28.11.08

Diga Me Lá:


“Diga me lá: como é que você dorme? Deitada de bruços, de polegar na boca, num abandono em que ainda se prolongam restos hesitantes da fragilidade infantil, ou de pala negra nos olhos e rolhas de borracha nas orelhas à raia de artistas decadentes do cinema americano ou das mulheres fatais desesperadas de solidão e de champanhe, de pesadelos povoados de divórcios, de cirurgiões plásticos e de ganidos de pêlos de arame parecidos com a caricatura de Audrey Hepburn? Acho que deve ler poetas exotéricos antes de apagar a luz, sujeitos de bigodes complexos que aqui vêm às vezes esconder a sua mediocridade intransigente atrás de um gin-fizz, admirados por raparigas sem peito, fumando Gauloises amarrotados na sofreguidão desgrenhada com que as velhas dos asilos devoram a fatia de pão-de-ló aos domingos."



(ANTUNES, António Lobo. Os Cus de Judas. Rio de Janeiro: Alfaguara. Pg. 55-56)

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