29.12.07

A Rainha da Feira Úmida


É concunhada, a denominação parentesca de laço sanguíneo inexistente. Palavra feia, concunhada. Parece que foi cunhada com a ajuda do cunhado, irmão da irmã que por sua vez é a minha namorada.

Enfim, eu e minha concunhada fomos a uma anti-feira. Me explico. Era sábado, dia sem feira no sobrenome, era tarde, chovia bastante e fomos comprar pastéis e qualquer outra guloseima que se enquadrasse no orçamento modesto. Os que ficaram em casa tinha fome e, quando se é assim, se sai na chuva. O vidro subindo e descendo, tentando impedir a água de entrar no carro.

A feira estava quase toda coberta por lonas azuis. O chão encharcado, e a água caindo em pequenas cachoeiras nos cantos das lonas. Mesmo assim os feirantes ignoravam a tudo, conversavam em voz alta, ofereciam os produtos de sempre acrescidos de um ou outro elemento moderno: filmes piratas, cds piratas e jogos de vídeo-game. Descobri que o Guitar Hero III já estava no mercado, sendo vendido bem ao lado da banca de pamonha.

Acomodamo-nos sob a lona azul da banca de pastel paulista. Pedimos os nossos in loco enquanto o rapazinho velho preparava os outros para viagem. Senti uma vontade mórbida de beber caldo de cana, mas logo vi que não seria possível: ao invés do parceiro líquido, até então inseparável, os pastéis só eram servidos com refrigerante. Havia caldo de cana só do outro lado, o vendedor informou com uma expressão gentil de se quiser que vá lá buscar.

Então apareceu uma espécie de rainha proporcional àquela feira de sábado. Imensa, um metro e setenta, com uma criança e uma mulher menor, pajem, segurando o seu guarda-chuva. Houve uma tensão silenciosa entre o chefe e o funcionário quando a mulher chegou na barraca de pastel paulista e sentou em uma das mini-cadeiras de plástico. O funcionário foi servi-la com um sorriso.

A mulher tentava exprimir superioridade e sensualidade enquanto decidia entre queijo e presunto. Terminou ficando com o misto, e fez o atendente buscar outro porque não gostava de pastel muito frito. O seu rosto tinha espinhas e havia óleo empastando os seus cabelos pretos. Cruzou e descruzou as pernas brancas e toda a feira percebeu a sua calcinha vermelho sangue.

Mais ainda um feirante que, furiosamente e em passo rápido, súdito baixinho, cruzou as pequenas circulações encharcadas e, com um copo de caldo de cana na mão, prestou uma reverência à mulher de perna semi-abertas, com pequenas porções de cascalho não muito fritos sobre os peitos fartos e flácidos mal contidos pelo top escuro.

Servil ao ver o branco, o úmido e o vermelho rescendendo a poucos centímetros do rosto, o feirante voltou satisfeito.

26.12.07

Véspera


Recebi uma mensagem natalina pelo correio eletrônico interno que era um misto de cristianismo ocidental modificado por milênios com as três últimas versões do sistema operacional windows. Algo como: Formate os seus rancores e brigas! Faça uma limpeza na lixeira da sua consciência e empregue Jesus como o seu sistema operacional! Jesus não trava, não falha e não te deixa na mão!

Finalmente transformaram Jesus em Neo, pensei. E, após ler a mensagem cyberevangelizadora, observei se o cursor se movimentaria sozinho ou se apareceria um chat divino (através do Gtalk, lógico) me oferecendo conselhos certeiros — como naquele Animatrix do garoto —, mas nada aconteceu. Talvez na próxima versão.

Minha mãe fez questão de montar a sua própria ceia natalina para confraternizar com a família e um casal de irmãos. A irmã deixou para vir no dia seguinte, o dia de Natal propriamente dito e, à véspera, noite, apenas o irmão veio com a família. Todos muito agradáveis com exceção do vínculo principal, o tal do meu tio: mal-humorado e ressaqueado, não deu uma palavra durante toda a noite.

Perto da meia-noite faltou energia. Apenas algumas casas permaneceram iluminadas — talvez as mais crentes, pensei — e minha mãe e minha irmã ficavam contabilizando qual casa estava no escuro e qual casa não estava no escuro. A nossa ficou metade no claro e metade no escuro e o fato de o meu ventilador continuar funcionando a meio-motor deu-me certa paz de espírito.

Tal contabilidade inútil (olha aquela ali, apenas o pisca-pisca continuou aceso e nem pisca mais) continuou até bem perto da meia-noite exata, quando foguetes coloridos relembraram o nascimento de Cristo. Olha eu aqui! Olha eu aqui! O cristo dos homens explodindo no céu. Todos se abraçaram meio sem jeito: feliz natal, tudo de bom pra ti.

A lua alta, luz azul, infalível, perdeu a importância quando voltou a energia elétrica. Graças a Deus. Todos fecharam as portas e foram dormir.

14.12.07

Olarias


Do outro lado do rio existem olarias. E nas olarias existem crianças que não sabem muito bem o que está acontecendo ou porque precisam estar ali além do trabalho que é finalidade da existência: comida, algum pano sobre a pele. Também sem entender muito, ato contínuo mecânico, as mãos sem muito tamanho separam porções definidas de barro em quantidades amorfas que, imprensadas em grandes formas, são direcionadas às fornalhas. Lá dentro, fechada a boca flamejante, são produzidos tijolos.

Talvez tenha sido moldada a partir do barro, a primeira criança de todas. Por um único homem, invisível, super, que ordenou a crianças invisíveis para que cada uma moldasse uma parte até que, por fim, toda a nova escultura grotesca — barro mal cheiroso, ornado com pêlos e preenchido por ossos — fosse levada ao forno por um tempo imensurável até que ficasse pronta e fosse abandonada no centro geográfico do mundo.

Além dela havia outras, cada uma em um marco proporcional a partir do centro, onde a primeira criatura moldada se resfriava, esturricada, sem entender bem qual seria a sua função dali para frente.

Elas se reproduzirão: O homem invisível — explorador de crianças com mãozinhas sujas de barro e cabelos e sobrancelhas esturricadas pela proximidade que tiveram com o forno — pensou. Ele não entendeu muito bem a razão de ter produzido tais criaturas quebráveis, com vários orifícios.

Alguns jovens se admiram com o argumento fantástico do jogo de representação de personagens que narra uma terra dos mortos — Aparição — onde, quando susceptíveis e dominados, os espíritos são transformados em tijolos ou em moedas.

Os jovens mal sabem que todos os tijolos ao redor vieram de uma olaria do outro lado do rio onde dois ou três jovens morreram ano passado, consumidos pelo trabalho e pela fumaça. Mal sabem, também, que a terceira fileira de tijolos antes do parapeito da varanda foi assentada por um homem que virou moeda:

Pedro, sem qualquer experiência em construção civil, foi trabalhar ainda bêbado e, exatamente naquele ponto bem ali, parapeito da varanda, onde se atrelam os pisca-pisca na umidade natalina manauara, perdeu o equilíbrio e o seu corpo se misturou ao solo vinte metros abaixo.

...Sucumbiu, e após ver o barro se aproximando furiosamente, virou muitas moedas simbólicas em uma conta-poupança que a empresa mui gentilmente ofereceu à família chorosa.

Pedro foi recebido por vinte e cinco crianças — semelhantes às que moldaram o corpo da primeira criança, semelhantes às nossas que moldam tijolos — e conduzido novamente para a sua forma original, sem entender muito bem o que estava acontecendo.

12.12.07

A Ciência Mágica das Fotografias


Abstenho-me da fé no desconhecido e a perturbo repetindo sentenças dawkinianas com sotaque britânico fajuto: the absence of reason... the dangerous process of non-thinking called faith.

A ausência de crença no curso acadêmico é bem menos divertida do que uma aliteração despretensiosa. Ao redor, os crentes e a sua iliteratura. Tudo fica chato, liso e creme como o piso elevado que amplia os ruídos. A professora passa então a soar com fonética incompreensível e tudo fica demasiadamente chato.

Então secretamente recorro à sua fotografia três por quatro e todo o meu universo interno se enche de ternura. Você posando anos antes, expressão séria, e então as suas pequenas gêmeas passaram por uma sala escura e depois chegaram a você e você deu uma delas a mim e agora eu a observo — você — e todo o meu universo interno se enche de ternura.

Sua correspondente real, não imaginária; mas de imaginário tão presente, impregnada da melhor forma possível em todos os meus lampejos longos e curtos de mentalidade e sentimento ou os dois.

Não necessito de fé no desconhecido quando tenho presa à palma um exemplar da ciência mágica das fotografias: Real, mas tão real, que chega a ser mágica. Uma ciência que todo mundo sabe mais ou menos como funciona mas, a exemplo do avião e do arco-íris, não sabe explicar direito e não se importa: melhor é viver a mágica; não explica-la.

Mesmo não sendo a última, eu guardo a gemeazinha séria esboçando sorriso com a mesma certeza com a qual guardo as outras em situações diferentes. Minhas.

Minha, a origem delas à qual pertenço.

6.12.07

A Coruja Lilás


Pousou uma coruja lilás na frente do auditório onde acontecia a última noite da Semana de Letras.

Asas de papel coladas na parede, abertas. Cabeça de isopor e patinhas de isopor: possuía jeito de má, a coruja. Aspecto agravado pela luz estrobosfópica e uma sonoplastia repetitiva do que seria uma possível voz de coruja: aquela língua seca que é mistério até para a Lingüística mais avançada dos bichos.

O aspecto final ficou semelhante a um fabuloso personagem de um trem fantasma do mundo das larvas; ou um instrumento de tortura para epilépticos e pessoas que porventura possuíssem fobia de corujas. Certamente devia haver alguém por lá e esse alguém passou baixo e teve pesadelos, talvez desistiu do curso. Existe fobia para tudo.

A coruja, dizem, é o símbolo do curso. Talvez porque nos livros infantis vez ou outra é desenhada com um par de óculos, um livro e um chapéu de formando. Pela expressão séria, Edwiges, presume-se que a coruja analfabeta saiba das coisas, ler até, quiçá discutir literatura contemporânea. Até então, eu pensava que a ave fosse mascote apenas da Filosofia. Aumentaram-na? Dividiram-na? Rebaixaram-na?

Cri, cri, cri... O barulho saindo do rádio escondido. A coruja impermeável: isopor pintado, olhos luminosos, verdeamarelos. Não desamarrava a cara de forma alguma. Ameaçadora. Vez ou outra, efeito especial, também soltava uma névoa de gelo seco para dar mais dramaticidade ao número fixo. Cheiro de baunilha queimada, a névoa da coruja de quase quinhentos reais.

Um aluno tomou conta da coruja, e da fumaça e dos barulhos. Dedicação louvável. Eu jamais tomaria conta de uma coruja daquelas — Na verdade jamais tomaria conta de coruja alguma, isopor ou carne, nem valendo ponto. O aluno fez uma espécie de guarda, sentinela à coruja. Impassível, não se abalou com as reclamações e com as piadinhas sobre a ave ridícula pregada na parede.

Dentro do auditório, assistíamos a uma palestra informal. Certamente um dos dez melhores poetas vivos do país, ou um dos cinco. Nos momentos de silêncio, a discoteca intermitente de som de coruja nos fazia lembrar do ridículo: cri, cri,cri. Semana de Letras: Uma Homenagem a Ed Wood e Clóvis Bornay.

Realmente não entendi a falta de autocrítica e senso estético das pessoas que elogiaram a coruja. Ao invés de assumir a feiúra do bicho de isopor, divertirem-se com ela, alguns alunos gostaram, acharam "diferente", até mesmo se revestiram de um estranho senso de dignidade pelo trabalho cumprido.

Uma perguntou se eu gostei: eu disse que não e ela não gostou da resposta, quase me chamou de feio. Não entendi a contrariedade. A obra não era deles, não era do aluno dedicado: e sim de um artista charlatão explorador de alunos de Letras, escultor desconhecido de corujas ridículas, proscrito de Parintins, farsante.

A mãe coruja não percebe quão feios são os filhotes: Isso foi o que me incomodou realmente. A coruja é feia: paciência. O escultor que usa os dentes ao invés das mãos superfaturou a coruja: acontece, raça humana. A coruja é linda e eu gostei dela, gostei da luz estrobosfópica, do cri cri cri e da fumaça de baunilha: incompreensível.

A relação de cegueira estética é mútua: os filhotinhos feios também acham a mãe coruja bonita — Eis um problema. O mundo lá fora é avesso a corujas lilases — Outro.

A palestra termina. O poeta e a coordenadora do curso, como que hipnotizados pela luz estrobosfópica, posam sob a coruja: os olhos apertados, mal conseguindo enxergar a câmera. Cri, cri, cri... o poeta tem nas mãos um diploma desproporcional de amigo do curso. Um dos dez melhores poetas, ou um dos cinco. A cabeça privilegiada bem perto das patinhas da coruja. Ele sai pelo portão lateral. A coruja fica.

A esta altura, já temia que a criatura de isopor se transformasse em um semi-ídolo. Todos se submetendo à nova arte, feia e farsante: Alunos decorando apostilas sob os pés da coruja, os olhos verdeamarelos luminosos os ligando à grande rede dos resumos prontos, dos macetes para entender os clássicos; Sentados ao redor da coruja, em posição de lótus mal feita, incenso de almíscar, lendo livros do Augusto Cury e organizando os fichários com datas de provas e números de faltas. Estou por um fio em Literatura: me ajuda, mãe coruja!

Por sorte, a coruja se foi na mesma madrugada. Após a meia-noite, o escultor cheio de isopor entre os dentes mostrou as axilas e disse: Filha eu te liberto! Voa! E dentro de cada um do seu par de bolsos havia duzentos e cinqüenta reais, quase. A coruja voou para o reino da cafonice e dobrou as asas, repousou a cabeça que não sente mormaço ou gelado e dormiu. O escultor calhorda voltou para casa de táxi.

Na semana seguinte, a ordinariedade, com os seus elementos vazados e o seu chão creme se revelou positiva: sou sem graça mas sou normal, sã e limpinha, não incomodo com chiados, fumaças e luzes.

Retiraram o bode da sala... Quer dizer, a coruja. Melhor assim.