31.3.07

Elegia

Carlos Drummond de Andrade

Ganhei (perdi) meu dia.
E baixa a coisa fria
também chamada noite, e o frio ao frio
em bruma se entrelaça, num suspiro.

E me pergunto e me respiro
na fuga deste dia que era mil
para mim que esperava
os grandes sóis violentos, me sentia
tão rico deste dia
e lá se foi secreto, ao serro frio.

Perdi minha alma à flor do dia ou já perdera
bem antes sua vaga pedraria?
Mas quando me perdi, se estou perdido
antes de haver nascido
e me nasci votado à perda
de frutos que não tenho nem colhia?

Gastei meu dia. Nele me perdi.
De tantas perdas uma clara via
por certo se abriria
de mim a mim, estela fria.
As árvores lá fora se meditam.
O inverno é quente em mim, que o estou berçando,
e em mim vai derretendo
este torrão de sal que está chorando.

Ah, chega de lamento e versos ditos
ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça,
ao ouvido do muro,
ao liso ouvido gotejante
de uma piscina que não sabe o tempo, e fia
seu tapete de água, distraída.

E vou me recolher
ao cofre de fantasmas, que a notícia
de perdidos lá não chegue nem açule
os olhos policiais do amor-vigia.
Não me procurem que me perdi eu mesmo
como os homens se matam, e as enguias
à loca se recolhem, na água fria.

Dia,
espelho de projeto não vivido,
e contudo viver era tão flamas
na promessa dos deuses; e é tão ríspido
em meio aos oratórios já vazios
em que a alma barroca tenta confortar-se
mas só vislumbra o frio noutro frio.

Meu Deus, essência estranha
ao vaso que me sinto, ou forma vã,
pois que, eu essência, não habito
vossa arquitetura imerecida;
meu Deus e meu conflito,
nem vos dou conta de mim nem desafio
as garras inefáveis: eis que assisto
a meu desmonte palmo a palmo e não me aflijo
de me tornar planície em que já pisam
servos e bois e militares em serviço
da sombra, e uma criança
que o tempo novo me anuncia e nega.

Terra a que me inclino sob o frio
de minha testa que se alonga,
e sinto mais presente quanto aspiro
em ti o fumo antigo dos parentes,
minha terra, me tens; e teu cativo
passeias brandamente
como ao que vai morrer se estende a vista
de espaços luminosos, intocáveis:
em mim o que resiste são teus poros.
Corto o frio da folha. Sou teu frio.

E sou meu próprio frio que me fecho
longe do amor desabitado e líquido,
amor em que me amaram, me feriram
sete vezes por dia, em sete dias
de sete vidas de ouro,
amor, fonte de eterno frio,
minha pena deserta, ao fim de março,
amor, quem contaria?
E já não sei se é jogo, ou se poesia .

30.3.07

Complemento

Não existe nada mais belo do que uma casa polida. No solo, ou suspensa entre apartamentos. Mesmo assim sempre existia a sempre falta de algo, objeto ou ser humano.

Mas agora não mais: os correios acabaram de telefonar informando sobre a chegada do pacote.

Cinco ou seis baques na porta: o entregador, com certeza — naquele hall não circulava ninguém além das garotas que também eram entregues pelo telefone: “Quero uma de um e setenta, cabelos negros e que se chame Marlene”.

De forma trêmula, rabiscou a rubrica inventada na hora. O pacote na sala, esperando para ser aberto.

Abriu a caixa. Sobre as partes desmontadas havia isopor imitando neve. Soprou-as com força, um pequeno milagre climático artificial destoando de forma positiva o conjunto polido de móveis e objetos decorativos.

Abaixo do isopor havia plástico e, embalados à vácuo, as partes principais do corpo acompanhadas de mais alguns saquinhos com as partes menores e, lógico, um manual de instruções para auxiliar na montagem.

A pele branca era exata. Igual ao especificado na tabela de cores. Em um dos saquinhos também havia um pequeno frasco de perfume para diminuir o cheiro asséptico. Plástico, isopor, frio do compartimento de cargas.

Antes de encaixar os membros, observou o corpo de olhos fechados. Helena. E após mais três quartos de hora já a possuía sentada, vestida e esperando o sopro (em um discreto orifício na nuca) que ativaria seus sistemas eletroeletrônicos.

Just like falling in love again…

A frase ilustrava a contracapa do manual. Ela novamente acordada, jovem como era antes, só que transportada de forma compacta de um país distante.

— Demorei? — os seus olhos vazios, ainda ajustando o foco, procurando os seus braços como sempre procuravam antes.

— Não, não demorou — o abraço apertado no artifício.


Aquela solução simples, resolvível por uma simples encomenda e viagem acompanhada de cifras tornou, ao menos por hora, o seu mundo completo.


20.3.07

Flores

A floricultura era comprimida entre duas lojas vazias. E ainda lá permanece; e com ela a sua vendedora de olhos tristes para a qual perguntei se lá havia flores naturais. Ela apontou a mesa no centro da loja, e lá havia um vaso de vidro e nele meia-dúzia de flores vermelhas com um terço do corpo verde delgado afundado em água fria.

Escolhi o par mais vermelho e, enquanto a moça arrumava o arranjo escondida no mezanino invisível, escolhi um cartão para acompanhar o agrado.

Amizade. Desculpas. Aniversário. Formatura. Pêsames. Nenhum deles se enquadrava exatamente na minha situação. Os cartões são assim mesmo: O texto genérico, não raro exacerbado, quase sempre previsível. Mesmo assim encontrei um bem bonito — girassóis da Rússia — que trazia um texto realista e romântico que daria margem ao meu manuscrito à esquerda.

A moça me estendeu uma caneta e procurou ocupações menores enquanto eu escrevia a nota apaixonada e sincera. Lacrei o envelope com um pingo frágil de Cola Polar. As flores desceram as escadas: Arrumadas para sair, borrifadas com água fria como se fosse perfume. Algo bastante lógico. Se cheirássemos naturalmente a flores também nos borrifaríamos água gelada ao invés de álcool imitando fragrância.

* * *

Sento-me no banco e aguardo. Penso em pegar um livro, mas decido por um sorvete. Chocolate. Observo as pessoas passarem e elas observam as flores ao meu lado como se elas fossem duas garotas bonitas. Na verdade elas são um par. Uma injustiça com a de pétalas maiores que se vê puxada ao feminino pelo gênero delicado da palavra. Sei que disso também padecem as joaninhas, então coloco a flor maior por cima. Ha! Agora ao menos você é ativa dentro desse relacionamento vegetal mórbido cercado de beleza — penso a ela.

Eu não importo, ela não se importa — recebo de volta o troco vegetal retórico — Polinizados uma a outra ou um a outro porque não somos macacos que necessitam de gênero. Nâo precisamos nos mover muito para intercambiarmos os nossos pólens absurdos.

Então eu penso que bom mesmo é ser polinizado pelo gênero oposto e penso em flores naturais femininas humanas e aquela coisa toda enquanto tomo sorvete e observo a paisagem asséptica onde os macaquinhos fazem compras e olham de soslaio as minhas flores.

Procuro meu telefone e não o encontro. Na mochila, nos bolsos das calças, chego mesmo a olhar o buquê (possível flor telefonando para casa dizendo que agora é definitivo: não volta mais para o campo) e não encontro o aparelho. Sumiu. Devo ter esquecido na floricultura, já que as sorveteiras feias permaneceram em meu campo de visão; elas e o seu balcão vazio. A moça triste prisioneira da floricultura não pôde sair a tempo para entregar-me o telefone de volta. Deve ter sido isso.

Ergo-me e, quando apalpo o peito, vejo que o aparelho mínimo está oculto no bolso da camisa. Lapso ridículo. Mesmo assim sinto alívio. O sorvete é uma ampulheta de sete minutos. Quando finalmente termino, Josephinne me liga dizendo que está a caminho: O telefone vibra em meu peito.

Caminho rapidamente até a porta.

A rua é quente e veloz.

Josephinne aguarda em seu carro vermelho.

18.3.07

Lá do Alto Relativo

A sensação recorrente de estar no alto do prédio agora também apareceu em sonho. Influência do filme da noite passada: o grupo de amigos recém-graduados fumava e bebia à margem da murada baixa. Um deles arranca a vassourinha do chapéu de formatura e a solta no vento: ela plana por um curto momento e cai em trajetória incerta ao longo das dezenas de andares abaixo.

Bela metáfora discreta, essa da queda inevitável independente da velocidade e da trajetória. E depois, em sonho, eu e minha garota estávamos lá no mesmo topo do prédio, sentindo o vento de direção incerta. Sorríamos e nos abraçávamos enquanto olhávamos pra baixo.

Não, não havia qualquer vestígio de vontade de queda; apenas o frio no estômago pela constatação do risco e o sentimento positivamente infantil de desafiarmos o perigo e passarmos incólumes. O sonho possuía gravidade mesma: aquela da relidade, que puxa os meus dedos pra baixo e que é solenemente ignorada pelos super-heróis.

Não sei o que minha garota sorrindo sentia, não consegui ler os seus pensamentos. Na verdade, não tentei: até mesmo nos sonhos sou involuntariamente realista; apesar de ainda não ter desistido totalmente de conseguir acessar a região da minha memória que armazena todas as mulheres nuas presas nas páginas das revistas.

Sei que elas serão falsas e bi-dimensionais como as mulheres loucas, solitárias e estranhas que vagam na noite à procura de alguém que as fotografe na memória, e que elas falarão frases curtas sobre seus sonhos, o homem ideal e sobre o lugar mais exótico onde fizeram amor e perguntarão como está o cabelo quando sentirem no rosto o vento do meu carro polido e conversível. Sei que logo em seguida cansarei delas porque os macacos subjetivos sempre cansam de tudo que não é absolutamente real e prazeroso. Então se existirá o cansaço, porque existe o desejo inútil e impossível? Não sei.

Talvez tenha relação com a margem do prédio e a sensação da queda iminente que não acontecerá nunca porque não existe a vontade de dar um passo à frente.

5.3.07

Urbanos

Recolhido em um canto, constatou a vida armazenada em caixas e sacolas de tamanhos diversos. Discos livros e roupas, todos ocultos e empacotados, em uma espécie de universo inodoro e retraído. Com dificuldade e passos firmes, carregou-os um a um, uma a uma, através das escadas em caracol e as dispôs em frente à porta do apartamento novo; aquele somente casca, aquele do silêncio sem ordens, sem qualquer vestígio de móveis de pontas agudas. Sentiu-se feliz, independente de não saber se precisaria novamente carregar tudo para outro lugar ainda mais alto.


* * *

O que o atraía era mais o abismo branco do que o vôo. A leveza das barras de aço, a inclinação leve do corpo que poderia deixar ainda mais claro e visível um novo ângulo inédito do sol ou das formigas lá em baixo, trabalhando a Terra.

Agora possuía asas novas que o levavam ainda mais longe, ainda mais alto até estar todo envolto no branco: o abismo envolvia-o e dissipava qualquer temor de queda em meio às formigas. Os ventos o ajudavam, poderia dizer que possuíam consciência e procuravam diverti-lo, levá-lo cada vez mais alto e, tão logo uma das correntes amigas desaparecia, surgia outra, ainda mais clara e intensa, lhe segredando no ouvido em idioma absurdo porém compreensível as belezas que ele encontraria se chegasse ainda mais alto.

Decidiu (era para isso que serviam as asas) e pegou a corrente mais forte, aquela que levava para cima das nuvens. Durante o trajeto, a vida se ausentou da memória, não havia preocupação ou abismo, não havia medo ou formigas. A grande nuvem enfim terminou e ele enfim encarou o sol: claro e frio, como jamais seria na superfície. Os raios intensos limparam-lhe o rosto e queimaram as suas asas de poliéster. Inconsciente e feliz, a queda teve início.


* * *

Era estranho estar assim: na cama de uma mulher homônima de sua mãe. Semelhanças distantes exceto pelo corte de cabelo e pelo perfume na parte interna dos braços. Aproveitou que a homônima não estava em casa e trouxe ao seu quarto a mulher que agora estava adormecida ao lado. Passou pelo pai que assistia televisão na sala e não disse palavra, nenhuma satisfação àquele que se dizia dono da casa, àquele que sentava em seu sofá como se fosse trono e empunhava um controle como se fosse cetro. Sabia que ali ele não mandava nada, quem mandava era Sofia – não a que dormia ao seu lado, com o corpo brancorretorcidoexposto; e sim a que estava a algumas centenas de quilômetros, fazendo compras e abraçando sobrinhos distantes.

Sofia despertou sem sentir-se nem um pouco nua e apoiou a nuca na cabeceira. Ele acomodou a cabeça sobre as suas pernas e contou duas ou três histórias onde ele era o herói discreto. Competições de corrida, namoros, charadas. Sofia ouviu tudo compreensivamente, mesmo sabendo que duas delas eram mentira.

Antes de Sofia despertar, ele tomara duas cápsulas de remédio para dor-de-cabeça. Surtiram efeito, mas agora começava a sentir um incômodo ardor nos olhos: alergia. O ardor incômodo virou coceira irracional e inevitável, seus olhos incharam rapidamente e não tardaram a fechar, deixando passar aos seus olhos apenas um fio insuficiente de luz que, dentro do seu inferno fisiológico, mal distinguia Sofia.

Saiu pelo corredor. Nu, cego e cambaleante à procura da Sofia mais velha. Lembrou que ela não estava e não consegui conter as lágrimas. O pai continuou vendo novela.

O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...