Desisti de esperar a boa vontade dos cinemas e assisti Fay Grim (2007) em casa, por conta própria, numa tela de computador em um arquivo com áudio e legendas descompassados.
Tais problemas, porém, não foram suficientes para diminuírem o brilhantismo da história e de sua protagonista, interpretada por Parker Posey.
No filme, continuação de Confissões de Henry Fool (1997), Fay deixa de ser a pós-adolescente chorosa e passa a ser uma mulher equilibrada entre o filho outsider, o irmão gênio literário presidiário e o marido desaparecido cujos livros a envolvem em uma paródia de conspiração internacional, a qual, apesar dos riscos, ao menos a faz viajar com a capa legal e as botas que sempre quis usar.
Todo o roteiro decantado durante anos fica refém das expressões de Parker e todos os personagens se tornam coadjuvantes quando a câmera se perde nos relances de pernas, lingerie e espartilhos de Fay Grim. Se a intenção era aproveitar o talento e a beleza de Parker Posey, o filme conseguiu: ela nunca esteve tão bem em um papel e nunca esteve tão, mas tão gata.
Voltando à realidade, ontem, terça, eu estava com um casal de colegas no Largo da Praça São Sebastião. Aproveitávamos o intervalo entre duas aulas chatíssimas para dar uma olhada na parte externa (e plebéia) do Festival Amazonas de Cinema.
Ao chegarmos perto do Teatro Elefante Rosa vimos luzes fortes, um tapete vermelho e uma mestre-de-cerimônias falando em um microfone tonitruante. Quando passamos pela frente do cercado com apenas uma fileira de curiosos, chegou o Chico Dias.
Seguimos em frente. Nada contra o Chico Dias, só não queríamos ficar pagando de tiete sem causa. Além do mais, as imagens do tapete vermelho eram reproduzidas mais à frente, numa tela de cinema.
Vimos chegar um senhor que pensei ser o dono do Restaurante Come Bem quando na verdade era o diretor do Expresso da Meia-Noite; depois um produtor japonês seguido pela Neve Campbell. Logo depois, para meu espanto, apareceu ela: Parker Posey em pessoa, sorrindo, vestida de branco, segurando uma sacola de plástico.
Olhei para o pequeno aglomerado onde a chegada era filmada e vi o ponto correspondente à realidade, Parker Posey, longe demais de mim. Mesmo correndo ridiculamente, eu não chegaria a tempo. Deixei de vê-la de perto. Merda.
Voltei o olhar pra tela e lá estava ela, enquadrada com um sorriso de filme, começando a subir as escadas do Teatro Elefante Rosa e tendo o seu nome anunciado por toda a praça. Meus colegas, alheios, não se comoveram nem com a Parker, nem com a minha empolgação contida. Liguei pra minha namorada:
— Acabei de ver a Parker Posey!
— Sério?! E ela é bonita mesmo?
— Muito gata! É branca branca.
— Cara-de-pau! Tenta tirar uma foto com ela!
Nessas horas vejo como sou um cara de sorte. Namoro uma mulher que, além de aturar o meu gosto por musas alternativas, possivelmente era a única pessoa em um raio de quilômetros que sabia quem era Parker Posey, Fay Grim, Simon Grim, Henry Fool e mais uma infinidade de outras coisas que nos pertencem somente.
Não me leve a mal, my lovely Parker, mas não foi dessa vez. Esses entreveros, sabe? Você veio a Manaus tarde demais. Coisas da vida.
Além do mais, a minha namorada, além de também ser muito gata e inteligente, é mais sexy que a Fay Grim e tem o cabelo mais legal que o seu.