31.8.07

Quase, quase.


Mês complicado é esse, agosto. Vá, desbastado, e não mais volte.

Farei questão de aguardar a meia-noite para ver o ponteiro pender para o outro, setembro: O ponteiro fazendo barulho expressivo, como naqueles filmes sobre ginásio norte-americano.

Bye bye, eu direi. Não mais volte.

Nada de trágico ou problemático, graças. O problema é a morosidade mesmo. Eita mês que barrou até janeiro: também considerado moroso e chato mas que ao menos carrega certa leveza de ano novo e ainda no quarto se espalham presentes. Já nesse agosto quase no fim nem feriado tem ao menos.

Então depois da meia-noite a balança penderá, finalmente, para o fim do ano. Ainda haverá um leve esgotamento físico pelo sete de setembro, mas não há de ser nada, não há de ser nada.

Tudo agora, dias, vira ladeira descendo.

25.8.07

Juventude Sônica

No endereço Tokyo Eye você encontra toda a discografia do Sonic Youth.

PLUS os eps, singles, lados-B, performances ao vivo e trabalhos solo.

Você começa a entender a coisa toda com o tempo.

Monstros.

18.8.07

O Pequeno Quadrado Branco


O pequeno quadrado branco de plástico posto contra a luz: Uma pequena luneta sem lente de aumento com uma fotinha dentro, espontaneamente tecnicolor. Os dois personagens pareciam antigos mas não eram, eram de agora e sorriam.

Ao contrário dos artifícios digitais das máquinas do centro de compras, a fotinha dentro da luneta foi realizada em tomada única. Sem correções ou preocupação com enquadramento. Um contratempo que tornaria a foto semi-cômica era bastante possível mas não aconteceu. O casal saiu belo ao extremo. Um sorriso aberto daqueles.

Agora observa a mini-luneta e vê como os dois permanecem felizes ali dentro. Aquele tempo preso miniaturizado. Esqueceu que dia era hoje mas tem memória clara do gosto do sorvete do dia da luneta-miniatura. Que coisa, esses arranjos de memória.

E ela está ou não está? Está.

Certa raça de mulheres não envelhece. E a sua pele negra, e a sua pele negra mais bela entre todas as peles de todas as cores. Os dentes imensamente brancos, destacando-se mesmo ali, em miniatura, e os peitos que veria horas depois da fotografia.

Então ele irá até lá novamente e a encontrará mais palpável do que nunca. Certa raça de mulheres não causa cansaço além do físico previsto e necessário e prazeroso e a raça de ambos está devidamente descrita nos livros:

Tu e ela (diz o livro) estarão assim mesmo presos nessa alegria — e isso não será loucura não, filho — e tu e ela viverão assim pra sempre porque só existe uma vida e quando uma vida de um acabar não será mais vida então será pra sempre. Essas coisas aí, filho, de invisibilidade se movendo em força, não existem.

Fecha o livro. Que ano é? Não importa. Fecha os olhos e tateia até o quarto. A canela margeia toda a borda da cama. Os dedos tateiam o lençol e sentem a pele negra do corpo ao lado, já adormecido. Que corpo é esse, meu deus que não existe...Organismo vivo.

A toca e recebe como resposta uma respiração profunda. É feliz.


17.8.07

Quatro Vincos até o Hálux


Ela usa sapatos de salto alto que deixam oito pequenos vincos expostos.

Em inglês, dedo do pé é diferente de dedo da mão. Um é toe, o outro é finger. Os dedos dos pés e das mãos pertencem a países diferentes. Tudo é muito definido.

Aqui não. Aqui tudo é dedo. Isso causa uma ambigüidade divertida, gostosa: “Ela enfiou dois dedos na minha boca” não possui qualquer limitação de interpretação além do puritanismo de cada um.

“Ela enfiou dois dedos na minha boca e os dedos tinham gosto de chiclete por causa da sandália cor-de-rosa, só que um pouquinho mais amargos”. O português possibilita que você crie uma pequena incerteza antes da ouvinte se contorcer com asco infundado ou dar um sorrisinho safado.

Hálux, o primeiro pododáctilo: é o nome do dedão do pé que encerra a curva que parte do mindinho e que, senso comum, deve ser harmoniosa, sem disputa de tamanho, desunião ou mesmo desrespeito à evolução quando o segundo pododáctilo (o vizinho do dedão) toma a dianteira e se insinua como uma cobra.

Uma estranha lei do comportamento faz com que as mulheres com os pés mais feios façam maior questão de deixá-los à mostra; desunidos, desproporcionais, cobertos com poeira branca. Existe ali uma beleza errada, um exibicionismo sem sentido com esmalte descascado.

Os harmoniosos, como os da minha mulher, quase sempre estão protegidos sob sapatilhas incolores. Alguns dizem que, por serem perfeitos é que eles estão sempre protegidos; Outros atribuem a perfeição dos pezinhos a essa proteção:uma adaptação do segredo de Tostines à arquitetura dos pés femininos.

Já provei algumas marias, mas até hoje nenhuma que tivesse os pezinhos com o gosto dos tais biscoitos.


15.8.07

Rumo ao Centro do Interior do Estado





















As missões surgem quase sempre com pouco menos de um dia de antecedência para nos prepararmos e sem previsão de duração. Na dúvida, marcam tudo para muitas horas mais cedo.

Três e meia da manhã, chuva e dó de deixar o calor da cama. Antes do sol nascer já estávamos no porto do Ceasa que não é porto porque é apenas uma ladeira que termina no rio e onde ancoram balsas que levam cargas e pessoas ao outro lado, Careiro, lugar até então desconhecido por todos: o motorista, eu e os três caras não sei se técnicos ou engenheiros.

Confusão na entrada porque alguns cretinos queriam furar a fila dos veículos. Tudo se atrasa uma hora e meia, tempo que seria crucial no final da noite e nos faria voltar além do tempo imprevisto. Resolvido o imbróglio, acompanhamos o andar moroso da balsa com o sono torto no banco da picape.


Os técnicos ou engenheiros se escoravam e dormiam, reclamavam da demora e do desconforto e se comportavam como mestres de uma gincana: Apenas quando chegávamos a certo ponto do trajeto eles, apenas após indagados, diziam qual seria o próximo.

O nosso objetivo, meu e do motorista, era acompanha-los estrada a dentro para fazerem levantamentos. Depois da primeira balsa, cruzamos todo o Careiro, 100km de extensão, e ainda pegaríamos mais duas balsas distantes 100 Km uma da outra. As três parcelas de 100Km, somente na ida, levaram quase quatro horas para serem concluídas.

Entre as pausas para esperar as balsas menores, os técnicos comiam biscoitos e comidas enlatadas. Comi o pior sanduíche da minha vida: salsicha em conserva enrolada num pão de forma seco com um leve gosto de óleo diesel. Os caras reclamavam da floresta e do calor, reclamavam da estrada esburacada que transformou a nossa locomoção em rali. Eu e o motorista, resignados há muito, nos entreolhávamos e vez ou outra aceitávamos um dos enlatados horrendos ou um waffle de chocolate.

A penúltima balsa foi atracada por um cara negro totalmente ensaboado, coberto por espuma branca. A última balsa atracou no próprio vilarejo, finalmente revelado como ponto final. Sem dar muitas satisfações, os técnicos saíram para fazer medições na mata. Eu e o motorista permanecemos na viatura branca.


O vilarejo era uma espécie de tribo evoluída onde os moradores passavam a tarde de sábado à toa, na rede, sem dizer palavra. O fio da rede elétrica terminara 100Km antes e a música popular que saía da taberna vinha de um rádio à bateria e o refrigerante da taberna se mantinha gelado porque fora conservado em isopor com gelo.

Era dia de festa, e um transeunte nos perguntou se tínhamos visto o “caminhão da festa”; o que traria gelo, bebidas e cantores. Dissemos que sim, que ele estava atolado algumas dezenas de quilômetros antes e que não pudemos fazer nada porque nada poderia ser feito: homens totalmente cobertos de lama enfiavam pedaços de madeira para tentar calçar o lamaçal e desatolar o caminhão forte e anacrônico.

Em seguida, uma senhora empática se aproximou e perguntou o que estávamos fazendo ali. Tentamos passar a ela o pouco que os técnicos haviam comentado e ela ficou empolgada porque eu e o motorista representávamos uma instituição e logo pediu que fôssemos a um tapiri mais à frente onde estava o representante do prefeito.

O subsecretário ou cargo do gênero mesmo estando ali no meio da floresta onde todos usavam roupas de casa, vestia roupas sociais e passava gel nos cabelos. Ele nos perguntou se dessa vez a estrada seria realmente concluída. Dissemos que sim, com certeza, e ao vermos os olhares sorridentes nos descobrimos na posição inusitada de portadores de boas-novas.


Voltamos para a picape e mantivemos as portas abertas para circular o vento enquanto esperávamos os técnicos terminarem o seu levantamento misterioso. Uma garota pequena, quatro cinco anos, encostou na porta e ficou nos olhando alguns minutos sem dizer palavra. Perguntei o seu nome. Daiana, ela disse, depois de um tempo.

Daiana tinha os cabelos desgrenhados e queimados pelo sol, vestia uma camisa velha da rede pública de ensino e tinha uma tatuagem de chiclete grudada no meio da testa. O motorista perguntou se as crianças dali estudavam, se ela estudava. Com a mesma demora ela respondeu que sim, que estudava na Escola Municipal Duque de Caxias. Qual série? Primeira. Sabe ler mesmo, Daiana, de verdade? Sei sim — e só aí saiu o primeiro sorriso, curto e envergonhado.

No seu braço pequeno também havia inúmeras tatuagens de chiclete e, ao olhar mais à frente, vi que algumas crianças grudavam tatuagens umas nas outras. De volta ao silêncio curioso e infantil, Daiana permaneceu nos olhando até que passou um homem feio, seu pai ou avô, e a repreendeu dizendo que deixasse os homens em paz, que deixasse de ser apresentada. Mesmo constrangida, ela ainda permaneceu encostada à porta por mais algum tempo. Eu disse a ela que não ligasse para os comentários. Ela não pareceu dar a mínima para o meu conselho. Em seguida, retornou para o grupo das crianças.


São Sebastião, aquele santo retratado com aparência afeminada, todo perfurado por flechas, dava nome àquele lugar de fortes, distante e íngreme. Lá em São Sebastião havia mais de oitenta crianças, um senhor nos disse. População total ele não sabia ao certo. Sempre tem alguém indo e vindo, sempre tem um novato chegando. Novato — termo curioso que eles dão aos forasteiros que ali decidem morar. Não sei se eles consideraram a mim e ao motorista como forasteiros, estrangeiros, novatos.

Espero que não. Tenho uma empatia espontânea pelas pessoas do interior do Estado. São o meu povo e eu me incluo nele de uma forma irreversível, apesar das diferenças. Tenho por eles respeito desprovido de qualquer dó repulsiva pelo fato deles estarem tão longe de tudo somente porque uma empreiteira suja não concluiu a estrada mesmo tendo recebido todo o dinheiro. Milhões da União que se fossem divididos entre cada um dos habitantes de São Sebastião (incluindo as mais de oitenta crianças) traria a eles todas as possibilidades do mundo.

A esta altura, já tinha diminuído bastante a minha irritação pela morosidade dos técnicos. Eles retornaram com as suas tornozeleiras anti-cobras e as suas trenas e mochilas-camelo e disseram que por ali o trabalho estava feito. Ainda os acompanharíamos em outras medições, bem menos interessantes, que nos tomariam todo o sábado e metade do domingo.


Alguns moradores deram adeus quando partimos na balsa. Retribuímos. Alguns quilômetros à frente, o caminhão da festa passou por nós e os seus passageiros deram gritos de alegria.

5.8.07

Mais Uma Nota Sobre a Falência


Os operários abriram uma grande reentrância por todo o meio-fio e dentro dela soldaram grandes tubos metálicos e depois colocaram a terra de volta.

Sobra a terra que corresponde ao volume que agora esta lá dentro, tubo, através do qual passará água. As ruas ficaram com essa grande faixa de barro exposto, como se o meio-fio estivesse prestes a receber um canteiro central desproporcional.

Não haverá canteiro, e sim asfalto reposto. E nesse meio-dia, domingo, todo o pó desterrado criava uma atmosfera desértica em plena rua principal. Poeira entre os pés e as sandálias; poeira passando por baixo da porta da sala e ocupando o sofá.

O conjunto habitacional regredido a quase deserto. O nome, Hiléia, significa floresta e o que vejo e sinto é poeira e calor e isso me remete a deserto. Fajuto, mas deserto. O conjunto habitacional faliu.

Todos os outros conjuntos progridem como tempo, mas aqui ao redor parece acontecer o inverso. Tudo cada vez mais feio. Gente e cachorros que latem intermitentemente. Animais que ouvem música ruim em volume alto e parecem ignorar a poeira.

Chego ao ponto de ônibus e o cimento das calçadas parece ter rachado há pouco. Sentados em um banco de concreto estão uma velha e uma criança que são um passado e um futuro de uma resistência e uma abnegação que jamais terei e não quero. Temo, na verdade. Entre os dois há um pacote de frango assado.

Quando ouve o barulho do veículo já ali próximo, a velha meio que tateia cega o embrulho e a mão do garoto e me pergunta se aquele ali é o zero quinze. Eu reduzido a órgão, olhos, e nem tão bons assim, digo que não, não é. Ela senta e reassume a posição de antes.

O veículo serve pra mim. Ele me tirará dali. Ele, promovido a indivíduo, me fará esquecer a poeira e a falência do conjunto habitacional por algum tempo.

3.8.07

Heather


speculate, originally uploaded by Heather Corinna.

2.8.07

Classificados


Os pulsos eletrônicos em forma de números sob a telinha, o seu mercado financeiro particular e de orçamento curto. Mercado financeiro com o tempo de vida de uma borboleta ou de uma mosquinha da banana.


Frente à máquina, três garotos, um após o outro, experimentam o constrangimento ao verem a frase “saldo insuficiente” aparecer de súbito e monopolizar a tela. Frase desagradável como uma outra, “game over”, só que agravada por ser real.

“Sem grana não tem jogo, bebê”. Era preciso estar com saldo positivo para amainar as necessidades do corpo. Coisa do diabo, isso de vontade sempre. Diabo porque você nunca resolve por si só: Por mais que tente e tente, para o desafogamento pleno é preciso do outro, e o outro, como todos de bom senso sabem, é o inferno.

Os nomes no final dos classificados são o inferno e ele se remói em despossibilidades. Se não bastasse, ainda existe a coincidência irônica de ouvir alguns homens lendo os mesmos anúncios que lera antes, só que não ali, na fila do banco: recém-chegada, boquinha de veludo, 35 reais, discrição, fantasia, etc. “Vamo chamar uma dessa, cara, vamo mermo, vamo”. E os homens riem, sem qualquer vestígio de seriedade ou culpa.

Então era isso. Alugam gente como se aluga casa ou apartamento. Alugam carne, na verdade. Comem carne no almoço e o animal delicioso morreu com os olhos tristes, sem entender coisalguma da vida além do alívio que sentia quando montava em uma fêmea de cheiro intenso. Os homens são como os bichos, só que um pouco mais relativos.

Os homens deverão encontrar a mulher dos classificados. Receberam hoje alguns montantes de trinta e cinco reais e estão com os cabelos recém-penteados e recendem a sabonete barato e os braços não conseguem esconder vestígios de pó de cimento e as carnes das suas mulheres perderam o gosto há muito.

No quarto, eles verão as suas carnes e ainda darão arrotos com gosto de carne porque comeram muita carne no almoço e mais um salgado oleoso cheio de carne dentro antes de irem ao banco verem os dígitos sob a tela e a mulher de carnes que custam 35 terá um fogão de 2 bocas e uma panela cheia de carne e pelo preço módico de 40 reais todos comerão carne nevrálgica depois do prato principal de carne cheia de terminais nervosos e os dois sairão do quarto com cheiro de carne e dando arrotos de carne ainda mais fortes.

“Ela tem local, trinta e cinco... Acho que é negócio”. Pelo tom inferior de voz dos dois, tal ficção inferior sua era bastante possível.

Viram-se e perguntam se ele tem uma caneta para circularem o anúncio. Ele diz que não, apesar de ter duas na bolsa.