29.6.07

O Ceticismo Exemplar do Homem-Morcego


A leitura de Lanterna Verde: Renascimento me causou efeito inverso do que seria a proposta da série: detestei a figura de Hal Jordan e dei razão ao ceticismo do Batman.

Há dez anos, Hal Jordan incorporou a entidade Parallax — uma força maléfica ultramegapoderosa cuja principal diversão era eliminar Lanternas Verdes e que, empolgada, quase desfez e recriou ao seu gosto e vontade o universo criado por Javé.

Só não o fez porque o corpo espaçoso da Hal também abrigou o Espectro — uma entidade benigna que terminou vencendo o duelo interno com Parallax e, ao tomar as rédeas da consciência de Hal, fez com que ele começasse a consertar as merdas que tinha feito.

Não bastasse a confusão, ele ainda conseguiu complicar ainda mais a trama quando seu espectro do passado reaparece, anacrônico e saudosista, revisitando velhos amigos e materializando pensamentos antigos.

A estranha história de possessão e luta interna me fez relacionar a figura de Hal Jordan a um fiel de culto pentecostal versão turbo: Imaginem se um daqueles carinhas trêmulos com trinta e sete Parallaxes dentro da cabeça pudesse, de súbito, lascar o universo ou materializar cidades e hangares. Seria grave.


No outro lado da história, alheio a protagonistas e antagonistas energéticos, está o Batman. Humano, com os dois pés no chão e vestido de negro.

Na Liga da Justiça, Batman é a voz da racionalidade humana em uma mesa onde, entre outros, estão um kryptoniano, uma deusa grega, um cara que fala com peixes e um marciano. Como o Eric, da Caverna do Dragão, ele é o único que mantém o olhar pragmático e o foco racional dentro do absurdo e não raro essa racionalidade é confundida com soberba.

Primordialmente humano e com os seus traumas e defeitos isolados e acomodados sob uma roupa negra, Batman é o membro da Liga com maior racionalidade e, como toda opinião consistente, a sua é praticamente irreversível.

Quando olha a Terra na panorâmica orbital da sede da Liga, Batman enxerga uma grande Gotham cheia de sujeitos loucos e daninhos que precisam ser combatidos — A loucura dos seres é a mesma; assim como é o desprezo que Batman sente por eles. Assim como é o que sente por Hal e a sua instabilidade em forma de perigosos espectros.

Tanto é que quando o confuso e recém-desperto Hal Jordan retorna como Lanterna Verde, Batman o encara e diz que não confia nele; diz a ele que não espere que ele acredite nessa história de forças cósmicas exteriores quando o mais provável é que ele simplesmente quis que aquilo acontecesse da mesma forma como quis que não acontecesse mais. Batman pensa que, independente da grandeza e da complexidade do fenômeno, a vontade e a racionalidade humana deve sobrepujar a tudo. Está totalmente certo quanto a isso: todo ser instável merece como reação a dúvida constante.

Hal falhou antes, e por conta disso pôs todo o universo em risco quando a sua (até então julgada inabalável) força de vontade virou um tele-catch de entidades cósmicas; Talvez porque a sua existência humana, essencial, correspondia a um piloto boçal de aeronaves que quase fez com que todo o universo perecesse devido a esse cerne vaidoso.

Ao ser peitado por Batman, Hal se sai com um infantil “não dou a mínima” — uma frase infeliz do roteirista Geoff Johns que trouxe ainda mais insucesso à tentativa de tornar Batman o chato da história ao mostrar a superficialidade da reação de Hal Jordan.

De qualquer forma, permanece a cena onde todos os outros superseres (incluindo a tropa de Hal) ficam calados porque Batman e o seu ceticismo incômodo podem estar certos, mais uma vez.

Essa desconfiança imutável a respeito do caráter humano, seja ele um Hal Jordan ou um anônimo com múltiplos medos e humores, soma-se às outras características que tornam Batman meu super-herói preferido.

23.6.07

Férias

Opa. Férias, finalmente. Grande coisa, todo mundo tira férias, um leitor incauto e com remela nos olhos pode indagar por dentro e eu digo: grande coisa, realmente.

Meu caso com as férias não é só simplesmente não ir ao trabalho durante um mês inteiro; e sim deixar de fazer durante um mês inteiro todas os outros hábitos e atividades agregados a ele: Exercícios, atividades marciais contidas, corte de cabelo.

Não que eu não goste; mas falta tempo para as coisas legais, pessoais ou em par. Todas ficam espremidas no final da noite.

Então agora há o dia. O dia inteiro. E também há a noite porque também estou de férias da Faculdade de Letras Noturnas.

Coisa boa.

21.6.07

Sobrenaturalidade


Pressionou a campainha antiquada de som elétrico e ríspido. Teve como resposta um já vai abafado seguido de barulhos de tamancos de madeira sobre piso de madeira.


A mulher usava toalha. Banho interrompido de súbito, o pano mal contido sobre o corpo. Em tom quase agressivo, pediu a ele que não olhasse. Natural ela estar sem jeito. Às vezes as mulheres gostam de serem olhadas; às vezes não.

Ela voltou correndo curto para o banheiro entreaberto. Os pés escorregavam nos tamancos. Ladrilhada, a voz pediu que ele ficasse à vontade.

Acomodou-se no sofá cheio de babados e observou a sala antiquada. Achara que ali era apartamento dela própria, mas era quase fato que aquela ordem anacrônica condizia aos pais ausentes.

Uma estranha e recorrente confluência de sentimentos desregulados tornava a sua mão úmida e o seu peito levemente arfante. Já era penumbra tardia, sol passando das seis. Mesmo depois de toda as experiências adolescentes e tanta vida adulta ainda sentia nervosismo quando o encontro tinha propósitos claramente eróticos.

Foi à janela e olhou a rua vários andares abaixo. Observar a rua fluida, viva e atribulada, gritando sons de buzina, acalmou o leve descontrole em seu peito.

Finalmente a mulher apareceu: usava roupas de casa constrangedoramente mínimas e enxugava os cabelos. Um ato inusitado, como se ambos, quase desconhecidos, tivessem intimidade de alcova. Ela disse já volto e deu passos exibicionistas. Shorts, larga camiseta regata. Antes ela não queria ser olhada; agora queria.

Achara fabulosa a naturalidade com a qual ela discorrera sobre o ato. Dissera que para ela não era nada de estranho e não entendia como as pessoas tratavam algo tão banal como se fosse um desvio ou uma capacidade estranha como voar ou possuir combustão espontânea. A conversa terminou com a confirmação do encontro: a gente come alguma coisa e depois trepa um pouco.

A naturalidade da frase o deixou excitado. Disso não se livrara mesmo após tantos anos. Graças. E o pensamento que teve foi o inverso da opinião que escutara antes: pra ele aquilo era algo tão fabuloso quanto uma capacidade sobrenatural. Voar, quase.

Comeram torradas, beberam limonada. Comida áspera e ácida, comida leve. Depois passaram novamente à sala e conversaram amenidades antes dos beijos e abraços. A mulher tinha pele não-rígida, ainda úmida de banho, recendendo a sabonete cor-de-rosa. Pele com consistência de pão molhado. Teve vontade de morde-la. Mordeu.


19.6.07

Pense Bem

Uma tempestade exatamente ao meio dia. O ceú se fecha, cenográfico, e quando isso acontece, de súbito, só resta aos pássaros esconderem-se no subsolo.

A semana começou morosa. A barba rala pelo ralo e o dia esperando lá fora. Tudo muito rápido, mal dando tempo de ver as notícias de temática não variante.

E à noite ainda nos aplicam provas. Hoje foi curioso: na primeira aula houve uma prova e na segunda aula houve uma vídeo-aula que dizia não ser muito inteligente aplicar provas utilizando métodos e idéias idênticas às da prova feita na primeira aula.

Um colega fez a camaradagem de retirar o Conectiva Linux da minha cpu branca. Tentei me adaptar ao sistema, mas não consegui. Parecia de brinquedo, a interface. Ela sempre me remetia à imagem daquele computador de brinquedo da Tec Toy, o Pense Bem. Mínimo e antiquado, infantil.

Voltou o velho XP de sempre, de todos. E com ele, toda uma nova memória limpa, clara e repartida.

Instalei as coisas legais que faltavam. Entre elas, três discadores distintos porque passei a ter ojetiza do discador Positivo. Não adiantou muita coisa: continuo só conseguindo conectar depois da meia-noite. Sim, porque aqui a rede não cobre por uma série de motivos escusos e deixa o meu computador ainda preso aos anos noventa.

E o sono? Quase aqui, chegando pelos cantos dos olhos.


16.6.07

Factotum

Factotum encerrou a sexta que foi a melhor de muitas sextas que passei em muito tempo.

Sexta quase sempre é um dia cansado com a tarde muito curta e duas aulas afetadas e meia-boca de Literatura Portuguesa.

A palavra “factótum”, aportuguesada mesmo, significa “empregado que faz várias coisas ao mesmo tempo”, um “faz-tudo”. Os tempos mais difíceis de Hank dentro de uma vida quase toda composta por tempos difíceis.

De uma forma ou outra, não só os biscateiros, como também todo mundo acaba se tornando um factótum dentro da sua profissão, fazendo coisas que não eram para serem feitas dentro do que foi combinado e isso é o diabo porque as coisas mais importantes, o amor e a arte, sempre fica de lado.

Hank e os seus microcosmos... Hank é o loser mais foda que já existiu.

14.6.07

Casa de Festas

A casa de festas dividia-se em dois ambientes: o mezanino adulto e o subsolo infantil.

O mezanino adulto abrigava a festa comum, mesas, garçons. O subsolo infantil, disparado o melhor dos dois, abrigava um parque de diversões gratuito onde havia guloseimas e brinquedos eletrônicos.

Aniversário de um ano do garoto. Aquela consciência clara, perfeita e admirada ao observar as cores e pessoas desconhecidas querendo te pegar no colo, querendo agradar as tuas bochechas e cheirar os teus cabelos com cheiro de bebê e você nem imagina que tudo aquilo ali tem você como sentido.

Ele bate palminhas na hora dos parabéns e dá uns sorrisos lindos de quatro dentes. Os pais sopram discretamente, cada um por trás de uma orelha, e o ajudam a apagar a vela única.

Eu não lembro do meu aniversário de um ano, mas não acho impossível que ele não lembre, visto que os bebês de hoje (e ele, por certo) nascem com inteligência e percepções superiores.

O garoto é sobrinho e afilhado da minha garota, o que me torna por tabela um daqueles tios por afinidade meio distante, quando não idiota. Digo isso quando comparo aos meus: um usa a camisa pólo por dentro, anda com uma carteirona em baixo do braço, tem sotaque provinciano e conta piadinhas sem graça; outro não dá palavra e dos demais nem lembro.

Certamente eu reverterei a ordem e serei o tio por afinidade mais legal de todos, o cara que dá os conselhos e a referências certas e não força ser simpático ou íntimo da criança.

Enfim, foi tudo muito legal e positivo. A festa e a coisa toda. Depois encontramos os pais do garoto. After party. Um dos carros estava decorado com os balões remanescentes e abastecidos com as cervejas remanescentes. Bastante.

Ir ao congelador e pegar cerveja 0800 foi uma sensação distorcida e parecida com a do parque de horas antes.

12.6.07

Love Of Mine

A caixa estava repleta de belos conteúdos. Surpreendi-me, novamente.

É o que ela tem feito – surpreender-me – ao longo desses dias sem conta por mim, que quase não conto os dias, apesar de possivelmente estar de férias no próximo dia vinte e cinco.

Eu observo sem jeito os objetos tão relacionados a mim, mais uma vez surpreendido. Não, surpreender-me não é uma queixa, em absoluto: É sim uma alegria de nos ver cada vez mais significativamente apaixonados um ao outro com um simples trocar de presentes. É ver os nossos mesmos olhares, particulares como o conteúdo da caixa, cada vez mais profundos.

É o que ela tem feito: me tornado melhor a cada dia; ainda mais firme a cada primeiro tato de pé no chão em silêncio antes do dia ter início.

7.6.07

Duplos

Então existem dois corpos: Aquele que passa pela porta. Aquele outro que tu possuis em silêncio.

Aquele que tu possuis em silêncio não é o que acabou de sair pela porta: É um corpo imaginado, uma película luminosa sobre o corpo físico com vontade e idéias próprias – o corpo que tu possuis entre barulhos.

A película deste mesmo corpo, a imaginada em função do real, permanece dentro da casa. E depois dentro do peito. Ela só existe fora de ti quando o corpo que a originou está presente. Essa película também é quase física quando tu a simulas em silêncio ou observando ladrilhos.

A película dobrada, luminosa, divide lugar entre os teus pensamentos. Desconhece as tuas salas escusas, vive em um ambiente onde existe o melhor que esse teu cérebro diminuto pensou e criou até hoje; Habita o externo como se existisse e, por um longo momento, tu esqueces o corpo que existe, o que tem pensamentos próprios e transpira à tua revelia.

Então o corpo de destino desconhecido retorna. Bate à porta. Quando tu abres e o observa, a película ocupa o seu lugar novamente, desdobra-se entre o corpo e o teu peito, enriquecido com os teus pensamentos, dando mais sentido ainda ao corpo que agora ao pleno que está dentro de casa.