12.8.08

Exercício


No começo, sentia-me um tanto quanto culpado quando começava a pensar as minhas personagens mulheres pelo tamanho dos peitos. Não que fosse algo superficial, picaresco, infantil; e sim uma consequência do pensamento de uma personalidade transcendente, feminina que, ignorando a genética, fosse a explicação do tamanho, do formato, da temperatura e do perfume sob o sutiã.

Achava o método bobo, sem sentido, até ler Ulysses: o livro mais genialmente criativo de toda a literatura terminava com ela, Molly Bloom, enfiando o rosto de um sujeito entre os seus peitos vastos e perfumados de Penélope ainda jovem.

Sim. Até nisso o romance fora antológico: dar aos peitos a devida importância ao encerrar todo o ciclo de um dia caótico na lembrança e na ânsia de ser transportado ao fluxo igualmente caótico e ainda mais erótico do pensamento de Molly e, mais além, ansiar o lugar do sujeito que, cego e anônimo, mudo, envolvido pelo calor e pelo perfume, encerra a narrativa com torpor e alívio. O sujeito, recompensado, é o leitor.

Depois de Molly e depois de dispersa a culpa pelo desenvolvimento de tal recurso criativo para desenvolver personagens femininas, desenvolvi o exercício saudável de imaginar como seriam os peitos das personagens clássicas sem recorrer ao texto em si para validar a idéia:

Os peitos mais tristes são os de Sônia Siemiônovna, brancos e secos, verdadeiros anticlímax quando comparados à cena e aos de Molly. Os peitos de Marie possuem rigidez e assimetria contrapostas com exatas marcas de sol cuja lembrança é um verdadeiro consolo, mesmo quando se está no cadafalso. Os peitos de Emma Bovary, como tudo nela, já tiveram seus dias de glória, mas sucumbiram ao tempo, tanto que raramente saem do corpete e, assim, não fazem falta. Os de Camila possuem aquele elemento quase sobrenatural de, apesar de grandes, ignorarem totalmente a gravidade e trazerem uma nobreza inabalável de princesa maia. Prefiro pensar que os de Cas, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos, não sofreram as retaliações físicas de sua raiva pelo mundo.

A lista é imensa e o exercício é interessante. Na atividade própria, é necessária a abstração para moldar os peitos das personagens de acordo com o que elas são para então esquecê-los e passar à história. Basear no real? Difícil. Até porque observar peitos anônimos é infinitamente mais complicado do que observar bundas: ao invés da covardia de ver as mulheres pelas costas é necessário encará-las e enfrentar uma inversão ilógica de valores.

Estendendo um pouco mais o real (e o texto), também penso como seria aqui fora se os tamanhos e formatos dos peitos fossem conseqüência direta da personalidade da dona. Dona — como se eles fossem alheios. E se fossem?


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