próprio. Por várias vezes eu tive a certeza de que cairíamos. Buracos, bancos de areia. O estômago se contraía, mas a moto incrivelmente não tombava. Chegamos.

A viagem foi abortada quando, a poucos metros do local de embarque, a haste do motor de popa se dessoldou do conjunto. Paramos por alguns minutos enquanto meu tio amarrava gravetos, panos e plásticos para reengastar a tal haste e logo depois já estávamos de novo na margem. O motor ficou para solda e a pesca para o dia seguinte que, ao invés de passos curtos, iniciou com barulho de moto e o convite para um café antes da nova tentativa.

A casa de seu Emílio era compacta mas de traços arrojados, retirados de projeto, e as suas rachaduras e trepadeiras davam-lhe certo estilo. Do lado de dentro havia o contraste entre fotos antigas e aparelhos eletrônicos. O pão caseiro do interior é bom. No interior temos a impressão de que todos sabem fazer café bom. Desta vez não houve problemas, e em menos de uma hora estávamos com água até as canelas tentando a difícil tarefa de pescar peixes grandes em período de seca.

Doze anos antes a água estava alta. Aquela lei natural que ninguém consegue explicar direito. Meu avô era vivo e seu Emílio mergulhava durante minutos impossíveis munido apenas de arpão e snorkel. Ele possuía essa capacidade ímpar em seus anos ainda mais jovens: a de mergulhar longos minutos e voltar com um peixe robusto na ponta da lâmina do arpão automático.

Agora pescávamos com molinetes. Mecanismos, fios que alcançavam longas distâncias, iscas artificiais em forma de peixe miúdo. Conforme disse, pescar daquele jeito em tempo de seca era missão de sucesso difícil, quase que atirar as iscas ao vento. Os raros peixes compatíveis com a isca apenas a mordiscavam sem vontade ou impulso, sem ímpeto cego pela carência de comida ou excesso de concorrentes. Não pescamos os peixes grandes, espertos e zombadores; apenas alguns na margem, inocentes e com isca compatível ao tamanho, em número suficiente para servir de almoço.

Na cabana encontramos com alguns peões, funcionários de meu tio-avô. Caboclos jovens, de pele escura, brinco em uma orelha e cabelos com luzes mal feitas. Seu Emílio perguntou há quanto tempo eles eram gays. Os garotos ficaram sem jeito. Qualquer homem fica afeminado e ridículo quando faz luzes no cabelo. Qualquer homem merece ser escarnecido quando faz luzes no cabelo.

Os peixes foram cozidos em uma panela que parecia a mesma de há doze anos, o sal e algumas ervas foram jogados a esmo, o resultado final foi excelente. A sesta não precisou ser combinada, já era algo subentendido, lógico. A cabana possuía uma mesa como mobília e as redes eram armadas no vigamento de madeira. Entre os artefatos de pesca e de lida havia um volume do Teatro Completo de Nelson Rodrigues. Depois de uma hora de descanso, sábado, partimos de volta.

O sol logo ali perto. Fui convidado a entrar e beber uma água gelada. Desta vez lá na casa também havia uma garota morena, magra, de olhos verdes belos e tristes, filha de meu primo distante, neta de seu Emílio. Conversamos amenidades e despedi-me, disse a ele que tinha sido uma alegria revê-lo. Marcamos um retorno ao lago quando eu visitasse a cidade novamente.

Assim como meu avô, seu Emílio era da época dos fortes que continuam caindo aos poucos, quase sempre de pé, soltando o fôlego de uma vez só, em um mergulho sem volta, sem dar margem à senilidades ou decrepitudes.

Se virássemos fantasmas, ele certamente habitaria o fundo do lago e atormentaria os peixes maiores, ele certamente andaria de moto na trilha e assustaria os caboclos de cabelo ridículo.

12.2.07

Cilindros Leves

É aqui, com o segundo maço aberto, desta vez menor e amarelo, que exerço a minha pequena liberdade plena, acompanhada de um vinho justo e de um livro aberto que me pede voz alta.

Quatrocentas e tantas: o número não me diz nada, não me intimida. O número é uma referência factual de não-pressa de um fim. O livro não terminará nunca.

Segunda, doze, dois mil e sete de um nascimento incerto. Cinquenta e um anos de meu pai e eu agora, díspar e independente, bato de leve o cilindro rígido prensado por máquinas distantes e penso um pouco sobre o meu tudo pequeno; penso e teorizo sobre criadores frente aos quais eu sou menor: cilindro leve e frágil que se julga único, mas que na verdade é bastante igual aos outros, combustável, consumível, comum.

Meu maço é a sala com a música distante (em caixinhas) vinda do quarto enquanto, na rua, não há nenhum barulho, não há nenhum ninguém; apenas os sacos plásticos pendurados entre os ganchos dos portões trancados.


Esta é uma forma digna e silenciosa de exercer a minha banalidade defeituosa, cheia de paixões mortais, finitas; cheia de vícios defeituosos e curtas iluminuras. Ninguém faz sons no banheiro, mas neste exato momento não é de todo impossível haver uma mulher branca sentada ao lado do lavatório, dilatada e assustada com o fluxo mínimo e irreversível da água da torneira: Minha torneira de gotas pequenas e discretas, que caem silenciosas e umedecem colos diminutos de fadas invisíveis com os micromamilos eriçados pelo contato do metal que tem, ao seu lado, um abismo protegido por grades.

Faz pouco tempo que estive no aniversário discreto. Meu pai e seus filhos ideais e educados, contidos e resignados como eu nunca fui em minha infância de silêncio irritadiço. Eles aguardaram a chegada da mãe para partirem o bolo de chocolate: " A primeira fatia é minha porque sou o aniversariante. Comam o quanto quiserem; não deve haver competição envolvendo chocolate". Reconheço-me. As crianças se servem várias vezes, sem destroçar as fatias.

A fumaça escorre para cima, como um filete negativo de água da torneira. Metade da caixa dos cilindros, bilingue, me alerta sobre os perigos que estão ali dentro. "Prazer constitui perigo", seria um aviso mais digno e subjetivo.

Bilingue. Um colega uma década mais velho veio falar comigo no intervalo do almoço. Não sei como diabos ele descobriu que eu falava algo de inglês e interrompeu meus rabiscos na tela quase toda em branco. Conversamos banalidades. "I´m amazed with your english", ele disse, e surpreendi-me com tal palavra dentro do seu vocabulário curto. Amazed, palavra que quase nunca penso, quanto mais uso. Amazed, nome de uma música que, assim como tantas, plagiei para o meu vocabulário curto, galgado em filmes e letras de música.

Pouco tempo antes do fluxo, eu respondi a um questionário telefônico sobre como foi o meu dia desinteressante. Nenhuma metafísica entre os diálogos, apenas capitalismo angustiado. Esqueci de comentar sobre o colega com aspirações bilingues, mas a esta hora não há mais problema: as questões de hoje já foram encerradas e o questionário concluiu, à minha revelia, que eu durmo muito durante horas que não são apenas minhas. Como esta de agora que, também, inevitavelmente, parece chegar ao fim.

9.2.07

Chantecler

Sagitário

É uma constelação do hemisfério sul. É simbolizado por um arqueiro. O planeta Júpiter rege o signo Sagitário. Os sagitarianos são amáveis, filosóficos, intelectuais, otimistas, generosos e dão grande valor à honestidade. Odeiam ficar confinados, precisam de liberdade de pensamento e gostam de viajar. O mês é favorável a uma viagem aventurosa pelo Pantanal ou então a uma excursão em uma gaiola pelos rios do Pará e do Amazonas, com incursões pelos afluentes e igarapés, até a cidade de Manaus.


É... eu já estou aqui.

(Extraído do Horóscopo do Chantecler, da Revista Piauí)

3.2.07

Inevitabilidade

Quando você diz que nunca mais vai voltar em um lugar e, subitamente, se vê novamente ali dentro passando as mesmas situações ridículas que você jurou que jamais passaria, surge uma espécie de vergonha metafísica acompanhada do sentimento de inevitabilidade; como aqueles personagens de ficção que, mesmo voltando no tempo, não conseguem mudar o destino.

Acontece que eu detesto esse lugar de piso desnivelado e de teto baixo. Ele fede a madeira velha, e tenho quase certeza que existe uma cabeça de bode ou ser semelhante enterrada em algum canto daquele sítio. Existe algo de estranho na luz, na sombra dos cantos da paredes e na sua fachada de grades são estendidas lonas negras que lembram uma tenda trash de Monga, a mulher-gorila.

Os acontecimentos foram se sucedendo, independentes da minha vontade, e na pilha da empolgação etílica tudo pareceu legal mas, de súbito, a providência negativa aprontou das suas. Eu me acomodei em um banco ordinário, tábua de azimbre que achata a bunda, e tentei ser conivente com a banda que estava tocando. Não consegui. Em seguida iniciei uma conversa com lag, delay e outros efeitos que fazem com as frases se tornem ininteligíveis pelo barulho ao redor. Palavras mastigadas, destroçadas pela poluição sonora. Eu ainda estava um pouco bêbado e nunca fui e nem nunca serei espontaneamente legal com desconhecidos. Providência negativa.

Começamos a falar umas coisas desconexas e em certo ponto a garota de dezoito com cara de treze interveio na conversa e disse que A-Ha era a maior banda indie de todos os tempos. Eu disse que A-Ha era uma banda legal de pop music e continuava sendo, quando resolvia se reunir para ganhar algum dinheiro. A garota de treze com cara de onze usava uma camisa listrada, vermelho-wally, e também óculos e tinha um cabelo crespo que dava vontade de arrancar da cabeça. Carapinha errática. Para comprovar a sua teoria musical esdrúxula, ela começou a perguntar a todo mundo que passava se conhecia A-Ha e, lógico, todos confirmavam, e ela sentia um estranho triunfo, mesmo tendo desvirtuado o sentido da pergunta.

Depois começou a dançar com um amigo, e depois com outro e mais outro, mudando de mãos e de parceiros de dança como naqueles filmes musicais onde todo mundo é feliz e se conhece e dança com uma alegria constrangedora. O pior, o mais terrível de tudo, é que ninguém ali parecia estar bêbado, ou ao menos estar bebendo algo com gosto. Abomino o uso da bebida como acessório social. A bebida não pode ser acessório: ela é a causa que ajuda a trazer o sentido. Ali dentro existem deuses e demônios engarrafados, dependendo da noite ou do número de série. Tenho grandes idéias enquanto bebo; pena que as esqueço logo depois. As noites ruins ao menos servem para postumamente praticar a escrita.

Um cara disse que não conhecia A-Ha e nutri certa simpatia pela sua sinceridade. Eu conheço A-Ha desde sempre, tinha até o vinil - On Tour In Brazil – e ficava fascinado com o video-clipe metade realidade, metade desenho animado. Take On Me – Pega Na Minha. A coisa não parecia terminar nunca; a dança, as perguntas. Olhei pra baixo, palco, e o que vi foi uma banda ridícula com um vocalista de treze anos vestindo um terno e imitando algo que remetia a Strokes. Foi demais pra mim. Me senti no Programa Raul Gil: Edição Noturna Pseudo-Indie. Pedi lincença e disse à garota da carapinha errática e disse que temia que um dia ela fosse contratada pelo IBGE. Saída lateral e urgente pela direita.

Olhei ao redor e não vi mais as pessoas com as quais tinha entrado; nem em cima, nem em baixo, nem dentro, nem fora: em lugar nenhum e pensei quão mesquinha deve ser a vida de um homem solteiro hoje em dia. Meu casal de amigos certamente devia estar domindo, edredon e ar-condicionado, e eu ali ouvindo aquelas merdas porque a minha garota ainda estava longe. Se estivesse com ela não estaria vendo e ouvindo aquela merda de música mal tocada tocada por garotos de doze anos que jamais conseguirão criar bem os filhos. Eu ali, refém de um grupo sem vínculos, de uma tropa mínima sem capitão.

Todos sumiram como uma alucinação esquizofrênica e eu pensei: Onde está o espírito de grupo, meu Deus? E seu eu não tivesse dinheiro? E seu eu não tivesse um anjo da guarda que sempre se faz presente, grave e sonoroso? Eu poderia estar morto agora; um braço na zona sul, uma perna na zona leste e ninguém se daria conta, ninguém se importaria e continuaria fumando cigarros. Triste, isso.

Ao menos durante todo o tempo em que estive naquele purgatório caboclo não paguei nem ao menos uma garrafinha de Aguacrim, nem ao menos paguei a entrada, só um maço de cigarros, por simpatia espontânea à causa. Quando tudo fale, apela-se para o elemento avaro: ao menos não gastei dinheiro. Havia grana folgada para o táxi que, prolongando ou não a noite, eu precisaria pegar para chegar na porta de casa. Se não houvesse dinheiro e um tanto de lucidez, eu certamente não teria ido por já estar deveras acostumado com o egoísmo humaninho.

Depois que quase levei uns chutes de um bêbado enciumado que fingia ser amigo de uma amiga, passei a ser paranóico com as palavras e com a bebida quando estou sozinho ou falsamente acompanhado. A precaução deu certo. Apesar da roubada, não fiz inimizades, não passei ridículo, não tive o afilamento do meu nariz comprometido em nenhum momento. Eu, que nunca fui e nem nunca serei espontaneamente legal com desconhecidos, voltei conversando com o motorista do taxi. O motoristas de taxi são tudo o que resta de são, de digno e sincero em toda essa estranha estrutura social noturna.

O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...