31.5.07

Bifurcações

Com a boca aberta em direção ao sol a observava ao lado, dentro do campo de visão dividido em dois: metade sol frio, metade fêmea com a mão em direção ao sol frio. Os movimentos do braço fino interagiam entre as duas partes da sua visão bifurcada e perfeita.

O coração visível sob a pele fina do peito. O músculo pulsante, arrítmico, bombeando líquido através da constituição simples de veias. Difícil disfarçar emoções assim, com o músculo descompassado sob a epiderme fria e simples como que querendo pular fora do seu peito branco.

Ciente, ela sorria e fingia olhar para o céu, apenas. Os olhos cento e oitenta graus móveis. Olhos mais belos do mundo.

As falanges finas, facilmente quebráveis, permearam o orifício sem resistência. Silêncio imenso durante a cópula. As falanges retiraram o talo ainda rígido. Com o corpo abandonado ao lado, ela também demonstrava pulsações imensas. Dali a alguns dias haveria centena dos dois.

Uma centena e mais outra; e a primeira centena de uma série sem conta sem saber quem foi o primeiro, sem saber quais deles foram a origem de tudo. Logo as centenas, crescidas, criaram pequenas organizações.

Um par recente de símiles se proclamou a origem de tudo e foi plenamente aceito por todos. Os verdadeiros sorriram, cúmplices, e resolveram subir para o ponto mais alto que conheciam.

Como no início, decidiram abrir as bocas novamente. Lá no alto não havia divisões. Céu em ambos os lados. Nuvens bifurcadas que se confundiam em uma mesma. E depois, escuro.


30.5.07

Fuga Morosa

O fato dela estar sempre com os pés fincados no chão e ter a cabecinha nebulosa guiada por microtempestades hormonais fez com que ele fosse de encontro aos barcos. Transporte mais moroso entre todos, até mesmo quando comparado a caminhadas aceleradas e bicicletas.

O barco era a fuga mais antiquada de todas. Além de ser um veículo moroso e popular, desarrumado, era facilmente alcançável, não possuía a velocidade sub-sônica e a distância global e definitiva dos aeroportos. Suas rotas eram previsíveis e escritas em cartazes gigantes fixados nas testas de madeiras curvas e paralelas.

Ninguém veio atrás dele. Nada mais previsível. Até mesmo o telefone móvel, cujo sinal ainda era claríssimo, não recebia qualquer ligação ou mensagem.

Rio acima, tudo era ainda mais lento. No teto do barco, área dedicada ao recreio, a música horrenda e distorcida tocava furiosamente e latinhas de cerveja jogadas no rio passavam pelo seu campo de visão. Cervejas suicidas.

Nos barcos as pessoas perfilam-se nas redes de pano e os seus corpos diversos ficam parecendo caroços. “Nem um poema, nenhúnico”, era o pensamento recorrente enquanto ele fugia para o centro do Estado. A palavra fuga era uma licença romanesca para a sua locomoção anônima.

Algumas pessoas portavam bíblias, outras catálogos de compras. Além do lógico bloco de notas, tinha consigo alguns livros cujo tema – tempo – era recorrente. Seria coincidência, se coincidência existisse.

“O que realmente me incomoda é essa incapacidade de dividir o tempo em fases encerradas. Portas que são fechadas para logo depois serem definitivamente esquecidas. Para ela tudo é um único bloco, todas as pessoas de todos os tempos ocupam uma mesma realidade. Espectros temporais influem no seu pensamento e causam um medo tão absurdo quanto o medo dos fantasmas fabulosos; opiniões equivocadas proferidas há anos têm peso de verdade recente dita em juízo. Essa incapacidade de esquecer o caminho desprezado da bifurcação foi o que me trouxe ao barco. Esquecer é natural, involuntário e humano. Uma dádiva tardia, quando comparada ao intelecto dos bichos.”

Os alertas sobre a escassez de poesia não obtiveram resultado. Ela perguntou se antigamente era assim, ou se ele sonhava que fosse assim. “Não, eu não vivi ou sonho que seja. Eu gostaria que fosse assim. Futuro do pretérito. Simples mesmo. Uma vontade calada, na maioria do tempo”.

Mais críticas e confusões temporais. Chegou mesmo a perguntar se ele havia bebido ou se algum romance o influenciara demais para ele estar falando aquelas coisas. Não disse nada porque a confusão verbo-temporal estabelecida não recisava ficar mais grave com sentenças arbitrárias e tendenciosas.

Então surgiu a quarta como as outras. Muitos barcos partem às quartas, dezenas deles.

As ruas do Centro fumegantes como sempre, apinhadas de gente feia indo não se sabe pra onde, empurrando-se umas às outras como se tivessem algo importante a fazer. Os contêineres foram retirados do pátio do porto. Tudo nele pareceu mais vazio.

Escolheu o mais vazio rumo ao centro do Estado. O com maior número de escalas em cidades pequenas e desconhecidas, as escritas em letras menores entre os dois extremos maiúsculos. Decidiu que após o quarto apito noturno, quando o barco ancorrasse em uma delas, desceria.

29.5.07

Juventude

Pessoas normais acham difícil serem más. Pessoas normais, quando sentem a maldade se acender dentro delas, bebem, falam palavrões, cometem violência. A maldade é como uma febre para elas: querem arrancá-la do corpo, querem voltar a ser normais. Mas os artistas têm de viver com sua febre, seja qual for a natureza dela, boa ou má. A febre é o que os faz artistas; a febre tem de ser mantida viva. Por isso é que os artistas nunca podem estar inteiramente presentes no mundo: um olho tem de estar sempre voltado para dentro. Quanto às mulheres que se juntam em torno de artistas, elas não merecem plena confiança. Pois, assim como o espírito do artista é ao mesmo tempo chama e febre, também a mulher que quer ser lambida por línguas de fogo fará ao mesmo tempo todo o possível para estancar a febre e puxar o artista para o chão comum. Portanto, é preciso resistir às mulheres, mesmo quando amadas. Não se pode permitir que cheguem tão perto da chama a ponto de resfriá-la.


(Coetzee, J.M. JUVENTUDE. pg 38)

25.5.07

Mate

Agora as águas alcançam as escadas. Apesar de tudo, o rio cresce sempre. Há dias eu andei à margem da praia feia. Tirei fotografias técnicas e tristes, específicas. Agora só é possível a caminhada subaquática.

Escada acima, nado solitário na piscina. A água limpa é só pra mim e o meu nado é razoável, à toa. Olhando pra cima: céu fosco onde erram alguns pássaros. Olhando pra baixo: ladrilhos brancos mais foscos ainda.

Quando a margem está seca, a praia permanece quase tão deserta de gente quanto quando está coberta de água. Exceto por alguns caminhantes errantes, como os pássaros acima.

Na primeira vez que estive na praia pensei ser ali um excelente lugar para ficar deprimido:
Aquela desolação natural manchada por pequenos barcos e balsas abandonadas, aquela margem erma oito da manhã. Apesar da paisagem, não consegui. Na verdade nem tentei. Meus pensamentos não raro são dispersos.

A praia de água escura alcança metade das escadas e, lá longe, engole um pouco o horizonte de areia branca. Sobre as mãos submersas, a tonalidade parece mate. Um rio mate, não um Rio Negro, seria. Mas não seria um nome adequado, Rio Mate. Desisti e mergulhei com receio.

De qualquer forma agora, assim, com os cotovelos apoiados nas bordas da piscina, é impossível não pensar na vida e em questões um pouco mais vastas.

São os minutos mais rápidos da semana. Os encerro com um mergulho expirante. O inverso só seria possível dolorosamente.

24.5.07

À Espera

Aguardavam o sol negro. Ansiosos, roíam os cantos das unhas um do outro. Talvez seja hoje, sinto falhas nele, nos raios dele... Sinto que o sol nosso pode de súbito emergir de dentro: A garota de tez pálida, suando frio sob a sombra, mantinha as mãos unidas às do companheiro, magro e concentrado, aguardando o sol negro.

Ali: O dedo indicador ruído umedecido de saliva indicava o princípio do fenômeno. Em minuto e meio tudo se tornou escuro e ambos experimentaram, pela primeira vez, a possibilidade iminente da felicidade comum. Subiram na árvore. Ela, fria, secava rapidamente.

Permaneceram abraçados, apoiados tortamente nos galhos, olhando para o sol negro. Abaixo, gritos de pânico dos que não entendiam o fenômeno. Os dois esperaram o cessar cada vez mais súbito que os levaria definitivamente depois de tanto tempo de espera. Tudo durou pouco tempo.

Após o retorno do sol hostil e fulgurante os dois não mais estavam. E com eles mais alguns milhares que, ao experimentarem a dissolução do irreversível, seguiram felizes para o lugar frio escuro e pacífico ao qual pertenceram sempre.


22.5.07

Zodíaco

Vivi três meses intensos com uma mulher que possuía fé cega no zodíaco. Menti meu signo. Inventei que era de peixes. E ela cada vez mais surpresa com a capacidade própria de me relacionar às galáxias. Quem dera eu fosse assim tão grande. Um milionésimo, ao menos.

Quando desatamos as coisas ela me disse que previra aquilo tudo, até em que horas seria. Três da tarde. Estranho terminar um enlace três da tarde. Hora em que a maioria trabalha. Mas era sábado, então meio certo. Piscianos, piscianos... ela disse. Coloquei dois livros na bolsa e disse a ela que não era de Peixes. Sou de Libra.

Ela ficou surpresa, assim meio incrédula: Mas como, mas como meu Deus! Mostrei a ela a identidade e ela confirmou minha idade atada ao alinhamento de certo planeta. Os olhos insinuaram lágrimas: Como você pôde mentir pra mim assim?

Enfiou a carteira no meu bolso e quase chorou em meu peito. Desistiu no momento exato, humilhada pela inépcia astrológica. Até mais, eu disse.

No céu havia uma estrela única, amarelofuscante.

A mulher também era de Libra.

21.5.07

Audrey


Audrey Tautou, originally uploaded by drimariano.

18.5.07

Linhas

Os dias começam mudos e seguem cercados de rostos anônimos, mormaço e janelas altas, refeições de mesmo gosto, apenas uma jarra de suco.

Os dias relevantes paralelos passam céleres e quando percebemos já é tarde e mais um pouco já é dia e esse amor intenso cúmplice que desconhece marasmo e final, amor de pupilas gêmeas. Amormotocontínuo.

Às vezes contemplo tudo de cima, literalmente de cima, e pouco tempo depois estou no meio de um caldeirão de anônimos; essa gente cansada daqui que nos deixa cansado da cara delas.

Imagino um estrangeiro e penso que teria vergonha dele: preferiria ir andando pelos caminhos bonitos. Mesmo correndo o risco da curva descampada que me distraiu e me fez pegar chuva. Aqueles gotões, sabe, onde só nos resta apertar o passo com classe para chegar logo ao ponto antes do final do dia.

13.5.07

Storytelling

Storytelling é um filme alternativo comum, com aquele ritmo moroso entrecortado por cenas chocantes, algo típico da Quarta de Filmes Alternativos ou do saudoso Cine Band.

O diferencial é que Stuart Murdoch, líder do Belle and Sebastian, é fã do diretor, Todd Solondz (que também dirigiu Wellcome To The Doll House) e, quando da produção de Storytelling, ofereceu os préstimos da sua banda para compor a trilha sonora do filme.

Inicialmente o filme seria um longa divido em três histórias, mas terminou ficando apenas com duas quando o diretor (não se sabe por quais motivos) resolveu retirar a história que falava sobre um jogador de futebol americano, o qual foi interpretado por James Van Der Beek, o Dawson.


As duas que ficaram foram Fiction, e Nonfiction. A primeira, mais curta, é sobre um casal de namorados que frenquenta um grupo de produção literária ministrado por um professor sombrio, soberbo e opressivo. Mesmo com tais adjetivos, a protagonista, interpretada por Selma Blair, se sente atraída por ele, apesar de toda a impáfia e frieza que ele possui ao criticar os seus textos e os de seu namorado. O motivo da atração não é assim tão simples e só é revelada em um clímax tenso e traumático.

A segunda história é sobre um produtor (interpretado por Paul Giamatti) que resolve fazer um documentário sobre uma típica família norte-americana tendo com objetivo expor a idiotice e o vazio nas relações familiares. A família tem o adolecente Scooby, um completo idiota, como o centro do seu vácuo existencial. A metalinguagem explora a crueldade do público e tem uma conclusão original e inesperada.

Mesmo com o formato mínimo de uma hora e meia, o diretor aceitou a colaboração de Stuart apenas em Nonfiction, apesar da banda ter trabalhado em canções para as três partes originais.

Uma atitude que só foi compreensível por uma possível receio do diretor ter as suas histórias ofuscadas pela qualidade de uma trilha sonora que, apesar de ter sido finalizada em treze canções, só ocupou seis minutos de filme. Tal complicação foi uma pena. Seria maravilhoso ver os peitinhos da Selma Blair com um tema delicado de fundo.

Exemplo da inadaptação entre imagem é música seria Wandering Alone, tema da empregada Consuelo, de Nonfiction. Mesmo sendo uma canção excelente, não consigo imaginá-la fazendo fundo para alguma das cenas patéticas protagonizadas pela empregada. Sob aspectos como este, a atitude do diretor foi compreensível.

O ideal seria haver uma economia sonora da banda de Stuart para se adaptar à simplicidade da produção; mas aí música seria descaracterizada, não seria o Belle & Sebastian e qualquer profissional poderia realizá-la. O corte foi o meio-termo e, realmente, a trilha realmente rouba a cena nos poucos momentos nos quais é executada, como em Scooby Driver, por exemplo.

Para não desperdiçar o trabalho que resultou em tanta música boa, a banda lançou a trilha disfarçada sob a forma de álbum, com a tradicional capa monocromática; O filme, até então motivação inicial, se transformou em complemento do álbum, emprestando alguns diálogos entre as músicas.

No final da contas, este meio-termo salvou as duas formas de arte: Storytelling, o fime, não á lá grande coisa, mas possui os seus momentos além da colaboração física da Selma Blair e do constante talento loser de Paul Giamatti; Storytelling, o álbum, apesar de atípico e um pouco disperso, também se tornou uma peça importante na irretocável discografia do Belle and Sebastian.

11.5.07

A Obsoleta Seção de CDS

O primeiro CD que comprei foi U2: Under a Blood Red Sky. Era final de 94 e os disquinhos ainda dividiam espaço com os LP´s.

Eu estava lá, quando os vinis saíram de circulação, e até hoje me arrependo de não ter comprado em tempo as edições em vinil de Monster (meu álbum preferido do R.E.M.) e, principalmente, do In Utero, cuja equalização original foi feita para ser arranhada com uma agulha.

O último CD que comprei foi Meds, do Placebo, ano passado. Depois dele, nenhum. Os outros ganhei de presente e presente sempre é bom.

Em 94, pensei muito antes de gastar 14 reais em um EP desconhecido. Depois desencanei e passei a comprar um CD seguido de outro, incluindo alguns importados, bem mais caros, como o Nevermind e quase todos do Alice In Chains, que custavam pouco mais de 20 reais. O mais caro, na época, foi o Death To The Pixies, duplo: 35 reais, um valor tão alto que só era justificado pela causa sonora. Quando percebi, tinha coleção.

Depois disso, com a subida do dólar e do anseio de lucro das gravadoras, o aumento de preço foi progressivo até chegarmos aos absurdos 38 reais em um CD nacional e 70 reais em um CD importado devido às óbvias desproporções de câmbio. Comprar CDS ficou praticamente inviável. Comprar caixas ou edições especiais, então, só com empréstimo bancário.

Ano passado comprei uma edição nacional do meu álbum preferido para dar de presente ao meu irmão mais novo mais velho e tive que morrer em abusivos 28 reais acompanhados de um adesivo cínico de “best price”, já que o preço normal seria 34. O meu Nevermind, na ativa até hoje, possui faixa-bônus (Endless, Nameless), um encarte que se abre em mini-poster e impressão tridimensional caprichada sobre a superfície do disco. A nacional, mesmo quinze anos depois da primeira edição, continua inferior em tudo.

Paralelo ao progresso abusivo do preço, veio o progresso dos programas e dos sites de hospedagem que, com uma conexão decente, tornam possível baixar um álbum inteiro acrescido de todos os lados-b que só eram encontrados em edições especiais ou EP´s de vendagem restrita. Com a compressão de arquivos, discografias inteiras passaram a caber em um único disco de preço inferior a 1 real. Depois de meses de limbo, mendigando promoções e ansiando por novidades, finalmente voltamos a ter acesso às novidades e aos clássicos até então indisponíveis. O CD, disco compacto em tradução direta, se revelou não tão compacto assim.

Após tantas e tão breves evoluções simplificadoras de mídia, os CDS “originais” deixaram de possuir a exclusividade da novidade sonora e passaram a ser objetos supérfluos, desprovidos até mesmo da atratividade visual e táctil que os LPS ainda hoje possuem. Comprar CD de artista célebre passou a ser capricho de colecionador; Comprar CD para descobrir se o artista é realmente bom passou a ser, com o perdão da expressão, coisa de otário.

As gravadoras, ao invés de correrem atrás do prejuízo, não diminuíram o preço ou negociaram com o Governo a diminuição de impostos. Se não bastasse, ainda criaram artifícios ridículos e burláveis que tentam restringir a cópia das músicas: basta você cruzar os dedos ao apertar o botão que pede que você jure que as músicas não irão sair do seu PC e tá tudo certo.

A justificativa das gravadoras de que a cópia das músicas compromete o bolso do artista é algo ingênuo: Apenas os que estão na casa dos milhões de vendas conseguem realmente tirar lucro da porcentagem ridícula de royalties que a venda de um CD dá a eles. A imensa maioria dos artistas tira o seu sustento de shows e de produtos relacionados. Eles mesmos afirmam isso.

Hoje a seção de CDS é um lugar anacrônico freqüentado em sua maioria por adolescentes empolgados ou por sujeitos que estão por fora das novas mídias. Além das pessoas que querem matar tempo esperando alguém ou não têm muito que fazer mesmo. Sempre passo por lá para dar uma conferida nos livros e nos DVDS que tentam tornar mais lucrativo o espaço e tento olhar as novidades, mesmo sabendo que elas não estarão ali.

Na seção "Lançamentos” ainda estão, entre outras desatualidades, o primeiro álbum do Artic Monkeys e um de lados-b do Oásis que são conhecidos há mais de uma década. O principal da nova produção musical está de fora e deve levar meses para aparecer, se aparecer (Black Holes and Revelations não apareceu até hoje), e outras jamais aparecerão.

Nas prateleiras de acervo permanecem os mesmos álbuns de sempre e os moleques apontam para as suas capas como se fossem figurinhas colecionáveis. Nas filas do caixa, a maioria das pessoas leva nas mãos livros, DVDS e CDS populares.

Para quem tem seletividade e bom senso, os disquinhos são como um pôster ou outro item supérfluo que com o tempo acumula espaço e poeira. Fora isso, eles não têm mais sentido: tudo o que nós precisamos pode ser descomprimido diretamente nos nossos ouvidos sem intermediários gananciosos.

7.5.07

A apresentação começou pontualmente às onze da noite, com a narração do nome de todos os integrantes da equipe técnica e, em seguida, com a entrada do trio que acompanha Caetano ao longo de todo o disco, Cê. As pessoas atrás, nas cadeiras e camarotes, pareciam recortes de cartolina.

A primeira música é a primeira faixa do álbum, "Outro", e Caetano alcança o microfone no momento exato do vocal. A música, circense, exibicionista e rancorosa, é seguida por "Minhas Lágrimas", a minha preferida, a que faz recordar Fante e outras imagens soltas. Eu e minha garota curtimos bastante, mesmo (por enquanto) só conhecendo o Atlântico.

Ao redor, ninguém parece conhecer a letra sobre a baixa Califórnia e uns desertos ilhados por um Pacífico turvo: as primeiras fileiras na pista tiram fotos e filmam tudo furiosamente e de forma inútil com seus celulares de baixíssima definição. O fundo do palco reveza entre tons de púrpuro e pequenos detalhes se relacionam sutilmente com as músicas: um foco representando a lua fica no alto enquanto "Um Sonho" é cantada. O público sentado permanece mudo e imóvel.

E permaneceu durante a apresentação inteira, tentando entender as distorções e as letras, como se tivessem entrado por engano no show de uma banda alternativa com um coroa estranhamente jovial à frente, cantando músicas sem quaisquer erros de regência.

Caetano dá a impressão de ter tirado férias de si mesmo, tanto pelo figurino simples quanto pela forma como circula pelo palco e dialoga musicalmente com o trio, cuja alegria de estar tocando com ele é explícita, apesar do jeito discreto. Várias vezes ele reforça os nomes dos músicos, deixando clara a idéia dos quatro serem uma banda, e não dos três serem seus músicos de apoio: Pedro Sá, na guitarra, Marcelo Callado na bateria e Ricardo Dias Gomes no baixo e nos teclados.

Mesmo assim, desencanado de si mesmo, Caetano faz algumas concessões ao público que pagou mais caro e dá a eles uma mão de canções mais célebres. Ouve-se um muxoxo lá do fundo: desde que o samba é samba na Avenida São João etc. Depois as coisas retornam ao rumo rejuvenescido: "You Don´t Know Me" e "Nine Out of Ten" (com uma levada ska no refrão que a torna ainda mais atual) são executadas com o fôlego exato de quando foram gravadas pela primeira vez. "Eu gosto de Transa e eu gosto de Cê", Caetano diz.

Grande parte do público deve ter se percebido obsoleto, passado pra trás por ele e toda aquela simplicidade inusitada e minimalismo nas canções, por todo aquele rejuvesnecimento e interação com o trio. Estagnação cultural deles, frente a um show excelente.

O cartaz é claro: o show é sobre o álbum novo. Direcionado não só aos fãs de sempre, mas também às pessoas que mesmo não sendo admiradoras de todas as épocas da produção de Caetano, gostam de boa música e deixam de lado antipatias em nome de boas letras cantadas à frente de um excelente power trio. Me incluo neste último grupo.

"Odeio", com seus versos estilo H. Miller e refrão discretamente catártico, continua sendo a música que ganha maior destaque; tanto que é reprisada no segundo bis, encerrando definitivamente a apresentação em meio a microfonias que são interrompidas de súbito. Caetano se perfila aos jovens colegas sorridentes e os quatro saudam a audiência, como toda boa banda de rock.

No caminho para o estacionamento eu e minha garota vimos dois casais de coroas levemente empolgados, cantando o refrão de "Odeio". Espero que, assim, como Caetano, eles mantenham a camisa pólo pra fora e encontrem o caminho certo para se libertarem da ordem cronológica estabelecida.


4.5.07

Cama Pública

Assim, encostado na parede de vidro (observem a expressão sonolenta), eu aguardava a curva lançar os veículos crescidos.

Uma senhora já no terceiro quarto da vida se aproxima e, junto a ela, um sujeito recém chegado a casa dos trinta fala frases alteradas, diz que detesta a tudo e todos e que tem contas a acertar com o irmão que trabalha em uma loja de departamentos.

Depois que o seu pai morreu, todos os amigos e familiares sumiram e agora restavam apenas ele e ela; a senhora com uma resignação materna, esperando um ônibus que os levassem embora pra estrada.

O homem disse que estava cansado, que precisava deitar um pouco. Em seguida, atravessou a rua e retirou de um saco plástico uma calça branca quase tão suja quanto a calçada sobre a qual foi estendida. O saco dobrado serviu de película entre o chão e a cabeça. Ele gritou a ela que lhe avisasse quando viesse o ônibus. Depois de deitado, cruzou as pernas, fechou os olhos e manteve no rosto uma expressão pacífica.


Um louco recente, manso, por enquanto. A possível mãe, que teve dores lancinantes para extirpá-lo de si agora chama a sua atenção, diz que eles acabaram de perder um ônibus. Ele levanta de súbito, como um cachorro, e diz que, se é assim, vai dormir ali mesmo, do lado do ponto de ônibus.

As pessoas feias olham umas para as outras com uma expressão néscia de dignidade percebida de súbito: "Ao menos eu não sou louco. Vou labutar o dia inteiro, mas não sou louco. Sou feio e ignorante, mas não sou louco."

Uma delas, olhando para a senhora, mantém uma expressão nojenta de compaixão e possui varizes que parecem filhotes de cobras lilases se aquecendo sob a pele.

Antes de deitar, o louco pergunta se a senhora trouxe os seus remédios. Sim, eu trouxe... A frase sai cansada, e no final não há “meu filho” ou qualquer expressão de carinho. Os remédios controlados estão dentro de uma pequena mala preta, projetada com cuidado para ser uma nécessaire discreta.


Quando ele reinicia a pantomima de preparar o chão para deitar sobre a calça, a curva, de súbito, lança um ônibus que serve pra eles. As pessoas, despertas da compaixão, reassumem a sua condição de macaco e se aglomeram na entrada do veículo, transformando a porta em um funil de corpos feios.

A senhora chama o louco. De súbito, ele se vê obrigado a deixar a sua cama (com elásticos que deixam o lençol branco plano sobre o colchão ortopédico) abandonada no ponto de ônibus e expressa uma dúvida sincera ao olhar para o chão.

Mas a sua indecisão passa em pouquíssimo tempo: Ele joga a calça imunda sobre o ombro e entra no funil, reintegrado aos outros sujeitos.


1.5.07

Os Reis

TESEU

Se és tão forte, prova.


MINOTAURO

Para quem? Sair para outro cárcere, já definitivo, já horrivelmente povoado com seu rosto e seu peplo. Aqui eu era espécie e indivíduo, cessava minha monstruosa discrepância. Só volto à dupla condição de animal quando me olhas. A sós sou de um traçado harmonioso; se decidisse recusar-te a minha morte, travaríamos uma batalha estranha, tu contra o monstro, eu te olhando combater uma imagem que não reconheço como minha.

(Cortázar, Julio. OS REIS. pg 67)