31.3.08

Truques com as Mãos



















"
Tonight I'll show you how dreams are prepared... love, friendships, relationships. All those ships."


Algum estranho e estúpido critério de distribuição fez com que The Science Of Sleep, de Michel Gondry, jamais chegasse às telas ou mesmo às locadoras brasileiras. Um fato lamentável e inexplicável frente ao talento de Gondry que, em parceria com Charlie Kaufman criou, entre outras, a obra-prima Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança.

Para sanar a deficiência da industria precisamos recorrer aos métodos alternativos: torrent, gravador de dvd e um notebook sobre a cama para, dois anos depois, conseguirmos ter à nossa frente os sonhos de Stephane (Gael García Bernal), o estranho protagonista que vive em um tempo-espaço mediterrâneo entre o sonho e a realidade, e Stephanie (Charlotte Gainsbourg), a garota por quem ele se apaixona e passa a não se contentar em tê-la apenas nos sonhos.

Ao contrário de Brilho Eterno, onde o amor foi retratado de forma exarcebada, em The Science Of Sleep vemos algo mais próximo do real, apesar dos sonhos onipresentes.

Para nos ambientar aos sonhos de Stephane, Gondry esbanja criatividade com a sua célebre técnica de criar efeitos especiais sem o auxílio da computação gráfica; algo que nos remete aos antigos filmes de ficção científica, onde a imaginação compensava a falta de recursos tecnológicos.

Animações, seqüências de vôo, cavalos de pano que ganham vida e mãos que aumentam de tamanho são algumas da imensa gama de efeitos que, ao longo do filme, passam a se confundir com a realidade.

Realidade que também não se mostra assim tão verossímil quando vemos os estranhos hábitos dos colegas de trabalho de Stephane ou as traquitanas que ele mostra a Stephanie; tais como o leitor de memórias, o gravador de REM e a máquina que com um flash repete um segundo passado ou do futuro. Tais elementos fantásticos dão a deixa de que mesmo aquela realidade pode ser uma outra camada de sonho, do protagonista ou nossa.

Os elementos criativos, aliados à colcha de retalhos de influências e referências culturais, fazem de Science Of Sleep uma aula de cinema. Um filme despretensioso, mas pensado em cada detalhe, com um roteiro simples mas altamente simbólico, cuja grandeza não se encerra com os créditos e nos faz perceber que em Stephane (e em nós) uma frase de Joseph Conrad se reafirma:

"Vivemos como sonhamos — sozinhos".


16.3.08

Barista amadora


coffee, originally uploaded by tantan涛.

12.3.08

Distorções


Recebera de brinde um livrinho barato que falava sobre questões transcendentais de importância teoricamente superior à qualidade do papel sobre o qual os períodos curtos e vagos foram impressos. Na verdade não fora tão brinde assim, mas o hare-krishna cínico dera a deixa:

A colaboração é quanto você achar justo.

Trazer o conhecimento a quem não tem dinheiro, é algo justo?

Na verdade, bem...


O hare-krishna, levemente irritado, acabou cedendo o livrinho com a capa em caracteres dourados. Possuía vários na bolsa e não havia espírito elevado o suficiente para aguentar mais de cinco horas em frente às Lojas Marisa. Tal atividade deveria ser o estágio final da preparação para caras que querem se elevar pela perseverança — o vendedor dizia para si mesmo, e não sabia se tal pensamento era ou não impuro.


Lê isso aqui, Vânia: à mulher não cabia exatamente a alcunha de exotérica porque ela acreditava em qualquer coisa, desde que fosse invisível. Antes de seguir para o banho, a mulher leu alguns parágrafos do livrinho:


Concordo plenamente. Somos todos seres feitos de energia. Concorda?

Claro que concordo, porra. Estudei Física durante uns três anos.

Não falo nesse sentido. Falo em luz divina.

Como assim, luz divina?

Ora, luz divina! A luz que vem de Deus, bobo!

Ah, sim, percebi. Mas, me tira uma dúvida: ela é distinguível da luz elétrica, ou da luz do sol?

Claro que não! Senão não seria luz! Seria outra coisa!

E como distinguir? Existe algum medidor de espectro que classifique uma luz como divina, a exemplo da infra-vermelha, ultravioleta e etc?


Vânia, irritada, largou o livro e seguiu para o banho. Ele folheou mais algumas páginas, detendo-se em alguns parágrafos. Talvez o cara nem fosse hare-krishna. Mal olhara para o rosto dele — o discurso causara uma irritação tão espontânea que ele mal conseguira encarar o indivíduo cínico antes de lançar a má retórica. Da mesma forma que se sabe que alguém tem cara de crente, também se percebe claramente quem tem cara de descrente. Ele certamente estava no segundo caso e mesmo assim o vendedor insistira para que ele ficasse com o livro; algo como uma espécie de prova de fogo para o seu poder de vendas mas que, puxa, ainda não fora dessa vez que dera certo.

Deitou-se de frente para a luz, elétrica e, mesmo com a constatação de que o livrinho preso à sua mão esquerda era um exemplar de péssima literatura, lamentou pela falta de explicação plena e mesmo sentido para todas as coisas.

A falta de explicação era o problema. Fora ela quem abrira um flanco infinito para que todas essas teorias loucas inventadas por homens carecas e cabeludos tivessem ganhado tamanho vulto e se espalhado como um vírus fantasioso por toda a terra, fazendo com o sujeito se considerasse inteligente mesmo acreditando em fadas; não no sentido poético do James Barry, no sentido maluco mesmo.

Se um dia surgisse uma explicação sublime e indubitável sobre o sentido de todas as coisas, provavelmente a maioria preferiria não acreditar porque tal explicação certamente seria uma provação à sua fé mágica, um desafio. Algo que tornava a loucura, então, um
beco circular sem saída, ou melhor, de onde não se quer sair.

Gritou na direção da porta entreaberta:


Eu não acredito em fadas, Vânia! Eu acredito nas mulheres! Eu acredito em você!

Eu sei bem quem é safada, seu escroto!


Vânia quase meia-hora ali dentro até que a água parou e ela abriu a porta do banheiro. O vapor saindo de dentro criava um arremedo de câmara incubadora de filme barato de ficção científica. Dali a menos de um minuto, ela sentaria sobre o seu rosto e lhe faria recobrar o estímulo por todas as coisas vivas; lhe faria lembrar que ele estava vivo e que possuía um corpo, e que esse corpo possuía um sistema de raciocínio que só ela — e nenhum deus ou doutrina — conseguia perverter. Vânia acima de toda a cadeia de seres vivos.

Colocou a cabeça para fora da cama, como um condenado a guilhotina que quisesse encarar a inevitabilidade de frente. Uma guilhotina às avessas. Vânia e o seu método de guilhotina inversa revigoradora da vida.

Jogou o livrinho para um ângulo morto e esperou que ela começasse a caminhar em sua direção até parar à sua frente, negra e superior, e soltar o manto branco, revelador e úmido.

10.3.08

Quiz





What philosophy do you follow? (v1.03)


You scored as Existentialism

Your life is guided by the concept of Existentialism: You choose the meaning and purpose of your life.



“Man is condemned to be free; because once thrown into the world, he is responsible for everything he does.”

“It is up to you to give [life] a meaning.”

--Jean-Paul Sartre



“It is man's natural sickness to believe that he possesses the Truth.”

--Blaise Pascal

7.3.08

Instituição


Sempre culpara a Instituição pelos chamados fora de hora que o convocavam para comparecimento imediato, independente de lugar ou data. Chamados que transformavam os seus períodos de folga em um tipo de liberdade condicional, agravada por ser voluntária.

Aniversários, confraternizações, ou mesmo o sossego do ócio sempre eram passíveis de serem interrompidos pelo toque característico do telefone. O chamado era breve e sêco, quase sempre para dali a algumas horas.

Era um estorvo ao qual já estava acostumado; ou adequado, termo que gostava de usar: Adequação era submeter-se a algo temporariamente; já adaptação e resignação eram palavras que o assustavam pelo tom sem previsão de término ou mesmo definitivo. Jamais poderia adaptar-se ou resignar-se àquilo, sob a consequência de surgir um acúmulo de sentimentos inconscientes que resultariam em um outro termo, possivelmente o último por ser passível de punição pela Instituição: revolta.


Após alguns anos de Instituição, acostumara-se a falar de si para si mesmo. Em princípio sobre as coisas bastante pessoais, em frente a cadernos ou espelhos, e logo depois sobre qualquer assunto que não era conveniente tratar com Cecília.

Se, além de Cecília, ninguém se preocupava com ele por dentro, o que dirá por fora. Passou, então a aproveitar as consultas de rotina — marcadas pela Instituição — para remanejar tal carência básica. Com o médico discutia pormenores e ele, profissional, preocupava-se e escrevia com letra clara todos os sintomas que lhe eram relatados: Daqui a duas semanas você volta, meu amigo. Vamos resolver esses problemas todos, você vai ver.

Além do contínuo estado de prontidão, a simplicidade da substituição era outro fato que a Instituição o ensinara: convive-se com uma pessoa durante anos e então ela se vai; para outro lugar ou para fora da Instituição. Normalmente elas faziam um discurso emocionado e recebiam cumprimentos sinceros e, na semana seguinte, não se falava mais delas e os novos que chegavam, substitutos, não as conheciam. Depois de um tempo elas viravam personagens de histórias divertidas ou eram esquecidas por completo, confundidas com outros nomes de antes.

Depois de algumas dúzias de despedidas, tal sentimento de rompimento transformara-se em algo no qual, novamente, ele havia se adequado e, com o passar do tempo, expandiu a naturalidade da adequação das despedidas da Instituição também às pessoas de fora; imaginando-as fora do Estado, fora de uma Instituição que abrangia todas as organizações sociais, fora de tudo o que existe. Imaginava que existiriam outras, recém-chegadas, cheias de curiosidade e empolgação e todo o ciclo se completaria novamente, sem previsão exata de término, amanhã ou próximo ano, ou vinte.

No meio da semana de trabalho, depois de um sono sem continuidade, ele pegou o caderno e escreveu arfante, com letra miúda e corrida: Cecília viajou novamente e, quando Cecília não está em casa, não sobra ninguém, nem ao menos para dizer algo. Estou sozinho como nunca e sempre estive.

Consultou outro caderno, o de números de telefones, e viu que não havia ninguém para quem pudesse dizer os sintomas. Era uma gente distante e restrita aos momentos amenos e felizes, quando estavam dispostos a ficarem felizes. Fora isso, nada.

Um nada diferente do que Cecília distante não poderia fazer quanto a ajudá-lo em tempo hábil, visto que os sintomas, até então remanejáveis, pareciam ser agora irreversíveis. Chamá-la só causaria estrago, pânico. Melhor esperar sozinho. Melhoraria.

Não melhorou. Nunca se sabe ao certo o momento exato da morte. Frente a tamanho crescimento e gravidade dos sintomas, resolveu discar o número simples da ambulância. Não teve tempo. Um abismo surgiu logo em baixo. Caiu.


A Instuição que o chamara tantas vezes fora de hora, em momentos inadequados, sempre teve por norma ir à busca dos integrantes que se ausentassem por mais de setenta e duas horas. Sorte precisarem dele em menos de vinte e quatro.

Os dois diligentes viram que a casa com luzes ligadas em plena manhã e com todas as janelas abertas demonstrava algo de estranho. Tinham por direito arrombar as portas, caso fosse necessário. Fizeram-no.

Melhor assim. Se não fosse avisada pela Instituição, Cecília só voltaria dali a algumas semanas e seria terrível para ela encontrá-lo assim, feio.

O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...