30.10.08

Antes de começar


Marie-Claude, originally uploaded by mithraphoto.

28.10.08

Fulgor


É certo haver nele a lembrança dos olhos dum fulgor imenso. Lembrança impregnada com ficção suficiente para não saber se viu ou se leu os olhos da mulher a lhe aguardar na porta.

Não tem certeza ser o fulgor traidor ou adolescente. Pequenos episódios lidos em filmes, vistos em livros. As vozes femininas tornaram-se memória una. A sua própria voz misturada às delas em memória perdidas num labirinto sem paredes. Ainda por cima, é tarde.

“Você devia ter uma cicatriz marcante, mocinha. Ou melhor, ter deixado uma em mim. Assim eu não teria dúvidas. O meu poder cicatrizante demoraria a apagar o corte. Os cheiros demoram um pouco mais, mas também cicatrizam. Perfume cítrico, doce, baunilha, olor de dentro, tudo.”

A voz sem registro diz achar impossível alguém esquecê-la.

“Como assim, impossível? Você lembra de quantos namorados teve? Ninguém lembra ao certo quantos namorados teve — conforme o tempo passa, os namorados se transformam em namoradinhos e vão sendo esquecidos a ponto da lista ganhar uma quantidade impoluta de dois ou três infelizes. E a meia-dúzia na qual você enfiou a língua na boca, a mão dentro das calças?”

Recompõe-se. Abre a porta.

“De qualquer forma, se você está aqui é porque eu ainda não engrossei essas fileiras esquecidas. Desculpa os termos, não quero ofender. Falando nisso, você era aquela que quando bebia me magoava com bravatas de puta? Ou era o contrário? Faz favor, entra.”

Ele pede licença e segue pelo corredor curto. A bebida, responsável pelo fluxo ilógico de palavras, não o faz estranhar a mulher na sala. Ele retorna, com gosto de menta alcoólica na boca, os cabelos molhados na fronte, as mangas dobradas novamente. Senta à mesa e observa a mulher com os pés sobre o sofá.

“Escuta, realmente eu não lembro quem é você. O dia foi confuso, os dias, na verdade, e eu estou longe de estar sóbrio. Por favor, me diz.”

Seria impossível lembrar da mulher pelo fato dela não pertencer à massa de memórias inúteis; não pertencer ao mundo comum. Ela não tem partes de várias; e sim o contrário — cada uma tirou dela uma parte e agora, com todas reunidas, suas memórias sentimentais desaparecem definitivamente e o significado da mulher finalmente se afirma como elemento único e definitivo.

Surge o sorriso de reconhecimento. O fulgor dos olhos agora é mútuo.

27.10.08

Quadrinhos


Action Camus, originally uploaded by Master Matt.

23.10.08

Intervalos


“Oi amiguinho! Coisa boa é ser criança! Todo mundo trabalhando e você em casa...”

A apresentadora do programa infantil é uma brasileira com partes de Ásia no rosto. Diz frases estúpidas entre os desenhos animados. Não porque tem vontade, e sim porque está escrito em uma tela eletrônica entre ela e a câmera.

As frases direcionadas a quem ainda é muito criança a ponto de não se ofender em ser chamado de “amiguinho” ignoram a quantidade de adultos em casa àquela hora do dia. Homens, mulheres. Outros turnos. Tarde, noite, madrugada: Estes últimos, recém-despertos, tentam de forma patética conseguir energia para viver o dia torto, sonolento, procurando fixar a atenção em um canal depois de curtas horas de sono e parando os olhos sobre os peitos sob a camisa lilás da garota oriental mestiça.

Ela sorri. Grava toda a semana de trabalho em poucas horas. Sua participação entre um desenho e outro é bastante curta. Apenas no final a câmera abre o plano e a enquadra de corpo inteiro. Vinte anos sobre as pernas finas e os tênis.

Alguns desempregados, vigiando o telefone, imaginam qual deve ser o salário da garota. Outros, com empregos bem remunerados, satisfatórios, imaginam se ela não sente vergonha em exercer uma função tão estúpida.

A maioria ignora a existência do programa porque sai de casa muito muito cedo e não tem tempo para se perder em conjecturas inúteis. A grande maioria, composta pela massa silenciosa que acredita em deus e ganha menos de mil reais por mês. A relação entre um dado e outro é como o mistério de Tostines.

Deve ganhar mais do que um professor, a mulher de um comenta. Grande coisa, ele diz. Qualquer pessoa na televisão ganha mais do que um professor. Uma chamada do telejornal da tarde fala sobre professores agredidos por alunos. Idiotas, comenta. Quem? Os dois, professores e alunos.

Sabe o quê? Seria uma excelente idéia dar um murro na cara de um aluno vagabundo desses. Um murro bem dado, pra rachar o rosto e quebrar pré-molares, para fazê-lo desmaiar sob os olhares aturdidos dos outros vagabundos que não pagam um tostão, pelo contrário, gastam o dinheiro do Estado para estarem ali, à toa. Depois de reorganizar os papéis e terminar a aula, eu seria preso e passaria um tempo em uma cela individual, pondo as leituras em dia, escrevendo. Meu advogado alegaria insanidade, estresse, essas merdas de gente perturbada realmente. Terminado o processo, eu seria aposentado por invalidez ou voltaria a trabalhar no sistema de ensino público, só que dessa vez na biblioteca. Vida melhor? Só se voltasse à sala de aula, com uma fama que me precederia e manteria todos os outros vagabundos calados e com as carteiras alinhadas.

O diretor diz ser aquela a última tomada do dia. A apresentadora decora a frase de despedida, esfrega os lábios uns nos outros, arruma os peitos e, tão logo a luz superior da câmera passa do vermelho ao verde, dá um largo sorriso que a leva ainda mais para o Oriente.


14.10.08

Picape


A coisa toda começa com os engenheiros japoneses e termina aqui à nossa frente: O carrão metálico, tração nas quatro rodas, cabine do tamanho de um quarto de empregada.


Cris e eu ficamos no estande e fazemos cara de quem considera possuir um exagero daqueles a coisa mais fácil do mundo. Surpreendo a mim mesmo com a lábia de vendedor quando consigo deixar os compradores em potencial com um brilho doentio nos olhos: aquele brilho típico de quem quer possuir algo sem saber exatamente o porquê, mas quer.



Eu uso uma camisa de branco impecável, gravata, um barbear de quartel, maxilar quase azul. Cris usa um macacão vermelho com a marca da fábrica e um decote para dar o impulso libidinoso necessário aos coroas. Com eles usa frases de sentido dúbio envolvendo a palavra "potência". Funciona. Toda semana ao menos um coroa compra uma peça na esperança de seduzir várias Crises.



Os caras sem posses normalmente observam o carro a dois ou três passos de distância. Não têm coragem de perguntar o preço e nem o que todas as crianças perguntam: Como é que um carro daquele tamanho conseguiu entrar no shopping se as portas do shopping são tão pequenas. Digo a elas que tudo é um truque de espelhos, como os mágicos fazem com os elefantes. O carro foi montado lá dentro, por mim, usando apenas uma chave-inglesa. Teletransporte.



Vender um absurdo desses, aprender o seu funcionamento e a excelência de suas peças que destroem orçamentos tem algo de demoníaco: a picape polui mais, ocupa mais espaço, atropela mais forte e passa por cima com a força implacável da tração nas quatro rodas.
Engraçado é que não gosto de carros e odeio as picapes nas ruas. O ato de vendê-las tem um quê de sádico. Às vezes me sinto estranho quanto a isso. Então lembro das contas, dos meus planos de sobrevivência, e logo passa.


Os nossos dias, os meus e de Cris, são fluorescentes e climatizados, lassos. Quando não há ninguém paquerando o elefante prateado, a gente conversa amenidades que não raro descambam pra sacanagem. Sabe o que eu mais gosto nesse macacão, Cris?, pergunto.



Ela sabe do meu fraco por peitos, então diz que é o decote. Digo que não. O quê, então?, ela pergunta. Digo que gosto do fato de ser uma peça única. E o que tem isso? Ora o que tem isso, Cris. Gosto de saber que todas as vezes que você vai ao banheiro tem a obrigação de ficar quase sem nada. Macacão nos pés, seminua.

Ela faz uma falsa expressão de choque.
Um possível cliente se aproxima e reassumimos a postura de antes. Cris ajusta o macacão vermelho, pousa cuidadosamente a mão sobre o capô da picape monstro e sorri para a vítima.


10.10.08

Ogivas Pretas e Brancas




















gó.ti.co

Adjetivo.

Diz-se dum estilo arquitetônico que floresceu na Europa do séc. XII ao XVI, e que se caracteriza sobretudo pelo uso de ogivas.
(Miniaurélio, versão digital)


Curioso como uma palavra deriva outras. A palavra “gótico”, por definição, está relacionada a ogivas. A palavra “ogiva”, por sua vez, também está relacionada não só a arcos cruzados, como também a projéteis e armas nucleares.



Sendo assim, não é difícil imaginar como a palavra “gótico” derivou tantas outras imagens e significados. Tanto que espontaneamente procurei por ela para tentar situar o álbum do Glasvegas e encontrei apenas essa definição relacionada a abóbadas como a da igrejinha que está no centro da capa do disco, sob um céu vangoguiano preto-e-branco misturado a um casal de máscaras vienenses contemplando as estrelas.


A relação equivocada serviu ao menos para pensar como uma simples definição de arcos e abóbadas se expandiu para todo um estilo, toda uma cultura musical, plástica, literária e, mais além, como ponto de referência a tudo o que é preto, cinza, mórbido e de bom gosto.

Assim, o termo original se tornou a definição de algo incerto, vasto e, por isso, confuso; ao contrário da rígida matemática que ergue e mantém as ogivas sobre as cabeças dos fiéis ou as despejam sobre as cabeças das vítimas.



A arquitetura planejada se uniu ao estilo inevitável do sujeito medieval: Pálido pela ausência de sol e coberto para se proteger do frio onipresente. Vestido de negro devido a escassez de cores. Alguém que devia passar um bom tempo freqüentando a igreja e o cemitério por falta de opção e para se familiarizar com o lugar no qual também estaria dentro em pouco porque a época era bem mais difícil. Trágico, porém espontâneo.



É essa espontaneidade, musicalmente falando, que percebo no Glasvegas. Eles não planejam: são e pertencem ao clima e ao lugar e praticam a sua música com propriedade, dando a ela esse clima ao qual se chama de “gótico” por pura falta de termo mais específico quando percebemos no som o lado mais cinza da Escócia, quando vemos as fotos da banda e a capa do seu álbum de estréia, quando ouvimos as histórias tristes e trágicas comporem um resultado belo por serem autênticas.


É óbvio que eles não estão à parte no fato cultural de que para o novo só resta a repetição do antigo, e a partir daqui seriam comentadas as influências de bandas ou desse ou daquele vocalista que consegue tirar o lado mais dramático de frases que soariam infantis ou ridículas quando cantadas ou escritas por outrem.


Seria, se isso fosse mais uma resenha inútil, e não uma dica valiosa: ouçam a banda porque é absurdamente boa.


7.10.08

Aspirações


Tudo poderia ser mais simples se não fôssemos bichos reféns dos cheiros.


Muitas vezes implicamos com alguém simplesmente porque o cheiro da pessoa não nos apraz; ou sentimos uma simpatia inexplicável por alguém que não é lá muito digno, porém cheira bem. Ou ainda, pior, desprezamos alguém desconhecido simplesmente porque cheira mal.

Entre tantos pré-julgamentos olfativos, talvez o mais cruel seja a saudade relacionada ao cheiro.

Sentia saudades da minha mulher quando ao meu lado (no ônibus) encosta uma anônima sem rosto ou qualquer algo parecido, porém suscitando em mim um interesse súbito devido ao perfume, que mesmo de forma vaga, lembrava a minha mulher.


— Você se incomodaria se eu desse dois ou três cheiros no seu pescoço?, pergunto.


Ela me olharia ultrajada ou, pior, atraída, se o diálogo não fosse imaginário.


A terra entra nos eixos novamente, então. Encontro-a, minha, e mato as saudades. Aspiro de olhos fechados, diversas, diversas vezes, e me vem à tona todo um registro romântico de anos.

Melhor do que uma série de imagens. Melhor do que um longo relato. Melhor, por ser pessoal, secreto, assim tão próximo. O lado bom dos bichos.

2.10.08

Recorrência


O piercing estúpido arrancado por um anônimo idiota distraído abre uma brecha cega no supercílio esquerdo da garota.


Ela encosta numa coluna e sente as lágrimas próximas ao mundo de fora. Aperta as pálpebras para contê-las e o corte se abre ainda mais, criando um terceiro duto lacrimal feito de sangue. Ela o pressiona com o polegar e deixa que o choro saia aos poucos. Chora parte pelo rasgo na pele do rosto, parte pela perda do piercing na têmpora para sempre: A cicatriz seria demasiado fina para que ali se espetasse novamente qualquer peça. No futuro haveria ali um ponto e uma vírgula marcando o acidente para o resto da vida.


Então qual o sentido?, eu pergunto em silêncio. Qual o sentido mulher que será minha e ainda não sabe e cada machucado, cada baque e rasgo, é como um rasgo em meu corpo porque você e eu seremos o mesmo e você, ainda tão jovem, será minha por vontade própria e eu observarei essas cicatrizes assim tão de perto enquanto você dormirá ao meu lado e a certeza disso é o consolo aqui nesse passado onde ainda sou escuso mas já sou teu de alma e corpo.



Pior, é a segunda vez. Primeiro foi o direito e agora o esquerdo. O primeiro rasgo, cicatriz em forma de exclamação, foi mais dolorido: Quase interferi na cena dando um murro no culpado, abrindo seu supercílio, machucando meus dedos. Se pudesse, ao menos odiaria dizer “eu te avisei”, mas não pude; estragaria tudo, confundiria o passado e o futuro onde a formação do nosso amor dependeria desses atos estúpidos envolvendo piercings, adolescentes e cicatrizes.

Aos poucos ela contém as lágrimas e resolve ir embora da casa noturna. Despede-se dos amigos e vejo no rosto de cada um deles um defunto social futuro. Passa por mim e me afasta delicadamente, deixando no meu braço a impressão do polegar manchado de sangue.

Observo a mancha sobre a superfície: o mesmo plasma agonizante que, a despeito da composição diferente, está intimamente ligado ao meu. A aguardaria o tempo que fosse preciso.


1.10.08

Durma com um romance desses...


, originally uploaded by .sereal..