31.5.08

A Doce Arte de Ser Fantasma


Frequentar o clube do trabalho às sextas já é estar em uma realidade suspensa. Todos se sentam ao redor de mesas de plástico e rememoram feitos e curiosidades da carreira que começou no máximo lá pelo final dos anos oitenta. Lembro das fitas vhs e daquele recurso fantástico de deixar o videocassete programado para gravar programas enquanto se estivesse dormindo ou fora de casa. O presente deles é gravado com tal recurso: eles não estão ali de fato porque estão no passado ou em uma realidade de percepção suspensa e só verão o agora alguns anos depois, em fita vhs, enquanto a realidade de então continuará sendo gravada para apreciação futura. Saudosismo cheira a talco.


Bebo o suficiente para chamar um táxi. Não tanto pela porcentagem de álcool no sangue; e sim por um cansaço sonolento que não me faz cogitar andar duas centenas de metros e ainda esperar um ônibus que segue um ciclo astronômico. Vou até a portaria e espero o carro novo com um sujeito igualmente novo e emperdenido dentro que me leva em casa sem dizer palavra.

Chego em casa lá pelas três da tarde e todas as portas estão abertas. Minha mãe e minha tia estão no quarto ouvindo música, elas e uma criança, neta de minha tia, uma menina (a criança, não a minha tia) infinitamente mais esperta do que qualquer garoto da sua idade. Por causa do som, ninguém percebe a minha chegada. Passo para o meu quarto e vejo o que descrevi antes: minha mãe, minha tia, etc. e depois vou à sala, onde, mais uma vez, vejo a mulher que foi abandonada no sofá.

A mulher que foi abandonada no sofá apareceu em um domingo. Chegamos eu e a minha namorada e a tal mulher já estava lá, no sofá, bonita e de olhos tristes, com olheiras sob. Achei que fosse algum familiar distante, depois descobri que não era: minha mãe disse que a tal mulher fora abandonada pelo marido naquele mesmo dia e que há quase dois anos ele não queria nada com ela, leia-se isso aí mesmo entre as pernas. Na falta melhor do que fazer além de ser abandonada pelo marido, ela fora convidada pela minha tia, em uma espécie de ato fraterno, para passar com ela, minha mãe e a garotinha inteligente o resto do domingo. Depois dessa tarde, ela apareceu mais uma e mais essa última, quando cheguei trôpego de sono. Só que desta vez havia um homem sentado ao seu lado, se esforçando para parecer interessante. Ela ainda parecia tímida e triste e as olheiras permaneciam, apenas o sofá era outro, menor. O máximo de compadecimento que eu poderia ter seria dizer “pode usar o sofá para o que quiser, chorar ou conversar com homens, assistir tv ou dormir sobre.. o máximo que poderia acontecer seria em algum dia, não um dia como esse, eu ser áspero ou ser infame como o Henry Fool”, mas preferir dar um aceno de cabeça antes de me trancar no quarto e dormir por sete horas consecutivas.

Acordo com o telefonema da minha namorada. Ela está com o carro na frente da minha casa e são mais de dez horas. Obviamente mal-humorada porque combinamos antes dela vir me buscar e eu, pelo fato de estar conversando dentro de uma estrutura sonâmbula e lânguida, continuei dormindo como se tudo fosse um sonho. Pego algumas coisas, pego a minha máquina de escrever eletrônica e seguimos. Eu vou descalço porque não achei minhas sandálias e porque, raios, fantasmas sempre andam descalços como o Paul atravessando a rua. Mantra: veremos o Muse em São Paulo, veremos o Muse em São Paulo...

Não duro lá tanto tempo acordado. Durmo novamente e agora é manhã de sábado. Minha garota anda pelo quarto, sozinha, se arrumando para um compromisso. Eu me movo, abro os olhos e ela me dá um sorriso desfocado como se eu fosse uma lembrança. Levanto para o ritual do café, passo pela empregada e ela não me dá bom dia, a mãe da minha namorada me dá um sorriso de tolerância simpática e tudo permanece como sempre estivera. Chegam uns caras para consertar o telefone e eles não parecem me ver ao computador, escrevendo, depois a mãe da minha namorada diz que precisa de alguém para ir no banco de trás do carro para segurar o bebê, seu neto. Ela combina com a empregada: você segura o bebê e eu te deixo em casa depois. Eu passo novamente da sala à cozinha para uma outra rodada de café solúvel. Tempos depois, elas saem e fecham a porta fazendo barulhinho de berimbelo japonês ou chinês que atrai boas coisas.

“Sininho era tão burra que só conseguia ter um pensamento por vez, obviedade comprovada pelo amor absurdamente físico que sentia por Peter Pan”. Dessa vez o sino é do meu telefone: minha namorada, recém-saída do tal compromisso, perguntando se eu quero almoçar no shopping. Digo que não, eu estou chato e quero ficar em casa quieto. Colegas desconhecidos dizem algo a ela, algo sobre o almoço, sobre fulana pagar as despesas. Todos sorriem e ela desvia a conversa do fone antes da ligação cair.

Permaneço firme, com o papel virtual à frente. Não esse, outro. Ontem pedi a ela que entregasse uns escritos meus para concorrerem a um prêmio literário. Prêmios literários não colaboram com muita coisa além das cinco pilas que este se propõe a pagar pelo melhor livro de contos. Livrei-me de alguns meus, encadernando-os em três vias, com o consolo de que se não der em nada ao menos eles serão incinerados e não me farão volume ou vergonha. Apesar do esmero em imprimir em papel reciclado e de encadernar e anexar todos os comprovantes burocráticos, fiz tudo errado quanto aos envelopes, colocando cada via em um, e não todas as três vias em um único envelope. Minha namorada corrigiu isso, como boa agente literária de improviso; cargo que só ficou sabendo ter sido nomeada à noite, quando disse a ela que, além dos dez por cento do prêmio, também pago nela umzinho, guilhotina inversa ou afins, como bônus de gratidão.

Ela no telefone, novamente. Eu digo a ela que tomei um banho longo e que quero ser cheirado. Ela diz que tudo certo e me sinto menos fantasma porque fantasmas, apesar de todas as fantomimas, não têm cheiro.

28.5.08

Sonhos no Escuro

















Em Sonhos de Bunker Hill (1982), Arturo Bandini retoma a ação interrompida no clássico Pergunte ao Pó (1939), tendo desta vez os seus atos escritos por um John Fante sem próprio punho, apenas voz.

Fante, se não alcançou o patamar dos grandes, se uniu a James Joyce e a Borges por uma coincidência trágica: a perda da visão. No seu caso, em decorrência da diabetes, doença que também tirou as suas pernas e deixou-lhe a voz decodificada pelas mãos de sua esposa como a única opção de voltar novamente às páginas.

Logo no início do livro, tudo isso assusta. Assusta porque, à revelia da forma como a história foi escrita, o Bandini que está ali é o mesmo loser por natureza; dramático, exagerado, estúpido, sem o menor tino com as mulheres e com o carisma absurdo que nos faz, à revelia de sua personalidade toda problemas, simpatizar com ele de forma inevitável.


O alter-ego de Fante caminha de Bunker Hill até Hollywood, onde recebe ainda mais dinheiro do que recebeu por todos os seus sofridos manuscritos. Claro que ele não sabe como lidar com isso. Tem crises de culpa por ser um escritor que ganha dinheiro sem escrever, acessos edipianos e religiosos ridículos e, em uma primeira oportunidade de colaborar com um roteiro de cinema, vê todo o seu esforço criativo reduzido a uma onomatopéia.

Pelos motivos óbvios e heróicos do processo criativo, Fante narra de forma mais curta e sem tantos requintes de estilo fatos que mostram um Bandini cada vez mais perdido se despedir aos poucos e em definitivo de nós quando resolve voltar ao Colorado, sua cidade natal narrada em Espere a Primavera, Bandini (1938), para encontrar a sua família antes de voltar definitivamente para o seu solitário quarto de hotel. Inconsciente de que, sob os seus atos, está um autor com plenos direitos que resolveu revivê-lo para reviver um pouco a si mesmo, e passar aos seus leitores um pouco da melancolia que existe em uma realidade imóvel e escura que, abnegada e resistente, ainda consegue exprimir luz criativa.


Os atos de Arturo Bandini possuem o ritmo de sonho. Um sonho seu entre tantos no quarto solitário em Bunker Hill, talvez antes de conhecer Camilla. Sim, porque o fato de Camilla não aparecer no romance inteiro é a maior questão de todas. Uma questão que abre duas grandes possibilidades:

A primeira, a evidência de tudo ser sonho pelo fato de não estar presente: ela, que certamente seria uma obsessão eterna depois de tudo o que houve no deserto. A segunda, de que após o que houve no deserto, foi esquecida à força e se tornou de forma inconsciente a causa da incompletude eterna de Bandini.


Entre as duas opções desse último dilema deixado por Fante, fico com a primeira: a possibilidade de um sonho brilhante porém sem sentido, imóvel em um quarto escuro, antes do dia nascer novamente.


22.5.08

Meio-fio


Tangencio os bicos dos tênis na ponta do meio-fio. À frente, um carro atrás do outro, passando rápido, parecendo uma célula com um núcleo cansado de expressão triste. Dá para morrer nessa brincadeira de dar um passo à frente, ou mesmo nessa brincadeira de esperar o intervalo entre uma célula e outra para conseguir chegar ao outro lado da rua, a via de volta, inversa e vazia, no sentido do Centro.

Presas às mãos, trago sacolas de supermercado; a da direita, que leva as cervejas, dói um pouco mais que a da esquerda, que leva a comida. Sempre alivio a minha mão esquerda porque com ela escrevo e com ela me torno canhoto e um pouquinho mais ímpar em relação ao mundo. Tempo antes pensei em como era curioso levar assim à mão uma sacola grande cheia de alimentos e imaginar que tudo aquilo ali iria entrar na minha barriga. Aquela quantidade imensa de alimentos pré-deglutidos e de bebidas pré-depressivas e/ou pré-eufóricas, dependendo do clima.


As células não facilitam, tentam ultrapassar umas às outras como se fossem gametas masculinos, cegos e idiotas, instintivos, tentando chegar a um objetivo igualmente cego e bambo, feminino e passivo, para então originarem caras que ficarão atrás de volantes e competirão entre si, perpetuando um desdessempre. Alguns deles chegarão em casa e se enfiarão uns entre as pernas dos outros e a mesma competição orgânica começará novamente, micro e macro mercados sempre junto uns dos outros.

Pensara duas vezes em encarar o quilômetro andando (medo da morte estúpida) quando, de súbito, um intervalo imenso se abre na via. Atravesso com as minhas compras protegidas por plásticos e por caixas e com os meus braços pesados e os meus passos pesados até o outro lado da rua. O caminho é rápido quando um motor te impulsiona. Logo chego. A parte engraçada é que preciso atravessar a mesma rua para chegar ao mesmo lado onde eu estava antes. Algumas coisas não fazem muito sentido.


21.5.08

Weerez




O Wilson é o fotógrafo ideal: tira fotos legais enquanto não é percebido e não cobra por isso.

20.5.08

Midnight Boom!






















Ouço e ouço o Midnight Boom, disco novo do Kills, pelo fato de ter um quê de influências new wave misteriosas que o fazem lembrar bastante uma das características mais legais do Nirvana: a de ter aquele estilão alternativo, sujo, e ser, ao mesmo tempo... pop.


Longe de possuir a pose das famosas bandas “pós” alguma coisa, ou mesmo fazer cama sobre sonoridades já exploradas pelo Nirvana como (bem) faz o Vines e tantas outras bandas em canções isoladas (Charmer, do Kings Of Leon, sempre me emociona), o Kills tem o diferencial de deixar uma impressão clara de autenticidade, de estar seguindo um caminho similar porém independente nas suas canções.

Lógico que tal pequena e interessantíssima evolução não representa risco do ponto de vista indie, ou seja: eles jamais irão estourar além das paredes de algum show e dificilmente terão outro hit como The Good Ones, mesmo que façam outro videoclipe com tanto apelo quanto.

Não importa. Midnight Boom é legal em cada acorde pop e sujo dado por Hotel e, principalmente, sexy em cada um dos gritinhos new wave dado por VV em Alphabet Pony e suas irmãzinhas.

Falta pouco mais de meia-hora antes da meia-noite. Dá pra ouvir de novo.


18.5.08

Seymour´s Diary


“Se e quando eu começar a ter consultas com um analista, espero ardentemente que ele tenha o bom senso de consultar um dermatologista para participar das sessões. Um especialista em mãos. Tenho cicatrizes nas mãos por haver tocado certas pessoas. Uma vez, no parque, quando a Franny ainda era levada para lá no carrinho de bebê, passei a mão, por tempo demais, na penugem que cobria a cabeça dela. A outra vez aconteceu no cinema da rua 77, quando eu assistia com Zooey a um filme de horror. Ele tinha uns seis ou sete anos, e se enfiou embaixo da poltrona para não ver uma cena assustadora. Pus a mão na cabeça dele. Certas cabeças, certas cores e texturas de cabelo humano deixam marcas permanentes em mim. Outras coisas também. A Charlotte um dia se afastou correndo ao sairmos do estúdio, e eu agarrei o seu vestido para fazê-la parar, para mantê-la perto de mim. Um vestido de algodão amarelo que eu adorava por ser comprido demais para ela. Ainda tenho uma mancha amarelo-limão na palma da mão direita. Ah, meu Deus, se há algum termo clínico que me sirva, sou uma espécie de paranóico ao contrário. Suspeito que as pessoas estejam sempre conspirando para me fazer feliz.”

(SALINGER, J.D. Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira. L&PM. pg 67)


10.5.08

Pequeno Espaço Sob


Faltaram-me referências físicas para reconstruir exatamente o cheiro da pele branca.

Antes havia algo aqui; havia partículas de perfume estáticas no ar do quarto e outras tantas a meio-palmo sobre o lençol da cama. Altura do nariz. Meu.

Predizendo o sumiço do cheiro do ar do quarto, consegui (outrora) não só aspirar algumas partículas (bem forte) como também as prendi na memória, entre um neurônio e outro: Mesmo diminutas, algumas delas perfumaram até mesmo alguns pensamentos da infância.

Mas passou o tempo e elas também se perderam: confundiram-se com as lembranças enfraquecidas que só serão novamente rememoradas quando eu for velho e aí não será realmente (nem um pouco) interessante.

Não me resigno. Penso.

Então lembrei e busquei os artifícios sob as unhas. Memória se esconde aqui, sob.

Arranhei-a, deixei-a presa com um pouquinho de oxigênio, armazenada na superfície semiúmida entre o dedo e a unha, memória real. Como o corpo — lembro.

Uno os dedos das mãos.

Madrugada, concentração e sabonete neutro.


Finalmente.



3.5.08

Ruído Inevitável


Todas as pessoas da cidade resolveram ir ao Centro. As ruas cheias e eu e minha mãe incapacitados de conseguir lugar em um restaurante que fosse. Nos afastamos um pouco da turba e, finalmente, encontramos um restaurante-lanchonete com comida mais ou menos. Aqui tudo é bastante mais ou menos.


Acho intrigante a necessidade que muitas pessoas têm de ouvir música em volume alto sem terem noção de tempo e espaço. Intrigante porque existe uma proporção inversa de quanto pior a qualidade da música, maior o volume.


Hoje à tarde, quando tentei realizar um telefonema anual de feliz aniversário, tive a sala invadida por uma música horrorosa de um carro estacionado ao lado da minha casa. Precisei protelar a ligação porque não conseguia ouvir meu pensamento. O som era um forró horroroso. Entre outras coisas — chafarizes, palhaços, prestadores de serviço — , também temos o pior forró do país. Somado a toda a variedade de lixo sonoro compartilhado que toma as rádios e os toques polifônicos de celulares V3 ensebados. Uma, duas excrescências vindas do carro anônimo e então o barulho parou, finalmente.


Depois do telefonema, fui terminar a leitura do último Harry Pottter. Emocionante, tanto pela narrativa fluida da genial Mrs. Rowling, quanto pelo fato de ser uma história que eu acompanhei por quase dez anos. Fiz uma pausa para lembrar ao menos por alto das situações nas quais li os outros seis livros. Li todos emprestados, menos um (o quinto), que ganhei de presente. Quando li o primeiro eu tinha o quê? Dezenove, acho. Agora penso em possíveis edições na estante de uma casa futura, para mim, minha mulher e uma criança possível que reviverá a história quando for o tempo adequado. Impossível é não gostar das histórias do Harry. Sentirei falta delas.


O final ali, a meio centímetro, quando o barulho explodiu novamente, agora na casa ao lado da minha. Mais bastante tempo até que a coisa novamente se acalmasse e eu pudesse, finalmente, saber como tudo termina e, simultaneamente, ter aquela sensação inigualável de nostalgia imediata pelo fim da história.

Quando o barulho tentou voltar já era tarde: afundei a cabeça no travesseiro para um sono-torpor merecido. Os ruídos dos imbecis de mau gosto jamais serão páreo para a minha nostalgia de fim de livro, para a minha sonolência no início da noite.