30.1.08

Meio-Termo


Já perdi a conta das vezes que planejei ser um bebente contido. Mais ou menos como aqueles caras que dão umas chicotadas em si mesmos e não incomodam ninguém; só irritam as próprias costas e vão dormir em paz.

Até hoje nunca deu certo, mas insisto no projeto. Beber socialmente é legal, mas é um ato que necessita de muitos cuidados e reservas. Um meio-termo entre sóbrio e ébrio que é algo difícil de ser feito e invariavelmente pende para o segundo lado, o de baixo.

Alguns pares de cervejas mais geladas e mais baratas, consumidas devidamente da forma mais confortável possível. Em casa, sem perigo. Um experimento silencioso nas próprias veias. Reversível, divertido. Não há nada demais em beber sozinho quando se escreve ou quando se lê poesia. As duas coisas juntas, então, excelente. Claro que não todo dia. Claro que não toda semana. Não tenho competência nem pra beber socialmente, que dirá para administrar o alcoolismo.

Esta noite mesmo, não tenho a menor vontade de beber nada: é uma noite seca, com uma insônia típica das noites de férias, após um dia com vários momentos de descanso que, se fossem sequência, me devolveriam completamente aos hábitos noturnos. Mas não me iludo com essa paixão notívaga. Meus dias de ócio estão contados com o fim das férias chegando.

Voltando. Depois de um tempo, se aprende a distinguir a falsa inspiração que surge nessas horas das idéias que são relevantes de fato. Aprendi isso, ao menos. Não é exagero também dizer que até a pronúncia dos poemas em inglês fica mais leve e mais fácil, como naqueles sonhos em que falamos inglês de forma incrível. Não me deixam ter dúvida as mais de mil páginas de poesia do Bukowski divididas entre cinco livros logo aqui à minha frente. Lógico que isso não é uma prerrogativa: Ontem mesmo um poema do Ferreira Gullar me preencheu a cabeça plena três da tarde, com o barulho da televisão na sala e um sol tremendo aqui nas cortinas.

Já as coisas escritas pelo Pessoa são perigosas. Não importa se dia ou se noite, se cafeína ou se álcool. O Livro do Desassossego então, nem se fala. O Livro do Desassossego com um cigarro forte então, é quase um teste de bravura; quase como o cara e o chicotinho em frente ao crucifixo, só que mais subjetivo e sem fé na dúvida: o crucifixo não existe, assim como provavelmente tu mesmo. Não é algo pra toda hora, não é algo para todo mês, mas às vezes é necessário.

Semana que vem, haverá o carnaval, e com ele mais uma chance de dosar essa socialidade de beber e manter as rédeas das coisas.

Não que eu goste de carnaval. Carnaval é uma festa popular, ou seja, com a maior quantidade de gente possível em um lugar comum. Como não gosto de gente aleatória e nem de lugares-comuns, seria ilógico gostar de carnaval antes mesmo de depreciar todo o resto. Gosto do feriado, e o aproveito cinicamente como um protestante que acorda às onze da manhã no dia de Nossa Senhora Aparecida — adapto a folga ao que realmente me interessa.

Tentarei ser tão lúcido quanto o possível. Portarei o fogo. Mas não tanto.

29.1.08

Convés


“Dois seres jovens e belos começaram um idílio neste navio, e logo uma espécie de círculo mau fechou-se a sua volta. Esses começos do amor! Eu os amo e aprovo do fundo do coração — até mesmo com uma espécie de gratidão pelos que preservam, neste convés, no meio do Atlântico reluzente de sol, a meio caminho de continentes loucos, essas verdades que são a juventude e o amor. Mas por que não chamar pelo nome essa inveja que sinto no coração e o desejo tumultuado que se apodera de mim no sentido de redescobrir o coração impaciente que eu tinha aos vinte anos. Mas conheço o remédio, vou olhar para o mar durante muito tempo.”

(CAMUS, Albert. Diário de Viagem. pg. 45)

Calgary


Benjamin Gibbard, em uma das músicas mais belas que já compôs, canta:

You and me, have seen everything to see,
From Bangkok to Calgary…

Eu não tinha idéia de onde ficava Calgary. Hoje pesquisei e descobri que Calgary fica no Canadá e que lá houve muitos dinossauros que hoje são petróleo e saem pelo escapamento dos carros e tornam Calgary próspera. Pobres lagartos terríveis.

O que importa é que a música do Ben é das coisas mais lindas e que eu e a minha garota cruzamos o país ao longo de turbulências e não nos sentimos nada estranhos porque sempre tínhamos as mãos dadas. Ao invés de dinossauros, Ben usou coelhinhos e um buraco no piso.

No ínterim da volta à floresta, descemos no límbico aeroporto de Brasília. O corredor falso entre o avião e o aeroporto era todo revestido pela propaganda de um banco. Em um dos decalques, havia um homem sorridente segurando um cartaz de recepcionista desconhecido onde estava escrito: Sr. Rodrigues. E, na legenda que indicava o aeroporto onde o sujeito sorridente esperava, estava escrito: Calgary.

Um sujeito sorridente me esperando em Calgary. Seria estranho. Achei que Calgary ficasse na Ásia, um país exótico, mas não. Rodrigues é um sobrenome que não uso. Meu sobrenome invisível e silencioso é Bandini. Sobrenome profissional ainda não defini. Mesmo assim o homem ainda me esperava pelo nome antigo. Teve sorte de me encontrar com minha mulher ao lado, bem menos pior do que eu sou realmente.

Calgary fica no Canadá e o seu sub-solo é rico em ossos de dinossauros: O pterodáctilo e as suas asas cheias de ossos, expelidas em forma de fumaça por um carro popular e novamente indo para o céu, mais alto do que jamais esteve. O pterodáctilo que dava doloridas porém carinhosas mordidas no pescoço da fêmea antes do coito relâmpago hoje é fumaça cinza em Calgary.

E as minhas sandálias, como na letra do Benjamin, ficaram bem mais gastas depois de tantas e tantas caminhadas de mãos dadas com a minha garota. Os pezinhos perfeitos, brancos, também machucados. Os amo. Dias depois, voltaram à beleza de sempre, ambas curvas perfeitas, adorosa e levemente amargas.


26.1.08

Ainda Assim


A água estragou tudo e a falta de energia elétrica estragou tudo: Gola mastigada e cabelo despenteado, água ensopando as meias e enrugando os dedos. O mais ridículo é que depois da correria inútil, buscando marquises e fugindo de poças, tudo sem sucesso, tão logo chegou no local marcado para o encontro o sol surgiu intenso. Aquele sol de fim de tarde que teima em sobreviver ao esconderijo irreversível. Todos pareciam ter escapado, menos ele. Revoltado em silêncio, observou o povo seco. Alguns tão secos a ponto de comerem algodão-doce.

Mesmo amassado e velho, um maço de Marlboro ainda é um maço de Marlboro. Acrescente o fator umidade e ainda assim ele é um maço de Marlboro. Dois, não, três ainda dentro da caixa vermelho e branca, com um cara sem as duas pernas retratado no verso. O Ministério da Saúde adverte: não fume as próprias pernas. Procurou o isqueiro Bic que depois de algumas tosses ásperas finalmente cuspiu uma chama. Não podia admitir que jamais teria um Zippo Spitfire: O revestimento inoxidável, a boca lateral de tubarão, o barulhinho da abertura que não era tosse; e sim algo como o prenúncio de uma bomba a ser explodida. Alinhou o cilindro quase amassado, quase úmido. Um dia teria um spitfire. Tragou.

As coisas começaram a melhorar. Piores por fora, melhores por dentro. A taquicardia começava a ceder. Corrida, vergonha de si mesmo, encontro romântico. Impossível não perder o controle do músculo mas, calma, a nicotina dizia. Um cara solitário se aproximou para aproveitar o resto do banco mas, quando o viu soltar fumaça pelo nariz e pela boca, desistiu. Devia ter nojo de cigarro. Bicha. Mais um e deixo o terceiro-derradeiro para caso tudo dê errado. Quer dizer, continue dando errado. Devolveu o maço mole ao bolso com o sobrevivente dentro. Se alguém tivesse a cara-de-pau de lhe pedir aquele cigarro, independente da cara ou do tamanho, ele mandaria ir à merda.

Um vestido verde-escuro naturalmente amassado, com pernas brancas à mostra e sapatos afivelados em graduações diferentes parou à sua frente. Levantou a cabeça. Desculpa o atraso, ela disse. Tranças, batom quase sem cor. Desculpa eu todo, pensou em dizer, mas se saiu com um tudo bem sincero. A garota sentou ao seu lado, deus, que perfume. Desculpa mesmo, tô vendo que você pegou chuva. A água, agora sua aliada, quando ela arrumou o seu cabelo úmido sem jeito. Ela não ligou para a camisa amassada e nem para o resto. Apesar das desproporcionalidades, havia ali um interesse e uma tolerância mútuas que só poderiam ser expressas fisicamente. Beijaram-se.

Ela cruzou as pernas, abriu a bolsa e retirou seco, perfeito e longilíneo, um maço de Marlboro dourado. Recém-aberto, só faltava um. Ofereceu. Compartilharam. Tive que abrir antes de vir pra cá... Fiquei nervosa, disse.

23.1.08

Estradas, Planícies


Country Road, originally uploaded by Steve McCoy.


What would you do if I died?
If you died I would want to die too.
So you could be with me?
Yes. So I could be with you.
Okay.



A epígrafe acima é do primeiro livro que li neste ano. Uma história de sombriedade e beleza absurdas: A Estrada, de Cormac McCarthy.

Antes da Estrada, eu havia lido Cidades da Planície, outro romance de McCarthy com toda a propriedade e características de grande livro: John Grady Cole, o caubói apaixonado de forma irreversível por uma prostituta mexicana, Magdalena, se transforma, aos poucos, em um avatar involuntário.

Cidades da Planície é um livro duro e, apesar de toda a nobreza dos amigos protagonistas, percebe-se de forma gradativa que aquela história não acabará bem e, se acabar bem, será depois de alguns traumas e tragédias.

O mundo de Cidades da Planície é o Novo México, e John Grady Cole e seu amigo Billy Parham são os remanescentes do que se convencionou chamar velho oeste.

Já na Estrada não existe mais mundo. E o Pai e o filho que caminham por ela ao longo do livro talvez sejam os remanescentes de tudo o que se convencionou chamar de humanidade.

Tudo o que restou da lembrança do mundo tal qual o conhecemos está no inconsciente do Pai, através dos sonhos. O Garoto não tem nem isso, porque quando começaram os clarões ele ainda era um recém-nascido.

Assim, além de toda a ética e de todos os valores, toda a memória e lembrança do mundo claro onde as pessoas se amavam está na memória do Pai. Nos arredores, os homens que restaram devoram e escravizam uns aos outros; mais ou menos como era no início. Além deles, nenhum outro animal sobreviveu aos clarões.

John Grady Cole luta com faca, e presenciamos o seu desespero misturado com frieza em um combate de páginas e páginas com o cafetão de Magdalena. Além do cafetão, todo o Novo México parece hostil aos caubóis, cada vez mais relacionados aos arremedos holywoodeanos, cada vez mais deslocados e obsoletos.

O Pai possui um revólver com menos projéteis do que acolhe o tambor. E precisa ensinar ao filho como operar a máquina porque tudo o que restou do mundo é cinza, frio, hostil e selvagem. O que restou do mundo devora a si mesmo.

Mesmo assim, o Pai sempre reforça e confirma que ele e o filho portam o fogo; eles são os caras do bem e, certamente haverá outros caras do bem como eles. Outros que também portam o fogo consigo. É preciso encontrá-los, é preciso acreditar que eles existem.

Exceto por Densonra e os ainda não lidos de J. M. Coetzee, depois dos dois livros de Cormac McCarthy as prosas subseqüentes mesmo cruas, exageradas ou histriônicas, me parecerão bem mais amenas.


21.1.08

De Volta


Entre um aeroporto e outro, muitas coisas.


O aeroporto de Manaus e o seu lago de águas estáticas, com mini-ilhas sobre as quais escorregam tartarugas.

Uma linha imensa entre um ponto e outro do país e limbo inevitável de duas horas no meio do caminho, a tal capital de fato, Brasília.

E quando finalmente é dada a chegada, percebemos mesmo sem ouvir palavra que é em São Paulo que as coisas realmente acontecem e nos deixam com muito a ser dito.

Enxergo as coisas de trás pra frente.

13.1.08

Lourenço

O Casal Feio


Estar sexta à tarde na praça do Dom Pedro é um fato cármico. As pessoas falam sempre o mesmo assunto, sentam da mesma forma e carregam as mesmas sacolas de plástico.

A caminho de casa, em uma sexta que não parece sexta porque tudo é estranhamente tranqüilo. Parece um dia falso, uma simulação maior do que é realmente. Os veículos coletivos pintados de branco. Mais raros do que a inteligência.

No banco vários metros à frente, um casal se confunde. Pleno meio-dia e dois. Os dois se beijam, o talvez homem deitado no banco. Hippies que não sabem inglês. Um vazio errôneo, os dois. A talvez mulher sentada-deitada por cima.

Os dois se beijam.

Aqueles dreadloques marrons de sujo e os braços finos. Deitados um sobre o outro, quase. O casal de gênero incerto e incerto todo mais o resto. O casal isolado do mundo pela sujeira, alienado por um possível amor real. Isolados. A ilha, meio-dia, composta por carne mal-cheirosa e anacrônica.

As pessoas se calam e observam o amor dos feios. Assim como a morte e mais meia-dúzia de coisas, o amor — independente da intensidade e brevidade, do teor de dualidade perturbadora e engrandecimento, de eloqüência ou simplicidade — ainda é algo comum e gratuito.


9.1.08

Nove Dias Depois


Não há muito o que escrever sobre os acontecimentos da última noite do ano. Há apenas uma linha-guia: a imensa empatia pelos meus amigos.


Há um comercial novo, do Discovery Channel, que diz uma série de dados sobre a vida humana. Desde o conhecido 1/3 da vida que passamos dormindo, até dados mais inusitados, como o que diz que nos tempos da escola você tem uma média de 17 amigos e este número, aos 40 anos de idade, cairá para 2.

Contando com a minha garota e descontando os distantes que, por serem distantes, não existem e estão somente no rol da empatia subjetiva; ainda tenho pouco mais que o triplo dos dois que sobrarão nesta estatística provável.

Dois é um número até otimista, visto que a maioria das pessoas que eu conheço que já passaram dos 40 têm apenas 1 amigo ou nem isso; descontado o relacionamento com os familiares motivado pela empatia genética acrescida pelo hábito e pelo temor bíblico.

Na festa de ano-novo havia outras pessoas. Eu não sou dado a gostar de outras pessoas assim, de cara. Sorte delas. Elas ficaram em um lugar, eu no outro. Quando muito, conversei banalidades, sem considerar a mínima possibilidade de um dia me tornar amigo da maioria delas. Além de mim e dos meus, não gosto de gente.

Assim, de gente genérica. Nem mesmo de crianças desconhecidas, por mais bonitinhas e geniais que sejam. Se não for familiar próximo ou filho de alguém da minha imensa consideração, não dou a mínima. É uma seleção emocional cruel que não consigo evitar.

Não sou exatamente legal e, sinceramente, não entendo muito bem porque cargas d´água os meus amigos gostam de mim. Eles têm uma paciência absurda com a minha rabugice, com os meus comentários, com o meu humor inglês colonizado.

Talvez porque, na maioria das vezes, eu destine essa má-postura aos outros e não a eles, dos quais eu gosto muito. Por esse número que possivelmente se reduzirá a 2 eu entraria em uma briga mesmo apanhando, essas coisas. Eu daria tiros — o que me traria certa vantagem, se o outro não estivesse armado.

Talvez porque quando sou cáustico ou mesmo cruel eles sabem que eu estou brincando. Como aquela brincadeira infanto-imbecil de dar gravata; só que ao invés de braços são um monte de palavras. Uma brincadeira um tanto sem noção, mas estranhamente galgada na imensa empatia que sinto por eles. De qualquer forma, tento não mais fazê-la.

Não entender porque eles gostam de mim é algo bom; e quando digo eles não significa que eu tenho apenas amigos homens. Deus me livrasse, se existisse. É um número balanceado, homens e mulheres.

Voltando: É bom porque não existe nada pior, nada mais daninho e superficial, nada mais imbecil, do que atrair ou buscar amizade galgado apenas em atrativos e talentos. Quando é assim, surge um séqüito simulatório de macaquinhos que balançam os brações do mesmo jeito, mesmo não conhecendo nada um do outro e que saltitam em um sistema destinado à falência.

Em noites mais claras eu tento demonstrar o quanto gosto deles. Não sei se consigo.

Todos eles, sem exceção, não se enquadram nos padrões locais. Não por buscarem isso, mas por possuírem uma inteligência universal, a mesma aqui, nos dez parques, nos jardins paulistas, na Finlândia ou no Japão.

Eis um ponto comum, essa universalidade. O subjetivo, o válido.

Não há muito o que escrever sobre os acontecimentos da última noite do ano. Todos estávamos lá, mesmos — enquanto os mais jovens se balançavam na rede —, e isso é bom. Uns mais bêbados que os outros, aturando idiossincrasias musicais, dividindo cigarros (quando fumantes), comendo amendoins e bebendo-comendo caldo-verde.

Para mim, não existe nada mais positivo e consolidador do que essa constância imperfeita. Tão imperfeita que, moto-contínuo ou não, isso aqui é sem conclusão: seria ilógico porque é início.

4.1.08

Enlace Conradiano


“Ela iria. Iria sim. E de pronto a futura anfitriã de todos os europeus de Sulaco teve a experiência física de sentir a terra desaparecer sob seus pés. Desapareceu completamente, assim como o próprio som do sino. Quando os pés voltaram a tocar o solo, o sino continuava a badalar no vale; ela levou as mãos ao cabelo, ofegante, e correu os olhos de cima abaixo pela azinhaga pedregosa. Estava tranquilizadoramente vazia. Entrementes, Charles, com um pé dentro de um fosso seco e poeirento, apanhava a sombrinha, que saltara para longe deles com um som marcial de rufo de tambor. Entregou a ela circunspectamente, cabisbaixo.”

(CONRAD, Joseph. Nostromo. Companhia de Bolso, pg 67.)

O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...