30.7.07

Coleta Seletiva


Assistimos a uma palestra sobre coleta seletiva de lixo. E o que deveria ser uma explanação simples de dados e especificações de cores (verde-vidro etc) terminou em tom incômodo e melancólico: A palestrante exibiu slides que contavam textualmente como será a vida em 2070 se a coisa continuar da forma que está indo: Entre outras quimeras, desertos e pessoas carecas tomando banho com óleo porque não existirá mais água potável para se usar à toa e os insetos continuarão cuidando do planeta a seu modo.

A palestrante, empregada da prefeitura, odiava lixo (plástico, principalmente) e, vez ou outra, não conseguia disfarçar o desprezo que sentia pelas pessoas que não colaboram com a limpeza; Pessoas que jogam pets em igarapés — palavra tomada dos animaizinhos ingleses para nomear os garrafas descartáveis de refrigerantes — a irritavam mais do que todas as outras.

Antes de encerrar com os slides (com uma sonata de Chopin como música de fundo), ela mostrou uma lista do que se recicla e do que não se recicla, várias vezes com o mesmo tom irritadiço ao falar sobre a ignorância dos que não sabem cuidar do próprio lixo.

Lembrei das pessoas nos barcos que chupam laranja e jogam o bagaço embaixo da rede; Lembrei de uma vizinha estúpida que todos os dias molha a sua calçada e a sua porção de rua com água de poço artesiano. Imaginei punições para elas no estilo daquele juiz norte-americano que aplica penas alternativas como obrigar a passar uma noite no mato, sem comida e sem abrigo, uma garota que abandonou no mato gatos recém-nascidos.

Esse pragmatismo divertido baseado no constrangimento seguido de trauma certamente funciona para evitar a repetição de um ato estúpido; mas não é o caminho: entre um homem vestido de frango e um homem esperando uma lâmina para retribuir o seu ato violento, o caminho é curto e a lógica, apesar de distorcida, é a mesma.

Melhor preferir não fazer, não jogar, não desperdiçar, não praguejar e não pensar que 2070 teoricamente ainda está na minha possibilidade de vida.

28.7.07

Vampiros Russos


O filme possuía tudo, mas tudo mesmo para ser fantástico. Vampiros russos e outros seres sobrenaturais ridículos — quando comparados à nossa realidade ridícula — mas muito mais interessantes do que os banais, mesmo atuando sobre aquela luminescência simulada que causa divertimento e espanto.


Lembrar de filmes e esquecer de fatos reais e vice-versa não são pontos contrastantes. Tudo é uma recepção mesma. Tudo é luz entrando pelos olhos que modifica pulsações e tenta se alojar no cérebro. Tudo é uma recepção que às vezes escapa pro peito. Solipsismo. Lumière.

Se for em três dim
ensões ou não, não importa: Qual a diferença? Qual a diferença entre atores chapados sob o vidro e pessoas chapadas sob um vidro próprio? Qual a diferença ente personagem e personagem?

Havia uma cena muito bem filmada: o vampiro russo identificando seres maléficos bem ali, no meio do metrô, com um artefato simples: uma lanterna daquelas baratas e prateadas com uma lâmpada mais barata ainda modificada para ser mágica, para focar e destacar apenas o que é maléfico.

A cena escurece de súbito e o foco intensifica duas criaturas que se fingem de humanas. O vampiro age e a cena pede que a ele se atraque aos maléficos: gritos, lutas, fumaça e mesmo assim todos os seres comuns continuam alheios a tudo. Esse filme tem tudo, mas tudo pra ser muito bom, penso.


Engano. No final tudo se perde. O tal do roteiro (existe algo mais feio e insosso em aparência do que um roteiro?) se perde no final. Faltou talento e recursos. Faltou criatividade. A sensação final é a de quase logro, embuste.

Mesmo assim, de qualquer forma, o filme mal realizado ainda se mantém como exemplo: potencialidades falsas amontoando-se em uma fila do setor de empatia que quase nunca abre as portas; cenas em potencial que findaram ridículas por terem sido mal dirigidas e encenadas, personagens inúteis... Enfim... Frases vagas e mal escritas encerradas provisoriamente com reticências... E nada mais resguardável e falso do que uma interpretação que necessita de reticências para tentar criar algum mistério. O verdadeiro mistério deve ser escrito a seco; assim como a verdadeira tragédia e o verdadeiro terror.

Sim, talvez o diretor não quis fazer um filme literal sobre criaturas da noite; e sim criar uma metáfora sobre o insucesso das relações humanas, sobre as falsas potencialidades. Mas claro que não foi isso. Ele quis ser criativo, renovador e vibrante e o que conseguiu foi um resultado medíocre: você termina o filme e, em silêncio, torce para que a conta de luz do produtor e dos roteiristas esteja atrasada.

E, principalmente, lamenta que um filme tão barato e mal realizado (apesar de bem-intencionado) sirva de metáfora perfeita para relações humanas falidas que, em dinheiro e praticidade, não valem um doze avos da pior cena do filme.

18.7.07

Woody and Scarlet

15.7.07

Nariz Assimétrico

Passou por uma casinha antiga que possuía aspecto de purgatório. Várias pessoas, jovens em sua maioria, mastigavam um estrangeiro ridículo para cantarem músicas sem sentido.

Os jovens não eram os piores, os velhos eram os piores: velhos irreversíveis ou ainda tornando-se. Assim como ele, tornando-se velho. Tornando-se, não ainda. Ainda falta muito para se tornar um velho.

A cena era triste, de certa forma. Humanidade, essas coisas. Há muito não fazia sentido continuar tendo fé na raça geral dos homens. Mesmo assim não nutria qualquer raiva ou desprezo. Era uma desistência, apenas.

Entre ele e o coroa balançando a cabeça em frente a uma caixa com som extravasado havia uma barreira irreversível. Eles nunca se falariam, jamais gostariam ou mesmo simpatizariam um com o outro. Olhou ao redor e viu quantas mais não precisariam de tal contato mútuo.

Muitas. Exceto a garota de nariz torto, branca, de uma palidez quase impossível para alguém que desce no ponto de ônibus e traz agregada a si toda a rotina do povo pobre, irremediavelmente exposto ao sol e com os braços e o rosto marcados por ele.

Ela não, era uma mulher branca. E as mulheres eram o único motivo de impulso social que possuía. Totalmente atrelado ao impulso erótico, mas ainda assim um impulso social. Teve a idéia boba de que ela não devia usar roupas íntimas porque, se usasse, elas fariam uma marca negativa, mais escura que a pele exposta. Pensamento ridículo. Olharam-se. Pouco depois, ela caminhou em direção ao balcão de azulejo gasto no qual ele estava encostado, paralelo.

O nariz, torto e branco, era quase a conseqüência de um acidente. Possuía personalidade à parte: Um nariz com um corpo emprestado, engastado e ele, nariz. Enquanto aguardava, a garota sorriu para ele. Braços finos, unhas roídas, peitos que já alimentaram um mamífero. Um cardigã preto tornava a sua figura ainda mais alheia ao clima e à rotina que todos na cidade estão submetidos.

Um sorrisinho. Sim, havia uma boca. Bastante perceptível, até. A confusão estética entre o belo e o exótico cuja conseqüência era o atraente. Ele estendeu a mão e, segundos depois, ambos conheciam os nomes próprios e tinham idéia vaga do cheiro do rosto um do outro.

Uma barreira irreversível a menos, apesar do desequilíbrio em relação ao geral, sempre era algo positivo.

12.7.07

Renton


— Sr. Renton, o senhor não tinha a intenção de vender os livros?


— Nem. Quer dizer, hã, não, Excelência. Eu pretendia lê-los.

— Então o sr. lê Kierkegaard. Fale um pouco sobre ele, sr. Renton — pede o viado arrogante.

— Eu me interesso por seus conceitos de subjetividade e verdade, particularmente por suas idéias a respeito de escolhas; a noção de que as escolhas genuínas surgem da dúvida e da incerteza, sem recurso à experiência ou ao conselho de outros. Poderíamos dizer, com certa propriedade, que é uma filosofia existencial primariamente burguesa, e que assim busca minar a sabedoria coletiva da sociedade. Entretanto, é também uma filosofia libertadora, pois quando tal sabedoria coletiva da sociedade é negada, as bases que justificariam o controle social sobre o indivíduo são fragilizadas e... mas eu estou me alongando — calo minha boca. Esses caras odeiam espertinhos. É bem fácil acabar pegando uma fiança maior, ou até mesmo uma porra de uma sentença mais longa. Demonstre respeito, Renton, demonstre respeito.


(WELSH, Irvine. Trainspotting. Pgs 169-170)

11.7.07

Ranulpho

Eu deitado em seu colo, e meus cabelos são uma massa densa, moldável. Massageados antes, só que com água e sabão. Punk entre os ladrilhos úmidos. Pós-punk deitado na cama, assistindo filme.

Árido-movie preso sob a tela. Seco. Nacional com legendas porque não queremos perder os diálogos: Toda aquela coloquialidade como se os atores fossem de fato os personagens e não soubessem que estão sendo filmados. Como se não houvesse câmera. Mais ou menos como aqui, a gente.

Grande Irmão, aqui tudo é macio e eu não me importo. A sua Grande Irmã nos possibilita muitas coisas, mas talvez a sua grande utilidade tenha sido a de me ensinar a fazer um nó (simples) de gravata. Ok, nó pronto e ajustado, mas não sei se o nó é legal. Procuro referências seguras nos livros. Olho uma: Borges. Então o nó está perfeito. Mais uma vez e mais outra. Pronto.

O nó é pequeno, menor do que eu. Alegria silenciosa é ver alguém menor que a gente.

A frase me faz voltar a pensar em Ranulpho e toda a identificação universal com a narrativa-romanceada. Incômoda, lógico; senão não seria existencialista: Ranulpho acha o seu povo incômodo e mal-educado e sente sem jeito quando se vê forçado a dizer depois de uma lacônica dialética germânica que, sim, também pertence a ele, ao seu povo, só que mais ou menos.

Ranulpho é a prova de que o não-pertencer, de que a insatisfação transcendente e de que o gosto pelo físico e pelo existir, apesar dos percalços, deve ter como conseqüência, sempre, a busca pelo melhor e que esse melhor deve ser proporcional à paixão de cada um.

Serzinho universal, personagem, perfeito e bem construído, esse Ranulpho: Quando todos nós, incluindo eu (com meus cabelos já secos há muito), achamos que ele irá fugir de seu povo em busca de um melhor, mesmo que fugitivo, ele vai contra a ordem.

Ir contra a ordem pretensamente lógica quando se tem uma certeza (daquelas certas mesmo) é primordial porque sem certezas — mesmo que controversas, porém essencialmente próprias — não se é devidamente existencialista como o Ranulpho, que não dá a mínima pro Norte.

9.7.07

Happy Birthday, Luv!


russian dolls, originally uploaded by bumblebum.

8.7.07

Fungos

Lembrei dos alimentos sobre a pia da cozinha. Congelados na sexta. Não sabia como estariam agora, ao meio-dia de domingo. Desde sexta não paro em casa. Quer dizer, paro, mas não na minha.

Nada mais agradável, estar fora de casa. Os alimentos estariam fúngicos ao extremo, por certo. Um verdadeiro universo silencioso e crescente tornando branca a superfície da comida.

Feijão, arroz, carne moída. Tive um receio bobo de encontrar qualquer outra forma de vida sobre a pia. Ratos curtindo o domingo, rolando sobre o arroz ou, pior, uma criaturinha semiconsciente feita de pedaços de carne moída, chorando como uma mandrágora, e essa criaturinha me tornaria surdo e tomado de pânico.

Encontrei apenas o silêncio de sempre e o cheiro de casa fechada. Sobre a pia, receio, apenas os pontos brancos, nem cheiro desagradável ainda. A limpeza disfarçou a entropia que me causara asco e receio imaginário. Limpo, o domingo.

3.7.07

Doze Horas de Fumaça

Fumaça aqui. Dia inteiro, quase. Então me pergunto, onze horas: por que as pessoas queimam coisas? Algum tipo de prazer tendendo ao sexual, por certo.

E não é a isso que se resumem os macacos? O fogo sobe e sobe e é bom; e quando se vê que a coisa está fora de controle eles inventam uma voz com reverb que diz “foge, macaco, foge! Disca um nove dois e diz que a culpa não foi sua... Eu te protejo do fogo”. E depois, risos nervosos invisíveis.

A fumaça invadiu minha casa mesmo sem que eu a abrisse e eu fiquei chateado com isso. Achei invasivo. Fico chateado com qualquer coisa invasiva. Tem que avisar antes, tem que avisar. E o que vale para o sólido, também vale para os outros estados: Vale para a água, o gelo, a fumaça e os fantasmas, que valem menos do que fumaça de mato comum, seco, quase igual àqueles que os macacos fumam.

Mesmo horas depois, quando precisei sair de casa para ir ao Centro, ainda avistei um mini-carrro de bombeiro. Picape vermelha para proteger os macacos do fogo. Tamanho sol abrasivo e todo o conjunto habitacional ainda assim enfumaçado. Neblina infernal, pensei. É oficial: estamos no inferno — concluí quando passei por feíssimos exemplares que, juro, não poderiam pertencer ao mundo dos vivos.

Quando voltei, no bairro do lado, onde desci do ônibus, não havia fumaça, apenas barulho: Pessoas louvando aos berros. Bastante sensato, se considerarmos que o invisível poderoso tá lá longe. O suficiente para não sentir o cheiro da fumaça que agora eu sinto. Mesmo assim, com toda essa guturalidade bem-intencionada, não deixo de considerar irônico alguém que nega o criacionismo exercer a sua divindade pulando como um vigoroso macaco madagasquenho.

Agora é noite. As mesmas onze horas de antes, só que escuras, e o cheiro de fumaça permanece. Ela vem do quarteirão ao lado e entra no meu quarto, ameaçando entranhar-se nas minhas cortinas azuis. Sorte que são protegidas.