30.9.08

Primeiro Amante


“O primeiro amante era o sol, andando em volta do corpo deitado, lambendo-o com sua língua de lume, batendo-lhe ao de leve com a sua cauda, farejando-o com o seu focinho de luz – via-se isso através das pálpebras, sem abrir os olhos, enquanto o corpo amolecia e se sentia mais forte o cheiro do vento – e agora o sol começava a apoderar-se de todo o corpo, avançava sobre ele com pés cautelosos, como um animal bravio, e a gente entregava-se, rendida, e o sol entrava pela pele, pelos ouvidos, pelas narinas, pela boca, e havia finalmente o momento em que se abandonava de todo a resistência e se afastavam também as pernas e se recebia o sol no meio do corpo – o sol, sim, o sol era o primeiro amante.”


(GERSÃO, Teolinda. A Árvore das Palavras. Lisboa: Dom Quixote, 1997. Pg. 169)

27.9.08

Fatos da Sexta


1. Iniciei o dia cumprindo minha obrigação religiosa: assistir a um episódio dos Simpsons. E, dádiva: um que nunca tinha visto! O Bart era o Johnny Rotten e a Lisa era a Nancy viciada em chocolate.

2. Pus os pés na rua pela primeira vez às três da tarde para alugar "No Country For Old Men" (consegui, finalmente) e, na volta, sol abrasante plena rua deserta, um Hell´s Angel com uma Harley e todos os paramentos (incluindo aí o cabelo grisalho grande e a cara de assassino de concerto dos Rolling Stones) me pergunta "onde fica o Hiléia II". Eu circundo o dedo indicador dando a entender que ele está no Hiléia II. Simpático, ele não me dá uma correntada e me pergunta onde fica a delegacia. Eu aponto: Lá (a delegacia está no campo de visão). Ele agradece, tenso, e segue fazendo um ronco ensurdecedor com a moto. Sigo.

3. Só saio de casa à noite para ouvir a participação do meu amigo tenor que rouba a cena em um concerto. Sendo ao lado das duas meninas filhas da pianista bielo-russa. A maior parte da platéia é de velhos. A pianista me observa, eu sorrio para ela (a conheço) e ela retibui, pianista, para logo em seguida, fechar a cara para o mundo. Simpatizamos. A entendo perfeitamente.

4. Na platéia do concerto vi uma velha com três pálpelbras. Duas, mais uma verruga sobre a pálpebra direita. Grande a ponto de valer como uma terceira. Ela me encara. Desvio a vista, com medo de uma maldição de terceira pálpebra.

5. Ouço "The Beautiful Ones", do Suede, no MTV Lab. Vou até a tv pra aumentar o volume e vejo que a música está na sessão "classic". Sem querer, me incomodo.

6. Faço o primeiro post no Google Chrome: Para a internete discada, tudo é um mesmo inferno lento.

25.9.08

Supermassa



Alguns esquemas semânticos representam a realidade como uma massa de cimento prestes a ser assentada entre tijolos ou como uma supermassa de modelar fora do pote amarelo.


No lado oposto à realidade, supermassa, o que seja, está o observador representado por um triângulo. Desde cedo eu, observador, aprendi a diferença ente triângulo e pirâmide:


O primeiro qualquer um pode traçar e saber que, chapados, existem apenas três tipos. A segunda é tridimensional e necessita de alguns milhares de escravos para ser feita e considerada, de fato, uma pirâmide.



Todo o resto que se dispõe a ser pirâmide se torna simulação das verdadeiras. Mesmo a do Louvre. É preciso ser alta, suja, cheia de defeitos e com uma tumba dentro para ser uma pirâmide de verdade.



Saber até que ponto a realidade é simulada e imperfeita é um mistério que se torna ainda mais mistério porque nenhum triângulo concorda exatamente com o outro. Tal fato se dá, principalmente, pela reta tracejada.



Uma reta tracejada liga o triângulo à supermassa. Essa reta representa o que se apreende e se aprende durante o caminho da vida à morte. Dentro da reta estão as outras pessoas e todas as experiências boas e ruins. Dependendo da qualidade e da intensidade com a qual os triângulos (nós) percorremos tal caminho, menos incompleta é a apreensão da realidade.



Para uns, tal realidade pode ser considerada como um punhado de átomos que reflete a luz e chega aos olhos e entra no cérebro e, dependendo da credulidade do cérebro, necessita do tato para dar o carimbo de OK, é verdade.



Para outros, a visão e o tato são apenas instrumentos importantes de captação porque a realidade é considerada de fato o que se sente por dentro; não apenas o que se vê ou se toca: O universo interno é o que conta, a supermassa refletora de luz é mera referência para o que se forma dentro de nós e se torna matéria constante de pensamento.



Tal matéria de pensamento pode ser considerada como estímulos que circulam através de nervos ensangüentados e se gravam neles para sempre. Também pode ser considerada como luz pura e invisível que usa tais nervos e sangue apenas como catalisadores.



Muitas pessoas, independente de um desses dois lados básicos, adoram apreender a realidade e ficar tecer teorias sobre ela. São chamadas de pensadores ou filósofos. Eles mesclam os lados e inventam outros, criando esquemas como o acima. O qual, dependendo do ponto de vista, pode ser real ou não. Aquela velha confusão de sempre sobre o que é ou não pirâmide de verdade.



Independente da diferença de posturas e opiniões existe um consenso: mesmo privilegiando o físico ou subjetivo, o triângulo, a reta e a supermassa são elementos fundamentais a qualquer mecanismo (ou dom) de percepção.



Decidir ser escaleno ou equilátero, contínuo ou tracejado, seguir um caminho reto ou sinuoso para observar a massa como algo fixo ou moldável, é uma decisão pessoal.



22.9.08

Inácio


O mercado de J. Abrahim é o último de Manaus a embalar as compras em sacos de papel madeira áspero e confiável. Considero o material tradicional uma resistência aos novos hábitos.


Acentua o cheiro do pão. Oculta realmente as garrafas de bebida alcoólica.
Estilo e sentidos: Por isso se fuma, por isso se bebe.


Tudo é embalado com trato origâmico. Pacotes menores separam o queijo do pão, o cigarro da bebida. No pacote maior, a estampa de um garoto cartunesco sorridente diz: Volte sempre!


O garoto tem um sorriso irônico. Desenvolvi essa percepção inútil depois de alguns anos. E pensar que outros têm idéias geniais em segundos.


O atendente não pensa assim. Inácio. Não sobre as idéias geniais; e sim sobre a estampa: Acha que o garoto é feliz porque vive em um mundo de duas dimensões onde tudo é morno, discreto, oloroso e acolhedor.


— Então me diz, ô Inácio: tu não acha que quando esse garoto do saco finalmente crescer e tiver na frente a bela visão de uma mulher nua de pernas abertas e... Mais! Quando tiver entre as pernas dessa mulher, tu acha que ele vai notar alguma diferença entre o real comum e o que realmente vale a pena?


— Acho que sim, chefe. Mas quer saber? Tomara que não! Ele passou a infância inteira sorrindo. Merece sofrer um pouco, esse filho-da-puta.


Damos um sorriso cruel de concordância e ele me entrega as compras.


19.9.08

"O caos é uma ordem por decifrar"


Ludwig Wittgenstein, originally uploaded by Muli Koppel.

17.9.08

O Pequeno Calixto


Entre tantas figuras presentes no ponto de ônibus, uma mulher possuía aquela aura opaca de alguém anônimo guardado na memória. Tive tanta certeza de conhecê-la a ponto de fixar nela meu olhar sem medo de constrangimento posterior. Ela percebeu o olhar fixo, sorriu para mim e a coisa toda se desnublou. Aproximou-se.


Meu lapso de memória teve como álibi o tempo que fez tão mal a ela. Talvez mais jovem do que eu, mas com uma aparência de camponesa sofrida. Um limbo de trinta anos cansados, eternos. Engastada ao braço direito, uma criança de mais de três anos. E esse garoto?, pergunto. “Esse é meu filho Calixto”, diz ela.


O garoto também parecia estar preso em uma idade eterna. O rosto redondo com marcas de expressão criadas por choro ou riso em excesso. Misto de ancião e criança, ele geme; e o movimento de alento da mãe é algo automático, como um cacoete, enquanto conversa amenidades comigo.


Na verdade tenta, porque nada mais se encontra. As pessoas e as situações comuns não mais existem e comprovam que o único vínculo entre eu e ela são os músculos do rosto.

Lembro que ela sempre escrevia. Bem. A ponto de mostrar aos mais próximos. Uns textos curtos, galgados em outrem, mas que tinham lá sua beleza. Poemas, também , poemas, lembro. Um assunto, finalmente.


E os escritos?, pergunto. “Parei. Depois que esse menino nasceu não tenho mais tempo pra nada. Mal tenho tempo pro trabalho... ainda mais pra ter inspiração pra essas coisas.”


O pequeno Calixto finalmente cessa os gemidos e me observa, sorrindo como um pequeno anão maldoso. Os cabelos finos, o nariz escorrendo. Um pequeno exemplar da raça de homens parasitas que, independente da idade, aniquilam a beleza feminina.


Ao invés das coisas belas de antes, apenas uma coisa a qual ela, ludibriada pelo instinto, metade dela mesma, será sempre devota.


12.9.08

Bolinhos de Polvilho Gigante


Minha mãe voltou à cidade.

Trouxe bolinhos gigantes de polvilho e pedras comestíveis de farinha amarela; as quais eu como com café sem qualquer respeito às freqüências alimentícias. Meio-dia, duas, cinco da tarde, tarde da noite.

Domo os bolinhos de polvilho gigante, os microbolos gigantes de polvilho, desviando-os das minhas gengivas, dos meus dentes da frente semi-saltados-culpa-de-meu-pai . A língua cega e as bochechas cumprindo o seu papel. Aquele vazio rompendo-se, gosto de quase nada. Se são tão vazias e hostis, por que as consumo?

Além dos bolinhos, minha mãe também trouxe algumas anedotas e, dentro de uma delas, a expressão “é tão preguiçosa que não tem coragem de espetar um prego em um sabonete”. A história era engraçada; mas ri mais da expressão.

Além das anedotas, um par de fotos: Meu irmão Lucas. Minha irmã Laura.

“Meu filho acabou de chegar ”, ela diz, enquanto repete os mesmos assuntos em cada um dos telefonemas dados aos conhecidos daqui de Manaus. Nada com muito fundamento e relevância além da boa conversa jogada e rebatida de um lado para o outro da linha. Antes assim do que algo grave.

Observo-a, observando a uma parte de mim, mesmo sem querer.

Uma parte de mim veio daquela mulher presa ao telefone, falastrona; tão díspar e eu tão parte dela. Homem e resmungão à revelia; mas com temperamento semelhante, mesma ponta de nariz, têmporas.


9.9.08

O Maceteiro


Iniciei a tarde lendo Raduan Nassar e terminei a noite observando um professor histriônico fazendo uma espécie de aula-teste para um cursinho pré-vestibular com mais concorrentes pela vaga de professor maceteiro do que pelo vestibular que na verdade não prova nada. Momentos extremos surgem assim, à revelia.

Cobaias dos dois lados da sala. E o sujeito, quase gritando, interpelava um aluno ou outro com absurdos como “O que é o nada, meu senhor?.. O que é o nada, minha senhora?” e respostas enviesadas pululavam pela minha cabeça. Na verdade, elas foram o que me mantiveram abstraído enquanto toda a vanguarda européia era destroçada dentro de tópicos espremidos em slides kitsch-futuristas que conseguiram a façanha de desconstruir até mesmo o dadaísmo quando mostraram as “principais características” daquele movimento ridículo, com direito a fotinha do Tristan Tzara com cara de moleque: algo como um primo burro e saudável, preto e branco, do Kafka.

“Os primos mais saudáveis sempre são os mais burros”, pensei, buscando novos exercícios de pensamento apesar dos gritos ininterruptos. Imaginei os velhinhos remanescentes da Academia Amazonense invadindo a sala como aqueles velhinhos no filme Monthy Python e O Sentido da Vida; só que dessa vez chutando o povo do deserto e batendo no professor cobaia com a sua própria anteninha fálica indicadora de quadro branco. Pena que os imortais certamente já estivessem dormindo. Eu os ajudaria com toda boa vontade.

Talvez estivesse nervoso, o sujeito. O fato é que sua empolgação sofreu certo abalo quando o condicionador de ar e a luz do corredor foram desligados às dez horas. Lá na escola é como se fosse uma casa onde os aluninhos são crianças e pais invisíveis decidem a hora de apagar as luzes e os eletrodomésticos: Cessaram os berros e as risadinhas e sobre a turma apoderou-se o desespero silencioso de voltar para casa.

O professor de verdade levantou e passou as palmas das mãos uma sobre a outra, como se estivesse querendo fazer desaparecer algo que nunca havia aparecido; mas na verdade indicando ao outro, o de aeróbica literária topificada, que o seu tempo terminara de uma vez por todas. Talvez constrangido por saber que alguns alunos sabiam que ele sabia que tudo aquilo fora igualmente constrangedor para qualquer um que tivesse noção de como deveria ser dada uma aula para um curso superior ou mesmo algo do gênero.

Ele insinuou palmas tímidas e corporativistas para saudar o colega neófito. Quase todos as seguiram sem, no entanto, comprometer a fuga barulhenta das carteiras.

O nada, meu caro professor histriônico? Simples: Alguém tem uma esfera-espelho?


3.9.08

Bicicletas


Aguardavam a velocidade das últimas bicicletas” é dessas metáforas belas e materialistas que pegam pelo pé antes mesmo de todo o resto exagerado e simbólico do poema se desenrolar e se tornar hermético em sua trágica escatologia nova-iorquina.

Forte o suficiente para mim, que até então cria ser o silêncio das últimas bicicletas; e não a velocidade destas: uma alteração na matéria da metáfora que relacionei como algo exato para indicar o verdadeiro final da noite, após a passagem de todos os carros possíveis.

Depois dos últimos carros, resta apenas o frio suficientemente agudo para silenciar os cães mais intermitentes e recolher de vez qualquer vestígio de pedestres ou de fantasmas.

O silêncio das últimas bicicletas circulando em posição de descanso porque o dia foi cansativo e por isso inclino todas as ruas em ladeiras para auxiliar a metáfora e os ciclistas que certamente são rapazes amarfanhados voltando das casas das namoradas. No final da noite, nada mais nobre e veloz seria possível.

Os pés parados em um passo suspenso, a corrente estática aproveitando a gravidade, os pneus finos apontando na direção da casa que se aproxima e que pára com os freios.

A mecânica formidável da bicicleta é suspensa por um dos braços do ciclista quando o trajeto se encerra.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...