23.4.08

Sacrilégio!






















O incrível site Vertigem recentemente disponibilizou as duas últimas partes das
Crônicas de Wormwood, uma série em seis partes criada por Garth Ennis, escritor célebre pelos seus argumentos nada ortodoxos e, de certa forma, perturbadores.
Isso quando não se é religioso. Tanto que não vou entrar em muitos detalhes da trama porque tenho medo das formas de vida atraídas pelos mecanismos de busca.


Wormwood é o anticristo. E sua missão, como todo anticristo, é abrir as portas do inferno para causar o armagedom e fazer com que seu pai (aquele mesmo) possa, finalmente, reinar sobre a nossa Terra.


Para isso, além de subverter todas as leis da moral e da lógica para gerar o pequeno Wormwood, seu pai também deu a ele alguns poderes perturbadores e uma vida cercada de conforto para que, quando chegasse o tempo certo, ele cumprisse a sua missão e, como retribuição ao seu trabalho de instrumento do mal, vivesse uma vida eterna cercada de prazeres e de privilégios; exatamente como todos aqueles modelos clássicos de anticristo que têm olhinhos malvados mesmo quando ainda estão nas fraldas.


O lance é que Wormwood não está nem um pouco interessado em tal artimanha.

Na verdade, ele a acha realmente estúpida, absurda e megalômana. De forma menos irritadiça e infinitamente mais melancólica, o seu melhor amigo, Jota, filho de deus (o Próprio) mandado novamente à Terra para salvá-la do fogo do inferno, também pensa o mesmo.



Entre uma vida comum e confortável, com o seu emprego rentável, a sua garota preferida e as conversas no bar, e ser uma espécie de instrumento humano de uma força maléfica que existe desde a origem do universo, Wormwood escolhe a primeira opção e, para desespero do pai, ele tem cada xingamento protegido pelo poder que lhe foi conferido pelo zero-um do universo: o tal do livre-arbítrio.

Obviamente, o pai de Wormwood, sendo a figura que é, passa a sabotar o filho indisciplinado de todas as formas possíveis, incluindo, entre outras baixarias, aliar-se com outro grande interessado no tal armagedon: o papa Jacó — um personagem cujos atos são capazes de fazer qualquer letra de death metal parecer música de acampamento.



Partindo dessa idéia original dentro de um argumento cujos personagens já foram explorados à exaustão, inclusive na suas releituras “heréticas”, Garth Ennis faz com que o leitor (que não engulha ou não tem medo de levar um raio na cabeça enquanto lê a hq) reflita sobre o absurdo das crenças apocalípticas e de todos os conceitos de céu e inferno quando as situa dentro do ponto de vista de seus principais agentes: o cristo e o anticristo. Homens especiais que, cansados de serem meros fantoches de seus criadores, resolvem, simplesmente, apertar o “foda-se” e deixar a humanidade por sua própria conta.

Bem feito.


17.4.08

Em Cem Dias Fora


Josephine e eu caminhamos a Augusta de ponta a ponta e vimos de tudo um pouco. Estranho, não nos sentimos estranhos.


Ficamos com a sola dos sapatos gastos. Os sapatos de Josephine incorporando a cada dia um membro novo à família composta por gêmeos espelhados. Calgary, como eu disse antes.

As nossas pernas não mais agüentaram as horas somente quando o dia seguinte já estava próximo. Horas e horas de pé, ouvindo as músicas que sempre quisemos ouvir, como se o setlist fosse controlado pela nossa vontade, exatamente como na Bela Cintra, dois dias antes, outra história feliz.

Atendemos casais! Os porteiros das casas de massagem batiam palmas e diziam que a primeira cerveja era grátis. Entramos? Fica a dúvida. Fato é que encostamos em um boteco para esperarmos as casas abrirem e tudo lá era autêntico como o azulejo — não como esse descaso planejado dos bares manauaras que vendem cerveja "meia" quente a quase quatro reais. Na Augusta a cerveja é geladíssima e o sanduíche é gigante e o barzinho compete dignamente com o evento do outro lado da rua, Inferno.

Bebemos e ficamos meio altos, média de um metro e noventa, cada, e continuamos crescendo. E continuaremos crescendo porque o efeito ainda hoje se mantém. Os pares de pés, caminhando juntos, cada vez maiores, fivelas imensas, cadarços.

Pés experimentando aperto porque, apesar de o terreno ser pedregoso, por vezes movediço, ele é transitório e certamente termina em algo plano. É preciso imaginar isso.


3.4.08

Pequena Âncora


Já é madrugada de quinta e desde a manhã de terça sinto uma leve dor muscular na parte interna das coxas. Corrida que não seria desmedida se eu ainda tivesse dezenove anos. Mas não tenho, graças ao giro dos dias e noites que, mesmo parecendo os mesmos, são entrecortados por constatações de irreversibilidade.


E quando surge um dilema? Uau! Dilema! Dois! Que número ridículo... mas pensando bem não tanto porque de dois — zero e um —, surgem inúmeras variações e possibilidades.


Então... Surge um dilema, e o que se faz o que eu faço? Deixo tudo correr à revelia por um tempo, com uma corda solta invisível que ainda é corda porque ainda me tem como ponto de ancoragem.


Talvez este seja o método mais solto possível porque não é método; é a realidade, simplesmente, cheia de gente e todo o resto que faz as coisas à tua revelia e quando você vê está à tua frente uma nova realidade possível e, com ela, a decisão pronta e possível, embalada e cheirando a eletroeletrônico novo.


Então eu a abro, mesmo que com certa dificuldade e ali encontro algo novo, apesar de ser de uma mesma matriz de acontecimentos já repetidos. A abro e a vivo, e sei que o dia que, até então era assustadoramente igual, quase um possível loop purgatórico, é algo único, meu.


Então eu existo; e a decisão, mesmo menor e infinitamente pálido ponto azul, é minha.