30.11.07

No Automático


Lembro daquele filme do Adam Sandler — Click —, bobo como todos os outros mas que, entre os lugares-comuns e a ficção nonsense, traz o fato incômodo de que, na maioria do tempo, funcionamos no piloto-automático.



Após o trabalho, me ocorre um processo gradual de afastamento. Primeiro o corpo, leve sem o uniforme; Depois o pensamento, quando a cidade começa a correr pelas laterais do vidro ou desencadeio o fluxo da leitura de um livro. Só então me sinto realmente desperto.

Fora do olhar fixo na tela, começo a observar coisas móveis: A inscrição infame sobre o painel do ônibus: “world trade center — aqui só entra avião”; O caderno de uma moça ao lado onde está escrito em letra redonda: Arcadismo em Portugal — título grifado com caneta rosa — e imagino o quão terrível seria uma versão guei do arcadismo: Padre José Agostinho de Macedo versando com um colar de plumas ao redor do pescoço; Bocage compondo obscenidades homo absurdamente legais. Desço.

Enquanto faço a minha conexão de ônibus, sem túneis, painéis ou ares refrigerados, vejo dois carros batidos logo abaixo do sinal: uma mulher (picape maior) e um homem (picape menor) discutem. Nestas horas vejo o lado bom de possuir um ritmo moroso de subidas de degraus e aquisições: ao invés de estar ouvindo Sky Blue Sky e passeando livre de volta pra casa, poderia ser eu ali, sob o mesmo sol, com um carro exagerado amassado, com quilos a mais e cabelos a menos e, pior, com menos idade, como o cara (picape menor) que estava claramente errado dentro da estrutura estúpida do acidente.

Esse lance de picape sempre me lembra a primeira musica do álbum novo da M.I.A. que canta a cena de pessoas famintas batendo nos vidros de uma Hummer e arrastando sacos como se fossem hienas. Manaus aos poucos está se transformando nisso, nesse Simba Safari ridículo. Comparação interessante, a da letra. Não é à toa que me sinto realmente atraído pela M.I.A. Desço.

Marco alguns minutos caminhando sob o sol, realmente empolgado com a música que me entra pelos ouvidos e, quando finalmente chego em casa — banho —, retiro o relógio e percebo que ganhei uma pulseira branca para a Festa do Sol.

25.11.07

Símile



















O meu corpo recém-nascido, engastado e negro, junto ao teu ventre de formiga. Presa, tu a mim. Sinto tuas entranhas, tuas centenas de braços e pernas. Porções generosas de amora em grandes pedaços, líquido doce entre os dentes, escorrendo pelos cantos da boca. Natureza imensa e fértil em sua forma mínima. Fertilidade entre as falanges. A tua boca espeta-me a pele, lembro.

O teu passo era lento e carregavas um sol na boca. E a tua pele era terra úmida onde eu afundava os dedos e as tuas órbitas eram verdes e o teu sorriso era simétrico. O sol decadente criava sombras em teu vestido branco quando caminhaste no sentido oposto. Tentei prender-te ao meu amor de vidro translúcido e não consegui. Fugistes antes.

Quando te vi presa a um braço estranho pressenti teu velório: morta de velhice, a mulher mais velha do mundo. Havia repórteres e os teus setenta e dois descendentes idênticos estavam ao redor do túmulo.

Um holocausto, mostrava a foto. Corpinhos negros irreconhecíveis: Quando li as letras imensas do jornal preto-e-branco, subiu-me um engulho inevitável de constatação de tragédia comum. Minha boca cerrada e fria, hálito de geladeira vazia; há muito sem pronunciar ofensas mínimas que flagelavam formigas.

A potencialidade morta junto a um saudosismo pacífico. O tempo é não-coisa estranha. Lembro do tamanho de cada folha abandonada no chão quando olhei a notícia. O sentimento de outrora repetido agora. O cabeçalho do papel-jornal de agora idêntico à imagem de antes. O tempo acumulado dentro do meu corpo exausto pelo trabalho. Negro e envolto por ossos minúsculos, eu e o tempo.

Você não mais existe; mas ao meu redor transitam criaturas idênticas com a tua mesma formação de pelos, com o teu exatoesqueleto. Ainda pouco vi uma de você e senti trinta insetos ainda menores que eu andando pelas minhas pernas. A criatura símile, exatamente como tu fazias, pediu minha ajuda para coçar as suas costas em uma região inalcançável pelas suas dezenas de braços.

Monossilábico, trêmulo. Nessas horas unir frases dá trabalho. Claro, porque não, e tudo aquilo na frente dos outros. Era você alguns anos antes, o que não caracterizava traição. Substância desconhecida expelida pela imitação de um sentimento de outrora. Dislalia em uníssono. Frases fora de forma. Lábios secos, garganta a dentro. Frases tremonossilábicas. A minha linguagem que só se desenvolveria dali a milhares de anos. Garganta seca proclamando frases diminutas sem nexo através de antenas que nos separavam um do outro tarde da noite. Um olhar mais atento perceberia meu rastro inconstante até o sítio desconhecido onde a símile pela primeira vez me mostrou as suas particularidades.

O seu corpo sem ossos em posição de cópula sobre o lugar onde durmo. Acordei no meio da noite com uma dormência que deixava em falta um dos meus braços: ela adormecida, como nunca estivestes realmente; curvada como larva, recém-nascida, bloqueando minha circulação fria.

Tu já não mais estavas em meu quarto, não mais te escondias sob a minha cama. Não mais me esperava adormecer para me morder o corpo e caminhar entre os meus pertences como se estivesse ali antes deles e de mim. Eu era um Sísifo diminuto e escatológico carregando uma culpa infundada. O papel-jornal escondido sob a forma de calço, dobrado em mil pedaços (como se tornou o teu corpo), agora torna minha cômoda plana.

A símile moveu-se e deixou exposto o seu ventre de formiga. Enlaçamo-nos uma, duas vezes. Lembro.

(27 de outubro de 2006)

23.11.07

O Amigo Chato



Há muito não tenho interesse em ler resenhas. Escrever, muito menos. Minha opinião quanto a livros, musica e afins não é lá grande coisa. Vivo mudando. Para ter uma certeza cultural, levo anos.


Interpol, por exemplo: achava a banda uma imitação rasteira de Joy Division, então conheci a música Mammoth e todo o resto e mudei de idéia. Os dois primeiros álbuns realmente não têm nada de especial; mas o mais recente tem requintes grandiosos que me fizeram rever as opiniões.

Quanto a outras bandas recentes, como o She Wants Revenge (que na verdade é uma dupla), gostava e gosto mais ainda. O álbum novo do She Wants Revenge é uma imitação comovente de Depeche Mode; assim como o álbum mais recente do Arcade Fire é uma imitação comovente do Bowie.

Vou passar a usar este termo atenuante: imitação comovente. Os garotos parecem se comover realmente com o Arcade Fire. Eles são uma imitação comovente dos garotos de antes.

Concordo com as críticas feitas à contaminação dos mecanismos de busca com opiniões meia-boca. Claro que a culpa não é dos mecanismos, Google e os deuses menores, e sim dos caras que se metem a opinar sobre tudo e terminam colocando os resultados relevantes lá para a oitava página.

Dizer que gosta ou não gosta de algo é um direito sagrado — tentar escrever tratados com base em conceitos vagos e comichões emotivos é uma baita perda de tempo.
Nada melhor do que ter idéia própria, guardadinha na cabeça para mais tarde discutir com os colegas.

Canso se ver endereços que disponibilizam álbuns para download e que, além do linque precioso, não se contêm e escrevem um monte de bobagem sobre o álbum e o artista; deixando a impressão de que, apesar de bem informado e intencionado, sua percepção não é grande coisa. Uma espécie de amigo chato que, antes de te dar o álbum de presente, te diz um monte de bobagens sobre o mesmo.


De resenha já me bastam as obrigatórias. José de Alencar e aquém. Fazer uma resenha literária sobre José de Alencar equivale a fazer uma resenha sobre um álbum do Altemar Dutra. Simplesmente não se enquadra no meu índice de paciência.

Inferno é não saber quando se está sendo chato. Acho que o José não sabia quão chatos eram os seus livros. Queria que todos os acadêmicos chegassem a um consenso sincero e limassem todos os autores históricos, porém chatos, das grades curriculares.

Há pouco fiz uns slides sobre Fernando Pessoa. Desses sim, gostei muito. Gosto de fazer slides. A falta de tempo seria algo bom se eu fosse dado a fazer resenhas aleatórias, pop, já que não teria tempo para escrever parcialidades superficiais. Mas como não gosto de resenhas, não é tão bom assim porque me prejudica em outros campos. Bem ou mal, gosto realmente de escrever.


20.11.07

Hank and Manny


— Você é casado, Manny?

— Sem chance.
— Mulheres?
— Às vezes. Mas nunca dura.
— Qual é o problema?
— Uma mulher é um emprego de turno integral. É preciso escolher sua profissão.
— Acredito que há um esgotamento emocional.
— E físico também. Elas querem trepar dia e noite.
— Consiga uma que você goste de comer.
— Sim, mas se você bebe ou joga elas pensam que isso deprecia o amor que elas sentem por você.
— Arrume uma que goste de beber, jogar e foder.
— Quem quer uma mulher assim?
(BUKOWSKI, Charles. Factotum, pg.88)

16.11.07

O Vectra Cristão

Frank entra no seu Vectra Cristão. Adesivo no pára-brisa dianteiro: Propriedade do Senhor Jesus Cristo. O nome Jesus Cristo nas laterais, com letras imitando velocidade e, no pára-brisa traseiro, um adesivo do próprio dono do nome: o dedo em riste, apontando à frente, naquele estilão Tio Sam.

Os traços vazados da figura messiânica colada no pára-brisa traseiro também têm muito de norteamericano. Melhor assim do que desgrenhado e queimado de sol, aramaico, com a barba mal feita e a unha do dedo em riste cheia de sujeira sob. A cor do adesivo vazado é branca como a cor do Vectra. Eu quero você, diz a legenda.

O automóvel branco de Frank desrespeita o limite de velocidade. Uma célula móvel e refrigerada, cristã a 90 Km por hora, cheirando a chiclete, mudando de faixa sem dar sinal, enfrentando ônibus e picapes pagãs. Os xingamentos dos outros são abafados pela música gospel em volume alto. No chaveiro engastado à ignição, uma foto com a namorada; uma garota loira e com seios divinos a ponto de fazerem Frank (e ela) reinterpretar constantemente as leis de Javé.

Deus está no comando. Frank gosta de pensar assim. E, parado em um sinal que exige que o respeitem, vê um sujeito magro lendo a Bíblia no ponto de ônibus, alheio ao sol e a tudo, imerso na história de Judite: “Ao mesmo tempo, cada israelita suplicou insistentemente a Deus, e todos se humilharam diante dele”. Frank pára no acostamento: Quer uma carona, irmão?

O homem queimado de sol não sabe como agir à oferta inusitada. Poderia desconfiar da intenção do ato, se aquele carro branco não tivesse Jesus por todos os lados. Não seria de todo impossível ter sido mandado pelo próprio Javé para tira-lo daquela angústia esturricante, raciocinou. Melhor aceitar, não queria aborrecer ao Deus lá em cima. Pediu licença a Judite, fechou o livro e entrou no carro. Meia-dúzia de aguardantes tiveram inveja da sua sorte e depois se sentiram intimidados ao verem o messias bidimensional os encarando com o dedo em riste.

Vai pra onde, irmão? O homem, sentindo uma vergonha cardeal, disse que ia para a Zona Leste. Tô indo pra lá! E ambos ficaram abismados com o arranjo divino. Os dois na mesma faixa de idade, algo além dos vinte, e mesmo assim tão diferentes. No caminho, conversaram, e Frank descobriu que o irmão não tinha um emprego fixo: era um marceneiro que para sobreviver fazia pequenos biscates. Ainda assim conseguia colaborar com o dízimo para o seu templo de cadeiras de plástico e sentia orgulho por isso.

Eu preciso de gente como você na minha loja, irmão. Frank entregou ao homem um cartão branco, a estrela de Davi como marca d´água: ELOIM MAT. DE CONSTRUÇÃO — Deus lhe dá a força, os instrumentos nós fornecemos. O primeiro impulso de alegria do homem foi colocar o cartão na Bíblia, como um marcador involuntário para logo em seguida agradecer a ele, Frank, e a Deus, que colocara no seu caminho aquele irmão tão bem intencionado. É isso que Jesus, o Senhor nosso Deus, quer, irmão. Não precisa agradecer tanto.

O homem desceu do carro em uma das inúmeras rótulas que dividiam a sua Zona em sub-direções, sub-bairros. Dali até a sua casa seria fácil; só mais 20 minutos depois que o ônibus passasse. Que sorte, meu Deus, que sorte.

Frank acenou e arrancou o seu Vectra branco. Cortou um carro que vinha em velocidade alta e estável. Quase causou um acidente.

13.11.07

Borrifadas

Espargia colônia de flores sobre os peitos com vinte anos de vida. Na verdade bem menos idade; já que começara a contar a idade deles apenas há alguns anos. Antes era apenas a ânsia e a espera. Antes era empinar o tórax pra frente e aguardar o tempo.

Aqueles quase seres ali, presos como que por mágica e cheirando a brinquedo novo. Brancos e com sistema de irrigação azul que não falhava nunca. Motivos de orgulho, os mais jovens que ela. Os de pele mais lisa, infinita. Os que atraíam olhares.

Nervos novos em folha naquele espaço fantástico que se expandira furiosamente. Grandes, tanto que os aguardara. Os outros, leigos, apenas se surpreenderam com o resultado final. Uma mulher! E ela acreditava, fingindo constrangimento. Mantinha os mesmos pensamentos de sempre.

Vira aquelas salvavidas na televisão: bundinha seca, perninha fina; porém toda uma pujança de peitos que as tornavam cegas a todas as outras descompletudes, preenchimentos, e as faziam ser pujantes como eles. Quero ser assim como elas e quero que vocês sejam assim como eles, pensou.

Então a natureza — mãe de tetas enormes que pingam constantemente como torneira frouxa — foi extremamente generosa com a sua filhinha de cílios espessos e maldosos, e fez com que tudo crescesse de forma harmoniosa e desproporcional, graças.

Antes de sair, ela espargia borrifadas simétricas de colônia de flores sobre os seus orgulhos, seus cuidados. Lindos, lindos, pensava. A reação vibrátil. Meus.

Sentia-se adulta, norteamericana.

6.11.07

O Barbeiro

Há muito eu achava que o meu barbeiro havia desaparecido completamente, tragado pelo capitalismo e pela velhice, quando no lugar da sua barbearia surgiu uma lanchonete vagabunda que logo depois cedeu lugar a um salão de beleza que permanece lá até hoje.

Resignei-me. Pessoas conhecidas desaparecem; o que dirá um barbeiro de contato bimestral, quando não depois de mais tempo. Nessa época eu ainda podia escolher quando cortar o cabelo, agora quase não posso.

Lembro que sempre pensava no preço baixo do corte e na possibilidade absurda de todos os seus clientes desaparecerem e ele ficar apenas comigo e mais dois ou três. Ainda bem que havia vários. Aplico o exemplo de desenvoltura social do barbeiro a todos os outros grupos de pessoas.


Sábado último eu precisava cortar o cabelo. O sistema pedia silenciosamente a mim. Então resolvi caminhar pela Praça 14, pleno sábado abrasante, para encontrar alguém que me enquadrasse novamente na ordem capilar secular da instituição. Não obtive sucesso: o barbeiro indicado pelo meu primo também desaparecera do mapa.

Preocupado com as possibilidades, resolvi arriscar uma olhada no tal salão novo, o que tomou o lugar da velha barbearia de um homem só que me aparava os cabelos desde a minha infância. Pela vitrina vi que de fato o salão era bem clichê, com manicuras e rapazes alegres que entendem muito de cabelo, desde que não seja o próprio. Não me coube a possibilidade de entrar ali. Em seguida, alguns metros à frente, vi uma saleta menor, aberta para a rua, e o velho barbeiro de sempre lá dentro; diminuído a uma rua minúscula, perpendicular, porém com a dignidade de sempre.


Barbeiros não cortam cabelos de mulher e nem sabem fazer cortes femininos. Cabeleireiros cortam dos dois sexos e, lógico, faturam muito mais. Existe aí um curioso paralelo inverso com a idéia da bissexualidade: enquanto o primeiro, conservador, se contenta com apenas uma metade (a menor) da humanidade; o segundo corta dos dois lados e, segundo dizem, se realiza de forma mais completa.

A questão é que nem tudo na vida é simples como esse dois e dois permissivo: barbeiros poderiam, sim, também cortar pelos maiores, femininos, mas, se o fizessem, perderiam toda uma postura perante o mundo e deixariam de ser barbeiros.Não existe necessidade e desejo para mudar tal estilo. Não existe razão quando se diz que para se tornar pleno é preciso abraçar a humanidade inteira.


Sua opção profissional parcial e conservadora está quase na fase final. Ele agora possui uma alegria estranha, quase senil (comparada ao coroa que resmungava tanto), quando me disse que três vezes por semana o seu filho mais velho vinha no seu Gol geração três e lhe dava uma carona até a rua da sua casa de barbeiro sobrevivente.

Mesmo com tal final incomodamente próximo e o anacronismo de sempre, com navalha na medida certa e tesouradas lentas ele conseguiu o que o seu colega mais jovem não consegue há três anos: fazer com que novamente o meu cabelo tenha um corte, mesmo dentro dos padrões curtos.


2.11.07

Fé Preto e Branca


Blind (Faith), originally uploaded by dollen.