29.8.08

Peça


No palco do pequeno teatro as cortinas se afastam e três mulheres interpretam durante uma hora a adaptação de um texto de Lygia Fagundes Telles.

Esforçam-se e o resultado é íntegro. Imagino o gosto de um autor ver um texto seu sair através da boca de três mulheres. Aquilo das palavras produzidas em silêncio ou em murmúrios serem posteriormente trazidas a público, sem concessões ou aberturas porque estão sendo incorporadas e expelidas por uma boca viva, definitiva. Melhor do que pensar em forma de roteiro é produzir literatura boa o suficiente para ser adaptada para todo o resto possível. O pequeno teatro ficou cheio.

Além de todos os outros desconhecidos, estavam alguns representantes do povo do deserto. Povo do deserto é como denomino os alunos realmente ignorantes da minha sala.

Não só ignorantes no sentido acadêmico, mas também em todo o resto. São uns religiosos tíbios (adjetivo católico que carregarei para sempre) e caras-de-pau que falam alto e fazem piadinhas picarescas a toda hora porque a vida sexual deles não está em dia; ou está em dia, mas é estranha a ponto de agirem de má-fé como se Javé, o grande achincalhador de mulheres, o grande assassino de crianças egípcias, o grande odiador de pederastas se confundisse com isso, com essas risadinhas, caso existisse.

Calaram-se ao menos nos momentos mais dramáticos da peça. A literatura consegue criar esses milagres físicos e belos. Os diálogos pungentes criados por Lygia mantêm o povo em silêncio. Minha cena preferida é quando uma delas recita Ferreira Gullar, o maior poeta vivo da Língua Portuguesa, e a outra reconhece um poema pela primeira vez sem dica porque a poesia de Ferreira Gullar é orgânica e forte, brasileira.

A peça termina, mínima e íntegra como começou. As mulheres e o diretor recebem aplausos sinceros, até mesmo da ala da brodagem, meio que surpreendida com a performance.


19.8.08

Nado


A noite pungente, atroz. É fácil burlar o mundo inteiro, esconder-se dele. Basta acordar quando todos partiram, dormir quando todos ainda não chegaram para então despertar novamente no começo da noite de verdade, quando todos dormem sono pesado.


Exceto pelos cachorros na rua e pelos outros, desconhecidos talvez humanos, escondidos dentro das casas com as janelinhas amarelas opacas denunciando insônia. Fora isso, nada de substancialmente atuante além do frio e um pequeno grupo de vaga-lumes.

Entra no carro e percorre as ruas sem trânsito, cruza os sinais intermitentes, martírio dos dromofóbicos. Todas as lojas com as portas fechadas há muito e um ou outro vagabundo fantasma ao léu. Fora isso, nenhuma grande coisa além de asfalto vazio.


O posto de combustível. A única ilha luminosa de sempre. Sai do carro. Deixa a chave com o frentista zumbi e vai até a loja de conveniência. O segurança olha o horizonte e pensa no que fez da vida, o coldre mocho, a camisa azul tentando escapar do cinto.


A atendente assiste televisor enquanto ela entra no local com os pés descalços causando arrepios a cada passo enquanto circula pelas prateleiras. Uma camiseta preta, grande o suficiente para não deixar à mostra qualquer complemento de vestuário sob.

E tudo é frio e limpo. Os pacotes parecem terem sido polidos há pouco, as garrafas de bebida fria estão envoltas em névoa e as de bebida quente estão perfeitamente alinhadas. Os maços de cigarro parecem obedecer a uma composição cromática criteriosa de forma a comporem um belo painel. Escolhe.

Tamborila no balcão somente com a ponta dos dedos porque tem todas as dez unhas roídas de forma anárquica. A mocinha desvia os olhos do televisor (duas húngaras, olímpicas, fazendo nado sincronizado) e a encara compondo o resto da expressão com um bocejo e um sorriso.


— Eu acho lindo nado sincronizado, lindo mesmo (registra a vodka, registra os salgados) Esse? Esse? Aponta os maços porque ainda não aprendeu se é o light ou o forte. Sempre é o forte. (registra o maço)



Eu fiz nado sincronizado quando era pré-adolescente. Não continuei porque minha parceira morreu. (mentira)



— Nossa, que terrível! Era tua amiga? (um pacote de cervejas, um isqueiro preto porque perdeu o outro)



Pior, irmã. Irmã gêmea. Não gosto de falar sobre isso, desculpa. (não consegue mais mentir de forma convincente, mesmo assim lagrima)



— Desculpa, eu não queria... (põe as compras em dois sacos plásticos)



Tudo bem, que imaginaria. (tem uma nova idéia) É por isso que eu sempre venho aqui descalça. O frio do piso me faz lembrar o frio do piso da piscina. Fora isso, já superei a coisa toda.



— E hoje em dia, o que você faz? (o cartão magnético também de plástico, dentro da máquina registradora)



Hoje em dia eu começo todas as páginas do meu diário com a frase “a noite pungente, atroz”, como se fosse uma suposta versão mais dark do romance inacabado do Snoopy. (sorri e a encara, os olhos lúbricos)



A atendente não entende, mas mesmo assim sorri e entrega o boleto amarelo, entrega as compras e aperta forte a sua mão esquerda branca, cliente de unhas roídas e camiseta negra gasta, muito talvez sem nada por baixo.



Nela, atendente, a noite também se fazia lúbrica. O aperto amistoso se prolonga e se transforma no aperto de alguém que, subitamente, sentiu vontade de trepar com uma nadadora artística, branca como a dupla húngara.




12.8.08

Exercício


No começo, sentia-me um tanto quanto culpado quando começava a pensar as minhas personagens mulheres pelo tamanho dos peitos. Não que fosse algo superficial, picaresco, infantil; e sim uma consequência do pensamento de uma personalidade transcendente, feminina que, ignorando a genética, fosse a explicação do tamanho, do formato, da temperatura e do perfume sob o sutiã.

Achava o método bobo, sem sentido, até ler Ulysses: o livro mais genialmente criativo de toda a literatura terminava com ela, Molly Bloom, enfiando o rosto de um sujeito entre os seus peitos vastos e perfumados de Penélope ainda jovem.

Sim. Até nisso o romance fora antológico: dar aos peitos a devida importância ao encerrar todo o ciclo de um dia caótico na lembrança e na ânsia de ser transportado ao fluxo igualmente caótico e ainda mais erótico do pensamento de Molly e, mais além, ansiar o lugar do sujeito que, cego e anônimo, mudo, envolvido pelo calor e pelo perfume, encerra a narrativa com torpor e alívio. O sujeito, recompensado, é o leitor.

Depois de Molly e depois de dispersa a culpa pelo desenvolvimento de tal recurso criativo para desenvolver personagens femininas, desenvolvi o exercício saudável de imaginar como seriam os peitos das personagens clássicas sem recorrer ao texto em si para validar a idéia:

Os peitos mais tristes são os de Sônia Siemiônovna, brancos e secos, verdadeiros anticlímax quando comparados à cena e aos de Molly. Os peitos de Marie possuem rigidez e assimetria contrapostas com exatas marcas de sol cuja lembrança é um verdadeiro consolo, mesmo quando se está no cadafalso. Os peitos de Emma Bovary, como tudo nela, já tiveram seus dias de glória, mas sucumbiram ao tempo, tanto que raramente saem do corpete e, assim, não fazem falta. Os de Camila possuem aquele elemento quase sobrenatural de, apesar de grandes, ignorarem totalmente a gravidade e trazerem uma nobreza inabalável de princesa maia. Prefiro pensar que os de Cas, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos, não sofreram as retaliações físicas de sua raiva pelo mundo.

A lista é imensa e o exercício é interessante. Na atividade própria, é necessária a abstração para moldar os peitos das personagens de acordo com o que elas são para então esquecê-los e passar à história. Basear no real? Difícil. Até porque observar peitos anônimos é infinitamente mais complicado do que observar bundas: ao invés da covardia de ver as mulheres pelas costas é necessário encará-las e enfrentar uma inversão ilógica de valores.

Estendendo um pouco mais o real (e o texto), também penso como seria aqui fora se os tamanhos e formatos dos peitos fossem conseqüência direta da personalidade da dona. Dona — como se eles fossem alheios. E se fossem?


6.8.08

Eu adoro a Wikipedia


Pesquisando sobre a "idade do universo", ela respondeu:


"This article focuses on modern scientific research on the age of the universe. For religious beliefs about the age of the universe, see creation myth."


E de música de fundo, aleatória como o Universo, Man On The Moon, do R.E.M.

2.8.08

Miss Mosshart

O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...