31.10.07

Esse Povo da Areia e A Garota de Lábios Finos

Esse povo da areia, que se acumula como argamassa dentro de caixas não irá atrapalhar o meu pensamento sobre o que existe e muito menos a minha capacidade criativa.

A vida ignorante se concentra dentro de motores. Os motoristas irritados, tentando ultrapassar uns aos outros, amaldiçoando uns aos outros, ouvindo música alto ou monologando com apenas meia-dúzia de palavras. A necessidade de chegar mais rápido com os seus faloszinhos coloridos prateados com motores barulhentos que peidam monóxido de carbono e prejudicam a atmosfera azul, imóvel e estúpida.

O senhor não vai nesse?

Ia mas não vou mais, digo. Agora estou pensando em uma história e essa gente toda certamente vai atrapalhar o meu andamento invisível.

Eu nunca penso em história — o homem jovem de roupa barata mascara certa soberba ignorante.

Já atrasou alguma vez no trabalho?

Já.

Inventou ou disse a verdade?

Inventei.

Então.


Eu digo: mocinha de ombros largos, talvez bibliotecária, talvez nadadora, me empreste novamente esse código aqui desse livro aqui.

Vai renovar? A garota de lábios finos, com meio milhão de cachos desarrumados harmoniosos e de nome composto disperso: cada um para um lado, com personalidade própria, talvez opção do pai e da mãe em dupla, como os da princesa Beth Odeth Bernadete Suely, só que não tão exagerados: dois, apenas, como os lábios finos quase arrogantes que a garota — que correria o risco de ser feia, se não se esgueirasse com tanta graciosidade através das estantes particulares — possui.

Vou sim, renovar é importante — e, apesar de certa recepção mútua de sorriso, é válido admitir que não falo essas frases de improviso com a desenvoltura que eu gostaria. Sempre invento um nome diferente na hora de assinar o canhoto.

16.10.07

Ensaio de Continuidade


Estranho encontrá-la naquela forma de pássaro abatido. Noite alta e aquele corpo inusitadamente magro, com uma incômoda e definida fonte irreversível de sangue.

Abati-a sem querer. Na verdade ela abateu a si própria. Triste ver uma criatura, mesmo que racional, assim, abatida por si própria, entregue sobre um lençol branco, pronta para um ato que para ela será tão vago e absurdo quanto uma cirurgia mediúnica: No dia seguinte ela acordaria e tudo estaria feito: ele esteve aqui e entrou em ti, mexeu em ti por dentro, te mudou e tu não percebeste nada. Incrível.

A pequena metamorfose aconteceu quando ela foi ao banheiro. Pediu licença e não fechou a porta por puro esquecimento. A ouvi brigar com os tecidos para conseguir se livrar deles, deixando-os, um a um, amontoados no lavatório.

Então ouvi contorções e barulhos de líquidos sendo expelidos. Descarga. Mais barulhos. Após vários minutos, ela ressurgiu sem as peles por cima, magra, incontáveis miligramas a menos. Era outra, a que se deitou ao meu lado.

É incrível como alguns panos, pós e líquidos disfarçam a verdadeira aparência dos seres. Ela permanecia deitada, inconsciente quase, tentando esboçar um sorriso; aquele brio biológico que a fazia pensar, mesmo entre tanta névoa e abatimento, que ali era eu quem estava sendo favorecido.

O pano branco supostamente esterilizado e a luz fluorescente do quarto transformavam definitivamente a promessa quente e vibrante em algo mórbido e frio. O corpo abatido sobre o pano, fazendo movimentos sem nexo.

Apaguei a luz e disse ao seu ouvido que a deixaria dormir um pouco enquanto saía para comprar pão fresco e preparar um café da manhã ensolarado pra ela. Depois nós dois passaríamos o dia namorando.

Ela sorriu debilmente, acreditando em tudo. Vi uma pontinha de luz do passado ali, entre os seus dentes, antes deles se apagarem em um imediato sono profundo. Destranquei a porta e ela ainda conseguiu ressucitar do torpor por alguns segundos: volta logo, disse. Nunca.

7.10.07

Coetzee


J Coetzee, originally uploaded by Siegfried Woldhek.

2.10.07

Narrativas


José Viana decidiu que afinal não ia arrumar papéis nenhuns mas simplesmente deitar fora aquela tralha toda. Daqui em diante, caixas de vinho só com garrafas cheias de vinho lá dentro.


A partir dessa decisão fundamental, havia outras que deveriam seguir-se naturalmente. Seria só questão de organizar as narrativas adequadas para as alternativas possíveis. Pegou num papel, fez um risco vertical ao meio, duas colunas. Escreveu no topo do lado esquerdo: despedir a secretária. No topo do lado direito: casar com a secretária. A seguir, à esquerda: vender o apartamento. À direita: comprar um cão. À esquerda: largar a advocacia. À direita: viver dos rendimentos. Esquerda: aderir aos renovadores. Direita: desistir de foder. Esquerda: Júlia. Direita: um tiro nos cornos.


(MACEDO, Helder. Sem Nome. Pg 207)