29.9.07

As Pessoas Que Querem Se Formar de Qualquer Forma


O auditório da faculdade onde estudo vez ou outra é ocupado pelas pessoas que querem se formar de qualquer forma.


A presença da turma com o grau quase colado é fácil de ser percebida: logo na entrada, ao lado das roletas eletrônicas, fica um cabide com várias becas e no banco à frente algumas pilhas daquele chapéu ridículo que se usa com a beca. Conforme os formandos chegam, escolhem a que melhor lhe encaixa nas formas e seguem para o hall do auditório.

O hall do auditório é apenas uma circulação de menos de três metros de largura que é a única ligação dos alunos do meu pavilhão com as salas de aula.

Sendo assim, somos forçados a passar pelo meio daquela semi-cerimônia e precisamos nos esgueirar das câmeras fotográficas e ter cuidado para não pisar nos panos decorados na frente dos quais os formandos abrem sorrisos e posam com familiares e colegas preferidos.

Não raro os alunos não-graduados precisam esperar os fotógrafos conseguirem a pose ideal para poderem seguir com os seus salgados da cantina, com as suas fotocópias de apostilas, com livros da biblioteca ou com a sua liberdade de zanzar à toa.

Passar pelo meio daquele que, para muitos, é o momento mais importante da vida acadêmica, causa certo constrangimento. Não por nós, mas por eles, com a sua roupa preta alugada e chapéu que remete à possibilidade de um cérebro bidimensional.

Eles, agora desligados de nós, gastaram energia, tempo e dinheiro para ter uma graduação medíocre, mas que ainda assim é uma graduação, e nem neste momento raro conseguiram ter algo realmente íntegro, com aquela simulação volátil de especialidade causada pelas cerimônias.


Não sou muito admirador de cerimônias, mas se é pra fazer uma, é bom fazer direito. Se à minha época de graduação só houver essa possibilidade abafada, bagunçada e constrangedora, prefiro não fazer.

Prefiro apenas pegar o diploma, por em minha pasta transparente e tomar um porre merecido depois. Pode ser no Centro.



26.9.07

Curto


Apoiada no centro da parede branca do apartamento, ela se esgueira irritada e faminta, quase que regredida a uma forma de gato.


Recusa-se a ingerir alimentos realmente sólidos e doces, torrões. Prefere os líquidos, sopas, carne sem massa, ração.

Um dia chegarei em casa e a encontrarei progredida a uma forma de gato. Ou somente os peitos e as ancas. Ou somente os olhos.

O milagre dos olhos. Fenômeno, na verdade: Bilhares de anos para que pudéssemos olhar uma para a outra dessa forma nossa: Aquele par de abisminhos cercados por verde.


13.9.07

Carta Um, Dois

Josephinne,

É complicado ficar imune a tantas evidências e não me aborrecer com todos. Ficar imune a essa cadeia de elementos que me dizem de forma clara que grande parte das coisas nas quais acreditamos não existem e são até bem ridículas.


Tenho aqui ao meu lado esse livro do Dawkins. Capa lilás e folhas com aquele cheiro gostoso de novidade e frases com fluidez rara, lubrificadas em Garamond. As idéias do cientista são tão lúcidas e claras, e os contra-argumentos são tão ingênuos que até acho bom estar lendo sozinho; senão possivelmente ruborizaria (como você) com a minha própria ingenuidade ou, mais provavelmente, me irritaria (como eu mesmo) com toda a superstição que permeia tudo.

O livro é, de fato, excelente, tanto que achei estranho — ao sentir a cama confortável, e o clima agradável, as posses — não ter a quem agradecer depois. Senti-me bem com o conjunto de tudo, com o encadeamento do dia e dos anos, e isso foi suficiente para assegurar um sono excelente.

Logo ali ao lado, na fila da prateleira, está A Vida dos Animais, do J.M. Coetzee. Você também sabe que se pronuncia quétsia e não coétzi depois de tanto eu te encher o saco até você deixar os textos psicológicos um pouco de lado para finalmente ler Desonra e constatar quão grave pode ser a falência e quão grandiosa pode ser a criação literária. Acredito que as palavras de Elisabeth Costello não devem ser assim tão secas, mas já estou me preparando para me sentir mal pelo fato de comer a carne dos bichos. Veremos.

E na faculdade (aquele deserto frio de pavimento creme sobre o qual eu falarei depois) o que me interessa, Literatura, está totalmente mergulhado no Realismo Português. E os contos do Eça, e os livros do Eça com aquele cinismo laico que reforçam ainda mais as constatações céticas. O conto Adão e Eva no Paraíso, cercado de referências darwinianas e pré-existencialistas que encontram encadeamento com a literatura de anos antes sobre o mundo mais velho que nós, sobre a necessidade da invenção do sobrenatural quando passamos dificuldades e constatamos o nosso abandono.

Enquanto escrevo esta carta, deixo as músicas correrem em tom aleatório, e a lista encadeia duas músicas do Paulinho da Viola que também são totalmente céticas e realistas dentro do seu lirismo. Constato, mais uma vez, esta redefinição de conceitos pessoais e essa racionalidade me causa uma sensação apaixonada não de descoberta; mas de maior amplitude na percepção das coisas. “Quem quiser gostar de mim, eu sou assim”, ele canta.

Ao invés de um aumento de pessimismo, nestes dias curiosamente ocorre o contrário: surge um otimismo e uma alegria; surge uma maior valorização dos atos e das palavras. O mundo se apresenta mais sólido e claro, um mundo absurdamente improvável que, por ser assim, absurdo, faz com que eu necessite valorizar cada vez mais o tempo que resta pelo fato dele, tempo, ser incerto. E o nosso, ambos, está aqui correndo denso.

Sei que se ocorresse o inverso você me consolaria com a sua voz doce e sem intermediários, sei que você agradaria os meus cabelos curtos e arrumaria as minhas sobrancelhas e me faria — com o seu amor — recuperar o meu estímulo por todas as coisas, torna-lo melhor do que era antes. Isso sem tanto esforço, acho. Apenas existindo comigo, Amor.

Pessoalmente, não levo ninguém muito a sério. Também não acredito muito em ninguém porque não preciso acreditar em ninguém. Não que isso seja negativo; é apenas uma postura lúcida. Os outros chegam, no máximo, a um David Blane: alguém que cria uma ilusão tão bem urdida e interpretada que parece ser, de fato, real. Mas não é.

Em você, exceção mais bela, Josephinne, acredito plenamente.


11.9.07

Inox


Circulamos entre as prateleiras com produtos em aço inoxidável e plástico e cerâmica. Pensamos em muitas possibilidades mas, de imediato, desejei comprar uma garrafa térmica pequena, cor de laranja.


Terminei não levando, mesmo precisando de café só meu na madrugada entre semanas.

Talvez dê tempo de comprar na loja de artigos tecnológicos com explicações microscópicas e telas em cristal líquido. Lá tudo é muito caro, mas a garrafa é barata e simples. Um produto simples e bem resolvido em meio a outros cujos manuais são piores que livros de álgebra.

A garrafa térmica, simbologia surgida de improviso súbito, é como o marco inicial de tudo, o primeiro ponto do consumismo necessário.

É isso. Pelos corredores se desejam coisas e o chão é de mármore e essa sensação de limpeza e possibilidades causa um desejo danado no cérebro, vermelho, escuro, cheio de tempo.

A atendente de cabelo preso nos olhou como um casal experiente comprando um presente para um casal neófito. É bom quando compartilhamos essa sensação de dois perante o outro.


2.9.07

Granulometria


Escondidos na areia horas antes. Barrigas pra cima, sol. Ele sentindo os sintomas de uma forte azia. Eu tenho remédio aqui, ela abrindo a bolsa de lona.

Rompeu o invólucro metálico, papel-alumínio, e o antiácido, pastilha gigante, era semelhante a um preservativo maciço e rígido.

Água. Tanta água ali na frente e delas todas não se aproveitava nem um copo. Água do mar parecia gente: tanta, e não se aproveita nem um copo. Mas dentro da bolsa de lona havia água mineral. Água do fundo da terra dentro de uma piscina cristalina e inviolável com o horizonte circular azul perfeito plástico e silencioso.

Toma. A pastilha se debatendo desesperadamente, afundando e voltando à superfície, desfazendo-se, morrendo afogada. Obrigado por cuidar de mim, obrigado mesmo: olhares de gratidão mútua, com as mãos sobre os olhos, aba improvisada para bloquear o sol.

Deitaram-se. Sal em todos os lados, permeando tudo, todo mundo feito de sal, anônimos como a água, prontos pra virarem estátua. Beijaram-se de forma intensa, granulométrica, provando o sal dos vincos. Areia sob as unhas. Restos de antiácido nos cantos das bocas.

Depois correram e se lançaram na água móvel e forte, salgada. Misturaram-se como se misturaram outrora, antes da corrida breve, vestígios íntimos um no outro.

Não se misturaram ao mar sem nome.