31.7.08

One Of Those


Sartre was some fellow, oh Yes

he showed us the bone of
Nowhere and shook it in
our face.
the choice
is yours,
he said,
morals died with God,
you´re on your own.

every now and then,
during the passing centuries,
some giant among men
arises,
shakes us truly,
shocks us out of our
sleep,
so that, at least for a
time, we become aware,
renewed
as we put our shoes on in
the morning,
as we trundle through our
tasks,
as we eat, defecate,
imagine love,
mail letters,
drive and walk the
city,
things and thoughts
assume different
shapes.

Sartre was one of those
giants.
Paris, France, much of the
World
rumbled and bounced
because of
him.

without some like him,
putting your shoes on in
the morning
would become so difficult
as to be almost
impossible.

Jean Paul,
Thanks
for everything.

BUKOWSKI, Charles. Bone Palace Ballet (new poems). Ecco: New York. 2002. Pg. 207

27.7.08

Arca


Eu penso em criar uma personagem. Uma mulher. Sua idiossincrasia mais marcante é a de jamais tirar o sutiã durante o ato sexual. Ela não mostra os peitos. De jeito nenhum.


Não há qualquer problema com eles. São lindos, na verdade. E este é o fato que a faz ter tanto cuidado e tanto pudor em não mostra-los. Ou talvez seja simplesmente porque não quer. Até as mulheres-personagem não têm explicação lógica.


A mulher anda nua pela casa. Digo, nua exceto pelo sutiã. Imagina uma cor, um modelo: ela tem um do tipo. Não sei se é fumante. Tive a dúvida agora e resolvi me inserir na história contando para ela um diálogo que tive dia desses com um colega:


Colega:

— Tu já beijaste alguma fumante? Terrível...

Eu:

— hahahahaha

— Fim —


Ela não entende a graça. Quer dizer, entende, mas acha bem infantil — fato comprovado pelo ato espontâneo de me arrumar os cabelos. Isso me constrange.

Mudo de assunto e observo a tessitura da renda. Nunca aprenderei a reconhecer os diferentes tamanhos de busto. Na verdade não me preocupo. Tenho com eles uma reação emotiva e binária: ou me emocionam, ou não me emocionam.

Ela me emociona. E como retaliação ao preceito infame do dialogo ela levanta e dá alguns pares de passos na direção da arca da sala. Sempre achei exagerado o nome “arca” ser utilizado para um móvel-caixa que guarda louças raramente ou quase nunca usadas. Ela curva o tórax e abre a porta baixa e de lá, de dentro da arca, em meio a cristais, retira um maço mágico de cigarros e uma caixa de fósforos.

Fuma o primeiro cigarro da noite e eu observo a fumaça circular pelo seu corpo translúcido, boneca de anatomia, personagem recém-criada, como que preenchendo-a. Observo-a com orgulho, criatura, e então preciso alteá-la ao nível do real para que aconteça algo entre nós.

Um trago, eu peço. Não, ela diz com vontade própria. Sutiã negro, defino algo pela última vez. Faz calor.


21.7.08

Franco


A relação entre meu amigo Franco e Ivete Menescal, atriz de tv, sempre foi pontuada pela falta de lógica de um amor escuso e desmesurado pela parte dele.



A personagem permanece no ar durante parcos quarenta minutos todos os dias. Na verdade, muito menos, porque a novela não é um monólogo; e sim um lance de vários personagens vivendo lugares-comuns completamente irresistíveis de serem acompanhados por alguém que teve um dia ainda mais lugar-comum do que qualquer trama de novela.


Então Ivete aparece, de maquiagem sempre irretocável, e meu amigo Franco, involuntariamente, se aproxima da tela e me pede que por favor perceba como aquela personagem, aquela à procura do amor, na verdade está à sua procura, Franco, quando deita solitária com o braço imitando travesseiro sob a cabeça de Judite.


Sim, porque Judite é a personagem de número cinco na carreira cada vez mais meteórica de Ivete Menescal, a qual, investiguei, não se chama Ivete Menescal realmente, e sim foi batizada como Julia Almeida. Alguém que, por não sei quais lá motivos, resolveu empregar o artifício de ator antigo e adotar um nome artístico. Triste, porque a grandeza de um nome pleno, feminino, Julia, com ou sem acento, não se equipara ao nome Ivinha, digo, Ivete.


Franco começou a ficar mal por não ter o seu amor escuso e desmesurado por Ivete Menescal correspondido da forma que gostaria. Mandou uma carta sincera, manuscrita, a qual dizia: “Ivete, te amo e tenho certeza que seremos felizes como um meio termo entre Mary e Andréa, duas das suas personagens mais ousadas e passionais.”


Como recompensa recebeu um envelope escrito à máquina elétrica: “Obrigado por apoiar a minha carreira. Para entrar no meu fã-clube é só reenviar uma carta para o endereço anexo e um cheque nominal no valor de quinze reais que você receberá uma foto autografada e uma carteirinha.”


No rodapé também havia uma assinatura e um beijo, ambos impressos em cartucho já demonstrando sinais de desgaste. É de conhecimento público a quantidade desmesurada e crescente de fás que Ivete Menescal acumula a cada dia, mesmo ainda interpretando o seu personagem de número cinco. A carteirinha chegou em quinze dias.


O problema é que meu amigo Franco, envolvido pela falta de lógica do seu amor escuso e desmesurado, não percebe nada disso. Para ele Ivete, Judite e Julia pertencem a ele; mais merecedor e digno do que qualquer outro homem do mundo. Tento explicar as coisas a ele e ele me olha como se eu fosse um descrente.

Na verdade não acredito em nada, mas isso não vem ao caso. Não quero falar de personagens milenares; e sim de Ivete Menescal, alguém que ainda não chegou aos trinta e já experimentou o sucesso e que, à sua revelia, permeia de anseios infundados o coração de meu amigo Franco. Preciso fazer algo, o cara é meu amigo, penso. E amigo precisa existir como amigo, precisa fazer coisas boas senão equivale a alguém que se considera escritor e nunca escreveu nada; apenas se sente como tal. “Amigo sem poder contar com ele é um merda, é peso na calça”, meu avô dizia.


Para agir ao invés de lamentar, resolvi mentir para o meu amigo Franco. É um preceito perigoso, a mentira; mas funciona que é uma beleza.


Heloísa não é uma personagem de Julia, ou melhor, Ivete Menescal; e sim alguém real, Heloísa mesmo, com cheiro e gosto. E a moça, Heloísa, tem uma semelhança danada com a tal Ivete Menescal e todas a suas cinco personagens e, melhor, não tem idéia disso porque não vê novelas, apenas lê livros.


Isso mesmo, apenas LÊ livros, algo tão ou mais raro do que alguém que nunca mentiu na vida.... mas Heloísa mente de forma compulsiva e isso a torna ainda mais perfeita. E Heloísa tem uma libido acima da média e isso a torna a mulher ideal para mim, tanto que pensei seriamente antes de apresenta-la ao meu amigo Franco. Para fazer o bem sempre é necessário certa renúncia, e isso não é lá tão legal, mas deixa.



Estou mentindo. Eu já conhecera Heloísa antes mesmo de um dia pensar em escrever esse texto, antes mesmo do amor escuso e desmesurado de Franco pelo meio-termo entre Mary e Andréa. Até nos enrolamos um na cama do outro, mas a coisa não foi em frente. Paciência. E só depois de muito cismar com a fixação do meu amigo Franco foi que assimilei a semelhança entre ela e (a já infame, sem o menor merecimento) Ivete Menescal , uma mulher solitáriaque devia estar dormindo com duas rodelas de pepino sobre os olhos, antiquada como alguém que adota um nome artístico mesmo se chamando Julia.

Expliquei o caso a Heloísa. “Franco, aquele teu amigo?” E também expliquei o lance do amor escuso e desmesurado que ele sentia por Ivete Menescal e o quanto eu ficaria grato se ela, Heloísa, quebrasse esse galho. Bastaria uma maquiagem e um ou outro trejeito que ela aprenderia facilmente (Heloísa: atriz amadora) se assistisse míseros quatro capítulos da novela das sete.


Ela topou, mas não sem antes perguntar “e o que eu ganho em troca?”. Eu respondi sincero, quase cínico, que ela ganharia a minha gratidão eterna. Ela me olhou com um olhar ainda mais sincero que deixava claro e me fez constatar e ter certeza de que a gratidão eterna não vale grande merda.

Morri em três livros, uma garrafa de vodka e mais uma ponta que certamente seria utilizada para comprar entorpecentes de forma escusa e desmesurada, exatamente como o amor de meu amigo Franco por Ivete Judite. É bom, Heloísa, mas é realmente muito bom que você ME convença de que é Ivete Menescal de fato, se não te tomo toda essa merda de volta. Mentira. Não teria como, mas senti firmeza no olhar de conta comigo que ela, atriz amadora, exprimiu com os olhos.


Bar. Eu e meu amigo Franco bebendo horrores. Nada pior do que beber sem querer ficar bêbado. Terrível, mas eu estava indo bem. Ela ficou de chegar meia-noite, ela ficou de chegar meia-noite. Olho o relógio: quase uma. Filha-da-puta. Franco cada vez mais bêbado e nada. Então ouço o maior burburinho, o povo meio que não querendo não perder a pose mas sem conseguir deixar de perceber a presença de alguém que possuía um diferencial, alguém que possuía uma atividade de destaque, que existia mais do que eles. Franco teve um sobressalto quando ouviu alguém dizer “caralho, a Ivete Menescal tá aqui no bar”.


Eu disse meu velho, Franco, meu amigo, fica calmo. O álcool evaporou do sangue do cara quando ela, a própria Ivete, ou talvez Heloísa, não tenho certeza, fazendo o olhar mais expressivo característico de Judite, colocou as mãos delicadas sobre os ombros de meu amigo Franco e disse: “Eu tenho te olhado através do vidro durante todo esse tempo e sei que você me ama, sei mesmo, mas não quero que você fique assim só por minha causa, eu quero que você seja feliz, Franco, e eu quero que você me dê um beijo e depois nada disso fará mais sentido e todo o mundo seguirá seu curso e eu só quero se for assim."


Franco olhou para mim, emocionado. Aceita, eu disse, meio que não querendo me meter na coisa. Qualquer merda de fato ou emoção ímpar só vale a pena se houver alguma testemunha ou, no mínimo, um cúmplice póstumo para que a coisa secreta realmente tenha alguma validade.

Eu observo Ivete e Heloísa, Julia e Judite, com os braços ao redor do meu amigo Franco e percebo, enfim, que apaixonar-se momentaneamente por um desconhecido é tão ou mais idiota do que se apaixonar por uma personagem de novela. Simulacro, simulacri, simulatorum... gosto de falar latim errado porque é uma merda de um idioma morto e Jean Baudrillard também está morto.


Nada faz muito sentido, apesar da coisa estar funcionando e, quando observo os dois em pleno contato pélvico apesar do público, penso que preciso salvar minha noite. Ivete Menescal, Heloísa, Julia Judite e Mary Andrea me olha e me faz um sinal de legal com a mão direita. O sinal diz: "Vai, vaza, tá tudo certo e talvez cê não beije tão bem assim."


Quase senti ciúmes, mas não. Essa mulher ilógica é mais absurda do que o amor escuso e desmesurado do meu amigo Franco por Ivete Menescal, atriz de tv. Ele feliz e perdido, nos braços de suas mulheres e no perfume feminino do seu único amor em todo o mundo durante aquele momento exato no qual viro as costas revestido da dignidade de alguém que fez uma boa ação.


Talvez isso facilite o final da minha noite com alguma das mulheres mapeadas e expostas, solteiras momentâneas, que eu percebi muito antes da meia-noite.

Mas talvez eu a ame, Heloísa, atriz amadora, com o agravante de não haver nenhum vidro entre nós.


15.7.08

Árida Delicadeza


"(...) Pensava em si mesmo não como uma coisa pesada que deixa marcas ao passar, mas como algo parecido a um grão de poeira sobre a superfície de uma terra adormecida demais para notar o roçar dos pés da formiga, o raspar dos dentes da borboleta, o cair do pó."


(COETZEE, J.M. - Vida e Época de Michael K. Companhia das Letras. Pg 104)

6.7.08

Ariadne minha


Está tudo bem. Eu não tenho medo de vórtices. Não temo possíveis mudanças drásticas, tempestades internas. Nada como ter experiência em algumas delas. Intensidades e tipos, durações e situações diferentes. Sobreviver mais forte: nada se compara a isso.


Hoje posso observar um vórtice se aproximando: um aqui, outro bem próximo. Daqui a algumas horas, daqui a alguns dias. Posso fechar os olhos e apenas ouvir o barulho; ora de onda invisível, ora centenas de vozes simultâneas falando baixo. Daqui a pouco haverá mudança e todos os dias que sempre pareceram os mesmos terão outra linha-guia.

Ariadne. Não perder Ariadne de vista porque ela é meu único lume dentro desse mundo.

O fio do barbante é grosso, mas ainda é um barbante. Cinza, corda crua. O enrosco em todos os dedos da mão direita, como se fossem cinco alianças, enquanto observo minha Ariadne seguir em um labirinto dela mesma, em um rumo aonde não posso acompanhá-la; apenas observá-la atravessando mais uma porta das inúmeras.

Não que seja uma ordem inversa: são turnos. Ora ela, ora eu. Dia desses era ela quem tinha o barbante preso às mãos delicadas, as mão mais belas do mundo e eu, cego, ia à frente, esbravejando contra fantasmas até chegar ao centro de um labirinto onde não encontrei nada porque nada existia lá realmente. Quando finalmente descobri que o centro (do labirinto, da minha fúria) era vazio e sem sentido (apesar de fantasmagórico), percebi que minha mão direita ainda estava viva ao vê-la se mover sozinha, sendo puxada de volta ao mundo: Ariadne à porta, recolhendo o barbante.

Agora é a minha vez. Apreensivo por não poder estar junto, a observo seguir em frente. O vórtice é agudo e sonoroso, mas não me impede de acender um cigarro enquanto espero o barbante terminar de se arrastar como uma cobra cinza que equivale ao tempo.

Então ele irá parar. Inerte, a cobra, e eu a recolherei com calma, a minha mão direita em palma, rígida como uma continência.

E a entregarei à minha Ariadne no centro do labirinto, com o seu sorriso mais claro do mundo e o minotauro morto sob os seus pés perfeitos.



1.7.08

O Fantasma da Calçada


Todos sabem que a matéria dos verdadeiros fantasmas é o esquecimento. Na calçada da minha casa, ao lado da única e principal porta de acesso, há uma cadeira esquecida. É uma cadeira verde e fixa, de plástico-macarrão, do tipo que apenas um fantasma pode se sentir realmente confortável. Ao lado da cadeira está uma garrafa de dois litros, cheia de água transparente; uma possível fonte de subsistência ou conforto e, logo ao lado, uma planta e uma mancha viva de fungo; seus únicos amigos enquanto cumpre as suas horas voluntárias.

O fantasma cuida da casa enquanto eu estou ausente. Cuida mesmo quando estou presente e esqueço que a casa existe porque estou muito concentrado em mim mesmo, existindo. Certamente é amigável porque bebe água e não álcool e porque não me assusta, não faz barulho, não prega peças. Se duvidar abafa os ruídos e arrepia os caminhantes noturnos para que o meu sono solitário não seja incomodado pelos barulhos do mundo. Quanto aos cachorros, não pode fazer nada.

Sentado, o fantasma, revezando os pés descalços sobre a cadeira, como alguém quase cortando as unhas. Vez ou outra tomando um gole de água, ou conversando com a planta enquanto solta borrifadas que a mantém viva, assim como todas as outras plantas ao redor da casa.

Uma manhã eu recebi o telefonema da minha vizinha perguntando se eu deixara os cadeados de casa abertos. Não, eu disse. Quando saíra de casa, dois dias atrás, tive certeza de que trancara tudo.

Tentaram arrombar a casa: o cadeado do portão da frente e os outros dois da porta-grade de dentro sumiram. Apenas a porta resistira. A porta e a cadeira do fantasma que certamente fora pego distraído; tomando banho ou molhando as plantas enquanto os vagabundos tentavam entrar.

Imagino o susto dos moleques quando, ao verem à sua frente apenas uma porta frágil e cinza — duas décadas, com um olho-mágico embaçado — serem, de súbito, surpreendidos por alguém de cabelos úmidos de banho recém tomado: dentes enormes e olhos injetados, carregando simultaneamente as feições dos seus entes mais queridos.

Os dois vivos, trêmulos, cada um com um cadeado na mão, correram em direção ao muro e pularam para a rua. O fantasma se recompôs, constrangido pelo excesso desmesurado de fúria.

Quando cheguei era dia alto, dez e meia, e tudo estava recomposto. Exceto pelos cadeados, que correram presos aos dedos dos vagabundos.

A cadeira estava novamente recomposta e, apesar da fragilidade da casa, não havia desordem: O amigo recompusera tudo, na medida do possível. Comprei cadeados novos e varri a calçada.