28.12.08

Supercine


Você lamberia a Laura Dern durante um pesadelo de três horas?

Mr. Lynch sim.


27.12.08

Imagens e Outras


As imagens se entrecortam nos sonhos.


Numa delas, ouço minha prima dizer que "é preciso salvar a Terra" e eu retruco, cada vez mais alto, que é preciso salvar o homem... É preciso salvar o Homem! Salvando o Homem, você também salva a Terra.


Uma sala de aula daquelas antigas com carteiras e mesas de madeira e cheiro de giz. As mesas são desproporcionais às alturas das crianças. Elas sentam com os cotovelos erguidos, os pés não chegam a encostar no chão. A professora, entretanto, possui uma juventude destoante da arquitetura da sala. Leciona algo apaixonadamente. Cita trechos, cruza referências. Chega às lágrimas e seduz os alunos, e a mim, com a sua oratória emocionada. Na aula do dia seguinte (segundos no sonho), a sala está apinhada e todos os alunos das outras turmas a observam pelas janelas.


Alguma instituição de caridade tem a idéia de contruir um carro gigante de madeira. Ele possui a estrutura dos carros de rolemã em sua base retangular de madeira crua, porém possui rodas de automóvel para fazer jus às suas proporções gigantes. Além da grandeza, possui três pavimentos: no térreo, são colocados os bebês, no primeiro, são colocadas as crianças mais crescidas, no último, sem teto, são colocados os velhos. O motorista dá a partida e sai a toda velocidade pelo que parecem ser ruas de um bairro. Parecem pela estreiteza agravada pelos carros estacionados nos dois lados da pista, deixando espaço apenas para o veículo grotesco de três andares. As crianças e os velhos acenam para os passantes. Os bebês gargalham de alegria. O motorista guia cada vez mais rápido. De súbito, dá de frente com um carro no sentido contrário e várias crianças voam pelos ares, negrinhas e finas como formigas e tudo isso é infinitamente engraçado. O automóvel dá ré e, tão logo o carro gigante de madeira tem a pista novamente limpa à sua frente, surge um caminhão e o joga ainda mais longe. Mais risos.


Além dessas, surgem outras histórias inteiras e curtas, sem sentido. Sonhei escrevendo um conto fluido e bem escrito, já em letra estilosa garamond impressa. Também correndo sem cansar tanto. Dirigindo um filme pornô e uma ou outra imagem lúbrica porque é a lubricidade que dá fluidez aos sonhos.


Então acordo e grande parte das histórias, ainda suspensas pela vigília, se dissipam com o excesso de realidade.


21.12.08

Vínculos de Pigmentos


Eu sentei na cadeira da mesa da cozinha encarei Helen e pousei as notas de cinquenta dizendo tá aqui o dinheiro que faltava. "Aquelas de amor?", ela perguntou e eu disse sim. "Gosto desses casais apaixonados porque pagam em cash, dinheiro vivo".

É verdade. Chato é o aperreio depois. Não depois logo depois; e sim coisas de meses, às vezes anos: eles praticamente se e me obrigam a fazer a tatuagem e depois voltam arrependidos: querem cobrir ou, pior, querem que eu apague. Eu digo: eu imprimo sobre o pigmento, meu querido. Apagar teu erro é com os outros.

Já tatuei braços, pernas, costas, partes íntimas. Por que esses pulhas fazem isso? Criticam quem usa aliança de casamento. Criticam até mesmo aquelas alianças de compromisso. Essas de prata cínica: tô comendo pausadamente e a toda hora; como se fosse casado, mas não sou, olha que incrível! E, em contraponto, eles fazem uma tatuagem que, ao contrário da aliança mais intermitente, não sai nem com sabão. Qual a lógica, digam-me. Sei que não dirão porque ninguém sabe.

É um lance irracional de propriedade. "Qual a graça de estar com alguém se você não for o dono?" — eu ouvindo isso, doze anos anos antes dos trinta que hoje ostento, com a mulher no meu ouvido, falando essas obscenidades possessivas enquanto fazia circunvoluções com os dedos no meu pau mole menor a cada volta.

Não sei, respondi. E continuei mentindo dizendo que precisava sair para comprar agulhas. Nunca mais voltei.

Correndo doze anos, tenho Helen à minha frente, satisfeita. É isso que se resume a vida dos homens: Fazer, tornar, manter as mulheres satisfeitas independente do que se seja. Independente de qual classe elas sejam, de quantos anos tenham ou o quanto tenham experimentado: O que elas querem é serem satisfeitas de alguma forma.

Essa moral herdei do meu avô paterno com o dedo em riste e uma tatuagem da Segunda Guerra no antebraço. Tudo o que aquele velho dizia era religioso para mim. Ele matou alemães com o dobro do seu tamanho. Passou frio e fome. Comeu putas polonesas. Não havia como não adotar o que ele dizia como verdade universal.

Sendo assim eu torno Helen satisfeita: tatuando e . As iniciais de Fernando na côxa da mulher e as iniciais de Renata na côxa do homem acrescidos do circunflexo para deixar tudo ainda mais trágico. Eles queriam cajins representando essas iniciais. Cajins são aquelas merdas simbólicas japonesas. Um monte de riscos. Recuso-me terminantemente. Escrever isso em risquinho, com exclamação e tudo, é impossível , eu disse. Eles desistiram.

Para satisfazer Helen precisei esfregar e desenhar muito com a agulha sobre as peles fedorentas e sanguinolentas dos amantes em fúria para que nós finalmente conseguíssemos comprar um microondas. Satisfação de Helen, e minha, por tabela. Uma satisfação primeira.

A segunda satisfação vem no escuro, com nós dois excitados como todos os amantes renegadores de alianças . A diferença é que eu e Helen não usamos alianças simbólicas. Argolas, riscos sobre as peles. E o único orgulho orgulho mesmo só sinto quando ela me encontra todos os dias rígido e nós nos imprimimos um no outro. Marca invisível sobre marca invisível.

20.12.08

Sixteen




Cá estava eu reunindo uma informação ou outra para escrever sobre como o Ladytron gravou o melhor álbum de 2008 e sobre os comos e os porquês deles serem a banda mais legal e completa do eletro-rock quando resolvi dar uma olhada em alguns sites relacionados à banda para ver ser havia alguma novidade. E houve.


Após uma olhada nas versões em português e inglês da wikipedia (ambas bem mais ou menos), fui até o site oficial e, para meu espanto, vi o anúncio de algumas datas para a apresentação de sets individuais nos EUA, Peru e... Brasil!


Um dos motivos deles possuírem uma sonoridade tão completa é o fato de discotecarem sozinhos ao redor do mundo quando não estão excursionando com a banda. Quando se reúnem novamente, estão cheio de idéias novas e então surgem monstros como o Velocifero, um álbum tão, mas tão bom, que já deu uma volta em cima do In Rainbows.


Daniel Hunt, baterista, tecladista e etc da banda vai discotecar no Brasil dia 16 de janeiro, em São Paulo, mais especificamente na Av. Augusta, mais exatamente na Vegas.


E o que você tem a ver com isso? Você, não sei. Mas eu, minha mulher e meus amigos estaremos lá e só arredaremos os pés saltitantes depois que esse 1/4 do Ladytron desligar as picapes.


Anda, 2008... Acaba!

17.12.08

Café da Manhã dos Campeões


Café da Manhã dos Campeões (L&PM Pocket), escrito por Kurt Vonnegut (1922-2007), foi publicado pela primeira vez em 1973, nos Estados Unidos — pátria e principal objeto de chacota do escritor.


A paródia em Café da Manhã dos Campeões já começa pelo nome do livro: uma referência direta, declarada e explicada (para evitar processos) ao jargão de um cereal largamente consumido pelos norteamericanos típicos: aqueles sujeitos que todos os dias pela manhã se olham no espelho e tentam se convencer de que são vencedores natos para poderem levar sua vida comum sem enlouquecer.


O texto do livro é genial e maluco, claramente não editado, cheio de figuras auto-explicativas que dão a impressão de estarmos lendo um manual de instruções para adaptar alienígenas às loucuras da Terra. 

Voltando. Insultar o hino norteamericano, desenhar bandeiras nazistas e cus... tantas coisas baixas nos fazem lembrar imediatamente de um sobrenome: BUKOWSKI.
Assim mesmo, em caixa alta, como quando esse outro velho louco travava as teclas em maiúsculas e estava bêbado demais para editar as merdas geniais que escrevia. 

Outra semelhança (e não influência, visto também ser contemporâneo assim como era de Bukowski) do texto de Vonnegut é com as loucuras, a acidez e as americanices de Thomas Pynchon, o escritor genial que nunca existiu realmente e que, conforme Matt Groening, tem a seguinte aparência:



Falando em Matt Groening, também é notável a influência do cinismo de Kurt Vonnegut nos inúmeros anúnicios da cidade dos Simpsons como, por exemplo, a do cirurgião plástico que tem sobrescrito “corrigindo os erros de Deus”, ou a do dentista que tem sobrescrito “não importa como você escova... está errado”. Prova disso é o dos Sorvetes Craigs, um dos muitos anúncios irônicos presentes em Café da Manhã dos Campeões:


“SORVETES CRAIGS: É MAIS DIFÍCIL SER INFELIZ QUANDO SE ESTÁ COMENDO”

Mas sim, o livro. A história possui dois protagonistas: Kilgoure Trout (uma espécie de alter ego de Kurt Vonnegut), um escritor de ficção científica, e Dwayne Hoover, um vendedor de carros que leva uma vida normal e tranquila até começar a perceber que, de leve, está perdendo a razão.


O ponto coincidente entre eles é que Dwayne é fã dos livros de Kilgoure e começa a achar que o motivo da sua loucura não é apenas a sua vida comum: são também possíveis mensagens ocultas presente nas histórias do escritor. Mais ou menos como os loucos que culparam Goethe, Beatles, Salinger, Ozzy e tantos outros artistas pelos seus surtos particulares.



Enfim, a coisa toda começa a ir na direção da tragédia. Primeiro pelos constantes, crescentes e cada vez mais violentos surtos de Dwayne. Segundo, pelo encontro cada vez mais iminente entre ele e Kilgoure Trout quando este vai participar de uma convenção artística numa cidade vizinha.

Não bastasse a tensão crescente entre os dois protagonistas-pólos-opostos, ainda existe a figura do narrador: esse maldito deus voyeur que é sempre confundido com escritor e quebra a cabeça até dos leitores mais desconfiados.

O narrador, sempre usando óculos escuros, é um sujeito misterioso que se questiona o tempo todo se deve ou não fazer algo além de simplesmente nos mostrar a loucura e o ridículo dos personagens, do povo americano, do mundo. Ele controla, observa. Pode ser o próprio Kurt Vonnegut disfarçado de Kilgoure, pode não ser...



O fato é que depois de ler o livro, comecei a desconfiar que se existe um deus aqui nessa bagunça, certamente ele usa óculos escuros e fica sentado sempre na mesa mais discreta do bar observando a tudo de forma dupla e discreta, mais ou menos como esse Kurt Vonnegut desenhado observando a mim e a você:

16.12.08

Os Seminaristas



Num dos meus delírios, digo: quando for Ministro da Educação, minha primeira medida — com o aval da Presidente da República para o acionamento de todos os órgãos repressores — será banir, com rigor, a prática de seminários em sala de aula.


Junta-se uma equipe de quatro a oito integrantes e, nessa pequena célula, está um incômodo fato social: sempre há num grupo, por qualquer que seja, no lugar que for, um indivíduo (ou indivíduos) que não faz nada. E pior, sempre há um metido a fazer tudo, a saber mais e, por isso, a cobrar mais dos outros. O chato é que quase nunca o pseudo-líder tem a competência necessária para tal.


Aí começa o simulacro de trabalho em equipe cujo auge será a apresentação do tema. A qual consiste, basicamente, em pulular slides sobre o quadro branco enquanto se segue a linha-guia do livro.


Tomando como exemplo um grupo de seis alunos, como quase sempre são os da minha turma, chega-se a uma dubiedade vagabunda: invariavelmente, parte do grupo fala bem, parte fala mal. Na verdade, tomo a minha turma como exemplo de tudo aqui neste texto.


Voltando. Dos que falam bem, uma parte fala muito. Dos que falam mal, uma parte entra em pânico e causa vergonha a si e aos outros. Infinidades de subgrupos dentro de um grupo minúsculo. Verborragia. Afasia. Falta de paralelismo. Slides com letra preta e fundo azul-marinho. Inferno.


O professor faz uma cara de interessado, alguém achando aquilo válido para todos e de uma importância vital para o aprendizado. Age de má-fé, o sacana. Outros professores não agem de má-fé: deixam bem claro que não estão levando muito à sério aquele pastiche. Um terceiro grupo, menor, tenta ajustar as coisas e acaba se irritando antes de resignar-se.


Os alunos à sua periferia, audiência, mesmo fingindo interesse para não serem repreendidos, fazem as suas coisinhas paralelas, tratam de pendências em outras disciplinas, digitam sms sorrateiros. Os alunos fora do campo de visão também fazem isso, só que não se preocupam em manter o silêncio.


À frente, o trabalho transcorre. Um tanto quanto constrangidos, os apresentadores ficam um ao lado dos outros compondo um jogral grotesco. Alguns lêem descaradamente. Outros decoram o texto e parece estarem possuídos por algum espírito: os olhos fixos à frente e as palavras saindo da boca — pode se jogar um balde d´agua na sua cabeça que ele continuará falando. Uns falam demais por si sós e tergiversam. Outros fogem totalmente do assunto. Tanto que às vezes o professor até interfere, acordando de sua compenetração de superfície.


E assim a coisa segue durante semanas. Termina o semestre, termina o ano, morreu mais uma disciplina e todo mundo fica feliz.



Voltando à minha idéia ditatorial, digo que, no fundo, ela teria uma boa intenção: Proibidos, os seminários escolares passariam a ser praticados na ilegalidade. Tudo o que é clandestino é mais emocionante. Os alunos se reuniriam clandestinamente e discorreriam e debateriam apaixonadamente a formação de professores sob uma perspectiva etnográfica e tantos outros temas fascinantes...


Comecei com um delírio e termino com outro.

11.12.08

BASF


Adriana W.Rover [AVM].



Perdidos em rememórias. Remoendo o passado. Deixando o presente suspenso. Misturando sonhos do futuro com desejos de possuir bens. Temendo a morte porém a acelerando em uma vida desregrada. Ou regrada de forma cínica. Eu penso: “meu tempo está acabando”. Está acabando e eu sinto isso. Não posso fazer nada. Meu tempo está acabando eu sei disso e não posso fazer nada porque o planeta é alheio em seu movimento e em suas convenções convenientes.


Já imaginou um dia sem obrigações? Ela dizia. Sem precisar fazer nada, sem precisar levantar da cama ou levantar do chão? E eram aquelas mãos e pernas misturadas ao lençol e aquele hálito de início de dia quando o dia já está na metade. A janela do quarto coberta pela cortina azul e a luz escapando através das frestas das esquadrias deixando tudo escuro-azulado. O corpo deitado como uma coisa feminina incerta. Pés com vestígios de grama e de terra. Saio e retorno e é como se o quarto fosse um cubo sólido de calor translúcido. Deito. Inspiro.


Expiro. Vem a sensação de porto. De avião que não chega, de trem que não parte, de barco que nem atraca nem se perde no horizonte. De ano que não acaba. De vida que não começou ou já começou e terminou e ninguém me avisou nada.


É isso. Conforme-se. Minha primeira mulher. Agora coadjuvante de meia-dúzia de fotografias que não puderam ser destruídas em consideração aos protagonistas. Nunca conseguimos dinheiro suficiente para nos livrarmos das contas. A casa era pequena. O carro era pequeno. O banheiro era pequeno. A pequenez foi oprimindo tudo. Empreender, meu jovem. Esse é o verbo dos grandes homens, ricos antes dos trinta, patriarcas de meia-idade, velhos sozinhos olhando para um imenso chão polido. Empreender olhando para projetos coloridos, catálogos, revistas de decoração de salas, noivas e jardins. Grandes igrejas. Grandes apartamentos. O destino do empreendedor é ser grande.


Eu sinto muito, mas não dá pra viver de promessa e de esperança, ela disse. E eu ainda não tão jovem assim vendo os outros fazendo tudo a tempo e envelhecendo antes do tempo e mesmo assim incapaz de me comover com isso. Nem com isso e nem com a decepção da mulher em forma de lágrima de raiva. Incapaz de invejá-los. Incapaz de querer ser exatamente como eles. Cheios de obrigações em demasia. Contas. Sinais de trânsito e eu com os ouvidos amortecidos pela música. Não pode ser assim, não pode. Nem dirigir você sabe! Que tipo de homem não sabe dirigir? Não sei, eu disse.


Talvez dos homens que não sabem dirigir e que também sentem o cheiro do fim. Dos que ouvem o barulho agudo do fim e observam tudo melancolicamente como se já estivessem depois daquilo tudo. Uma espécie de cachorro cujos sentidos permitem muito mas não deixam perceber devidamente o tempo e o espaço da raça dos homens. Então fechei a porta e saí andando com a minha mochila como um hippie civilizado patético. Patético porque quer ser rico mas não quer ser emburrecido pelo sistema trabalhista. Dez horas ao dia de todos os melhores dias da vida para poder ter direito a poucas horas de vida durante o dia.


Fui indagado sobre a fragilidade da minha prioridade. Curioso. Ela era a minha única prioridade. Só isso não basta. Amor sincero. Amor eterno. Amor constante. Só isso não basta, ouço em resposta. É preciso ter paredes e reproduções em miniatura de quadros protegidos por vidro. É preciso fazer bonito nas reuniões de família. Ter aquele dinamismo banal. Não ser nem muito magro, nem muito gordo. Não beber muito mas também não beber nada para evitar possíveis suspeitas de ser alcoólatra. Fazer o mais rápido possível um filho que tenha tiradas precoces e se defenda dos primos mordedores estúpidos.


Voltei para minha casa. Para a casa de minha mãe. É assim tão vergonhoso mesmo antes dos trinta? Não pude dizer. Minha mãe não estava em casa para responder porque não morava mais lá. Era apenas a casa sozinha e eu sozinho com a casa. Indo aqui e ali. Comprando víveres em pequena quantidade para ter a desculpa de caminhar com freqüência. Fazendo exercícios físicos. Meia-hora não mais senão fico dolorido e sonolento durante a aula à noite.


As garotas na semana de letras lendo e relendo o Brás Cubas dizendo que não tivera filhos para não transmitir a nenhuma criatura a nossa miséria humana. Suas expressões cínicas como se concordassem com aquilo quando na verdade queriam mesmo eram ficar suficientemente ricas para vestirem luvas de noiva e deixarem os filhos no playground da churrascaria. Esse maldito curso que não termina e me dá a sensação de avião que não chega, de trem que não parte, de barco que nem atraca e nem se perde no horizonte. Mal posso esperar pra essas aulas fisiológicas e seminários inúteis acabarem logo, eu digo a ela, empilhando os livros e os tirando de cima da cama.


E depois? Ela pergunta. Depois eu serei um mestre com inúmeras teses inúteis empilhadas em uma biblioteca pública. Serei um funcionário público da república pública federativa pública do Brasil. O império nunca terminou. Philip K. Dick estava certo quanto a isso: o império nunca terminou. Ser funcionário público é entrar novamente na corte. Você mastigando uma função e os iletrados pagando impostos mesmo sabendo ser o rei o mais burro de todos.


Me desculpa, meu caro, a vida é assim, eu estou sem: direi para o garoto no sinal que nunca será rei de nada. Direi a ele e aos dez à frente circulando como pulgas em meio aos carros engarrafados no semáforo: me desculpem, meus irmãos desfavorecidos, mas no banco de trás eu só tenho teses e mais teses empilhadas e algumas delas até são sobre vocês, sobre como vocês não dão a mínima para nada que envolva livros ou qualquer esforço subjetivo.


Que merda de futuro triste, ela diz. É. Que porra de futuro triste do caralho. Mas não é assim o futuro de todo o pessoal estabilizado? A cada dia novecentos carros novos jogados nas ruas. É preciso fugir disso! A gente consegue! Já erramos uma vez, ela diz... Quer dizer, você já errou uma vez. Um relacionamento falido e você ainda não tem nem trinta anos! Já fiz muito e pouco ao mesmo tempo, eu digo. O corpo branco encostado na janela do hotel barato. Arrumando os peitos dentro do sutiã. Tentando se acostumar aos cabelos recém-cortados.


Essas manias intempestivas. Cortes. Decisões de passar a noite no primeiro lugar possível que vier à cabeça. Olhamos para o preço exposto do hotel barato e decidimos não ir para minha casa e agora ela olha a rua abaixo através dum espelho do tamanho de uma maçã do rosto. A mão encostada em um dos panos do basculante. Já perdi tempo e matéria com mulheres infinitamente menos dignas e agora essa, insolente e falante, inteligente, mais nova e sem medo da idade, puxa o meu braço e sugere o pernoite.


Onde ela tá agora? Quem? Eu pergunto. A tua primeira mulher. A necessidade feminina de exumar as amantes do passado. Necro(a)mante. Não sei, eu respondo. A última vez tem tempo. Ela estava de braços dados com um sujeito de cara bem-sucedida e pacóvia. Carregavam sacolas de compras. Apontavam para a vitrina de uma loja de falsos artigos do oriente. A chave do carro aparecendo no cós da calça. A camisa pólo pra dentro. Ela parecia bem feliz com isso, mesmo ele tendo um começo de calvície.


Você vê como são as coisas, ela diz, mostrando um pedacinho da rua em reflexo. É, eu respondo. Pena que você agora também tão rebelde um dia vai ficar assim, eu digo. Eu? Nunca! E esse nunca é uma entonação incômoda e recorrente. Então é isso. Essa fita regravável sendo rebobinada o tempo inteiro. Deixando à mostra sons e imagens passadas enquanto novos sons e imagens parecidas vão sendo gravadas por cima de forma cada vez mais recorrente a ponto da fita cada vez mais fina e começar a misturar tudo. Som sobre som. Imagem sobre imagem.


Não, não pode ser isso. A humanidade é que está ficando senil. Perdida entre três tempos que não existem. A minha maior preocupação é esquadrinhar o teu corpo em papel milimetrado, eu desconverso, ainda jovem, ainda fértil. Preciso arrumar um papel milimetrado que desenhe quadradinhos por todo o teu corpo. Coordenadas. Batalha naval entre teu ventre e teu peito. Torpedos. Gráficos curvilíneos. Apnéia. Brigas à margem de abismos oceânicos. Navios de guerra, e não esse barco que nem atraca nem se perde no horizonte.


Concordo, ela diz e pára de olhar a rua através do espelho numa imitação de artifício submarino e vem até mim tirando a última peça. O rosto, agora compenetrado e entregue, não me traz rememória de nada. Dissolve-se a música do rádio. As recorrências se apagam sob a força das novas impressões. Dissolvemo-nos. Tornamo-nos densos. Fnalmente o tempo presente, vivo e pulsante, se reafirma . A fita limpa remagnetizada começa a rodar novamente.


4.12.08

Clube Noturno


samlanterman.



A mulher o incitava dançando com dois ou três desconhecidos como se estivesse em uma daquelas tribos onde se adora a natureza e a dança; onde se esmaga a cabeça de um dos gêmeos e se abandona os inválidos na floresta.

Tal pensamento irônico, amargo, já era a conseqüência inicial do ardil que o tinha como vítima. Não tivesse passado por isso antes, fosse um pouco mais jovem, e já teria sucumbido ao plano, abandonado o balcão e ido à pista, discutido, tentado levá-la pra casa, a forçado a encerrar o teatro. Por enquanto, a exortação não surtia efeito.

É o lado bom da idade, pensa. Bom e cruel: depois de certo tempo as cenas se acumulam, as situações se repetem e, com um pouco de calma, se passa da irritação ao desprezo. Até mesmo a melancolia póstuma, a descrença quanto aos relacionamentos, se ameniza com o tempo. Por quanta coisa se passa na vida, mesmo vivendo a mais comum delas.

Os sorrisos de escárnio contido da mulher direcionados a ele obtêm como resposta uma inescrutabilidade contrastando com a alegria da luz colorida. Um banco vaga ao seu lado. Senta e conta quantas fichas de cerveja ainda lhe restam. Três. Uma ampulheta no bolso da camisa.


“O que ela quer? Levar um tapa?”


Ouve uma voz feminina chegar diretamente a ele. Talvez, ele diz, dando um sorriso amistoso não pela situação patética; e sim pela entrada de uma testemunha no ardil. O espírito da irritabilidade agora compartilhado. Apesar de lamentar a incorporação injusta da mulher no pastiche, não deixa de ficar satisfeito com a constatação do ato não estar sendo superestimado por ele.

Observa a nova personagem com mais atenção. Não é tão bonita, mas é bastante atraente. Possui uma feminilidade, um charme latente que atrai qualquer homem. Um tipo de mulher que, por não possuir uma beleza óbvia, se refugia sob o senso-comum, mas nem por isso deixa de ter os homens que a interessam. Basta fazê-los olhá-la com mais calma. Uma vantagem e tanto sobre as que possuem beleza óbvia e têm que lidar com o assédio de todas as formas de vida.

Ao tecer tal constatação, sem querer ele se tornou um objeto de desconcentração da mulher na pista, um entrevero no seu plano dançante.


“Não vai fazer nada? Ir embora?”


Ir embora desvirtuaria o significado da palavra! — Ele fala alto, junto ao ouvido da mulher anônima, para sobrepor a voz à música — É uma má hora! Se eu sair agora ou se for até a pista, todo um plano adolescente terá surtido efeito!

Pronuncia bem as palavras. Está longe de estar bêbado, mas já possui uma sociabilidade fluida. A efêmera graduação ideal do álcool nas veias. Além do mais, ainda tem as fichas. As mostra para a mulher.


“Aceito, obrigado!”


O ato não significava isso, mas tudo bem. Pede duas Stellas. Antes de brindar, pergunta qual o nome da mulher.


“Estela também!”


A redundância, Estela! — propõe e eles brindam, tocando os pescoços das garrafas.

Ele e Estela Redundante observam a mulher na pista. Mesmo entre os passos frenéticos de dança, vez ou outra a mulher os observa. Depois de vê-lo acompanhado, tornou os movimentos mais ousados, colou o rosto no rosto de um dos sujeitos e fez movimentos rebolantes de cima a baixo. Se era pra ser um duelo, ele pagaria o preço.


“Por que ela faz isso?”


Desafio, insegurança, falta de amor a mim e a ela própria... Mas prefiro pensar que é por pura idiotice! — ele está com um inusitado bom-humor — Me diz uma coisa, Estela! Você é alguma espécie de deus ou fiscal de controle de situações ridículas?!


Ele lembrara de Café da Manhã dos Campeões, do Kurt Vonnegut. Depois de ler o livro passou a olhar com desconfiança divertida para todas as pessoas que parecem adivinhar pensamentos e são as únicas a usar óculos escuros independente do ambiente onde estejam. Estela parece saber de todas as coisas e usa óculos escuros com armações brancas.


“Tá com medo do Vonnegut?! Fica tranqüilo! EU mando nas coisas por aqui!”


A euforia da mulher na pista finalmente cede ao cansaço. Sede. Não lembra com quantos dançou. Olha para o balcão e não vê mais o namorado outrora rebaixado a acompanhante. Caminha até onde ele estava e, ao se aproximar do barman, se surpreende ao receber o valor da última ficha: uma garrafa de Stella. Ela desconhece o fato de antes o barman ter ouvido o pedido: Amigo, por favor, guarda essa última praquela garota ali na pista?!


“Aquela da dança ridícula?!”


Isso! — Ele disse, antes de os perdermos de vista.


Sozinha com a garrafa, a garota sente um inusitado sentimento de abandono. Esperava uma cena antes dele ir embora. Mas, espera... Talvez ele não tenha ido! Talvez tenha ido ao banheiro! Pergunta ao barman se tinha visto aonde tinha ido o sujeito que tava ali há pouco conversando com a garota de óculos escuros e camisa vermelha. O barman, com grosseria regulamentar, responde:


“Minha filha, eu sou pago pra servir bebida, não pra ser guarda-costas!”


Os perdemos de vista. Vasculhamos os cômodos, os banheiros, os reservados, e finalmente encontramos ele e Estela na chapelaria do clube noturno. Estela conhece o chapeleiro. Na verdade, ele deve vários favores a ela. A começar por estar ali, guardando a chapelaria.

A dançarina tribal começa a procurá-los sem seguir a mesma lógica. Anda em círculos e vez ou outra a perdemos de vista em meio a tanta gente eufórica. Talvez não a encontremos mais. Talvez ela nunca mais os encontre após a chapelaria. A casa noturna está cheia.


A chapelaria é um corredor estreito ao longo de toda a extensão da parede atrás do balcão. Nele se ouve a música tão claramente quanto na pista. A chapelaria é como um buraco de minhoca quântico, um universo paralelo escuro onde se guardam coisas.

Após passarem pelas bolsas, capas, chapéus e tantos outros pertences abandonados para sempre, eles chegam ao fim do corredor: uma parede nua e lisa. Ele consegue ver apenas uma luz longínqua e alguns contornos dos objetos pendurados. Não vê Estela, não sabe que a cor da parede é imaculadamente branca. Não percebe que, apesar da sua camisa vermelha aberta, do ardor e dos beijos, ela não tirou os óculos.


Já Estela enxerga todas as coisas: A parede, o homem cego e excitado, tentando se guiar pelo tato, esperando o momento exato para passar a mão acidental e cínica e, ao se sentir acolhido, esquecer de tudo.

Enxerga a nós e sabe do que nós sabemos: por trás de suas lentes, encaixados em suas órbitas, protegidos por pálpebras brancas e cílios sem cor, estão olhos de criador, não de criatura.

1.12.08

Segunda Estática


O que fazer numa segunda-feira sem nenhum ônibus circulando? Os caras estão em greve, li por sobre o ombro dum senhor baixinho empunhando o jornal de 25 centavos e esperando, assim como eu, os carros gigantes. Nenhum apareceu.

Olhando a avenida lisa, quase vazia, pensei na pergunta do início. Voltar pra casa e encarar aquele sol coalhado de sete da manhã intercortado pelo barulho de crianças e cachorros inimigos do sono?

Não. Melhor caminhar até o Centro. Um exercício terapêutico de reflexão e queima de parte dos milhões de calorias absorvidas no final de semana. Pressionei mais algumas vezes o botão mais do tocador de música: às vezes o deixo a meio-volume para ouvir as vozes das pessoas conversando. Fica parecendo aqueles clipes permeados por diálogos.

Sozinho, elevo a música às alturas. Considero o iPod Cego o melhor de todos porque, além da discrição, parece ter um sensor de ondas mentais que escolhe a sequência musical exata, de acordo com os pensamentos: Straight Line, do Silverchair, inaugura a caminhada.


Meia-hora de música e chego no Centro. Minhas panturrilhas reclamam e meu estômago se contrai de fome. Encontro uma banca de café-da-manhã. Pão grelhado na manteiga, café preto.

Os vendedores uniformizados não parecem ter pressa. Alguns até comentam (iPod em modo música-conversa) terem sido dispensados até mais tarde. Constato isso caminhando pelas ruas principais do comércio e observando as lojas vazias. Várias possuem anúncios de contratação de vendedores temporários — como se aqui em Manaus a maioria dos vendedores não fosse intimamente temporária. Sujeitos que, enquanto não encontram algo melhor, enfrentam a contingência com indolência e mal-humor, encostados e monossilábicos, dando olhares mortais quando você não compra nada.

O problema é o trabalho, a obrigação. Só que agora, segunda-feira, o trabalho tirou folga e estão todos felizes.

Alguns, mais rebeldes, ajudaram a aumentar o quórum do bar dos vigilantes noturnos. Um lugar sem nome, frequentado, em sua maioria, por vigias recém-saídos do batente que tomam um trago ou outro para chegarem em casa amortecidos e dormirem o sono dos justos surdos.


Ninguém parece estar muito preocupado com o fato de não poder voltar pra casa. Vigilantes, vendedores de sapataria, uma ou outra garota recém-maquiada e uniformizada. Em um pequeno grupo está uma garota da faculdade. Cabelos presos num coque, marca de telefone celular na lapela, sorriso. Também entro no bar.

Por que não? Aqui não existe diferença entre o sol das nove e o das onze e a conveniência dos dias teve, de súbito, a sua lógica alterada.