12.6.08

Sementes


Confesso; recorri aos livros antes de constatar que o verdadeiro universo é prático. Somente sujando as mãos de terra (de forma quase compulsiva) foi que consegui encontrar o ponto certo para não matar as pequenas sementes; sufocá-las, afogá-las com o ímpeto bem intencionado de simular a criação de pequenas vidas.

A vida surgiu, finalmente, depois de tanta prática: plantas. Verdes e felizes, espontâneas. Férteis e displicentes; recriando a si mesmas com intenção cega de popular o mundo inteiro.

As expus ao sol. Torrei-as, com certo sentimento de culpa — elas, que eram fruto compacto do que eu plantara antes. Mas tal constrangimento durou pouco: elas se tornaram líquido diverso; café e chocolate, frio e quente, vice-versa.

Como quem expõe um filho inocente ao sol para dali surgir algo melhor dele, interno, era o meu olhar ansioso quando a vi provar pela primeira vez o resultado dos meus esforços estudados e melhorados depois de tantos anos.

Os olhos dela semicerrados, provando o líquido. Então o silêncio que não se insinuava trágico, feliz ou ridículo, transformou-se em alívio ao ver/ouvir os sorrisos e os gemidos contidos de gosto.

Ficou muito bom! — ela disse, com cuidado para não respingar o lençol branco. Na boca, vestígios das sementes esmagadas, invisíveis entre o sorriso, misturadas em líquido quente e açúcar. Mais, ela disse.

E as sementes bem plantadas, férteis na penumbra, mais uma vez se reproduziram furiosamente em silêncio.



10.6.08

"She Drinks Coffee, She Drinks Tea"

O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...