28.11.08

Diga Me Lá:


“Diga me lá: como é que você dorme? Deitada de bruços, de polegar na boca, num abandono em que ainda se prolongam restos hesitantes da fragilidade infantil, ou de pala negra nos olhos e rolhas de borracha nas orelhas à raia de artistas decadentes do cinema americano ou das mulheres fatais desesperadas de solidão e de champanhe, de pesadelos povoados de divórcios, de cirurgiões plásticos e de ganidos de pêlos de arame parecidos com a caricatura de Audrey Hepburn? Acho que deve ler poetas exotéricos antes de apagar a luz, sujeitos de bigodes complexos que aqui vêm às vezes esconder a sua mediocridade intransigente atrás de um gin-fizz, admirados por raparigas sem peito, fumando Gauloises amarrotados na sofreguidão desgrenhada com que as velhas dos asilos devoram a fatia de pão-de-ló aos domingos."



(ANTUNES, António Lobo. Os Cus de Judas. Rio de Janeiro: Alfaguara. Pg. 55-56)

25.11.08

Green Green Grass

24.11.08

Gullar


Pediu que eu a acompanhasse. Ela e a sua tatuagem de carpas (uma vermelha, outra verde) entrecruzadas e entrecortadas no interior do braço.

Sua casa vasta e úmida não remetia em nada ao meu minúsculo apartamento seco — Sua vasta casa úmida remetia ao corpo. Nosso corpo onde, sob a limpeza e o perfume da epiderme vivem as bactérias, os micróbios e tantos outros parasitas pacíficos cujo único sonho é permanecer.Os ignoramos porque precisamos viver, acostumamo-nos ao asco.

Assim como faz parte da casa acostumar-se aos insetos nas frestas e faz parte do portão acostumar-se com a fragilidade e a ferrugem. Assim como faz parte dos pés ignorar as falhas da passarela curta até a porta de entrada — A passarela falha e cheia de pequenas cicatrizes como as que se acumulam no rosto ao longo do tempo e que nem por isso não o deixam ser belo. Assim como faz parte ignorar a desordem do quarto porque sobre a cama está um corpo branco de fêmea de braços abertos ostentando carpas (uma vermelha, outra verde) vivas de tão perfeitas e sob ela, sobre ela, corpo, existe agora um conluio de subvidas, confusas e subordinadas a essa nova desordem.


O novo dia já inicia alto de luz do sol e barulhos. Peço a ela que me acompanhe ao meu apartamento pequeno e fechado, polido pela diarista. Ignoramos o abismo escondido sob o elevador e aos solavancos chegamos ao vigésimo-nono andar onde vivo sozinho. Mais desordem. Lugares expostos.

O adormecer dos homens é grotesco, boca entreaberta, roncos; o das mulheres, não.

Mesmo quando no meio da noite ela abre os olhos de fogo verde latente e me diz frases sem sentido — “meu nome é Água e eu tive tantos outros amantes... mesmo assim você me dá um cordão de pedras coloridas?” — e eu digo dorme para em seguida pousar sobre ela o lençol como se fosse uma rede que a aprisionará para sempre; assim como as agulhas aprisionaram as carpas, a vermelha e a verde, no interior do seu braço num processo de sangue e pequenos barulhos.

Em seguida eu mesmo adormeço e sonho com um híbrido de casas e de corpos.

18.11.08

Duelo Pequeno


Dois tipos manauaras ridiculamente clássicos — o maníaco motorista de ônibus e o playpittboy — tiveram um curto e perigoso conflito no Centro da cidade, na noite da segunda-feira de ontem.

Depois de disputar a liderança das três curtas faixas de asfalto entre o Edifício-garagem e o ponto de ônibus da Av. Getúlio Vargas e perder pela simples (e sempre injusta) lógica do tamanho; o playpittboy, cansado de ser jogado para fora das faixas, realizou um último corte suicida, desceu do carro e lançou no vidro lateral do motorista rival um objeto desconhecido.

O homem anônimo, cujos únicos traços percebidos foram os braços avantajados e um “tururi” da cor verde-limão, entrou no carro — um Gol branco modelo “bola” — e partiu em disparada, deixando, em contrapartida, o tempo dentro e fora do ônibus idiotizado pelo pânico.

Devido à dureza aguda do som e à quantidade de estilhaços sobre o motorista,
vários passageiros pensaram se tratar de um tiro. Após ver que permanecia vivo e ainda sobre o assento maldito o motorista tentou, em um misto de brio e desespero, perseguir o agressor, mas não conseguiu.

Seus braços e pernas, sob os quais o sangue resultado de uma série de acidentes colonizantes corria com o dobro da velocidade não respondiam adequadamente e, em conseqüência, a máquina também não respondia: ao invés da fúria mecânica, reagia com um tremor de corpo inteiro, como que igualmente consternada com a agressão.

Numa atitude derrotada, o motorista, um jovem de traços incógnitos, morenos e loiros, abriu a porta de descida e libertou os passageiros do seu descontrole e medo.

Após os passageiros descerem, o motorista com um vidro a menos partiu em velocidade adequada, deixando para trás os estilhaços causados pelo alicate agressor e todo um fracasso civilizatório.

12.11.08

Parker Posey na Praça



Desisti de esperar a boa vontade dos cinemas e assisti Fay Grim (2007) em casa, por conta própria, numa tela de computador em um arquivo com áudio e legendas descompassados.

Tais problemas, porém, não foram suficientes para diminuírem o brilhantismo da história e de sua protagonista, interpretada por Parker Posey.

No filme, continuação de Confissões de Henry Fool (1997), Fay deixa de ser a pós-adolescente chorosa e passa a ser uma mulher equilibrada entre o filho outsider, o irmão gênio literário presidiário e o marido desaparecido cujos livros a envolvem em uma paródia de conspiração internacional, a qual, apesar dos riscos, ao menos a faz viajar com a capa legal e as botas que sempre quis usar.

Todo o roteiro decantado durante anos fica refém das expressões de Parker e todos os personagens se tornam coadjuvantes quando a câmera se perde nos relances de pernas, lingerie e espartilhos de Fay Grim. Se a intenção era aproveitar o talento e a beleza de Parker Posey, o filme conseguiu: ela nunca esteve tão bem em um papel e nunca esteve tão, mas tão gata.

Fay Grim em Manaus (imagem clonada da New Yorker)

Voltando à realidade, ontem, terça, eu estava com um casal de colegas no Largo da Praça São Sebastião. Aproveitávamos o intervalo entre duas aulas chatíssimas para dar uma olhada na parte externa (e plebéia) do Festival Amazonas de Cinema.
Ao chegarmos perto do Teatro Elefante Rosa vimos luzes fortes, um tapete vermelho e uma mestre-de-cerimônias falando em um microfone tonitruante. Quando passamos pela frente do cercado com apenas uma fileira de curiosos, chegou o Chico Dias.
Seguimos em frente. Nada contra o Chico Dias, só não queríamos ficar pagando de tiete sem causa. Além do mais, as imagens do tapete vermelho eram reproduzidas mais à frente, numa tela de cinema.
Vimos chegar um senhor que pensei ser o dono do Restaurante Come Bem quando na verdade era o diretor do Expresso da Meia-Noite; depois um produtor japonês seguido pela Neve Campbell. Logo depois, para meu espanto, apareceu ela: Parker Posey em pessoa, sorrindo, vestida de branco, segurando uma sacola de plástico.
Olhei para o pequeno aglomerado onde a chegada era filmada e vi o ponto correspondente à realidade, Parker Posey, longe demais de mim. Mesmo correndo ridiculamente, eu não chegaria a tempo. Deixei de vê-la de perto. Merda.
Voltei o olhar pra tela e lá estava ela, enquadrada com um sorriso de filme, começando a subir as escadas do Teatro Elefante Rosa e tendo o seu nome anunciado por toda a praça. Meus colegas, alheios, não se comoveram nem com a Parker, nem com a minha empolgação contida. Liguei pra minha namorada:

— Acabei de ver a Parker Posey!
— Sério?! E ela é bonita mesmo?
— Muito gata! É branca branca.
— Cara-de-pau! Tenta tirar uma foto com ela!

Nessas horas vejo como sou um cara de sorte. Namoro uma mulher que, além de aturar o meu gosto por musas alternativas, possivelmente era a única pessoa em um raio de quilômetros que sabia quem era Parker Posey, Fay Grim, Simon Grim, Henry Fool e mais uma infinidade de outras coisas que nos pertencem somente.
Não me leve a mal, my lovely Parker, mas não foi dessa vez. Esses entreveros, sabe? Você veio a Manaus tarde demais. Coisas da vida.
Além do mais, a minha namorada, além de também ser muito gata e inteligente, é mais sexy que a Fay Grim e tem o cabelo mais legal que o seu.

5.11.08

Exortação


Apaga as luzes do quarto e é como se momentaneamente tudo deixasse de existir. Quando dormia sozinho era mais difícil; agora isso não mais acontece: a mulher está sobre a cama.

Mesmo assim, ainda surge um pequeno estranhamento. Ele apalpa as pontas e as frestas dos móveis. Mantém o indicador na parede à sua esquerda, como se nela houvesse um trilho invisível. Sabe que, ao final desses estranhos trilhos verticais e lisos, haverá um abismo de três passos no vazio.

Após a suspensão do corpo no ar escuro, suas pernas tocam a ponta do colchão. O olfato se apura, seus ouvidos se afinam, separam as faixas de ruído: zumbido do ar frio, barulhos da rua, mulher respirando profundamente.

Deita de peito pra cima e exorta o sono usando pequenos sonhos estranhos como isca. Uma técnica perigosa quando se está muito cansado mas que, em condições normais, é bastante útil porque os sonhos estranhos necessitam de um sono profundo para convencerem o sonhante de que aquilo de fato está acontecendo.

Pensa que o quarto é um limbo escuro e frio, um vácuo onde seu corpo não possui forma, ou possui, e as pontas dos seus pés, para fora da cama, a qualquer momento serão tocadas por uma força estranha. É uma criatura abissal, agora. Antes não tivesse forma do que possuir essa, bizarra, cega, frágil sob a atmosfera dos homens.

Tenta virar de lado (a posição dos sonhos leves) mas não consegue: o oceano acima de si é pesado e profundo. O vácuo volta novamente como opção de existência. Ele declina: mesmo abissal, cego e mudo, está no oceano; e qualquer oceano é melhor do que o vácuo. Mais acima existem os peixinhos coloridos, o céu para onde irá após cumprir sua pena oprimida. O oceano morno e azul, confortante com o seu sol mancha amarela translúcida.

Tenta nadar de encontro às pedras menos frias, não sabe se é noite ou dia. Se ao menos tivesse um lume! Uma luz natural, própria, indicando com o seu microampère qual o melhor lugar para passar aquelas horas de noite sem fim.

O lume surge, finalmente, e não é dele próprio, e sim algo ao seu lado, azul, fluorescente. Aos poucos, para seu espanto, surge uma visão, a primeira visão em toda a sua curta vida de criatura. Seus olhos negros, minúsculos, aos poucos ajustam o foco: vêem um quadrinho luminoso com um sino, uma barra de energia e o símbolo de uma companhia telefônica no centro.

Tá se sentindo bem?, a mulher pergunta. Tô bem, sim. Ela conhece a sua técnica de exortar pequenos pesadelos e sabe que às vezes não dá certo. Ele se recompõe, pede desculpas, não queria fazê-la perder o sono. Não tem problema, mas agora você tem que trazer ele de volta, ela diz, deslizando para o seu lado e montando sobre ele. O espaço do quarto permanece escuro, mas agora dissipado de qualquer incerteza física. Dessa vez o abismo é habitado e prazeroso, mútuo.