23.10.08

Intervalos


“Oi amiguinho! Coisa boa é ser criança! Todo mundo trabalhando e você em casa...”

A apresentadora do programa infantil é uma brasileira com partes de Ásia no rosto. Diz frases estúpidas entre os desenhos animados. Não porque tem vontade, e sim porque está escrito em uma tela eletrônica entre ela e a câmera.

As frases direcionadas a quem ainda é muito criança a ponto de não se ofender em ser chamado de “amiguinho” ignoram a quantidade de adultos em casa àquela hora do dia. Homens, mulheres. Outros turnos. Tarde, noite, madrugada: Estes últimos, recém-despertos, tentam de forma patética conseguir energia para viver o dia torto, sonolento, procurando fixar a atenção em um canal depois de curtas horas de sono e parando os olhos sobre os peitos sob a camisa lilás da garota oriental mestiça.

Ela sorri. Grava toda a semana de trabalho em poucas horas. Sua participação entre um desenho e outro é bastante curta. Apenas no final a câmera abre o plano e a enquadra de corpo inteiro. Vinte anos sobre as pernas finas e os tênis.

Alguns desempregados, vigiando o telefone, imaginam qual deve ser o salário da garota. Outros, com empregos bem remunerados, satisfatórios, imaginam se ela não sente vergonha em exercer uma função tão estúpida.

A maioria ignora a existência do programa porque sai de casa muito muito cedo e não tem tempo para se perder em conjecturas inúteis. A grande maioria, composta pela massa silenciosa que acredita em deus e ganha menos de mil reais por mês. A relação entre um dado e outro é como o mistério de Tostines.

Deve ganhar mais do que um professor, a mulher de um comenta. Grande coisa, ele diz. Qualquer pessoa na televisão ganha mais do que um professor. Uma chamada do telejornal da tarde fala sobre professores agredidos por alunos. Idiotas, comenta. Quem? Os dois, professores e alunos.

Sabe o quê? Seria uma excelente idéia dar um murro na cara de um aluno vagabundo desses. Um murro bem dado, pra rachar o rosto e quebrar pré-molares, para fazê-lo desmaiar sob os olhares aturdidos dos outros vagabundos que não pagam um tostão, pelo contrário, gastam o dinheiro do Estado para estarem ali, à toa. Depois de reorganizar os papéis e terminar a aula, eu seria preso e passaria um tempo em uma cela individual, pondo as leituras em dia, escrevendo. Meu advogado alegaria insanidade, estresse, essas merdas de gente perturbada realmente. Terminado o processo, eu seria aposentado por invalidez ou voltaria a trabalhar no sistema de ensino público, só que dessa vez na biblioteca. Vida melhor? Só se voltasse à sala de aula, com uma fama que me precederia e manteria todos os outros vagabundos calados e com as carteiras alinhadas.

O diretor diz ser aquela a última tomada do dia. A apresentadora decora a frase de despedida, esfrega os lábios uns nos outros, arruma os peitos e, tão logo a luz superior da câmera passa do vermelho ao verde, dá um largo sorriso que a leva ainda mais para o Oriente.


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