30.4.07

Legião

Dois milhões: a quantidade estimada de caras que, assim como eu, deixaram para entregar o tal imposto de renda no último dia. Nós, os desligados das coisas mundanas, somos legião.

Não sei quantos mais sobraram para entregar depois do prazo. Lógico que esse número — 2.000.000 — não é totalmente composto por distraídos: nele também se incluem os casos mais complicados, como os dos caras que não têm o dinheiro para pagar, e os mais complicados ainda, como os dos caras que não estão mais vivos ou conscientes para ter a honra de pagar impostos.

Eu consegui enviar do computador daqui para o computador de lá por volta das seis e cinquenta. O prazo terminava às oito no Brasil, ou seja, uma hora antes aqui na ilha Dharma menos interessante. Não posso negar que, quando vi os dois ícones de computador ligados um ao outro, senti certo alívio.


É estranho se ver subitamente incluído no número de atrasildos; os tradicionais sujeitos abrasileirados que deixam tudo para a última hora. No meu caso não foi tanto por estilo canarinho (eca) ou brazuca (eca²), e sim por total, completo e absoluto esquecimento.

Pior do que ser otário que paga impostos sem fim definido é ser otário que ainda paga multa porque não foi otário suficiente para enviar tudo nas primeiras horas do primeiro dia. A burocracia e a inevitabilidade das taxas é um inferno e não há legião de dois milhões que passe impune a ele.


Mais estranho ainda é ter todos os meses "descontado na fonte" (termo que é uma variação bizarro-financeira do termo induísta) um valor considerável do qual não tenho a menor idéia do que é feito e depois ainda ter que correr atrás para receber uma merreca.

Tento imaginar que ele vá para uma causa justa e vejo a iminência de cair sobre o texto panfletinhos invisíveis. Dane-se. Amanhã é feriado. Vou beber o terço de Kronos que resta e voltar aos braços.

26.4.07

Ela Quer VIngança




















Aproveitando a temática que vem pontuado os textos recentes permeada por fotos de exemplos relevantes do gênero (não basta ser gata, tem que produzir), aproveito a onda para falar sobre o She Wants Revenge: uma dupla cujas músicas possuem as mulheres como tema onipresente, acompanhadas de todo o pacote físico e subjetivo agregado a elas.


O She Wants Revenge é um projeto musical cuja criação é dividida pelos dj´s Justin Warfield (vocais e aparato) e Adam 12 (aparato) e que, apesar da história recente, parece ter saído diretamente dos anos oitenta. Ao contratar a dupla para o seu selo Perfect Kiss sem querer Fred Durst fez, pela primeira vez, algo de bom pela música.

A impressão que se tem do estilo musical do projeto e dos vocais de Justin é a de uma espécie de Cérbero sonoro cujas cabeças são David Bowie (em alguns vocais), Depeche Mode (nos teclados e nos licks estilo Martin Gore) e Joy Division (em todo o resto); sendo este último total influência no primeiro single da dupla: Tear You A Part.

O vídeo de Tear You A Part (dirigido por Joaquim Phoenix) transforma a saída de um casalzinho de baile de formatura em uma cadeia de pensamentos obsessivos ocultos por atos comuns que só são interrompidos quando surge a emanação de uma estranha luz vermelha. A película é uma mistura Roman Polansky, “Carrie, A Estranha”, filmes de alienígena e de terror ocultista.

Depois de ouvir as batidas e as guitarras chupadas de alguma música nunca gravada pelo Joy Division, foi natural buscar por mais exemplares. Primeiro o EP, These Things, depois o álbum homônimo cuja música-título também possui um vídeo muito legal, com Shirley Manson on high heels e todo o resto.

Foi uma boa descoberta saber que o álbum é todo composto por boas músicas e que a simples estrutura de Cérbero pensada durante as primeiras audições não é assim tão limitada; e sim que se tratam de influências óbvias para quem tem pretensão não de prestar tributo, mas sim de atualizar o legado musical dos anos oitenta com um ou outro recurso musical mais recente.

E as mulheres? Como disse antes, estão onipresentes nas letras. Ocupando espaços, ameaçando e sendo ameaçadas, revezando posições em um jogo complexo também chamado de relacionamento.

Eles estão nas letras simples e diretas, algumas quilométricas, quase sempre em forma de narrativa e, independente da posição ativa ou passiva (no sentido dúbio da palavra) as personagens nunca são convencionais: Estão sempre acompanhadas de línguas, lágrimas, beijos, noites longas e paixões intensas e problemáticas. Em nenhum momento a luz é ligada (exceto a vermelha), em nenhum momento o dia aparece no álbum. A pista de dança, as ruas e o quarto são os lugares constantes.

O que torna as músicas da dupla diferentes e atraentes (antes de se transformarem em audição quase compulsiva) é o fato de trazerem um discreto saudosismo das batidas e dos teclados que ouvíamos quando éramos crianças (nós, que temos bom gosto e já passamos dos vinte) acompanhado de sensações, fatos e experiências que só são possíveis de serem compreendidas agora, adultos e emancipados o suficiente para apagarmos as luzes do quarto com mais alguém dentro e ainda assim fecharmos as cortinas para não vermos nenhum rosto refletido no vidro e para bloquear o máximo possível o sol que nascerá dali a meia hora.

Quando a última letra fica na ponta da língua, chega-se à concordância de que, além da boa sonoridade, o nome e as músicas da dupla carregam uma verdade incômoda: De uma forma ou de outra, com maior ou menor intensidade, todas querem vingança de algo.

25.4.07

Giz + Dentes

Me explica esse lance do giz, eu disse. Porque toda essa recorrência, esse tema constante, giz, intercalado por sorrisos tão claros e abertos. Então ela disse que sempre falava de dentes e de giz porque os seus dentes (dela) eram feitos de giz. Ah, tá certo, eu disse, com uma descrença divertida no rosto.

Então com um tremendo ímpeto ela me tomou a boca, exatamente assim como se faz no capítulo final das novelas e na terça parte dos filmes românticos de médio orçamento. Sôfrego senti que, de fato, seus dentes eram porosos como pedra pome e que soltavam um pó logo transformado em pasta porque, afinal de contas, beijo bom tem que ter saliva.

Também pensei em broa e em pó, e também pensei em talco. Tudo simultâneo: língua dentro da boca, sentimento de absurdo permeando tudo. Muitos, muitos minutos passamos em tal exercício; o suficiente para eu lembrar sem querer dos meus tempos de escola, paralelo ao inusitado, às linguas diversas, à vontade crescente de levá-la pra cama, apesar de tanto giz na boca. Também imaginei meu pau branco e uma brocha raivosa de cal quis combater a idéia. Não conseguiu.

Ela pulou do beijo ao abraço, envergonhada pela intimidade súbita, intimidada pelos dentes incomuns e e pelas nossas bocas manchadas de branco, como que cheias de nada dentro.

Tentei dizer que estava tudo bem, mas me faltaram palavras na boca.

21.4.07

Feriado Sábado É Como Alisar Bunda de Stripper

Eu resolvi quebrar a monotonia da porta branca do guarda-roupa pregando nela o pôster duma bunda anônima.

Minha primeira visão do dia, quando durmo em casa, é sempre a porta do guarda-roupa, branca, com uma mancha aqui outrali e é assim meio chato já acordar percebendo defeitos: Dá margem a pensamentos de que o dia ainda em branco será cheio de pontinhos amarelecidos.

Sendo assim, resolvi pregar o pôster duma bunda anônima, transformando a porta do meu guarda-roupa em uma parede de oficina mecânica subjetiva. Uma bunda sem idade, credo, nacionalidade ou estado civil definido.

Depois da adoção dessa primeira visão, essa simulação de glúteo perfeito pregado na minha porta, minha rotina se tornou mais leve, meu dia mais bem humorado. O branco manchado que remetia sempre a uma lacuna preguiçosa cedeu lugar ao estímulo.

Pensei em substituir o pôster alguns dias para dar a ela um descanso. Pus uma maior e bronzeada, claramente brasileira, mas não obtive o mesmo resultado/sucesso: gosto mesmo é de bunda branca, toda branca, sem aquela marca exagerada de biquíni. Voltou a original.

O hábito é um grande problema: Depois de algumas semanas eu já estava acostumado com a visão matutina. Mais algumas semanas e eu já colava folhinhas amarelas sobre uma nádega ou outra para não esquecer as ordens do dia. Não demorou para que surgissem os inevitáveis pontinhos amarelecidos ao longo dos glúteos brancos.

Essa habitualidade em todos os níveis é algo que vai do chato ao terrível. Meu caso: chato. Homem que dorme com gêmeas: terrível. Resolvi dar um tempo ao pôster, reavaliar o nosso breve relacionamento diurno. Fui ver umas bundas de verdade em uma daquelas casas noturnas de meio preço.

Sábado seria feriado de Tiradentes. Bela merda, feriado sábado. Feriado sábado é como alisar bunda de stripper: a coisa toda já está lá, já existe; alisar é apenas redundar o significado.

Explicando melhor: o sábado já é feriado por merecimento e, se não é, é porque o sistema te sacaneou — a bunda já está lá, exposta: passar a mão é o que há a ser feito e, se a garota se revoltar com o carinho, está tão errada quanto o sistema trabalhista que te obriga a acordar cedo no que seria um dia normal de descanso.

O universo paralelo da casa noturna permanecia imutável. O mesmo cheiro de óleo de amêndoas, a mesma névoa de cigarro, os mesmo maus jogadores de sinuca. Uma bunda passou ao meu lado, flácida antes do tempo. Dei uma passada de mão para constatar a precocidade do caimento. A garota olhou de esguelha e sorriu. Profissionalismo é isso. Então, sem qualquer aviso do narrador ou reação positiva do público, vi que no palco estava uma bunda idêntica à do pôster.

Incrível a semelhança. Tinha que ser ela. Impossível existirem duas bundas tão idênticas. Minha memória se esforçou em levantar dados. Sim, a revista não era famosa, daquelas que tentam cinicamente permear os peitos e bundas com algum conteúdo intelectual ou simpático, como se o leitor estivesse a fim de assistir uma palestra ou, pior, ser amigo de uma gostosa com as pernas abertas e o dedinho na boca. A revista era barata, daquelas que no final possuem um “fórum” de contatos que mais parece um show de horrores. Tinha que ser ela.

A garota era do tipo alemoa, e a sua bunda branca e desproporcional vista em três dimensões me comoveu bastante em uma espécie de relação fã-ídolo. Não sabia se ela estava no esquemão dark-room ou no que consumiria metade do saldo restante em minha conta bancária. Ela saiu por uma portinha na lateral do palco, suada e com as curtas peças de roupa na mão. Resolvi aborda-la logo na saída antes que algum engraçadinho tomasse a frente.

Disse a ela que tinha achado linda a dança e que estava muito a fim de conhece-la melhor, em um lugar mais tranquilo. Ela simplesmente me deu um chega pra lá e disse que não era daquilo. Como assim? Eu perguntei. Nem uma bebida, ao menos? Ela disse um “não” lacônico e só então percebi que estava apressando o passo ao seu lado, patético como um repórter. Você não entende! Eu sou seu fã! A revista que teve você no pôster é a minha preferida! Ela me mandou calar a boca e disse que nunca tinha feito aquilo na vida, que era uma dançarina, SÓ uma dançarina. Cínica filha-da-puta! Eu disse, já perdendo o controle. Tenho certeza que a bunda do pôster era sua! Ela travou no chão e disse NÃO, NÃO É! QUEM POSOU PRA REVISTA FOI A MINHA IRMÃ! AGORA CAI FORA ANTES QUE EU CHAME O SEGURANÇA!

A palavra “gêmeas” era a solução barata do problema ridículo. Ok, só mais uma pergunta e eu juro que nunca mais ter perturbo, eu disse a ela, ainda um pouco assustado. “Diz”. A tua irmã trabalha aqui também? Ela disse que na verdade era a sua irmã quem trabalhava ali; ela a substituía quando ela não podia ir. Ok, boa sorte com tudo, então. A bunda se afastou, rígida e com resignação própria.

Eu poderia voltar lá na próxima semana, mas decidi que não. Jamais eu gostaria de ser o cara que enjoa de dormir entre bundas gêmeas. Temi um possível tédio injustificado que poderia me levar ao suicídio, já que um cara que enjoa de duas bundas brancas gêmeas perfeitas merece morrer mesmo. Preferi comprar um calendário das gostosas filosóficas para a porta do guarda-roupa.


18.4.07

Minnie Mediterrânea

O professor saltita enquanto fala de literatura e, para me abstrair de tal tragédia eu olho pela lacuna da janela. Todas as aulas ele reforça a pergunta seguida de resposta: O que é a poesia?.. É a emoção da palavra!

Certa vez ele me perguntou o que era lirismo, usando aquele sistema de escolha falsamente aleatória onde se aponta um aluno desligado ou do qual se quer ouvir algo. Não sei em qual grupo eu estava incluído quando fui indagado e respondi: Lirismo é quando falamos um sentimento simples de forma floreada.

Ele discordou. Claro que discordaria. Lirismo não é isso. Falei para implicar e mantive a resposta. Se ele me perguntasse o que era poesia, eu responderia:


Poesia é a minha tia,
Com anemia,
Nua na bacia.


Também sei que poesia não é isso. Poesia é a faixa branca de barriga que a garota mais bonita da unidade deixa à mostra enquanto circula pelos corredores cremes. Uma faixa mediterrânea, que separa o dia de trabalho da noite que tenta permanecer jovem.

Me explico. Isso não é um texto poético. Não há nada de emocionante na minha palavra escrita. Na ditada, muito menos.

A garota possui quadris largos, semi-desproporcionais-como-devem-ser e as suas vestes contrastam: calça do trabalho e camiseta com estampa de Minnie Mouse; lábios bem vermelhos e olheiras; sandálias do trabalho e cabelos negros soltos do coque... Toda uma série de contrastes polarizados, divididos pela tal faixa poético-mediterrânea de pele branca exposta.


Lindo, realmente. O problema é que ela é musa e escritora de si mesma. Essas duas coisas se anulam. Obras são admiráveis, escritores são sujeitos banais.

Ao caminhar pelos corredores ela é a obra e, quando pára para conversar ou se largar de forma preguiçosa em algum banco, ela se torna comum, sem luz alguma. Uma garota preguiçosa, quase anêmica, sempre encostada no ombro de um colega afeminado que pega sobras de olhares de outros caras que também percebem o que eu percebo.

Não com o mesmo apuro que o papai aqui, lógico. Mas que ainda assim admiram a beleza não assim tão óbvia e que, tão logo também percebem a encarada do gárgula, viram o rosto com ojeriza silenciosa. Ele saltita como o professor? Não sei. Mas tenho certeza que ele desconhece a poesia.

Ou pior. Ele pode ter noção exata da preciosidade de quadris e matizes que se encosta ao seu lado e, por isso, gárgula mau realmente, ele faz os seus ardis; encara o sujeito, marca todo o lado esquerdo do rosto da garota semi-poética com o seu odor sulfúrico de almíscar.

Sendo assim, é preciso que a garota com camisa de Minnie Mouse se desvencilhe dessa dicotomia de si mesma. É preciso que ela assuma a sua função poética de musa possível ou que se banalize de uma vez.

E, primordialmente, que afaste do seu lado o gárgula que estraga qualquer emoção da palavra quando toma à sua frente (e estraga) a presença da moça: ora insossa como um estudo dirigido, ora perfeita como uma poesia de fôlego preciso.


10.4.07

Pequenas Tempestades Internas

Aí eu persigo teus olhos; meço-os à revelia, aqui dentro da minha memória escusa entre miolos e descargas elétricas contidas por um conjunto ósseo que se dilata quando da ausência de lembrança.

Então a dor me atrapalha. Pequenos raios. Invisíveis porque estão atrás dos olhos.

E a dor incômoda aqui dentro parece um fantasma preso sob o meu lado esquerdo do rosto; transitando por trás do olho e da mandíbula - um pouco antes do siso proletário - como se um novo dente, absurdo e deformante, exigisse nascimento imediato.

Recorro às cápsulas sólidas de paracetamol. Depois de hora e meia, funcionam: Anulada pela química, a pequena tempestade orgânica se dissipa.


O cientista que a separou a substância certamente teria o seu lugar assegurado no Céu – penso com a consciência após a chuva.

Contaminei-me momentaneamente com o ceticismo do cientista e quase escrevi “Céu, se houvesse um...”, mas preferi imaginá-lo tarde da noite, observando a esposa, adormecida e exposta, despertar de súbito com o surgimento do peso do marido ao seu lado:

A mulher pergunta, fingindo interesse e tentado disfarçar o descontentamento pela ausência exagerada (o cabelo negro desgrenhado, os olhos negros refletindo o escuro): “E então, como foram as coisas?”

“Consegui, finalmente” – O marido de olhos cansados tira do bolso um invólucro anônimo e dele alguns comprimidos, os primeiros, e diz que agora ela não ficará mais com os olhos inchados de sono, saudade ou alergia.


8.4.07

Claro e Desmerecido


Continuo perseguindo o comboio claro e desmerecido dos pensamentos noturnos.


Por vezes as pernas tremem e meu rosto apresenta um brilho escuso (quando encaro o espelho subjetivo) — Quando é assim evanesço os pensamentos dispersos através do cigarro de fumaça forte.

Funciona.

Então caminho. Saio à rua e enfrento perigos: Todos aqueles transeuntes desconhecidos assustadoramente solitários indo em direção a algo, mesmo sem querer parecem ameaças iminentes.

Então trocamos rápidos olhares de desconfiança e seguimos andando como se nada tivesse acontecido. Atinjo o posto. O transeunte segue, em histórias que não me dizem respeito.

Lá dentro o ar é refrigerado e observo os frízeres mais refrigerados ainda para escolher o que quero lá dentro.

Procuro o caixa eletrônico. E logo ao lado, o kit clareador de cabelos sabor camomila traz-me alegria contida por estar são e salvo.

Mas ainda existe o caminho de volta.

7.4.07

Bordas


Olhar-se naquele armário de banheiro depois de ter feito a coisa toda dava margem à idéia de que, ao invés das bordas do espelho estarem carcomidas, era o seu rosto que apresentava manchas e perdia a luminosidade cada vez que o ato semimpensado se repetia.


O espelho parecia limpo e claro e refletia a manhã alta atrás do seu rosto. Aquela estrela furiosa e distante, lançando suas partes através do silêncio, perfurando todas as coisas até atravessar o basculante manchado nas bordas, até entrar no espelho e morrer no fundo da sua retina, vendo a si mesma com deficiência devido à ausência dos óculos, também sujos nas bordas, ainda adormecidos sobre a cômoda velha.


A sujeira nas bordas perturbava-o, deveras. Abriu com cuidado o armário de plástico: Lá dentro havia drogas lícitas e preservativos vencidos; havia bálsamos ginecológicos e pasta para dentes; havia um pequeno sabonete seco e uma pinça já cega e, inevitavelmente, havia a sujeira nas bordas.


Tentou raspar um dos cantos e não obteve sucesso. Ele ali nu, em um banheiro anônimo e distante tentando dar vazão à compulsão de anular o nojo.


Desistiu e passou ao chuveiro. Afastou a cortina de plástico e tateou um pedaço de sabonete. Entre a cortina e o chão, entre um ladrilho e outro e nas dezenas de furos circulares que dividiam a água em jatos, sempre estavam elas, as sujeiras nas bordas. Sujeira entre as flores presas na estampa de plástico; sujeira na saboneteira inoxidável com dois fios de cabelos enrolados e presos. Fechou os olhos e encarou o jato com o tato cego e disperso do rosto.


“Espero que tu não repare, eu mudei essa semana” — a mulher semi-estranha, dona da casa, invadindo o seu espaço de banho como se fosse o ato mais normal do mundo. Nas bordas dos seus olhos, vestígios de lápis e remela; nas bordas das suas unhas, vestígios de esmalte; nas bordas da sua boca, vestígios de batom e saliva. Fazia frio.


“Por mim tá tudo certo... Se quiser eu te ajudo a limpar um pouco essas bordas todas”.


Sorriram. E antes dos toques íntimos, bordas de certa forma sujas, passaram sabonete entre os dedos.



6.4.07

Amy


IMG_7746, originally uploaded by tripwirenyc.

5.4.07

Relógios Voadores

Coisa mais chata é quando você acorda um minuto antes do relógio. Os ouvidos com medo do barulho enquanto a consciência se perde entre devaneios preguiçosos. O corpo parece um traidor condicionado; como aquelas pernas sacanas de paraplégico que dão chutes vigorosos no escuro enquanto o sujeito está dormindo.

Vez ou outra, dou uma olhada no blog Feira Moderna e vejo coisas incríveis, sensacionais, como o aparelho que deixa a cerveja gelada em 60 segundos; mas também vejo outros bastante ridículos, como os relógios-despertadores não-convencionais que têm por objetivo exaurir quaisquer possibilidades de ignorá-los e voltar ao sono.

Um dos modelos não apenas fazia barulho, como também possuía rodinhas que o faziam circular em trajetória incerta ao longo do quarto; como aqueles carros à pilha que circulam trôpegos e voltam quando batem na parede. O outro modelo ainda era mais sofisticado: possuía hélices que o faziam planar em trajetória incerta a uma altura considerável, só atingível quando o sujeito estivesse de pé e com os braços esticados. Tento imaginar qual das duas situações seria a mais ridícula.

Esse acúmulo de bens, como o relógio com hélices ou uma picape daquelas gigantonas que não serve para nada além de ocupar espaço e constranger-irritar carros menores (meu falo é maior que o seu), todas essas coisas, sabe, me cansam. E todo o meu cansaço subjetivo está na mesma ordem.

Assim como me cansam os preços absurdos das casas na árvore e as taxas de telefone e toda aquela coisa de se construir algo antes da morte. Assim como me cansa ir ao barbeiro, ter que fazer a barba todos os dias (sem barbeador elétrico!) e todos aqueles crunches e flexões tamanha sete e meia da manhã.

Tudo pode dar errado, tudo pode dar errado. Isso me faz lembrar uma auto-citação do Millôr em sua entrevista mais recente:

Tive um filho, plantei uma árvore e escrevi um livro... Hoje meu filho queima livros em baixo da árvore”.

Por aí.