28.12.08

Supercine


Você lamberia a Laura Dern durante um pesadelo de três horas?

Mr. Lynch sim.


27.12.08

Imagens e Outras


As imagens se entrecortam nos sonhos.


Numa delas, ouço minha prima dizer que "é preciso salvar a Terra" e eu retruco, cada vez mais alto, que é preciso salvar o homem... É preciso salvar o Homem! Salvando o Homem, você também salva a Terra.


Uma sala de aula daquelas antigas com carteiras e mesas de madeira e cheiro de giz. As mesas são desproporcionais às alturas das crianças. Elas sentam com os cotovelos erguidos, os pés não chegam a encostar no chão. A professora, entretanto, possui uma juventude destoante da arquitetura da sala. Leciona algo apaixonadamente. Cita trechos, cruza referências. Chega às lágrimas e seduz os alunos, e a mim, com a sua oratória emocionada. Na aula do dia seguinte (segundos no sonho), a sala está apinhada e todos os alunos das outras turmas a observam pelas janelas.


Alguma instituição de caridade tem a idéia de contruir um carro gigante de madeira. Ele possui a estrutura dos carros de rolemã em sua base retangular de madeira crua, porém possui rodas de automóvel para fazer jus às suas proporções gigantes. Além da grandeza, possui três pavimentos: no térreo, são colocados os bebês, no primeiro, são colocadas as crianças mais crescidas, no último, sem teto, são colocados os velhos. O motorista dá a partida e sai a toda velocidade pelo que parecem ser ruas de um bairro. Parecem pela estreiteza agravada pelos carros estacionados nos dois lados da pista, deixando espaço apenas para o veículo grotesco de três andares. As crianças e os velhos acenam para os passantes. Os bebês gargalham de alegria. O motorista guia cada vez mais rápido. De súbito, dá de frente com um carro no sentido contrário e várias crianças voam pelos ares, negrinhas e finas como formigas e tudo isso é infinitamente engraçado. O automóvel dá ré e, tão logo o carro gigante de madeira tem a pista novamente limpa à sua frente, surge um caminhão e o joga ainda mais longe. Mais risos.


Além dessas, surgem outras histórias inteiras e curtas, sem sentido. Sonhei escrevendo um conto fluido e bem escrito, já em letra estilosa garamond impressa. Também correndo sem cansar tanto. Dirigindo um filme pornô e uma ou outra imagem lúbrica porque é a lubricidade que dá fluidez aos sonhos.


Então acordo e grande parte das histórias, ainda suspensas pela vigília, se dissipam com o excesso de realidade.


21.12.08

Vínculos de Pigmentos


Eu sentei na cadeira da mesa da cozinha encarei Helen e pousei as notas de cinquenta dizendo tá aqui o dinheiro que faltava. "Aquelas de amor?", ela perguntou e eu disse sim. "Gosto desses casais apaixonados porque pagam em cash, dinheiro vivo".

É verdade. Chato é o aperreio depois. Não depois logo depois; e sim coisas de meses, às vezes anos: eles praticamente se e me obrigam a fazer a tatuagem e depois voltam arrependidos: querem cobrir ou, pior, querem que eu apague. Eu digo: eu imprimo sobre o pigmento, meu querido. Apagar teu erro é com os outros.

Já tatuei braços, pernas, costas, partes íntimas. Por que esses pulhas fazem isso? Criticam quem usa aliança de casamento. Criticam até mesmo aquelas alianças de compromisso. Essas de prata cínica: tô comendo pausadamente e a toda hora; como se fosse casado, mas não sou, olha que incrível! E, em contraponto, eles fazem uma tatuagem que, ao contrário da aliança mais intermitente, não sai nem com sabão. Qual a lógica, digam-me. Sei que não dirão porque ninguém sabe.

É um lance irracional de propriedade. "Qual a graça de estar com alguém se você não for o dono?" — eu ouvindo isso, doze anos anos antes dos trinta que hoje ostento, com a mulher no meu ouvido, falando essas obscenidades possessivas enquanto fazia circunvoluções com os dedos no meu pau mole menor a cada volta.

Não sei, respondi. E continuei mentindo dizendo que precisava sair para comprar agulhas. Nunca mais voltei.

Correndo doze anos, tenho Helen à minha frente, satisfeita. É isso que se resume a vida dos homens: Fazer, tornar, manter as mulheres satisfeitas independente do que se seja. Independente de qual classe elas sejam, de quantos anos tenham ou o quanto tenham experimentado: O que elas querem é serem satisfeitas de alguma forma.

Essa moral herdei do meu avô paterno com o dedo em riste e uma tatuagem da Segunda Guerra no antebraço. Tudo o que aquele velho dizia era religioso para mim. Ele matou alemães com o dobro do seu tamanho. Passou frio e fome. Comeu putas polonesas. Não havia como não adotar o que ele dizia como verdade universal.

Sendo assim eu torno Helen satisfeita: tatuando e . As iniciais de Fernando na côxa da mulher e as iniciais de Renata na côxa do homem acrescidos do circunflexo para deixar tudo ainda mais trágico. Eles queriam cajins representando essas iniciais. Cajins são aquelas merdas simbólicas japonesas. Um monte de riscos. Recuso-me terminantemente. Escrever isso em risquinho, com exclamação e tudo, é impossível , eu disse. Eles desistiram.

Para satisfazer Helen precisei esfregar e desenhar muito com a agulha sobre as peles fedorentas e sanguinolentas dos amantes em fúria para que nós finalmente conseguíssemos comprar um microondas. Satisfação de Helen, e minha, por tabela. Uma satisfação primeira.

A segunda satisfação vem no escuro, com nós dois excitados como todos os amantes renegadores de alianças . A diferença é que eu e Helen não usamos alianças simbólicas. Argolas, riscos sobre as peles. E o único orgulho orgulho mesmo só sinto quando ela me encontra todos os dias rígido e nós nos imprimimos um no outro. Marca invisível sobre marca invisível.

20.12.08

Sixteen




Cá estava eu reunindo uma informação ou outra para escrever sobre como o Ladytron gravou o melhor álbum de 2008 e sobre os comos e os porquês deles serem a banda mais legal e completa do eletro-rock quando resolvi dar uma olhada em alguns sites relacionados à banda para ver ser havia alguma novidade. E houve.


Após uma olhada nas versões em português e inglês da wikipedia (ambas bem mais ou menos), fui até o site oficial e, para meu espanto, vi o anúncio de algumas datas para a apresentação de sets individuais nos EUA, Peru e... Brasil!


Um dos motivos deles possuírem uma sonoridade tão completa é o fato de discotecarem sozinhos ao redor do mundo quando não estão excursionando com a banda. Quando se reúnem novamente, estão cheio de idéias novas e então surgem monstros como o Velocifero, um álbum tão, mas tão bom, que já deu uma volta em cima do In Rainbows.


Daniel Hunt, baterista, tecladista e etc da banda vai discotecar no Brasil dia 16 de janeiro, em São Paulo, mais especificamente na Av. Augusta, mais exatamente na Vegas.


E o que você tem a ver com isso? Você, não sei. Mas eu, minha mulher e meus amigos estaremos lá e só arredaremos os pés saltitantes depois que esse 1/4 do Ladytron desligar as picapes.


Anda, 2008... Acaba!

17.12.08

Café da Manhã dos Campeões


Café da Manhã dos Campeões (L&PM Pocket), escrito por Kurt Vonnegut (1922-2007), foi publicado pela primeira vez em 1973, nos Estados Unidos — pátria e principal objeto de chacota do escritor.


A paródia em Café da Manhã dos Campeões já começa pelo nome do livro: uma referência direta, declarada e explicada (para evitar processos) ao jargão de um cereal largamente consumido pelos norteamericanos típicos: aqueles sujeitos que todos os dias pela manhã se olham no espelho e tentam se convencer de que são vencedores natos para poderem levar sua vida comum sem enlouquecer.


O texto do livro é genial e maluco, claramente não editado, cheio de figuras auto-explicativas que dão a impressão de estarmos lendo um manual de instruções para adaptar alienígenas às loucuras da Terra. 

Voltando. Insultar o hino norteamericano, desenhar bandeiras nazistas e cus... tantas coisas baixas nos fazem lembrar imediatamente de um sobrenome: BUKOWSKI.
Assim mesmo, em caixa alta, como quando esse outro velho louco travava as teclas em maiúsculas e estava bêbado demais para editar as merdas geniais que escrevia. 

Outra semelhança (e não influência, visto também ser contemporâneo assim como era de Bukowski) do texto de Vonnegut é com as loucuras, a acidez e as americanices de Thomas Pynchon, o escritor genial que nunca existiu realmente e que, conforme Matt Groening, tem a seguinte aparência:



Falando em Matt Groening, também é notável a influência do cinismo de Kurt Vonnegut nos inúmeros anúnicios da cidade dos Simpsons como, por exemplo, a do cirurgião plástico que tem sobrescrito “corrigindo os erros de Deus”, ou a do dentista que tem sobrescrito “não importa como você escova... está errado”. Prova disso é o dos Sorvetes Craigs, um dos muitos anúncios irônicos presentes em Café da Manhã dos Campeões:


“SORVETES CRAIGS: É MAIS DIFÍCIL SER INFELIZ QUANDO SE ESTÁ COMENDO”

Mas sim, o livro. A história possui dois protagonistas: Kilgoure Trout (uma espécie de alter ego de Kurt Vonnegut), um escritor de ficção científica, e Dwayne Hoover, um vendedor de carros que leva uma vida normal e tranquila até começar a perceber que, de leve, está perdendo a razão.


O ponto coincidente entre eles é que Dwayne é fã dos livros de Kilgoure e começa a achar que o motivo da sua loucura não é apenas a sua vida comum: são também possíveis mensagens ocultas presente nas histórias do escritor. Mais ou menos como os loucos que culparam Goethe, Beatles, Salinger, Ozzy e tantos outros artistas pelos seus surtos particulares.



Enfim, a coisa toda começa a ir na direção da tragédia. Primeiro pelos constantes, crescentes e cada vez mais violentos surtos de Dwayne. Segundo, pelo encontro cada vez mais iminente entre ele e Kilgoure Trout quando este vai participar de uma convenção artística numa cidade vizinha.

Não bastasse a tensão crescente entre os dois protagonistas-pólos-opostos, ainda existe a figura do narrador: esse maldito deus voyeur que é sempre confundido com escritor e quebra a cabeça até dos leitores mais desconfiados.

O narrador, sempre usando óculos escuros, é um sujeito misterioso que se questiona o tempo todo se deve ou não fazer algo além de simplesmente nos mostrar a loucura e o ridículo dos personagens, do povo americano, do mundo. Ele controla, observa. Pode ser o próprio Kurt Vonnegut disfarçado de Kilgoure, pode não ser...



O fato é que depois de ler o livro, comecei a desconfiar que se existe um deus aqui nessa bagunça, certamente ele usa óculos escuros e fica sentado sempre na mesa mais discreta do bar observando a tudo de forma dupla e discreta, mais ou menos como esse Kurt Vonnegut desenhado observando a mim e a você:

16.12.08

Os Seminaristas



Num dos meus delírios, digo: quando for Ministro da Educação, minha primeira medida — com o aval da Presidente da República para o acionamento de todos os órgãos repressores — será banir, com rigor, a prática de seminários em sala de aula.


Junta-se uma equipe de quatro a oito integrantes e, nessa pequena célula, está um incômodo fato social: sempre há num grupo, por qualquer que seja, no lugar que for, um indivíduo (ou indivíduos) que não faz nada. E pior, sempre há um metido a fazer tudo, a saber mais e, por isso, a cobrar mais dos outros. O chato é que quase nunca o pseudo-líder tem a competência necessária para tal.


Aí começa o simulacro de trabalho em equipe cujo auge será a apresentação do tema. A qual consiste, basicamente, em pulular slides sobre o quadro branco enquanto se segue a linha-guia do livro.


Tomando como exemplo um grupo de seis alunos, como quase sempre são os da minha turma, chega-se a uma dubiedade vagabunda: invariavelmente, parte do grupo fala bem, parte fala mal. Na verdade, tomo a minha turma como exemplo de tudo aqui neste texto.


Voltando. Dos que falam bem, uma parte fala muito. Dos que falam mal, uma parte entra em pânico e causa vergonha a si e aos outros. Infinidades de subgrupos dentro de um grupo minúsculo. Verborragia. Afasia. Falta de paralelismo. Slides com letra preta e fundo azul-marinho. Inferno.


O professor faz uma cara de interessado, alguém achando aquilo válido para todos e de uma importância vital para o aprendizado. Age de má-fé, o sacana. Outros professores não agem de má-fé: deixam bem claro que não estão levando muito à sério aquele pastiche. Um terceiro grupo, menor, tenta ajustar as coisas e acaba se irritando antes de resignar-se.


Os alunos à sua periferia, audiência, mesmo fingindo interesse para não serem repreendidos, fazem as suas coisinhas paralelas, tratam de pendências em outras disciplinas, digitam sms sorrateiros. Os alunos fora do campo de visão também fazem isso, só que não se preocupam em manter o silêncio.


À frente, o trabalho transcorre. Um tanto quanto constrangidos, os apresentadores ficam um ao lado dos outros compondo um jogral grotesco. Alguns lêem descaradamente. Outros decoram o texto e parece estarem possuídos por algum espírito: os olhos fixos à frente e as palavras saindo da boca — pode se jogar um balde d´agua na sua cabeça que ele continuará falando. Uns falam demais por si sós e tergiversam. Outros fogem totalmente do assunto. Tanto que às vezes o professor até interfere, acordando de sua compenetração de superfície.


E assim a coisa segue durante semanas. Termina o semestre, termina o ano, morreu mais uma disciplina e todo mundo fica feliz.



Voltando à minha idéia ditatorial, digo que, no fundo, ela teria uma boa intenção: Proibidos, os seminários escolares passariam a ser praticados na ilegalidade. Tudo o que é clandestino é mais emocionante. Os alunos se reuniriam clandestinamente e discorreriam e debateriam apaixonadamente a formação de professores sob uma perspectiva etnográfica e tantos outros temas fascinantes...


Comecei com um delírio e termino com outro.

11.12.08

BASF


Adriana W.Rover [AVM].



Perdidos em rememórias. Remoendo o passado. Deixando o presente suspenso. Misturando sonhos do futuro com desejos de possuir bens. Temendo a morte porém a acelerando em uma vida desregrada. Ou regrada de forma cínica. Eu penso: “meu tempo está acabando”. Está acabando e eu sinto isso. Não posso fazer nada. Meu tempo está acabando eu sei disso e não posso fazer nada porque o planeta é alheio em seu movimento e em suas convenções convenientes.


Já imaginou um dia sem obrigações? Ela dizia. Sem precisar fazer nada, sem precisar levantar da cama ou levantar do chão? E eram aquelas mãos e pernas misturadas ao lençol e aquele hálito de início de dia quando o dia já está na metade. A janela do quarto coberta pela cortina azul e a luz escapando através das frestas das esquadrias deixando tudo escuro-azulado. O corpo deitado como uma coisa feminina incerta. Pés com vestígios de grama e de terra. Saio e retorno e é como se o quarto fosse um cubo sólido de calor translúcido. Deito. Inspiro.


Expiro. Vem a sensação de porto. De avião que não chega, de trem que não parte, de barco que nem atraca nem se perde no horizonte. De ano que não acaba. De vida que não começou ou já começou e terminou e ninguém me avisou nada.


É isso. Conforme-se. Minha primeira mulher. Agora coadjuvante de meia-dúzia de fotografias que não puderam ser destruídas em consideração aos protagonistas. Nunca conseguimos dinheiro suficiente para nos livrarmos das contas. A casa era pequena. O carro era pequeno. O banheiro era pequeno. A pequenez foi oprimindo tudo. Empreender, meu jovem. Esse é o verbo dos grandes homens, ricos antes dos trinta, patriarcas de meia-idade, velhos sozinhos olhando para um imenso chão polido. Empreender olhando para projetos coloridos, catálogos, revistas de decoração de salas, noivas e jardins. Grandes igrejas. Grandes apartamentos. O destino do empreendedor é ser grande.


Eu sinto muito, mas não dá pra viver de promessa e de esperança, ela disse. E eu ainda não tão jovem assim vendo os outros fazendo tudo a tempo e envelhecendo antes do tempo e mesmo assim incapaz de me comover com isso. Nem com isso e nem com a decepção da mulher em forma de lágrima de raiva. Incapaz de invejá-los. Incapaz de querer ser exatamente como eles. Cheios de obrigações em demasia. Contas. Sinais de trânsito e eu com os ouvidos amortecidos pela música. Não pode ser assim, não pode. Nem dirigir você sabe! Que tipo de homem não sabe dirigir? Não sei, eu disse.


Talvez dos homens que não sabem dirigir e que também sentem o cheiro do fim. Dos que ouvem o barulho agudo do fim e observam tudo melancolicamente como se já estivessem depois daquilo tudo. Uma espécie de cachorro cujos sentidos permitem muito mas não deixam perceber devidamente o tempo e o espaço da raça dos homens. Então fechei a porta e saí andando com a minha mochila como um hippie civilizado patético. Patético porque quer ser rico mas não quer ser emburrecido pelo sistema trabalhista. Dez horas ao dia de todos os melhores dias da vida para poder ter direito a poucas horas de vida durante o dia.


Fui indagado sobre a fragilidade da minha prioridade. Curioso. Ela era a minha única prioridade. Só isso não basta. Amor sincero. Amor eterno. Amor constante. Só isso não basta, ouço em resposta. É preciso ter paredes e reproduções em miniatura de quadros protegidos por vidro. É preciso fazer bonito nas reuniões de família. Ter aquele dinamismo banal. Não ser nem muito magro, nem muito gordo. Não beber muito mas também não beber nada para evitar possíveis suspeitas de ser alcoólatra. Fazer o mais rápido possível um filho que tenha tiradas precoces e se defenda dos primos mordedores estúpidos.


Voltei para minha casa. Para a casa de minha mãe. É assim tão vergonhoso mesmo antes dos trinta? Não pude dizer. Minha mãe não estava em casa para responder porque não morava mais lá. Era apenas a casa sozinha e eu sozinho com a casa. Indo aqui e ali. Comprando víveres em pequena quantidade para ter a desculpa de caminhar com freqüência. Fazendo exercícios físicos. Meia-hora não mais senão fico dolorido e sonolento durante a aula à noite.


As garotas na semana de letras lendo e relendo o Brás Cubas dizendo que não tivera filhos para não transmitir a nenhuma criatura a nossa miséria humana. Suas expressões cínicas como se concordassem com aquilo quando na verdade queriam mesmo eram ficar suficientemente ricas para vestirem luvas de noiva e deixarem os filhos no playground da churrascaria. Esse maldito curso que não termina e me dá a sensação de avião que não chega, de trem que não parte, de barco que nem atraca e nem se perde no horizonte. Mal posso esperar pra essas aulas fisiológicas e seminários inúteis acabarem logo, eu digo a ela, empilhando os livros e os tirando de cima da cama.


E depois? Ela pergunta. Depois eu serei um mestre com inúmeras teses inúteis empilhadas em uma biblioteca pública. Serei um funcionário público da república pública federativa pública do Brasil. O império nunca terminou. Philip K. Dick estava certo quanto a isso: o império nunca terminou. Ser funcionário público é entrar novamente na corte. Você mastigando uma função e os iletrados pagando impostos mesmo sabendo ser o rei o mais burro de todos.


Me desculpa, meu caro, a vida é assim, eu estou sem: direi para o garoto no sinal que nunca será rei de nada. Direi a ele e aos dez à frente circulando como pulgas em meio aos carros engarrafados no semáforo: me desculpem, meus irmãos desfavorecidos, mas no banco de trás eu só tenho teses e mais teses empilhadas e algumas delas até são sobre vocês, sobre como vocês não dão a mínima para nada que envolva livros ou qualquer esforço subjetivo.


Que merda de futuro triste, ela diz. É. Que porra de futuro triste do caralho. Mas não é assim o futuro de todo o pessoal estabilizado? A cada dia novecentos carros novos jogados nas ruas. É preciso fugir disso! A gente consegue! Já erramos uma vez, ela diz... Quer dizer, você já errou uma vez. Um relacionamento falido e você ainda não tem nem trinta anos! Já fiz muito e pouco ao mesmo tempo, eu digo. O corpo branco encostado na janela do hotel barato. Arrumando os peitos dentro do sutiã. Tentando se acostumar aos cabelos recém-cortados.


Essas manias intempestivas. Cortes. Decisões de passar a noite no primeiro lugar possível que vier à cabeça. Olhamos para o preço exposto do hotel barato e decidimos não ir para minha casa e agora ela olha a rua abaixo através dum espelho do tamanho de uma maçã do rosto. A mão encostada em um dos panos do basculante. Já perdi tempo e matéria com mulheres infinitamente menos dignas e agora essa, insolente e falante, inteligente, mais nova e sem medo da idade, puxa o meu braço e sugere o pernoite.


Onde ela tá agora? Quem? Eu pergunto. A tua primeira mulher. A necessidade feminina de exumar as amantes do passado. Necro(a)mante. Não sei, eu respondo. A última vez tem tempo. Ela estava de braços dados com um sujeito de cara bem-sucedida e pacóvia. Carregavam sacolas de compras. Apontavam para a vitrina de uma loja de falsos artigos do oriente. A chave do carro aparecendo no cós da calça. A camisa pólo pra dentro. Ela parecia bem feliz com isso, mesmo ele tendo um começo de calvície.


Você vê como são as coisas, ela diz, mostrando um pedacinho da rua em reflexo. É, eu respondo. Pena que você agora também tão rebelde um dia vai ficar assim, eu digo. Eu? Nunca! E esse nunca é uma entonação incômoda e recorrente. Então é isso. Essa fita regravável sendo rebobinada o tempo inteiro. Deixando à mostra sons e imagens passadas enquanto novos sons e imagens parecidas vão sendo gravadas por cima de forma cada vez mais recorrente a ponto da fita cada vez mais fina e começar a misturar tudo. Som sobre som. Imagem sobre imagem.


Não, não pode ser isso. A humanidade é que está ficando senil. Perdida entre três tempos que não existem. A minha maior preocupação é esquadrinhar o teu corpo em papel milimetrado, eu desconverso, ainda jovem, ainda fértil. Preciso arrumar um papel milimetrado que desenhe quadradinhos por todo o teu corpo. Coordenadas. Batalha naval entre teu ventre e teu peito. Torpedos. Gráficos curvilíneos. Apnéia. Brigas à margem de abismos oceânicos. Navios de guerra, e não esse barco que nem atraca nem se perde no horizonte.


Concordo, ela diz e pára de olhar a rua através do espelho numa imitação de artifício submarino e vem até mim tirando a última peça. O rosto, agora compenetrado e entregue, não me traz rememória de nada. Dissolve-se a música do rádio. As recorrências se apagam sob a força das novas impressões. Dissolvemo-nos. Tornamo-nos densos. Fnalmente o tempo presente, vivo e pulsante, se reafirma . A fita limpa remagnetizada começa a rodar novamente.


4.12.08

Clube Noturno


samlanterman.



A mulher o incitava dançando com dois ou três desconhecidos como se estivesse em uma daquelas tribos onde se adora a natureza e a dança; onde se esmaga a cabeça de um dos gêmeos e se abandona os inválidos na floresta.

Tal pensamento irônico, amargo, já era a conseqüência inicial do ardil que o tinha como vítima. Não tivesse passado por isso antes, fosse um pouco mais jovem, e já teria sucumbido ao plano, abandonado o balcão e ido à pista, discutido, tentado levá-la pra casa, a forçado a encerrar o teatro. Por enquanto, a exortação não surtia efeito.

É o lado bom da idade, pensa. Bom e cruel: depois de certo tempo as cenas se acumulam, as situações se repetem e, com um pouco de calma, se passa da irritação ao desprezo. Até mesmo a melancolia póstuma, a descrença quanto aos relacionamentos, se ameniza com o tempo. Por quanta coisa se passa na vida, mesmo vivendo a mais comum delas.

Os sorrisos de escárnio contido da mulher direcionados a ele obtêm como resposta uma inescrutabilidade contrastando com a alegria da luz colorida. Um banco vaga ao seu lado. Senta e conta quantas fichas de cerveja ainda lhe restam. Três. Uma ampulheta no bolso da camisa.


“O que ela quer? Levar um tapa?”


Ouve uma voz feminina chegar diretamente a ele. Talvez, ele diz, dando um sorriso amistoso não pela situação patética; e sim pela entrada de uma testemunha no ardil. O espírito da irritabilidade agora compartilhado. Apesar de lamentar a incorporação injusta da mulher no pastiche, não deixa de ficar satisfeito com a constatação do ato não estar sendo superestimado por ele.

Observa a nova personagem com mais atenção. Não é tão bonita, mas é bastante atraente. Possui uma feminilidade, um charme latente que atrai qualquer homem. Um tipo de mulher que, por não possuir uma beleza óbvia, se refugia sob o senso-comum, mas nem por isso deixa de ter os homens que a interessam. Basta fazê-los olhá-la com mais calma. Uma vantagem e tanto sobre as que possuem beleza óbvia e têm que lidar com o assédio de todas as formas de vida.

Ao tecer tal constatação, sem querer ele se tornou um objeto de desconcentração da mulher na pista, um entrevero no seu plano dançante.


“Não vai fazer nada? Ir embora?”


Ir embora desvirtuaria o significado da palavra! — Ele fala alto, junto ao ouvido da mulher anônima, para sobrepor a voz à música — É uma má hora! Se eu sair agora ou se for até a pista, todo um plano adolescente terá surtido efeito!

Pronuncia bem as palavras. Está longe de estar bêbado, mas já possui uma sociabilidade fluida. A efêmera graduação ideal do álcool nas veias. Além do mais, ainda tem as fichas. As mostra para a mulher.


“Aceito, obrigado!”


O ato não significava isso, mas tudo bem. Pede duas Stellas. Antes de brindar, pergunta qual o nome da mulher.


“Estela também!”


A redundância, Estela! — propõe e eles brindam, tocando os pescoços das garrafas.

Ele e Estela Redundante observam a mulher na pista. Mesmo entre os passos frenéticos de dança, vez ou outra a mulher os observa. Depois de vê-lo acompanhado, tornou os movimentos mais ousados, colou o rosto no rosto de um dos sujeitos e fez movimentos rebolantes de cima a baixo. Se era pra ser um duelo, ele pagaria o preço.


“Por que ela faz isso?”


Desafio, insegurança, falta de amor a mim e a ela própria... Mas prefiro pensar que é por pura idiotice! — ele está com um inusitado bom-humor — Me diz uma coisa, Estela! Você é alguma espécie de deus ou fiscal de controle de situações ridículas?!


Ele lembrara de Café da Manhã dos Campeões, do Kurt Vonnegut. Depois de ler o livro passou a olhar com desconfiança divertida para todas as pessoas que parecem adivinhar pensamentos e são as únicas a usar óculos escuros independente do ambiente onde estejam. Estela parece saber de todas as coisas e usa óculos escuros com armações brancas.


“Tá com medo do Vonnegut?! Fica tranqüilo! EU mando nas coisas por aqui!”


A euforia da mulher na pista finalmente cede ao cansaço. Sede. Não lembra com quantos dançou. Olha para o balcão e não vê mais o namorado outrora rebaixado a acompanhante. Caminha até onde ele estava e, ao se aproximar do barman, se surpreende ao receber o valor da última ficha: uma garrafa de Stella. Ela desconhece o fato de antes o barman ter ouvido o pedido: Amigo, por favor, guarda essa última praquela garota ali na pista?!


“Aquela da dança ridícula?!”


Isso! — Ele disse, antes de os perdermos de vista.


Sozinha com a garrafa, a garota sente um inusitado sentimento de abandono. Esperava uma cena antes dele ir embora. Mas, espera... Talvez ele não tenha ido! Talvez tenha ido ao banheiro! Pergunta ao barman se tinha visto aonde tinha ido o sujeito que tava ali há pouco conversando com a garota de óculos escuros e camisa vermelha. O barman, com grosseria regulamentar, responde:


“Minha filha, eu sou pago pra servir bebida, não pra ser guarda-costas!”


Os perdemos de vista. Vasculhamos os cômodos, os banheiros, os reservados, e finalmente encontramos ele e Estela na chapelaria do clube noturno. Estela conhece o chapeleiro. Na verdade, ele deve vários favores a ela. A começar por estar ali, guardando a chapelaria.

A dançarina tribal começa a procurá-los sem seguir a mesma lógica. Anda em círculos e vez ou outra a perdemos de vista em meio a tanta gente eufórica. Talvez não a encontremos mais. Talvez ela nunca mais os encontre após a chapelaria. A casa noturna está cheia.


A chapelaria é um corredor estreito ao longo de toda a extensão da parede atrás do balcão. Nele se ouve a música tão claramente quanto na pista. A chapelaria é como um buraco de minhoca quântico, um universo paralelo escuro onde se guardam coisas.

Após passarem pelas bolsas, capas, chapéus e tantos outros pertences abandonados para sempre, eles chegam ao fim do corredor: uma parede nua e lisa. Ele consegue ver apenas uma luz longínqua e alguns contornos dos objetos pendurados. Não vê Estela, não sabe que a cor da parede é imaculadamente branca. Não percebe que, apesar da sua camisa vermelha aberta, do ardor e dos beijos, ela não tirou os óculos.


Já Estela enxerga todas as coisas: A parede, o homem cego e excitado, tentando se guiar pelo tato, esperando o momento exato para passar a mão acidental e cínica e, ao se sentir acolhido, esquecer de tudo.

Enxerga a nós e sabe do que nós sabemos: por trás de suas lentes, encaixados em suas órbitas, protegidos por pálpebras brancas e cílios sem cor, estão olhos de criador, não de criatura.

1.12.08

Segunda Estática


O que fazer numa segunda-feira sem nenhum ônibus circulando? Os caras estão em greve, li por sobre o ombro dum senhor baixinho empunhando o jornal de 25 centavos e esperando, assim como eu, os carros gigantes. Nenhum apareceu.

Olhando a avenida lisa, quase vazia, pensei na pergunta do início. Voltar pra casa e encarar aquele sol coalhado de sete da manhã intercortado pelo barulho de crianças e cachorros inimigos do sono?

Não. Melhor caminhar até o Centro. Um exercício terapêutico de reflexão e queima de parte dos milhões de calorias absorvidas no final de semana. Pressionei mais algumas vezes o botão mais do tocador de música: às vezes o deixo a meio-volume para ouvir as vozes das pessoas conversando. Fica parecendo aqueles clipes permeados por diálogos.

Sozinho, elevo a música às alturas. Considero o iPod Cego o melhor de todos porque, além da discrição, parece ter um sensor de ondas mentais que escolhe a sequência musical exata, de acordo com os pensamentos: Straight Line, do Silverchair, inaugura a caminhada.


Meia-hora de música e chego no Centro. Minhas panturrilhas reclamam e meu estômago se contrai de fome. Encontro uma banca de café-da-manhã. Pão grelhado na manteiga, café preto.

Os vendedores uniformizados não parecem ter pressa. Alguns até comentam (iPod em modo música-conversa) terem sido dispensados até mais tarde. Constato isso caminhando pelas ruas principais do comércio e observando as lojas vazias. Várias possuem anúncios de contratação de vendedores temporários — como se aqui em Manaus a maioria dos vendedores não fosse intimamente temporária. Sujeitos que, enquanto não encontram algo melhor, enfrentam a contingência com indolência e mal-humor, encostados e monossilábicos, dando olhares mortais quando você não compra nada.

O problema é o trabalho, a obrigação. Só que agora, segunda-feira, o trabalho tirou folga e estão todos felizes.

Alguns, mais rebeldes, ajudaram a aumentar o quórum do bar dos vigilantes noturnos. Um lugar sem nome, frequentado, em sua maioria, por vigias recém-saídos do batente que tomam um trago ou outro para chegarem em casa amortecidos e dormirem o sono dos justos surdos.


Ninguém parece estar muito preocupado com o fato de não poder voltar pra casa. Vigilantes, vendedores de sapataria, uma ou outra garota recém-maquiada e uniformizada. Em um pequeno grupo está uma garota da faculdade. Cabelos presos num coque, marca de telefone celular na lapela, sorriso. Também entro no bar.

Por que não? Aqui não existe diferença entre o sol das nove e o das onze e a conveniência dos dias teve, de súbito, a sua lógica alterada.


28.11.08

Diga Me Lá:


“Diga me lá: como é que você dorme? Deitada de bruços, de polegar na boca, num abandono em que ainda se prolongam restos hesitantes da fragilidade infantil, ou de pala negra nos olhos e rolhas de borracha nas orelhas à raia de artistas decadentes do cinema americano ou das mulheres fatais desesperadas de solidão e de champanhe, de pesadelos povoados de divórcios, de cirurgiões plásticos e de ganidos de pêlos de arame parecidos com a caricatura de Audrey Hepburn? Acho que deve ler poetas exotéricos antes de apagar a luz, sujeitos de bigodes complexos que aqui vêm às vezes esconder a sua mediocridade intransigente atrás de um gin-fizz, admirados por raparigas sem peito, fumando Gauloises amarrotados na sofreguidão desgrenhada com que as velhas dos asilos devoram a fatia de pão-de-ló aos domingos."



(ANTUNES, António Lobo. Os Cus de Judas. Rio de Janeiro: Alfaguara. Pg. 55-56)

25.11.08

Green Green Grass

24.11.08

Gullar


Pediu que eu a acompanhasse. Ela e a sua tatuagem de carpas (uma vermelha, outra verde) entrecruzadas e entrecortadas no interior do braço.

Sua casa vasta e úmida não remetia em nada ao meu minúsculo apartamento seco — Sua vasta casa úmida remetia ao corpo. Nosso corpo onde, sob a limpeza e o perfume da epiderme vivem as bactérias, os micróbios e tantos outros parasitas pacíficos cujo único sonho é permanecer.Os ignoramos porque precisamos viver, acostumamo-nos ao asco.

Assim como faz parte da casa acostumar-se aos insetos nas frestas e faz parte do portão acostumar-se com a fragilidade e a ferrugem. Assim como faz parte dos pés ignorar as falhas da passarela curta até a porta de entrada — A passarela falha e cheia de pequenas cicatrizes como as que se acumulam no rosto ao longo do tempo e que nem por isso não o deixam ser belo. Assim como faz parte ignorar a desordem do quarto porque sobre a cama está um corpo branco de fêmea de braços abertos ostentando carpas (uma vermelha, outra verde) vivas de tão perfeitas e sob ela, sobre ela, corpo, existe agora um conluio de subvidas, confusas e subordinadas a essa nova desordem.


O novo dia já inicia alto de luz do sol e barulhos. Peço a ela que me acompanhe ao meu apartamento pequeno e fechado, polido pela diarista. Ignoramos o abismo escondido sob o elevador e aos solavancos chegamos ao vigésimo-nono andar onde vivo sozinho. Mais desordem. Lugares expostos.

O adormecer dos homens é grotesco, boca entreaberta, roncos; o das mulheres, não.

Mesmo quando no meio da noite ela abre os olhos de fogo verde latente e me diz frases sem sentido — “meu nome é Água e eu tive tantos outros amantes... mesmo assim você me dá um cordão de pedras coloridas?” — e eu digo dorme para em seguida pousar sobre ela o lençol como se fosse uma rede que a aprisionará para sempre; assim como as agulhas aprisionaram as carpas, a vermelha e a verde, no interior do seu braço num processo de sangue e pequenos barulhos.

Em seguida eu mesmo adormeço e sonho com um híbrido de casas e de corpos.

18.11.08

Duelo Pequeno


Dois tipos manauaras ridiculamente clássicos — o maníaco motorista de ônibus e o playpittboy — tiveram um curto e perigoso conflito no Centro da cidade, na noite da segunda-feira de ontem.

Depois de disputar a liderança das três curtas faixas de asfalto entre o Edifício-garagem e o ponto de ônibus da Av. Getúlio Vargas e perder pela simples (e sempre injusta) lógica do tamanho; o playpittboy, cansado de ser jogado para fora das faixas, realizou um último corte suicida, desceu do carro e lançou no vidro lateral do motorista rival um objeto desconhecido.

O homem anônimo, cujos únicos traços percebidos foram os braços avantajados e um “tururi” da cor verde-limão, entrou no carro — um Gol branco modelo “bola” — e partiu em disparada, deixando, em contrapartida, o tempo dentro e fora do ônibus idiotizado pelo pânico.

Devido à dureza aguda do som e à quantidade de estilhaços sobre o motorista,
vários passageiros pensaram se tratar de um tiro. Após ver que permanecia vivo e ainda sobre o assento maldito o motorista tentou, em um misto de brio e desespero, perseguir o agressor, mas não conseguiu.

Seus braços e pernas, sob os quais o sangue resultado de uma série de acidentes colonizantes corria com o dobro da velocidade não respondiam adequadamente e, em conseqüência, a máquina também não respondia: ao invés da fúria mecânica, reagia com um tremor de corpo inteiro, como que igualmente consternada com a agressão.

Numa atitude derrotada, o motorista, um jovem de traços incógnitos, morenos e loiros, abriu a porta de descida e libertou os passageiros do seu descontrole e medo.

Após os passageiros descerem, o motorista com um vidro a menos partiu em velocidade adequada, deixando para trás os estilhaços causados pelo alicate agressor e todo um fracasso civilizatório.

12.11.08

Parker Posey na Praça



Desisti de esperar a boa vontade dos cinemas e assisti Fay Grim (2007) em casa, por conta própria, numa tela de computador em um arquivo com áudio e legendas descompassados.

Tais problemas, porém, não foram suficientes para diminuírem o brilhantismo da história e de sua protagonista, interpretada por Parker Posey.

No filme, continuação de Confissões de Henry Fool (1997), Fay deixa de ser a pós-adolescente chorosa e passa a ser uma mulher equilibrada entre o filho outsider, o irmão gênio literário presidiário e o marido desaparecido cujos livros a envolvem em uma paródia de conspiração internacional, a qual, apesar dos riscos, ao menos a faz viajar com a capa legal e as botas que sempre quis usar.

Todo o roteiro decantado durante anos fica refém das expressões de Parker e todos os personagens se tornam coadjuvantes quando a câmera se perde nos relances de pernas, lingerie e espartilhos de Fay Grim. Se a intenção era aproveitar o talento e a beleza de Parker Posey, o filme conseguiu: ela nunca esteve tão bem em um papel e nunca esteve tão, mas tão gata.

Fay Grim em Manaus (imagem clonada da New Yorker)

Voltando à realidade, ontem, terça, eu estava com um casal de colegas no Largo da Praça São Sebastião. Aproveitávamos o intervalo entre duas aulas chatíssimas para dar uma olhada na parte externa (e plebéia) do Festival Amazonas de Cinema.
Ao chegarmos perto do Teatro Elefante Rosa vimos luzes fortes, um tapete vermelho e uma mestre-de-cerimônias falando em um microfone tonitruante. Quando passamos pela frente do cercado com apenas uma fileira de curiosos, chegou o Chico Dias.
Seguimos em frente. Nada contra o Chico Dias, só não queríamos ficar pagando de tiete sem causa. Além do mais, as imagens do tapete vermelho eram reproduzidas mais à frente, numa tela de cinema.
Vimos chegar um senhor que pensei ser o dono do Restaurante Come Bem quando na verdade era o diretor do Expresso da Meia-Noite; depois um produtor japonês seguido pela Neve Campbell. Logo depois, para meu espanto, apareceu ela: Parker Posey em pessoa, sorrindo, vestida de branco, segurando uma sacola de plástico.
Olhei para o pequeno aglomerado onde a chegada era filmada e vi o ponto correspondente à realidade, Parker Posey, longe demais de mim. Mesmo correndo ridiculamente, eu não chegaria a tempo. Deixei de vê-la de perto. Merda.
Voltei o olhar pra tela e lá estava ela, enquadrada com um sorriso de filme, começando a subir as escadas do Teatro Elefante Rosa e tendo o seu nome anunciado por toda a praça. Meus colegas, alheios, não se comoveram nem com a Parker, nem com a minha empolgação contida. Liguei pra minha namorada:

— Acabei de ver a Parker Posey!
— Sério?! E ela é bonita mesmo?
— Muito gata! É branca branca.
— Cara-de-pau! Tenta tirar uma foto com ela!

Nessas horas vejo como sou um cara de sorte. Namoro uma mulher que, além de aturar o meu gosto por musas alternativas, possivelmente era a única pessoa em um raio de quilômetros que sabia quem era Parker Posey, Fay Grim, Simon Grim, Henry Fool e mais uma infinidade de outras coisas que nos pertencem somente.
Não me leve a mal, my lovely Parker, mas não foi dessa vez. Esses entreveros, sabe? Você veio a Manaus tarde demais. Coisas da vida.
Além do mais, a minha namorada, além de também ser muito gata e inteligente, é mais sexy que a Fay Grim e tem o cabelo mais legal que o seu.

5.11.08

Exortação


Apaga as luzes do quarto e é como se momentaneamente tudo deixasse de existir. Quando dormia sozinho era mais difícil; agora isso não mais acontece: a mulher está sobre a cama.

Mesmo assim, ainda surge um pequeno estranhamento. Ele apalpa as pontas e as frestas dos móveis. Mantém o indicador na parede à sua esquerda, como se nela houvesse um trilho invisível. Sabe que, ao final desses estranhos trilhos verticais e lisos, haverá um abismo de três passos no vazio.

Após a suspensão do corpo no ar escuro, suas pernas tocam a ponta do colchão. O olfato se apura, seus ouvidos se afinam, separam as faixas de ruído: zumbido do ar frio, barulhos da rua, mulher respirando profundamente.

Deita de peito pra cima e exorta o sono usando pequenos sonhos estranhos como isca. Uma técnica perigosa quando se está muito cansado mas que, em condições normais, é bastante útil porque os sonhos estranhos necessitam de um sono profundo para convencerem o sonhante de que aquilo de fato está acontecendo.

Pensa que o quarto é um limbo escuro e frio, um vácuo onde seu corpo não possui forma, ou possui, e as pontas dos seus pés, para fora da cama, a qualquer momento serão tocadas por uma força estranha. É uma criatura abissal, agora. Antes não tivesse forma do que possuir essa, bizarra, cega, frágil sob a atmosfera dos homens.

Tenta virar de lado (a posição dos sonhos leves) mas não consegue: o oceano acima de si é pesado e profundo. O vácuo volta novamente como opção de existência. Ele declina: mesmo abissal, cego e mudo, está no oceano; e qualquer oceano é melhor do que o vácuo. Mais acima existem os peixinhos coloridos, o céu para onde irá após cumprir sua pena oprimida. O oceano morno e azul, confortante com o seu sol mancha amarela translúcida.

Tenta nadar de encontro às pedras menos frias, não sabe se é noite ou dia. Se ao menos tivesse um lume! Uma luz natural, própria, indicando com o seu microampère qual o melhor lugar para passar aquelas horas de noite sem fim.

O lume surge, finalmente, e não é dele próprio, e sim algo ao seu lado, azul, fluorescente. Aos poucos, para seu espanto, surge uma visão, a primeira visão em toda a sua curta vida de criatura. Seus olhos negros, minúsculos, aos poucos ajustam o foco: vêem um quadrinho luminoso com um sino, uma barra de energia e o símbolo de uma companhia telefônica no centro.

Tá se sentindo bem?, a mulher pergunta. Tô bem, sim. Ela conhece a sua técnica de exortar pequenos pesadelos e sabe que às vezes não dá certo. Ele se recompõe, pede desculpas, não queria fazê-la perder o sono. Não tem problema, mas agora você tem que trazer ele de volta, ela diz, deslizando para o seu lado e montando sobre ele. O espaço do quarto permanece escuro, mas agora dissipado de qualquer incerteza física. Dessa vez o abismo é habitado e prazeroso, mútuo.

30.10.08

Antes de começar


Marie-Claude, originally uploaded by mithraphoto.

28.10.08

Fulgor


É certo haver nele a lembrança dos olhos dum fulgor imenso. Lembrança impregnada com ficção suficiente para não saber se viu ou se leu os olhos da mulher a lhe aguardar na porta.

Não tem certeza ser o fulgor traidor ou adolescente. Pequenos episódios lidos em filmes, vistos em livros. As vozes femininas tornaram-se memória una. A sua própria voz misturada às delas em memória perdidas num labirinto sem paredes. Ainda por cima, é tarde.

“Você devia ter uma cicatriz marcante, mocinha. Ou melhor, ter deixado uma em mim. Assim eu não teria dúvidas. O meu poder cicatrizante demoraria a apagar o corte. Os cheiros demoram um pouco mais, mas também cicatrizam. Perfume cítrico, doce, baunilha, olor de dentro, tudo.”

A voz sem registro diz achar impossível alguém esquecê-la.

“Como assim, impossível? Você lembra de quantos namorados teve? Ninguém lembra ao certo quantos namorados teve — conforme o tempo passa, os namorados se transformam em namoradinhos e vão sendo esquecidos a ponto da lista ganhar uma quantidade impoluta de dois ou três infelizes. E a meia-dúzia na qual você enfiou a língua na boca, a mão dentro das calças?”

Recompõe-se. Abre a porta.

“De qualquer forma, se você está aqui é porque eu ainda não engrossei essas fileiras esquecidas. Desculpa os termos, não quero ofender. Falando nisso, você era aquela que quando bebia me magoava com bravatas de puta? Ou era o contrário? Faz favor, entra.”

Ele pede licença e segue pelo corredor curto. A bebida, responsável pelo fluxo ilógico de palavras, não o faz estranhar a mulher na sala. Ele retorna, com gosto de menta alcoólica na boca, os cabelos molhados na fronte, as mangas dobradas novamente. Senta à mesa e observa a mulher com os pés sobre o sofá.

“Escuta, realmente eu não lembro quem é você. O dia foi confuso, os dias, na verdade, e eu estou longe de estar sóbrio. Por favor, me diz.”

Seria impossível lembrar da mulher pelo fato dela não pertencer à massa de memórias inúteis; não pertencer ao mundo comum. Ela não tem partes de várias; e sim o contrário — cada uma tirou dela uma parte e agora, com todas reunidas, suas memórias sentimentais desaparecem definitivamente e o significado da mulher finalmente se afirma como elemento único e definitivo.

Surge o sorriso de reconhecimento. O fulgor dos olhos agora é mútuo.

27.10.08

Quadrinhos


Action Camus, originally uploaded by Master Matt.

23.10.08

Intervalos


“Oi amiguinho! Coisa boa é ser criança! Todo mundo trabalhando e você em casa...”

A apresentadora do programa infantil é uma brasileira com partes de Ásia no rosto. Diz frases estúpidas entre os desenhos animados. Não porque tem vontade, e sim porque está escrito em uma tela eletrônica entre ela e a câmera.

As frases direcionadas a quem ainda é muito criança a ponto de não se ofender em ser chamado de “amiguinho” ignoram a quantidade de adultos em casa àquela hora do dia. Homens, mulheres. Outros turnos. Tarde, noite, madrugada: Estes últimos, recém-despertos, tentam de forma patética conseguir energia para viver o dia torto, sonolento, procurando fixar a atenção em um canal depois de curtas horas de sono e parando os olhos sobre os peitos sob a camisa lilás da garota oriental mestiça.

Ela sorri. Grava toda a semana de trabalho em poucas horas. Sua participação entre um desenho e outro é bastante curta. Apenas no final a câmera abre o plano e a enquadra de corpo inteiro. Vinte anos sobre as pernas finas e os tênis.

Alguns desempregados, vigiando o telefone, imaginam qual deve ser o salário da garota. Outros, com empregos bem remunerados, satisfatórios, imaginam se ela não sente vergonha em exercer uma função tão estúpida.

A maioria ignora a existência do programa porque sai de casa muito muito cedo e não tem tempo para se perder em conjecturas inúteis. A grande maioria, composta pela massa silenciosa que acredita em deus e ganha menos de mil reais por mês. A relação entre um dado e outro é como o mistério de Tostines.

Deve ganhar mais do que um professor, a mulher de um comenta. Grande coisa, ele diz. Qualquer pessoa na televisão ganha mais do que um professor. Uma chamada do telejornal da tarde fala sobre professores agredidos por alunos. Idiotas, comenta. Quem? Os dois, professores e alunos.

Sabe o quê? Seria uma excelente idéia dar um murro na cara de um aluno vagabundo desses. Um murro bem dado, pra rachar o rosto e quebrar pré-molares, para fazê-lo desmaiar sob os olhares aturdidos dos outros vagabundos que não pagam um tostão, pelo contrário, gastam o dinheiro do Estado para estarem ali, à toa. Depois de reorganizar os papéis e terminar a aula, eu seria preso e passaria um tempo em uma cela individual, pondo as leituras em dia, escrevendo. Meu advogado alegaria insanidade, estresse, essas merdas de gente perturbada realmente. Terminado o processo, eu seria aposentado por invalidez ou voltaria a trabalhar no sistema de ensino público, só que dessa vez na biblioteca. Vida melhor? Só se voltasse à sala de aula, com uma fama que me precederia e manteria todos os outros vagabundos calados e com as carteiras alinhadas.

O diretor diz ser aquela a última tomada do dia. A apresentadora decora a frase de despedida, esfrega os lábios uns nos outros, arruma os peitos e, tão logo a luz superior da câmera passa do vermelho ao verde, dá um largo sorriso que a leva ainda mais para o Oriente.


14.10.08

Picape


A coisa toda começa com os engenheiros japoneses e termina aqui à nossa frente: O carrão metálico, tração nas quatro rodas, cabine do tamanho de um quarto de empregada.


Cris e eu ficamos no estande e fazemos cara de quem considera possuir um exagero daqueles a coisa mais fácil do mundo. Surpreendo a mim mesmo com a lábia de vendedor quando consigo deixar os compradores em potencial com um brilho doentio nos olhos: aquele brilho típico de quem quer possuir algo sem saber exatamente o porquê, mas quer.



Eu uso uma camisa de branco impecável, gravata, um barbear de quartel, maxilar quase azul. Cris usa um macacão vermelho com a marca da fábrica e um decote para dar o impulso libidinoso necessário aos coroas. Com eles usa frases de sentido dúbio envolvendo a palavra "potência". Funciona. Toda semana ao menos um coroa compra uma peça na esperança de seduzir várias Crises.



Os caras sem posses normalmente observam o carro a dois ou três passos de distância. Não têm coragem de perguntar o preço e nem o que todas as crianças perguntam: Como é que um carro daquele tamanho conseguiu entrar no shopping se as portas do shopping são tão pequenas. Digo a elas que tudo é um truque de espelhos, como os mágicos fazem com os elefantes. O carro foi montado lá dentro, por mim, usando apenas uma chave-inglesa. Teletransporte.



Vender um absurdo desses, aprender o seu funcionamento e a excelência de suas peças que destroem orçamentos tem algo de demoníaco: a picape polui mais, ocupa mais espaço, atropela mais forte e passa por cima com a força implacável da tração nas quatro rodas.
Engraçado é que não gosto de carros e odeio as picapes nas ruas. O ato de vendê-las tem um quê de sádico. Às vezes me sinto estranho quanto a isso. Então lembro das contas, dos meus planos de sobrevivência, e logo passa.


Os nossos dias, os meus e de Cris, são fluorescentes e climatizados, lassos. Quando não há ninguém paquerando o elefante prateado, a gente conversa amenidades que não raro descambam pra sacanagem. Sabe o que eu mais gosto nesse macacão, Cris?, pergunto.



Ela sabe do meu fraco por peitos, então diz que é o decote. Digo que não. O quê, então?, ela pergunta. Digo que gosto do fato de ser uma peça única. E o que tem isso? Ora o que tem isso, Cris. Gosto de saber que todas as vezes que você vai ao banheiro tem a obrigação de ficar quase sem nada. Macacão nos pés, seminua.

Ela faz uma falsa expressão de choque.
Um possível cliente se aproxima e reassumimos a postura de antes. Cris ajusta o macacão vermelho, pousa cuidadosamente a mão sobre o capô da picape monstro e sorri para a vítima.


10.10.08

Ogivas Pretas e Brancas




















gó.ti.co

Adjetivo.

Diz-se dum estilo arquitetônico que floresceu na Europa do séc. XII ao XVI, e que se caracteriza sobretudo pelo uso de ogivas.
(Miniaurélio, versão digital)


Curioso como uma palavra deriva outras. A palavra “gótico”, por definição, está relacionada a ogivas. A palavra “ogiva”, por sua vez, também está relacionada não só a arcos cruzados, como também a projéteis e armas nucleares.



Sendo assim, não é difícil imaginar como a palavra “gótico” derivou tantas outras imagens e significados. Tanto que espontaneamente procurei por ela para tentar situar o álbum do Glasvegas e encontrei apenas essa definição relacionada a abóbadas como a da igrejinha que está no centro da capa do disco, sob um céu vangoguiano preto-e-branco misturado a um casal de máscaras vienenses contemplando as estrelas.


A relação equivocada serviu ao menos para pensar como uma simples definição de arcos e abóbadas se expandiu para todo um estilo, toda uma cultura musical, plástica, literária e, mais além, como ponto de referência a tudo o que é preto, cinza, mórbido e de bom gosto.

Assim, o termo original se tornou a definição de algo incerto, vasto e, por isso, confuso; ao contrário da rígida matemática que ergue e mantém as ogivas sobre as cabeças dos fiéis ou as despejam sobre as cabeças das vítimas.



A arquitetura planejada se uniu ao estilo inevitável do sujeito medieval: Pálido pela ausência de sol e coberto para se proteger do frio onipresente. Vestido de negro devido a escassez de cores. Alguém que devia passar um bom tempo freqüentando a igreja e o cemitério por falta de opção e para se familiarizar com o lugar no qual também estaria dentro em pouco porque a época era bem mais difícil. Trágico, porém espontâneo.



É essa espontaneidade, musicalmente falando, que percebo no Glasvegas. Eles não planejam: são e pertencem ao clima e ao lugar e praticam a sua música com propriedade, dando a ela esse clima ao qual se chama de “gótico” por pura falta de termo mais específico quando percebemos no som o lado mais cinza da Escócia, quando vemos as fotos da banda e a capa do seu álbum de estréia, quando ouvimos as histórias tristes e trágicas comporem um resultado belo por serem autênticas.


É óbvio que eles não estão à parte no fato cultural de que para o novo só resta a repetição do antigo, e a partir daqui seriam comentadas as influências de bandas ou desse ou daquele vocalista que consegue tirar o lado mais dramático de frases que soariam infantis ou ridículas quando cantadas ou escritas por outrem.


Seria, se isso fosse mais uma resenha inútil, e não uma dica valiosa: ouçam a banda porque é absurdamente boa.


7.10.08

Aspirações


Tudo poderia ser mais simples se não fôssemos bichos reféns dos cheiros.


Muitas vezes implicamos com alguém simplesmente porque o cheiro da pessoa não nos apraz; ou sentimos uma simpatia inexplicável por alguém que não é lá muito digno, porém cheira bem. Ou ainda, pior, desprezamos alguém desconhecido simplesmente porque cheira mal.

Entre tantos pré-julgamentos olfativos, talvez o mais cruel seja a saudade relacionada ao cheiro.

Sentia saudades da minha mulher quando ao meu lado (no ônibus) encosta uma anônima sem rosto ou qualquer algo parecido, porém suscitando em mim um interesse súbito devido ao perfume, que mesmo de forma vaga, lembrava a minha mulher.


— Você se incomodaria se eu desse dois ou três cheiros no seu pescoço?, pergunto.


Ela me olharia ultrajada ou, pior, atraída, se o diálogo não fosse imaginário.


A terra entra nos eixos novamente, então. Encontro-a, minha, e mato as saudades. Aspiro de olhos fechados, diversas, diversas vezes, e me vem à tona todo um registro romântico de anos.

Melhor do que uma série de imagens. Melhor do que um longo relato. Melhor, por ser pessoal, secreto, assim tão próximo. O lado bom dos bichos.

2.10.08

Recorrência


O piercing estúpido arrancado por um anônimo idiota distraído abre uma brecha cega no supercílio esquerdo da garota.


Ela encosta numa coluna e sente as lágrimas próximas ao mundo de fora. Aperta as pálpebras para contê-las e o corte se abre ainda mais, criando um terceiro duto lacrimal feito de sangue. Ela o pressiona com o polegar e deixa que o choro saia aos poucos. Chora parte pelo rasgo na pele do rosto, parte pela perda do piercing na têmpora para sempre: A cicatriz seria demasiado fina para que ali se espetasse novamente qualquer peça. No futuro haveria ali um ponto e uma vírgula marcando o acidente para o resto da vida.


Então qual o sentido?, eu pergunto em silêncio. Qual o sentido mulher que será minha e ainda não sabe e cada machucado, cada baque e rasgo, é como um rasgo em meu corpo porque você e eu seremos o mesmo e você, ainda tão jovem, será minha por vontade própria e eu observarei essas cicatrizes assim tão de perto enquanto você dormirá ao meu lado e a certeza disso é o consolo aqui nesse passado onde ainda sou escuso mas já sou teu de alma e corpo.



Pior, é a segunda vez. Primeiro foi o direito e agora o esquerdo. O primeiro rasgo, cicatriz em forma de exclamação, foi mais dolorido: Quase interferi na cena dando um murro no culpado, abrindo seu supercílio, machucando meus dedos. Se pudesse, ao menos odiaria dizer “eu te avisei”, mas não pude; estragaria tudo, confundiria o passado e o futuro onde a formação do nosso amor dependeria desses atos estúpidos envolvendo piercings, adolescentes e cicatrizes.

Aos poucos ela contém as lágrimas e resolve ir embora da casa noturna. Despede-se dos amigos e vejo no rosto de cada um deles um defunto social futuro. Passa por mim e me afasta delicadamente, deixando no meu braço a impressão do polegar manchado de sangue.

Observo a mancha sobre a superfície: o mesmo plasma agonizante que, a despeito da composição diferente, está intimamente ligado ao meu. A aguardaria o tempo que fosse preciso.


1.10.08

Durma com um romance desses...


, originally uploaded by .sereal..

30.9.08

Primeiro Amante


“O primeiro amante era o sol, andando em volta do corpo deitado, lambendo-o com sua língua de lume, batendo-lhe ao de leve com a sua cauda, farejando-o com o seu focinho de luz – via-se isso através das pálpebras, sem abrir os olhos, enquanto o corpo amolecia e se sentia mais forte o cheiro do vento – e agora o sol começava a apoderar-se de todo o corpo, avançava sobre ele com pés cautelosos, como um animal bravio, e a gente entregava-se, rendida, e o sol entrava pela pele, pelos ouvidos, pelas narinas, pela boca, e havia finalmente o momento em que se abandonava de todo a resistência e se afastavam também as pernas e se recebia o sol no meio do corpo – o sol, sim, o sol era o primeiro amante.”


(GERSÃO, Teolinda. A Árvore das Palavras. Lisboa: Dom Quixote, 1997. Pg. 169)

27.9.08

Fatos da Sexta


1. Iniciei o dia cumprindo minha obrigação religiosa: assistir a um episódio dos Simpsons. E, dádiva: um que nunca tinha visto! O Bart era o Johnny Rotten e a Lisa era a Nancy viciada em chocolate.

2. Pus os pés na rua pela primeira vez às três da tarde para alugar "No Country For Old Men" (consegui, finalmente) e, na volta, sol abrasante plena rua deserta, um Hell´s Angel com uma Harley e todos os paramentos (incluindo aí o cabelo grisalho grande e a cara de assassino de concerto dos Rolling Stones) me pergunta "onde fica o Hiléia II". Eu circundo o dedo indicador dando a entender que ele está no Hiléia II. Simpático, ele não me dá uma correntada e me pergunta onde fica a delegacia. Eu aponto: Lá (a delegacia está no campo de visão). Ele agradece, tenso, e segue fazendo um ronco ensurdecedor com a moto. Sigo.

3. Só saio de casa à noite para ouvir a participação do meu amigo tenor que rouba a cena em um concerto. Sendo ao lado das duas meninas filhas da pianista bielo-russa. A maior parte da platéia é de velhos. A pianista me observa, eu sorrio para ela (a conheço) e ela retibui, pianista, para logo em seguida, fechar a cara para o mundo. Simpatizamos. A entendo perfeitamente.

4. Na platéia do concerto vi uma velha com três pálpelbras. Duas, mais uma verruga sobre a pálpebra direita. Grande a ponto de valer como uma terceira. Ela me encara. Desvio a vista, com medo de uma maldição de terceira pálpebra.

5. Ouço "The Beautiful Ones", do Suede, no MTV Lab. Vou até a tv pra aumentar o volume e vejo que a música está na sessão "classic". Sem querer, me incomodo.

6. Faço o primeiro post no Google Chrome: Para a internete discada, tudo é um mesmo inferno lento.

25.9.08

Supermassa



Alguns esquemas semânticos representam a realidade como uma massa de cimento prestes a ser assentada entre tijolos ou como uma supermassa de modelar fora do pote amarelo.


No lado oposto à realidade, supermassa, o que seja, está o observador representado por um triângulo. Desde cedo eu, observador, aprendi a diferença ente triângulo e pirâmide:


O primeiro qualquer um pode traçar e saber que, chapados, existem apenas três tipos. A segunda é tridimensional e necessita de alguns milhares de escravos para ser feita e considerada, de fato, uma pirâmide.



Todo o resto que se dispõe a ser pirâmide se torna simulação das verdadeiras. Mesmo a do Louvre. É preciso ser alta, suja, cheia de defeitos e com uma tumba dentro para ser uma pirâmide de verdade.



Saber até que ponto a realidade é simulada e imperfeita é um mistério que se torna ainda mais mistério porque nenhum triângulo concorda exatamente com o outro. Tal fato se dá, principalmente, pela reta tracejada.



Uma reta tracejada liga o triângulo à supermassa. Essa reta representa o que se apreende e se aprende durante o caminho da vida à morte. Dentro da reta estão as outras pessoas e todas as experiências boas e ruins. Dependendo da qualidade e da intensidade com a qual os triângulos (nós) percorremos tal caminho, menos incompleta é a apreensão da realidade.



Para uns, tal realidade pode ser considerada como um punhado de átomos que reflete a luz e chega aos olhos e entra no cérebro e, dependendo da credulidade do cérebro, necessita do tato para dar o carimbo de OK, é verdade.



Para outros, a visão e o tato são apenas instrumentos importantes de captação porque a realidade é considerada de fato o que se sente por dentro; não apenas o que se vê ou se toca: O universo interno é o que conta, a supermassa refletora de luz é mera referência para o que se forma dentro de nós e se torna matéria constante de pensamento.



Tal matéria de pensamento pode ser considerada como estímulos que circulam através de nervos ensangüentados e se gravam neles para sempre. Também pode ser considerada como luz pura e invisível que usa tais nervos e sangue apenas como catalisadores.



Muitas pessoas, independente de um desses dois lados básicos, adoram apreender a realidade e ficar tecer teorias sobre ela. São chamadas de pensadores ou filósofos. Eles mesclam os lados e inventam outros, criando esquemas como o acima. O qual, dependendo do ponto de vista, pode ser real ou não. Aquela velha confusão de sempre sobre o que é ou não pirâmide de verdade.



Independente da diferença de posturas e opiniões existe um consenso: mesmo privilegiando o físico ou subjetivo, o triângulo, a reta e a supermassa são elementos fundamentais a qualquer mecanismo (ou dom) de percepção.



Decidir ser escaleno ou equilátero, contínuo ou tracejado, seguir um caminho reto ou sinuoso para observar a massa como algo fixo ou moldável, é uma decisão pessoal.



22.9.08

Inácio


O mercado de J. Abrahim é o último de Manaus a embalar as compras em sacos de papel madeira áspero e confiável. Considero o material tradicional uma resistência aos novos hábitos.


Acentua o cheiro do pão. Oculta realmente as garrafas de bebida alcoólica.
Estilo e sentidos: Por isso se fuma, por isso se bebe.


Tudo é embalado com trato origâmico. Pacotes menores separam o queijo do pão, o cigarro da bebida. No pacote maior, a estampa de um garoto cartunesco sorridente diz: Volte sempre!


O garoto tem um sorriso irônico. Desenvolvi essa percepção inútil depois de alguns anos. E pensar que outros têm idéias geniais em segundos.


O atendente não pensa assim. Inácio. Não sobre as idéias geniais; e sim sobre a estampa: Acha que o garoto é feliz porque vive em um mundo de duas dimensões onde tudo é morno, discreto, oloroso e acolhedor.


— Então me diz, ô Inácio: tu não acha que quando esse garoto do saco finalmente crescer e tiver na frente a bela visão de uma mulher nua de pernas abertas e... Mais! Quando tiver entre as pernas dessa mulher, tu acha que ele vai notar alguma diferença entre o real comum e o que realmente vale a pena?


— Acho que sim, chefe. Mas quer saber? Tomara que não! Ele passou a infância inteira sorrindo. Merece sofrer um pouco, esse filho-da-puta.


Damos um sorriso cruel de concordância e ele me entrega as compras.


19.9.08

"O caos é uma ordem por decifrar"


Ludwig Wittgenstein, originally uploaded by Muli Koppel.

17.9.08

O Pequeno Calixto


Entre tantas figuras presentes no ponto de ônibus, uma mulher possuía aquela aura opaca de alguém anônimo guardado na memória. Tive tanta certeza de conhecê-la a ponto de fixar nela meu olhar sem medo de constrangimento posterior. Ela percebeu o olhar fixo, sorriu para mim e a coisa toda se desnublou. Aproximou-se.


Meu lapso de memória teve como álibi o tempo que fez tão mal a ela. Talvez mais jovem do que eu, mas com uma aparência de camponesa sofrida. Um limbo de trinta anos cansados, eternos. Engastada ao braço direito, uma criança de mais de três anos. E esse garoto?, pergunto. “Esse é meu filho Calixto”, diz ela.


O garoto também parecia estar preso em uma idade eterna. O rosto redondo com marcas de expressão criadas por choro ou riso em excesso. Misto de ancião e criança, ele geme; e o movimento de alento da mãe é algo automático, como um cacoete, enquanto conversa amenidades comigo.


Na verdade tenta, porque nada mais se encontra. As pessoas e as situações comuns não mais existem e comprovam que o único vínculo entre eu e ela são os músculos do rosto.

Lembro que ela sempre escrevia. Bem. A ponto de mostrar aos mais próximos. Uns textos curtos, galgados em outrem, mas que tinham lá sua beleza. Poemas, também , poemas, lembro. Um assunto, finalmente.


E os escritos?, pergunto. “Parei. Depois que esse menino nasceu não tenho mais tempo pra nada. Mal tenho tempo pro trabalho... ainda mais pra ter inspiração pra essas coisas.”


O pequeno Calixto finalmente cessa os gemidos e me observa, sorrindo como um pequeno anão maldoso. Os cabelos finos, o nariz escorrendo. Um pequeno exemplar da raça de homens parasitas que, independente da idade, aniquilam a beleza feminina.


Ao invés das coisas belas de antes, apenas uma coisa a qual ela, ludibriada pelo instinto, metade dela mesma, será sempre devota.