26.2.08

Função Simples


Se fosse representado por um gráfico de uma função simples, a primeira hora do meu dia resultaria em uma reta breve e progressiva, tendendo ao perpendicular, partindo do sonolento e chegando ao sôfrego.

No período de uma hora exata vou da languidez da cama às flexões de braço. Dos passos trôpegos em direção ao banheiro aos passos firmes de uma corrida de dois quilômetros.

Após a corrida a reta decresce, de forma palpitante, até chegar à constante do normal físico. Meio-cantil com água gelada. Água fria sobre a cabeça. Novo uniforme, talco anti-séptico entre os dedos.

Escolho uma das camas-beliche menos hostis, menos sombrias e, dentro do alojamento úmido, tento uma leitura antes que os outros entrem falando alto, comentando sobre o jogo de há pouco ou sobre qualquer coisa menor, sempre em volume alto.

Um colega que mudou de Estado sempre me perguntava que título eu estava lendo. Eu sempre respondia algo como “Convivendo com Curiosos”, ou “O Assassinato do Curioso”. Ele permanecia no mesmo lugar e eu terminava dizendo o título verdadeiro.

Nem sempre leio. Quando ainda há sono remanescente, aproveito quinze, vinte minutos para aproveitar um resto de sono.

Às vezes sou rapidamente conduzido a um leve estado de sonho, como se os exercícios físicos estivessem contidos no ponto inicial, como o último sonho da noite, antes que eu tomasse consciência de que na verdade eu nunca saí do conforto da cama.

23.2.08

Zulma

"E, embora já estivesse decidido, continuou pensando por pensar, escolhendo e dando-se razões para a sua escolha, até que o amanhecer começou a esfregar-se na janela, no cabelo de Ofélia dormindo, e o seibo do jardim recortou-se impreciso, como um futuro que coalha em presente, endurece pouco a pouco, entra em sua forma diurna, aceita-a e a defende e a condena à luz da manhã."

(CORTÁZAR, Julio. Os Passos no Rastro, in. Octaedro. pg40)

20.2.08

Revelia

A mudança dos móveis do local de trabalho sem a menor explicação prática ou lógica reforça a idéia da inconstância, de como as coisas mudam à revelia.

Inútil ter apêgo. Mesa, monitor, teclado limpo com cheiro de álcool. Nada me pertence. Nem mesmo a pasta de “arquivos pessoais” e o seu conteúdo me pertence.

A imensa maioria dos arquivos pessoais é de músicas. Algumas distraem, outras empolgam, outras emocionam. Queridos pulsos invisíveis e abafados que invariavelmente são interrompidos por algo menor, externo.

Os desenhos que tanto tomam o meu tempo não me pertencem; assim como as fotografias dos lugares neutros — paredes cruas, operários anônimos — outrora em construção e hoje terminados, alheios, também não me pertencem.


Sobra uma subjetividade espremida que tenta separar todas as coisas. Dois mundos, dois pensamentos, um corpo.

Tomo, então, uma anestesia para levar o intervalo profissional sem grandes preocupações. Uma anestesia que não pode causar dependência e que necessita ser utilizada com parcimônia para que o efeito e o estoque não terminem antes do tempo.

Algo que amorteça mas, ao mesmo tempo, preserve o que realmente importa: o que está fora e guardado bem dentro.

12.2.08

Lápide

Costumo observar a lápide. O tampo de cimento, com uma placa de mármore onde estão rasgados o nome e a idade curta, de conta fácil porque os anos são redondos, duas dezenas. Sob, o corpo dela ali dentro.


A lápide diz uma frase estúpida, algo envolvendo anjos e vida eterna. Essas coisas não existem. Já a lápide, existe. Cinza e pesada, com uma placa cafona de mármore creme e umas flores murchas de ontem.

Ao menos essa irritação com a feiúra neutra da lápide me distrai; bloqueia os pensamentos sobre algum arremedo físico que ainda resta sob. Uma contemplação mais longa e não relaciono mais a lápide com o corpo e começo a acreditar que ela não está ali dentro.

Tento encontrá-la no ônibus. Os pontos onde sobem muitas moças quase sempre me dão calafrios de ânsia. Ela nunca está entre elas; vivas, segurando pastas e falando coisas estúpidas. Se existisse um reino dos mortos ela estaria melhor do que no meios daquelas anônimas barulhentas, mas não há. E mesmo se ainda fosse viva não conversaria com elas porque elas são burras.

Não haveria reino pra ela, então. Nenhum reino além do nosso.

Não a encontrava nas ruas. Não a relacionava com o nome da lápide. Então resolvi fazer algo ao meu jeito.

A ciência das fotografias. Escolhi várias fotos. Não só de quando a conheci em diante, mas algumas ainda mais jovens, quando ela ainda era adolescente, criança. As fotos que ganhei de presente.

Fiz um mosaico de corpo inteiro, misturando espaço e tempo: Olhos de escola, sorriso de férias no litoral, colo no meu quarto no final da tarde, pés com sapatos de criança. Para aproximar a colagem da escala natural, vez ou outra eu me deitava ao lado e comparava minhas solas dos pés passando dos dela com a cabeça um pouco além da altura do meu ombro. Um braço de papel sobre o meu peito. Dobrei-a.

A lápide, com uma nova camada de cal no rodapé, estava ainda mais feia. Tirei o mosaico da bolsa. Desdobrei-a e finalmente percebi que ambas eram quase do mesmo tamanho.

O sentido caiu pesado sobre a minha cabeça, um frio danado, calor nas orelhas, água salgada no rosto. O corpo— eu — dizendo coisas à revelia.

Peguei uma vela distraída de um túmulo ao lado e encostei nos pezinhos calçados, reforçados por cartolina. Cinzas. Voltei andando pra casa.

6.2.08

Extremo Mágico ou Vazio















Valis
é um livro atípico dentro da vasta obra de ficção-científica de Philip K. Dick.

Ao invés dos argumentos e narrativas de criatividade imensa que tornaram o autor (tardiamente) uma unanimidade na literatura de ficção, em Valis a fantasia está, literalmente, dentro da cabeça do protagonista.

O personagem Horselove Fat vai além da brincadeira idiomática com o nome Philip Dick e da função de alter-ego literário: é uma estranha entidade com a qual Philip convive como se fosse de fato alguém real e independente, um amigo imaginário crescido a ponto de se tornar quase físico.

O pavio da história é aceso quando Philip/Horselove têm uma epifania. Uma manifestação divina surgida na forma de uma estranha luz rosa que, de súbito, faz com que ambos tenham claros e relacionados todos os conceitos teológicos e filosóficos que já tinham passado pelos seus neurônios.

Horselove Fat acredita que Deus se revelou a ele e o fez ter o grande insight de sua vida: “O Império nunca terminou”.
Philip sentiu pela primeira vez o estranhamento de presenciar um possível milagre e sentiu-se mais próximo de Horselove Fat, o alter-ego que propiciava a fuga para a crença no sobrenatural.

Ambos começam a trabalhar a epifania (ou delírio) na forma de exegese, ou seja, uma interpretação teológica e esotérica dessa revelação sobrenatural. Criam conceitos que se apóiam no platonismo, no judaísmo, no cristianismo, na física quântica, nas teorias da conspiração e em tudo o quanto o cérebro recém-desperto (ou mais desperto do que o normal, quando pensamos em Philip) de Horselove Fat consegue relacionar. E, incrível, tudo passa a fazer um sentido absurdo, dentro de uma lógica que seria irracional se não tivesse sido revelada a ele pelo próprio Deus, ou Zebra, ou Valis.

Surge um problema comum a ambos: após a epifania, Valis se ausenta definitivamente e parece não se importar com o sofrimento de Philip e nem com as dúvidas e ânsias sobrenaturais de Horselove Fat.
Como em tantos outros casos onde deu as graças, o milagre não se repetiu novamente e, entre tantas indagações, deixou uma principal: deus ou delírio?

Surge então o pensamento mútuo e conciliador de que Valis talvez tenha se ausentado porque teria renascido, como renasceu em Jesus, antes de nascer em Buda. Se de fato isso tivesse acontecido, seria preciso encontrá-lo para descobrir as respostas necessárias às questões físicas e espirituais de ambos e assim guiar novamente a humanidade rumo a uma nova salvação.

No desenrolar do romance, dependendo da realidade do leitor, um dos lados da personalidade Philip/Horselove se torna irritante:
Horselove Fat é louco, possui uma lógica distorcida e cria uma obra que pode ser considerada inútil, quando se acha que o pensamento esotérico-religioso é louco, distorcido e inútil. Philip é alguém que, apesar de possuir uma obra relevante e crescente, e ter um pensamento racional arguto, não consegue assimilar as perdas de pessoas próximas a ele e nem administrar a própria loucura, apesar de conhecê-la em detalhes.

Tal dualidade, apesar de criar uma dicotomia na história a ponto de torná-la bem enfadonha por um bom tempo levanta, em contrapartia, a principal questão do romance: O que é mais vazio e ridículo? Um suicida racional, genial até, porém incapaz de lidar com os próprios problemas; ou um esotérico-teólogo que crê em todas as coisas e diminui a si mesmo gradativamente com o intuito de ser um mero instrumento do invisível?

A resposta é o ponto comum que gradativamente se revela entre Philip e Horselover Fat: a alienação e o vácuo existencial que está presente nos extremos dos dois lados, racionalidade e crença.

Mesmo crente, Horselove sente que, no fundo, tudo pode ser um delírio muito bem elaborado.
Mesmo cético, Philip também viveu a epifania e cogita a possibilidade de Valis realmente ter se manifestado e estar novamente vivendo entre nós.

Seria ingênuo não achar que no desenrolar da história as duas realidades novamente se encontrariam e se confrontariam.


* * *

Tal pensamento dúbio, que tal incerteza quanto a qual lado tender, não é exclusividade dos personagens de Valis: É difícil escolher um lado, saber administrar o transcendental invisível com o racional visível.

Cada um de nós tem um Horselove Fat em potencial esperando para desenvolver suas teorias cósmicas e um Philip que não consegue ver sentido para além do físico e sente surgir um vazio irremediável.
O truque — com Valis se revelando ou não — é tentar balancear os extremos.

De qualquer forma, independente de cogitações crentes ou céticas, certamente um messias que tivesse como profeta e principal apóstolo Philip K. Dick seria um messias mais bem assessorado do que qualquer outro que porventura tenha existido.

Pena que Deus, ou Zebra, ou Valis, ou a Ciência não tenham chegado a tempo.

O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...