É concunhada, a denominação parentesca de laço sanguíneo inexistente. Palavra feia, concunhada. Parece que foi cunhada com a ajuda do cunhado, irmão da irmã que por sua vez é a minha namorada.
Enfim, eu e minha concunhada fomos a uma anti-feira. Me explico. Era sábado, dia sem feira no sobrenome, era tarde, chovia bastante e fomos comprar pastéis e qualquer outra guloseima que se enquadrasse no orçamento modesto. Os que ficaram em casa tinha fome e, quando se é assim, se sai na chuva. O vidro subindo e descendo, tentando impedir a água de entrar no carro.
A feira estava quase toda coberta por lonas azuis. O chão encharcado, e a água caindo em pequenas cachoeiras nos cantos das lonas. Mesmo assim os feirantes ignoravam a tudo, conversavam em voz alta, ofereciam os produtos de sempre acrescidos de um ou outro elemento moderno: filmes piratas, cds piratas e jogos de vídeo-game. Descobri que o Guitar Hero III já estava no mercado, sendo vendido bem ao lado da banca de pamonha.
Acomodamo-nos sob a lona azul da banca de pastel paulista. Pedimos os nossos in loco enquanto o rapazinho velho preparava os outros para viagem. Senti uma vontade mórbida de beber caldo de cana, mas logo vi que não seria possível: ao invés do parceiro líquido, até então inseparável, os pastéis só eram servidos com refrigerante. Havia caldo de cana só do outro lado, o vendedor informou com uma expressão gentil de se quiser que vá lá buscar.
Então apareceu uma espécie de rainha proporcional àquela feira de sábado. Imensa, um metro e setenta, com uma criança e uma mulher menor, pajem, segurando o seu guarda-chuva. Houve uma tensão silenciosa entre o chefe e o funcionário quando a mulher chegou na barraca de pastel paulista e sentou em uma das mini-cadeiras de plástico. O funcionário foi servi-la com um sorriso.
A mulher tentava exprimir superioridade e sensualidade enquanto decidia entre queijo e presunto. Terminou ficando com o misto, e fez o atendente buscar outro porque não gostava de pastel muito frito. O seu rosto tinha espinhas e havia óleo empastando os seus cabelos pretos. Cruzou e descruzou as pernas brancas e toda a feira percebeu a sua calcinha vermelho sangue.
Mais ainda um feirante que, furiosamente e em passo rápido, súdito baixinho, cruzou as pequenas circulações encharcadas e, com um copo de caldo de cana na mão, prestou uma reverência à mulher de perna semi-abertas, com pequenas porções de cascalho não muito fritos sobre os peitos fartos e flácidos mal contidos pelo top escuro.
Servil ao ver o branco, o úmido e o vermelho rescendendo a poucos centímetros do rosto, o feirante voltou satisfeito.


