31.12.09

Trinta e Um


Na infância ouvi a história de que na noite do aniversário o nosso corpo crescia perceptivelmente. Bastava ficar acordado para perceber os ossos, os nervos e os músculos esticando-se como câimbra com a diferença de não mais voltarem ao estado original. Em apenas poucos segundos cresciam-se os centímetros tão aguardados ao longo do ano porque as garotas cresciam antes.



Esta mística de ciclo nos acompanha na vida adulta. Agora não em forma de repuxos físicos ou sensações de queda (outra crença de crescimento); e sim em forma de ponteiros de relógio. Todos aguardam chegar a meia-noite para, novamente, encerrarem um ciclo. Choros. Superstições que arruínam o potencial racional da humanidade.


A representação do ano é uma volta inteira do globo cheio de gente e água salgada girando em volta duma estrela silenciosa e ofuscante. Refletida de alguma forma em nós, feitos de água e luz invisível, razoavelmente racionais. Nariz tocando as partículas de pólvora e lágrimas de felicidade brotando dos olhos.



Dentro da minha perspectiva feita de braços troncos pernas e uma nuance desfocada de nariz, posso afirmar ter sido dois mil e nove um ano de merda. Em mim apenas dois fatos totalmente bons aconteceram: uma graduação e um emprego novo. Todo o restante foi composto por oscilações, mesmo tendo como resultado certos aprendizados duros da vida adulta como o de não confiar totalmente em ninguém, superar decepções, mortes ou quase. Fatos tão cretinos e trágicos que fariam apenas o mais idiota entre os idiotas dizer: "ao menos estamos vivos e com saúde", antes de ser atacado e espancado pela imensa maioria cheia de cicatrizes desse ano, repito, de merda.



Esses aprendizados de tempos de guerra que ninguém quer. Existem outras formas mais sábias e menos empíricas onde eu tranquilamente incluiria meu nome na lista de matrícula. Sábias como a que tive há pouco, lendo um dos três volumes dos diálogos entre Borges e Osvaldo Ferrari:



Ao falar sobre “sonhos e outros diálogos”, mais exatamente sobre um conto de Henry James, os dois comentam sobre a inutilidade da vingança pelo fato de tal criar um vínculo praticamente indissolúvel entre vingador e vítima — Melhor confundi-los entre fatos, dissolvê-los com o passar dos anos onde tais são dissolvidos pela entropia. Osso, plástico, tudo, mais dia menos dia, desaparece e dá lugar a outra coisa. Um presente bem oportuno e comprobatório, esse dos Diálogos.



Faz-se listas. Melhores livros. Discos. Filmes.



Livros. Ajuda a mim mesmo dizer ter sido o melhor texto que li um conto chamado “O Pentágono de Hahn”, escrito por Osman Lins. Hilda Hilst e Júlio Cortázar sempre impressionam; mas esse texto realmente me deixou boquiaberto e com as mãos comichando para escrever ainda mais ao longos de todos os anos seguintes. Escrevi pouco, mas sempre escrevo o que quero na hora que quero, mesmo cheio de “que´s”, e isso é bom. Como poeira que se acumula e não mais sai, as linhas vão preenchendo os cadernos.



E existe aqui. Os leitores invisíveis. Gosto daqui e não sairei daqui a não ser que morra ou esqueça a senha. Sendo que esta segunda situação inclui a primeira. Olhando os arquivos percebo a quantidade de posts menor a cada ano mas não me importo, mesmo se estivessem em regressão aritmética ainda restaria muita coisa a ser salva aqui. Se tivesse que escolher um entre todos os meus endereços virtuais, Gmail incluso, escolheria aqui. Twitter nem chega perto, mas gosto muito do endereço: ágil, arguto, cômodo para quem não sabe escrever e é bom em tiradas. Mas se precisasse escolher, repito, escolheria aqui. Mundo Próprio preto branco cinza com ruídos coloridos.



Discos. Muitas coisas boas. Ouvi horrores o novo do Wilco antes de ter motivos de sobra para escrever um belo texto para o Ruined Music. Tive que dar um descanso para a banda. Não foi culpa deles, é só que. Em meio a revivals de bandas antigas descobri, na última semana do ano, o álbum do Them Crooked Vultures e senti aquela velha e espero, eterna empolgação adolescente de tentar obrigar todos a ouvirem o mesmo. Não tão intensa quanto a que acontece quando toda estrutura temporal se quebra quando ouço o Nirvana Live at Reading no meu incrível lindo e imenso Ipod Classic 160GB e me emociono exatamente da mesma forma quando ouvi em uma fita K7 Lithium pela primeira vez. E naquela época nem falava inglês direito.



Filmes. Assisti bastante coisa mas o que realmente me impressionou foi o novo: Distrito 9 e Atividade Paranormal. A nova ficção científica, cada vez mais sofisticada, e o novo terror, cada vez mais vagabundo e assustador por ser primal. Falando em primal, Cabin Fever, da minha estimada Belladonna, merece uma menção honrosa.



É fácil fazer listas. É simples lembrar ter sido a minha melhor refeição sanduíches de atum compartilhados no meio da noite. Ou o melhor ônibus que peguei ter sido um 123 num sábado nublado onde todos os cinco passageiros liam livros. Ou o melhor café ter sido um expresso duplo com leite da P&C entre a aula das seis e das seis e quarenta. Ou a melhor piada que ouvi ter sido a do meu primo dizendo “Ari, você não tem porra nenhuma!”. Positivas ou negativas, postuladas com sinceridade ou não, elas são fáceis de serem feitas. E acho que é só.



Os tripulantes do barco nunca param e olham para trás: Aquele caminho demarcado por um corte de água momentâneo só percebido pelos passageiros mais bobos ou diletantes. Não param porque estão acostumados ao enjôo brisa e barulho. O rio sempre é o mesmo, o que difere são as nuances, a cidade que mudando ao lado, despontando.



As luzes ao longe. Os contornos da cidade. O cheiro de novo porto. Cheiro de pólvora no céu. Coisas novas a comprar. Alianças e progressos. Apartamentos. Os braços esticando a corda. Atracando o barco. As pernas abandonando as ondas. Experimentando novamente a estase pânica da terra firme.


11.12.09

Ainda


Considero a vida um romance. Seus atos aparentemente banais escondem uma simbologia muitas vezes fugaz à primeira vista. O mais comum é, após a primeira leitura, repensarmos tais atos dentro dum todo narrativo e constatarmos serem eles os componentes de uma história de significado mais profundo e imenso do que os fatos lidos. Eis a mágica.



O Mundo de Sofia. Acredito vários de você terem lido esse livro. É uma novela metalinguística pelo fato de ser uma história de suspense crescente a cada capítulo e ao mesmo tempo brincar com a ignorância do leitor e a passividade da personagem. Mesmo quando a mesma percebe ser uma personagem e não pode fazer nada a respeito pelo fato de não conseguir mudar a ordem da narrativa. Sabe estar sendo observada pelos leitores e mesmo assim não consegue vê-los e deste ponto em diante a novela perde o tom da surpresa e fenesce ao entrar num limbo fantástico guiado pela teoria de Berkeley que diz nada existir realmente e segue até o final sem clímax ou pós-leituras: apenas com a esperança de que Sofia fuja para um mundo onde seja autêntica anônima e autônoma. O livro não deixa de ser uma novela e, mesmo com tal argumento inusitado, todos terminam como personagens e não algo além: avatares.


Os romances são compostos por avatares. Seres aparentemente comuns, cobertos por pele tecidos perfume mas que na verdade são a representação de algo muito maior e transcendente para quem os conseguem ver dentro de tal ordem pensada no intuito duma realização maior.


E você, minha amiga que aprendi a ler ao longo dos anos, é um dos avatares mais significativos entre os tão poucos que conheço. Linda vivaz e independente. De uma beleza precisa seguidora de um código próprio sem que para isso nunca tenha machucado qualquer pessoa. Uma leveza de ponta de dedos ao vento e uma transitoriedade entre diferentes círculos de pessoas amigas a ponto de te tornarem múltipla e vária e exposta porém incógnita como todas as grandes personagens atemporais do romance.


Nego-me a acompanhar uma novela onde certos personagens saem de cena por terem sido esquecidos ou por terem sido vítimas de um autor sem talento. E entre tantos maus autores, esse nosso muitas vezes sem perspicácia a ponto de ser confundido com deuses parciais ou de equilíbrio deixou exposta quão absurda é a sua incompetência narrativa quando a permitiu ser cheia de fatos injustos e extremamente mal ajambrados.


Má literatura encenada, essa nossa novela onde os romances são parênteses de resistência onde você é uma das personagens mais fortes. E você deverá sobrepujar essa desordem tacanha. Esse capricho preguiçoso de fatos grosseiros que te expuseram e te tornaram uma coadjuvante involuntária — Uma Sofia observada por diferentes leitores com diferentes visões e crenças que te dão versões díspares de um futuro grosseiro fantasioso ou simplista.


Você, que por hora não nos vê, deverá ser não um símbolo; e sim uma personagem que nos faz fechar o livro com gosto e a sensação de dever cumprido (apesar duma ou outra tragédia pontuando capítulos ) porque você sobreviverá e tomará para si a ordem de todas as coisas. Recuso-me outra leitura ou explicação de algo tão mal escrito sem evitar o desespero.


Eu que sempre te observei à revelia gostaria de ter tido, naquele único momento e nunca mais em qualquer outro, a possibilidade de reescrever um único fato, uma única cena e te livrar de todo esse teatro de involuntariedade onde você está e não é agora. Sem quaisquer sobrenaturalidades: apenas ter te prendido o braço e ter lido todas essas coisas que escrevi há pouco para nem ao menos pensar em escrevê-las agora.


E então o tempo cego passaria e eu e tantos, mas tantos que te amam e agora te aguardam e se negam a aceitar qualquer outra possibilidade de resignação, pensariam em você e desejariam a sua companhia em todos os finais de semana futuros.



Para Sousie



9.12.09

30



Escrevi linhas e linhas dum texto mórbido e ruim, cheio de rancores de quando tinha vinte e nove anos misturados a boas lembranças, esperanças e um combo de presentes incluindo um Ipod de cento e sessenta gigas.

Ficou estranho e feio. Destoante. Preferi não postar. Você faz trinta anos e não consegue escrever (e talvez amar) direito...


Mas mesmo talvez mal, ainda faço ambos muito melhor do que a imensa maioria.


Abraço.


1.12.09

Hahn


Θ Não posso desviar a atenção daquela imensa e fantástica besta enluarada, até que o homem do olifante se aproxima. Fixo-o como se ele — e não eu — bradasse-me estas ordens: “Enterra os mortos. Escreve não importa como nem o quê. Do passado, senhor que hoje te absorve e te traga as forças do viver, posse conquistada com o sangue de teus dias, faz um servo, não mais uma entidade soberana, um parasita. Sejam as recordações, não renegadas, campo sobre o qual exercerás tua escolha, que virá talvez a recair sobre tuas próprias mortes, sobre elefantes que nunca mais verás, para entregar tudo aos vivos e assim vivificar o que foi pelo Tempo devorado. Atravessa o mundo e suas alegrias, procura o amor, aguça com astúcia a gana de criar.” A música de Verdi, estropiada e áspera, avoluma-se. Serei eu capaz de obedecer aos brados do olifante? Hahn vai mais rápida, agitando as orelhas. Parece-me alada, animal translúcido, quase imaterial, mais alto do que todas as casas, não mais um morto, emblema agora do grande e do impossível, de tudo que é maior do que nós e que, embora acompanhemos algum tempo, raras vezes seguimos para sempre.



(LINS, Osman. Pentágono de Hahn, in Melhores Contos. São Paulo: Global, 2003. Pgs 125-126)



28.11.09

Calamares


«

O assassino observa as mãos e a si mesmo: se contorce ao redor do próprio dorso de caracol. Uma dor morna de arrependimento. Uma angústia de não saber se a vítima já se tornou vítima realmente: Ela ainda pode estar agonizando num quarto noutro lado da cidade. Pode estar recebendo socorro ou estar sozinha numa rua sentada numa calçada escura, madrugada: um calamar soltando tinta vermelha através das fendas abertas do seu corpo. A mesma tinta que agora tinge as mãos do assassino e não as deixará tão fácil.

»

Olha, Cecília. Observa essa tinta vermelha secando sobre o papel. Cecília aproxima-se, os pés com as curvas das falanges perfeitas são tocados e levemente tingidos pela tinta. Ele se ergue e a observa. A mulher branca e o homem de pele escura. Encaram-se. A mulher, de menor estatura, se faz imensa. Mesmo reclinado, o queixo perde a sombra negra quando olha a pintura a seus pés: um coração rubro sendo envolvido e soltando tinta por sobre os tentáculos dum calamar negro. Os dois encaram-se. Pincelam as maçãs uns dos outros. Pincelam os seios. Pincelam o nariz e o pescoço. Abraçam-se ardorosamente e não mais se soltam.

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Por fax, como nos anos 90, recebi o memorando de Carlos: operação durou muito precisa por fim nisso faca amanha sob escrivaninha. Acordamos tarde, eu e a vítima. Fomos ao supermercado. Divertimo-nos fazendo a janta. Ele, que não sabe cozinhar, me observa e me aperta a bunda enquanto luto com as panelas. Em seguida ele vai para a sala, aonde levo os pratos fumegantes. Ele come e a boca entreaberta faz microbarulhos. Isso me irrita muito. Peço a ele que leve os pratos até a cozinha. Dócil, o idiota os leva. Carlos plantou a faca exatamente como dissera no memorando. A vítima retorna. Senta ao computador. Distrai-se. Perdi a conta dos golpes. Deixei o apartamento pela porta de serviço.

»

Há quanto tempo não ficava absolutamente sozinho? No quarto, alugado por cinquenta reais a diária, recusara papel e caneta e computador e procurara uma ocupação onde nunca exercera qualquer domínio: a pintura. Comprara tinta negra e vermelha na papelaria no térreo. O lado bom do Centro: apesar de sujo encontra-se de tudo. Antes, deitou-se em posição de concha e purgou mais um pouco: convulsões frias que o fizeram sair momentaneamente do corpo. Ergueu-se e foi até o espelho do banheiro. Voltou aturdido: vira no espelho outro homem. Sentou-se em posição de lótus malfeita. “O Calamar Opta Por Sua Tinta” — Lembra do conto de ABC e começa a dar forma a primeira pintura depois de décadas entre a dor e a infância. Calamar: o outro nome do polvo aos poucos sumindo até mesmo dos dicionários.

«

O grande problema é quando o assassino apega-se à vítima. Percebe ser ela não apenas um dorso ou alguém que quase nunca comete erros de concordância — Não apenas é carinhosa; mas tem um pau que é bom de pegar e um pescoço que a induz ao transe e a domina e a faz temer pela morte e ignorar tal fato pelo enlace trazer ao seu corpo de assassino um sentido que nunca antes reconhecera em si mesma. Deitam-se. Gozam um no outro. Ela demora um pouco mais no banheiro. Nesse período fizera um ato desconhecido pela vítima e por todos exceto a nós que lemos esta história: pára no meio da sala e lembra dos memorandos que recebera ao longo de todo aquele tempo. Lembra por que está ali e da ameaça do ultimo memorando impresso em tinta vermelha: nao se apegue voce e minha e recebera em breve a ordem de terminar com essa farsa ass: carlos.

»

A questão, Cecília, é que preciso ficar um pouco sozinho. Preciso recomeçar algo meu nalgum quarto anônimo. Chegamos ao nível da realidade travar os nós das minhas falanges. Tenho que ir agora. Ela com o corpo branco todo pontuado por sombras, enrolada como um caracol sobre a cama, achou que dessa vez eu nunca mais voltaria. Mas Cecília, quem além de você conhece o que é um calamar dentro de todo esse perímetro urbano? Quem além de você conhece os meus símbolos? Quem conhece tão absurda e obscenamente o meu corpo a ponto de deixá-lo todo manchado por tuas cicatrizes escusas que jamais sairão mesmo após tomados todos os banhos longos possíveis? Quem senão você conhece meus sinais mais ínitimos? Teu cheiro sobre as outras indefinidamente. Eu marcado. Saí e ela não disse palavra.

«

O primeiro contato do assassino com a vítima precisa ser pontuado por sedução e cuidado. É um homem franzino junto ao balcão. Já meio alto pela passagem da noite. Sem tocá-lo, o assassino entabula uma conversa. Conhece seu ponto fraco: livros e mulheres. É e conhece ambos. A morte será simples: É uma mulher linda, conhece os livros fundamentais. Flertam. À primeira umidade e/ou pau duro os livros e qualquer outro assunto porventura são imediatamente relegados a último plano. Sabe, o assassino diz, preciso te dizer uma coisa. Diz, diz a vítima. Tô morrendo de vontade de te dar um beijo. E por que não dá? O mais irônico dentre os casos de assassinato urdido e planejado por meio de envolvimento é que as vítimas sempre dão o primeiro passo. Quando se enlaçam, em público, o assassino fica momentaneamente preocupado com os memorandos dobrados dentro do bolso. Nenhum deles mencionara a intensidade do beijo da vítima. Nem os braços de calamar que ela desenvolveria ao longo do amasso. Mesmo assim, o ardil tem início.

»

Os corpos e tudo o mais que existe é composto por água sal terra e poeira de estrelas. Gostou de Cecília por causa da pele branca. Não que gostasse de pele branca — e sim porque sempre gostara da cor branca. E havia o fator de desequilíbrio: o verde dos olhos composto em sua totalidade pela matéria estelar de milhões de anos antes. Na primeira volta à superfície após o escuro de cheiro quase âmbar que permeia o transe do enlace, surgem as primeiras curiosidades práticas. O que você faz?, Cecília pergunta. Escrevo, trabalho para o Exército. E você? Escrevo memorandos. Isso parece ser tão simples quanto trabalhar para o Exército; tirando a parte do Exército. Não é tão simples quanto parece, ela diz. Bebem mais um pouco. Sabe, Cecília, preciso segurar tua mão por um longo tempo. Um daqueles eternos, eu diria; e a nossa eternidade não dura muito. Observam as mãos e a si mesmos. Observam os dorsos. Os porta-copo vermelhos sobre a mesa estão derretidos e, sem que ambos houvessem percebido, tiveram as suas mãos tingidas. Dão-nas pela primeira vez e, sem se darem conta, imitam um enlace de calamares.


26.11.09

Lidando



Estou ao lado da minha casa. Escuro. Silhueta das plantas somente quando ouço, claro alto e nítido, um choro de criança.

Acendo um cigarro e observo a fila de casas que insistiu em surgir do outro lado da rua. Observo as luzes acesas: Apesar de parecer, o choro de criança não vem do fundo ainda mais escuro do quintal (um bebê descarnado e demoníaco me observando por entre as folhas)
Vem das luzes acesas num quarto anônimo do outro lado da rua. Trago o cigarro e devolvo a fumaça e o significado real do som que assustaria muita gente mas não a mim: Não tenho medo de fantasmas.


Volto e escrevo para você que vive entre meus dedos. Trouxe vazio às pontas da minha boca. Fome leve e um princípio de desespero contido me deixando preso entre dimensões me fazendo pensar numa solução tão simples quanto ignorar a existência da cidade de São Paulo.

Agora, ainda, a imagino vazia. As esquadrias das janelas arrancadas e todos os bares abandonados com as portas abertas. E para desimagina-la, precisarei estancar o som do choro fantasmagórico como fiz há pouco. Precisarei criar um lume, mesmo num diminuto cilindro de tabaco misturado a veneno, para devolvê-lo ao ar leve e iluminado, pingando fagulhas, e então passar não mais a ver não a minha Los Angeles desolada — e sim a branca, precisa imensa e exata, com luzes e amigos fraternos.


Manaus, involuntariamente relegada pela relação com a rotina de trabalho calor e afazeres diversos, tenta voltar a existir à noite. Voltei ao Botequim depois de anos. Continua a mesma coisa, exceto pelo baixo nível da música: Sujeitos de meia idade encaixando frases picantes entre canções sem sequência coesa. Sou muito chato pra música. Sempre estou percebendo um detalhe ou outro e fazendo comentários enquanto algo está tocando. Seja ele bom ou ruim. Assimilações. Tento evitar isso.

A banda resolveu enfiar o pé na fossa música atrás de música e um amigo desculpou-se pela indiscrição ao me dizer que tristeza não combina comigo. Eu sei que não, cara. Não existe dignidade alguma na tristeza. Mas manter apontado para a frente o meu nariz afilado levemente torto se torna difícil quando o ar está tomado pelo barulho do Samba do Grande Amor mal tocado.

Desistimos do bar e fomos para o clube ao lado. Uma danceteria frequentada pelo publico GLS em sua maioria. Na verdade mais pelos da primeira letra. Um cabaré sem mulheres nuas, o que torna o seu nome irônico. Mas apesar de abominar o corpo masculino e ter tido desde a mais remota infância bons problemas de musalização + animalização quanto ao corpo feminino; não tenho nada contra os gueis. Até porque, não fosse por eles, a população mundial seria ainda maior e traria com ela todos os problemas estatísticos. Gosto das lésbicas femininas.

(Preferi acabar este último parágrafo com as palavras lésbicas femininas porque acho insosso e fora de estilo acabar qualquer parágrafo que seja com a palavra estatísticos. Lésbicas femininas.)

Um lugar pequeno. Luz estroboscópica na pista. Antes de entrar no lugar, me dera conta da gravidade da camisa verde que eu estava usando: uma versão silkscreen fluorescente da capa de Aladdin Sane do Bowie. Deus, Bowie. Para minha sorte, a grande maioria era inculta quanto a existência do Ziggy. Mesmo assim percebi mais de um par de comentários em torno da estampa da camisa. Manaus não é tão ignorante assim. Se duvidar vários conheciam as duas versões de The Prettiest Star.

Mesmo com um blecaute de quase um minuto nada demais aconteceu. Os sujeitos com dinâmica e expressões vampirescas se contiveram em seu universo próprio. Meus amigos se divertiram. Eu me diverti porque sei dançar o Tony stile.

Voltando aos fantasmas. Fui assistir Atividade Paranormal com um casal de amigos — um homem e uma mulher, vale ressaltar — ainda movido pelos hypes e antihypes cercando a história. Após a sessão, posso afirmar: é um filme vagabundo, nada original em sua forma de filmagem e, justamente por isso, assusta bastante pelo fato de fazer horror com o que é banal e pode acontecer a qualquer momento.

Inferi. Um casal sozinho, sem amigos e que tenta ignorar a existência de um demônio entre eles. No quarto, ao lado da cama. Não o exorcizam, não o combatem; apenas documentam o agravamento da situação até o ponto onde ocorre a tragédia. Foram estúpidos, infantis e inconsequentes. Viveram a forma negativa da cumplicidade quando não trouxeram o problema à luz e aceitaram o fato de que aquele demônio ridículo acompanharia a garota pelo resto dos seus dias, idenpendente de onde vivessem. Aconteceu o que aconteceu porque tudo ficou escondido nas sombras. E os fatos crescentes, cada vez mais absurdos, por terem sido tratados como algo contornável, acabaram tragando os dois.

Seria necessário expor o quarto à luz. Mesmo sob o constrangimento de o demônio invisível no quarto não ser problema de ninguém além deles. Seria preciso expor aos outros. Sair para a rua. Pedir ajuda. Mudar de cidade e, uma vez nela, tentar iluminá-la começando como um pequeno lume aceso negativamente pela boca. e jogado positivamente ao ar. E então as aparições cessariam e seria preciso acreditar que elas não mais voltariam porque, sem isso, todo o resto seria inviável e os corações jamais voltariam à leveza.



22.11.09

Aprendizado

Gullar, em "Barulhos"
Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste

ao fundo

e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

18.11.09

Cadente


As tempestades internas. Acordo. E depois do quase despertar semelhante ao que era o normal, surge pura, sem tradução, uma expressão grudada:
coldheartachefeeling.


Ela não virá: está. E se estabelece, fria e pesante; um quadrado comprimindo o peito, o coração.
Misto de dimensões, me esfria e dolore mesmo antes do começo do dia.

Que passa rápido. Mas surgem rompantes inevitáveis. Descubro um lado novo da casa. Cheio de árvores. Agora é noite. A dor vem e volta. Descontrola. Meus cabelos cortados. Sento na calçada e fumo alguns Marlboros Azuis enquanto observo as árvores e olho os muros. Imagino um jardim selvagem verde e branco. É o que me permito citar: verde e branco. Verde. Branca. Jardim trancado por fora.


Jogo as pontas de cigarro e crio estrelas cadentes para as formigas. Nenhuma delas me toca ou incomoda. Involuntariamente as exorto: água e sal que sai de meu corpo. Água e sal e amor sendo purgado à força.


Preciso dormir, mas o sono não é mais sono; e sim um repouso horizontal antes do dia e do trabalho onde devo não transparecer meus demônios para as crianças. O senhor, elas dizem; o senhor cortou os cabelos. Os alunos mais velhos, adultos, percebem meus olhos tristes quando rapidamente me distraio entre os exercícios.


Não sei se escrevo. Mas sei que devo. É pra isso que estou aqui. Para escrever, contar histórias. Mesmo elas sendo por vezes tristes. Mesmo sabendo dos tantos, mas tantos, verbos desperdiçados. Tantas vozes minhas desperdiçadas. Tantas mãos e tantas bocas minhas desperdiçadas.


Partes dum corpo que é meu mas não o sinto e mesmo assim, uma após as outras, surgem palavras contidas pelas idéias que tento fazer não serem mais minhas. Mas elas vêm e voltam e me abraçam e me guiam até o leito.


16.11.09

Domingo


Cheiro involuntariamente a fumaça dos ônibus. Encosto nos prepassageiros correndo com medo de não chegarem em casa. Suo. É noite de domingo, faz frio — porém minhas roupas e minha mochila experimentam uma união úmida.

Precisarei subir escadas com espelhos desproporcionais quase em movimento. Empurrar meu corpo e pagar taxas. Equilibrar-me em meio a solavancos até encontrar um repouso temporário. Caminhar quarteirões até chegar ao portão de casa.

Antes. Lia a Bravo! com o Rubem Fonseca na capa: sua mão sobre a boca. Sobrancelhas caindo sobre os olhos. Continua misterioso, o maior escritor policial da Língua Portuguesa. Após tornar-se viúvo (a mulher, amara a vida inteira) viu o seu apartamento criar pústulas geométricas planas na forma de estantes e sobre elas resolveu colocar seus livros e livros: “leio um por dia”, diz.

Misturo-me indevidamente a ele e ao personagem do Clint Eastwood em Gran Torino: Esses homens fortes que carregam sobre si, silenciosamente e com brio, traumas e mulheres mortas antes do tempo. Tocam a falência desnudando-a da tragédia, transformando-a não no louco da casa que permanece no porão; mas o que pacificamente risca e faz canudos no papel o dia inteiro — Incômodo, porém possível de adequar-se. Convivível.

Mesmo assim surgem monstros. Sob a cama. Antes do sono. Entre as teclas. Sorrindo entre os vincos duplos das roupas. Espiando pelas frestas da cortina azul. Forçando um frio misterioso no estômago. Monstrando-me que nada, João, é o que parece. Os semáforos falham. Mansos e de forma prosaica revelam-se os inimigos.

Os dias vindouros serão escuros. Vazio entre o travesseiro e a cama. O coração feito pedra perdido entre dimensões é um despertador crudelíssimo. O tom pálido e claudicante da decepção quando dela levanto e preciso caminhar quatro quilômetros e meio de volta. Os rostos incultos. Meus cabelos crescendo. O ano no fim (e as festas). O sol queimando minha pele desprotegida de roupa. Braços. Pernas. Rosto menos os óculos.

A chuva fazendo chorarem os sapatos: os furos laterais planejados apenas para respirarem agora vertendo lágrimas inadequadas. Fora de hora. Desmerecidas. O céu ruge em cima. Forte. Cospe torrentes. Tento esquivar-me. Não consigo. A enxurrada me enche os pés e os sapatos. Piso forte. É preciso pisar forte sempre. Eles esguicham. Continuo a caminhada.

Troco de roupa. Olho meus livros. Berkeley diz que nada existe e nada existiu. Camus diz que o absurdo é como um acidente automobilístico no meio duma noite calma de domingo. Ponho músicas no radio: Jeff Tweedy se desculpa pela apropriação indevida de sua obra poética. Simpático que é, rosto de leão sofrido, me estende um cigarro.

Acendo e e observo três tijolos no muro ao lado do meu quarto: um tem o rosto tomado por névoa, outro é raivoso. Sou bem esses dois. Um terceiro rosto dorme, porém possui um olho esquerdo desperto, ansiando pelo futuro.


E esse futuro acontecerá: e entre todas as vozes imaginárias impressas e constantes, uma se fará mais importante do que todas porque será real.

O ar entre a boca e meus ouvidos será real não será frio e terá a consistência de sol no começo do universo de todas as coisas. Os seios pontuados por sinais entre. Os olhos a meio palmo e o resto do corpo aninhado ao meu dirá à voz doce saindo da vigília:




acorda, o mundo é grande.



2.11.09

Todos os Lugares


Eu não escrevo mais aqui — escrevo em qualquer lugar. Blocos de nota e de rua. Chats. Bancos estáticos e de ônibus. Paredes de banheiros. Quadros brancos. Moleskines. Fichas. Listas de frequência. Guardanapos. Torpedos. Calçadas enquanto espero. Livro de ponto. Cadernos de aulas. Recados para mim mesmo observando com sono a porta da geladeira e achando ter sido aquilo obra de um fantasma. Formulários de inscrição. Papel prateado do maço de cigarros antes de transformá-lo numa pequena esfera e comparar a beleza das coisas. Na palma da minha mão direita. Em pernas femininas adormecidas em um sono inverso. Em seios adormecidos (neles retendo-me aos símbolos). Cadernos de amigos inaptos a uma carta romântica ou tímidos para uma carta pornográfica. Carbono para a videolocadora (e quando vi meu canhoto em branco tive medo). Boletins escolares. Telefone. Bilhetes escusos depositados numa pequena parte solta do rodapé para serem encontrados depois e além da resposta terem neles inclusos fotografias 3 x 4 de partes mínimas e crucias do corpo. Pequenas letras mutantes formadas com os cabelos da nuca repousando sob meu colo. Ponta das unhas escrevendo de forma simultânea na parte interna das tuas pernas para que não me esqueças — oh musa ensejante que se oferece à ponta de meus dedos trêmulos finos e medíocres mas com insistência apaixonada em tê-la aqui leve aguda e gratuita no peito confundindo-se com tristeza e paixão para que me sujes com tua tinta invisível de perfume ocluso espalhando-se sobre o papel inaugurando páginas escondendo-se sob minhas unhas aninhando-se sobre minha clavícula forçando carinhosamente meus braços mãos e dedos de amante exigindo amor num dia quente moroso e invisível no qual a cama torna-se movediça e os lençóis, pedra.



Conselho N° 10


Go for walks. Dance. Pull weeds. Do the dishes. Write about it.


Continuo o esforço com as caminhadas. Tanto as necessárias quanto as desnecessárias são úteis. As mais longas são as que vez ou outra faço do trabalho até em casa. Quase uma hora completa. E na melhor hora, início da noite. Preciso cruzar bairros e caminhar por ladeiras inteiras com músicas nos ouvidos até chegar a um planalto de quinze minutos para então experimentar uma inclinação quase imperceptível além da diminuição do esforço dos músculos guiando-me até minha porta. É um grande exercício de persistência, esse de não poupar tempo; pelo contrário: gostar de vê-lo passar em maior quantidade. Uma contrarte à correria que sente orgulho em poupar tempo para logo em seguida desperdiçar as economias não fazendo nada e ainda ficar cansado com isso.

*

Amo a organização. Porém confesso possuir imensa preguiça em limpar as coisas. Talvez pelo fato de ser um trabalho de formiga: Ao contrário das coisas arrumadas que poderão permanecer ali para sempre; no dia seguinte a poeira estará de volta lembrando a ordem irreversível da vida. Mesmo assim as exceções existem. As louças são as minhas. Gosto de lavá-las, enxugá-las, pô-las nas gavetas. Talvez por haver uma linha comum entre a organização e a limpeza: uma vez lá postas, nunca mais serão mexidas; ao menos até o próximo rompante de fome. Além disso, o ato de lavar louças pode ser um belo recipiente subjetivo para amenizar a tristeza ou a fúria: as mãos sendo enxugadas, os dedos engelhados sentido a realidade mais amena.

*

Quando a natureza exagera, puxo o mato da passarela do portão até a calçada. Senão a coisa se agarra às pernas, tenta me fazer não sair de casa e, quando desvencilhado a muito custo, saio pontuado por carrapichos e pequenos pedaços de matos nos cadarços. Por vezes existem perfumes remanescentes e as formigas sendo despejadas os gravam nas narinas ou antenas, não sei; e quando tu caminhas descalça elas te reconhecem e se afastam respeitosamente. Mesmo assim não impedem o mato e as folhas crescendo em silencio furioso: é preciso chamar um profissional desbastador de plantas. Puxar o mato: não sei ao certo se o sujeito servil, quase totalmente calado, possui tal hábito escuso por ser ilegal. Talvez sim. Talvez misture o mato a pó de cereja e pimenta e observe, de sua varanda mínima com sua única cadeira de macarrão solto, a natureza que combate para tirar sustento revelar subitamente um novo significado e cor.

*

Cheguei ao lugar logo após os primeiros minutos do dia das bruxas. Um galpão com pretensas réplicas de peixes-espadas e seus primos distantes fixados nas paredes. Sente-se certa culpa em julgar certo tipo de música como sendo de mal gosto quando percebe-se ser ela executada com certa paixão. Mas era. Dane-se: Era uma merda de música cafona e datada oscilando do deprimente ao ridículo sendo seguida por dançarinos exagerados a ponto de mostrarem as axilas. Mesmo assim dançamos. Mesmo eu sem um tostão no bolso e tendo que pedir cervejinha por cervejinha dos caras na cabeceira da mesa que ao final de tudo dividiriam a conta desigualmente. E a garçonete recolhendo meu copo depois de cada ida minha ao banheiro e, como consequência somatório, causar minirridículos espasmos de fúria por não poder controlar o tempo. Meu e dos outros. Um direito ao qual me reservo, mesmo sem saber dançar.


A Que Não Sabemos ao Certo


"Salvo alguns casos, como os daqueles citados moribundos de olhar penetrante que a enxergaram ao pé da cama com o aspecto clássico de um fantasma envolto em panos brancos ou, como a proust parece ter sucedido, na figura de uma mulher gorda vestida de preto, a morte é discreta, prefere que não se dê pela sua presença, especialmente se as circunstâncias a obrigam a sair à rua. Em geral crê-se que a morte, sendo, como gostam de afirmar alguns, a cara de uma moeda de que deus, de outro lado, é a cruz, será, como ele, por sua própria natureza, invisível. Não é bem assim. Somos testemunhas fidedignas de que a morte é um esqueleto embrulhado num lençol, mora numa sala fria em companhia de uma velha e ferrugenta gadanha que não responde a perguntas, rodeada de paredes caiadas ao longo das quais se arrumam, entre teias de aranha, umas quantas dúzias de ficheiros com grandes gavetões recheados de verbetes. Compreende-se portanto que a morte não queira aparecer às pessoas naquele preparo, em primeiro lugar por razões de estética pessoal, em segundo lugar para que os infelizes transeuntes não se finem de susto ao darem de frente com aquelas grandes órbitas vazias no virar de uma esquina. Em público, sim, a morte torna-se invisível, mas não em privado, como o puderam comprovar, no momento crítico, o escritor marcel proust e o moribundo de vista penetrante. Já o caso de deus é diferente. Por muito que se esforçasse nunca conseguiria tornar-se visível aos olhos humanos, e não é porque não fosse capaz, uma vez que a ele nada é impossível, é simplesmente porque não saberia que cara pôr para se apresentar aos seres que supõe ter criado, sendo o mais provável que não os reconhecesse, ou então, talvez ainda pior, que não o reconhecessem eles a ele. Há também quem diga que, para nós, é uma grande sorte que deus não queira aparecer-nos por aí, porque o pavor que temos da morte seria como uma brincadeira de crianças ao lado do susto que apanharíamos se tal acontecesse. Enfim, de deus e da morte não se têm contado senão histórias, e esta não é mais que uma delas."


(SARAMAGO, José. As Intermitências da Morte. 2005. São Paulo: Companhia das Letras. Pgs 145-146)



10.10.09

Portaluz


A luminária, ao lado, no criado-mudo, irradia uma falha intermitente. Apaga quase, volta forte e logo esmaece. Ilumina apenas metade do rosto; ora contém, ora absorve o escuro. Porta-luz. Semi. Quase inteira: assim te observo. E a expressão grave compenetrada do sono de respiração inconstante e parte do maxilar na palma de minha mão.

Acorda. A voz faz-se imperativa. Joga-se no banheiro. Batiza-se pro dia novo. Acorda, ele diz a si mesmo. Escolhe roupas. Cruzetas lembrando clavículas. Umas vazias, outras com pano sobre.

É esse o problema, marcos. As letras o atormentam. Você não vai as organizar sobre isso? Digamos assim, no sentido de narrar. Seria bom. E ele diz não ainda porque os rancores e as paixões possuem as estruturas verbais mais fortes. Desde o início funcionando como sequencias antepensadas. Estruturas para depois dos trinta.

Ainda existe muito papel a ser sujo com letras.


2.10.09

Quatro Filmes de 2008


Não sei se acontece com vocês; mas às vezes passo por um misto de preguiça mental e indisposição estranhas que me fazem evitar assistir qualquer filme por achar ser isso perda de tempo.

Começo a ver na tv e mudo de canal porque perdi os 30 segundos iniciais. Quando encontro um título interessante na locadora, alugo porém não assisto e, para não perder dinheiro, faço cópias mas as deixo empilhadas junto às mui gentilmente gravadas pelos amigos.

Ir ao cinema, então, nem pensar: é caro, demanda tempo e dinheiro e invariavelmente nos irritamos com o maldito acesso cultural dos macacos que não conseguem ficar calados ou se desvencilhar por 2 horas de suas crias. Além do mais, 90% do que chega às telas daqui ou não faz diferença quando visto na tv ou é uma bela porcaria.

Reavaliando, então, posso dizer que deixar os filmes de lado nesses intervalos de tempo não é inteiramente culpa nossa. Mesmo assim, nada melhor do que voltar a eles, os bons filmes e, após duas horas, sair da frente da tela se sentindo alguém melhor. Foi assim com os quatro filmes abaixo, todos excelentes, todos de 2008.

*

Be Kind, Rewind (2008) /direção: Michel Gondry.

Após uma desmagnetização acidental das fitas duma videolocadora, dois amigos resolvem fazer remakes caseiros de filmes que vão de Ghostbusters a King Kong. E o que poderia causar revolta nos clientes passa a ser um trunfo quando estes também passam a participar das produções.

O filme possui a mão onipresente de Michel Gondry, diretor da obra-prima Eternal Sunshine of the Spotless Mind, cujas principais características são os efeitos especiais artesanais e personagens incomuns em volta com situações fantásticas.

O único déficit é Michel Gondry não ser um roteirista à altura de sua direção: da mesma forma que ele cria um plano-sequencia genial mostrando a filmagem de vários filmes; desperdiça novamente um clímax muito bem construído como o que já desperdiçara em The Science of Sleep, seu filme anterior. Seria o caso de pegar mais duas aulas com o Andy Kaufmann para chegar à perfeição.


JCVD (2008) / direção: Mabrouk El Mechri.

Jean-Claude Van Damme é um grande ator. Após assistir JCVD, não tenho dúvidas quanto a isso. E qualquer pessoa de bom senso dirá o mesmo após vê-lo atuando nessa história metalinguística maluca que o põe como o centro de uma cinebiografia cruel onde não sabemos o que é totalmente ficção e o que foi baseado nas desventuras da maior estrela da história da Bélgica. E talvez única, se lembrarmos do Hercule Poirot, o detetive gordinho e afeminado das histórias da Agatha Christie.

A revista Time considerou a atuação de Jean-Claude Van Damme em JCVD a segunda melhor atuação de 2008. A primeira foi a de Heath Ledger, em Batman: The Dark Knight. Concordo inteiramente.

E ainda posso favorecer um pouco mais o Jean-Claude ao lembrar o fato de, em Dark Knight, não haver nenhum monólogo de seis minutos com Heath Ledger encarando a tela de cara limpa. Além dele nunca ter sido capaz de fazer um espacato cruzando os braços. Ou, com os olhos vendados, derrotar o Chong-Li.


Slumdog Millionaire (2008) / direção: Danny Boyle.

Slumdog Millionaire é o encontro de Gloria Perez com Fernando Meireles: você assiste a uma perseguição permeando a favela no melhor (?) estilo Cidade de Deus e nos diálogos subsequentes ouve os garotinhos falando um inglês permeado por ticks e atchas tão familiares aos brasileiros.

Mas a história é bem mais do que isso: É um novelão dirigido pelo Danny Boyle que nos faz sofrer por quase duas horas para, no final, nos sentirmos aliviados e até mesmo curtir a dancinha indiana enquanto rolam os créditos.

Slumdog Millionaire mereceu o Oscar de melhor filme porque é para isso que serve o cinema: te emocionar, deixar preso à tela, chorando quase, e ficar lembrando depois. Além do mais, o filme do Benjamin Button, com 8 horas e meia de duração, é chatíssimo.


Gran Torino (2008) /direção: Clint Eastwood.

Assisti há doze horas e ainda estou sob o efeito. Gran Torino é algo como um monólogo de Clint Eastwood cujos atores secundários fazem parte dos elementos de cena e ficam ao redor do protagonista: um veterano da Guerra da Coréia obrigado a conviver com os ex-inimigos dentro dos Estados Unidos da América.

Além de todo o drama e as vendetas que vêm como consequência, Gran Torino possui duas abordagens marcantes: a primeira, ao mostrar a estranheza de alguém que ajudou a construir um país – a “boa” América – e sempre cumpriu seu papel de pai e cidadão e de súbito se descobre um estrangeiro dentro de seu próprio país e, pior, dentro de sua própria família pelo fato de todos os valores terem sido progressivamente dissolvidos.

A segunda é a de que qualquer homem gostaria de chegar à velhice como o personagem de Clint: com a casa limpa e bem manutenida, a esposa devidamente enterrada após ser amada cada dia de sua vida, um cachorro fiel deitado ao lado, um isopor cheio de cervejas e, principalmente, um fuzil com doze munições e uma pistola 9mm para serem apontados na cara de moleques ignorantes e sem identidade.

*

De qual gostei mais? Gran Torino e JCVD. Por quê?

Porque o cinema, como toda boa forma de arte, é transferência.


23.9.09

20 Minutos de Escrita Randômica


Não adianta procurar referências suas nas entrelinhas. Não existe nada de você aqui além da metalinguagem estúpida e quadridimensional montada pela sua cabeça. Só para precaver.

*

Todo o seu processo de escrever é algo bem vagabundo, destituído de rituais de sofrimento, aspirações em frente à tela, gravidade. Apenas toma um pouco de café; ou abre uma cerveja, ou dá uns tragos num cigarro. Sente uma tontura boa e depois enjoa definitivamente do cilindro de veneno. Escreve. Quando cansa, lê algo que fora escrito antes: ele mesmo agora transformado em letras desconhecidas. Meu deus onde tava com a cabeça quando escrevi isso. Quando não, espia algum endereço com fotos de mulheres nuas ou semi.


O ar disperso. As substâncias. Deveram estar no mesmo tronco caído partido por um raio e depois servido de adubo à terra e depois servido de alimento a um gado que depois de morto fora consumido pelas mães grávidas de ambos e essa mesma energia entrara definitivamente nas células-tronco de cada um deles e ajudaram a derivar todo o resto do corpos que agoram se observam. E agora, esse reconhecimento indescritível. O ar compartilhado sendo aspirado e devolvido para fora e aspirado novamente agora curtido pelo organismo de ambos. Uma sensação boa.


Obviamente é um exagero. O ar, coisa e tal. Mesmo assim, possui uma ojeriza mortal a quem considera o materialismo um mero ponto de vista idiota de que tudo apareceu ao acaso e que irá morrer um dia para nunca mais. Pensar nas coisas em seu caráter material é infinitamente mais do que isso. Apenas não há prova mais cabal do infinito do que a matéria e esse comentário é algo recorrente porque é o que é percebido pelos olhos. Como alguém pode se fiar no invisível? É um pouquinho de burrice, né não?

Além do mais, o que é melhor como elogio aquiescido?:


1. Percebo em você uma energia espiritual muito boa; ou

2. Nossa, que perfume bom... Dá vontade de te agarrar aqui mesmo.


Não precisa responder. Lembra duma frase do Salman Rushdie, escritor do qual até então não lera uma única linha: prefiro acreditar na existência duma alma mortal.


Não é uma transcrição literal, mas essa é exatamente a idéia. Gosta de levá-la consigo, entre o coração e o bolso da blusa. Dane-se o resto. Os caras pregando no ônibus: Jesus sendo novamente flagelado — dessa vez pelos erros crassos da oratória. Até hoje a coisa mais impressionante que viu foram quatro bolivianos produzindo música impecável mesmo entre os solavancos das curvas e a antigravidade das ladeiras. Sentiu uma pertencência ao povo latino-americano e deu a eles o único real que possuía de sobra.


Hoje mesmo, dia 23 de setembro, leu uma reportagem antiga sobre a Transamazônica escrita pelo Fernando Morais em 1974 (impressa pela Cia. das Letras e comprada pela Becca) e lembrou da pequena incursão que fizera estrada a dentro na direção de Porto Velho em 2008 último: a mesma paisagem ora erma ora fechada, a mesma gente isolada do mundo. Enquanto diletantes famintos pregam no ônibus e diletantes bem alimentados tentam dar uma significação mística a vida, existe gente isolada da civilização manauara por quatro balsas e um estirão de estradas mal feitas.


O pessoal que corta lenha e não tem muito tempo para as sentimentalidades misteriosas do espírito: Apesar da vida difícil, eles dormem infinitamente melhor do que as gentes das cidades. Ao menos foi o que lhes disseram, apoiados com uma das mãos na viatura do Exército enquanto lhes ofereciam generosos copos de água. Generosos porque a energia elétrica só circulava doze horas por dia. Pessoalmente não lembra de ter conhecido nenhum caboclo que sofresse de insônia.


(Ainda faltam cinco minutos. Vou tentar interligar as idéias do texto. Vou ver se consigo. Esse parágrafo não conta, daí as aspas)


Num dos pontos da reportagem, Fernando Morais comenta sobre uma das noites onde conseguiram pernoite num hotel decente: após alojarem-se, ele simplesmente desabou na cama e dormiu um sono profundo, ininterrupto e revigorante até as nove da manhã do dia seguinte.

É exatamente isso. Essa paz do cansaço. Esse sentimento de estirão cumprido que traz uma paz de espírito como consequência direta do repouso físico. Você se deita e se mistura à cama. Esquece de que matéria é feito. E com isso vive-se toda uma existência sem a menor recorrência de suicídio porque há trabalho a ser feito.


Tergiversações materialistas? Pensamentos lúbricos? Palpitações? Angústia? Antes de soletrar o acento agudo da palavra, a paz do cansaço já fez o seu abate e te devolveu à ordem constante das coisas.

Que dirá o Luiz Carlos, motorista, que dirigira a viatura 4x4 o dia inteiro e hoje em dia, por um golpe de azar, sofre um processo. Outra história.

E o outro dia é o outro dia.

(19)

17.9.09

Muay Tai


Eu tentei encaixar a figura do instrutor de muay tai num dos meus textos mas não deu certo: ele é por demais idiossincrático; destoante de todo o resto.


O ponto donde desço do 200 e sete é um dos metros quadrados mais loucos que existem. Nele coabitam uma distribuidora de gás, uma padaria, um galpão armazenador de evangélicos, uma distribuidora de bebidas, uma lanchonete evangélica, uma creche, um manutenedor de eletrodomésticos, uma ótica-boutique, uma serralheria, uma marcenaria e a tal academia de muay tai.

Às vezes passo pela frente e ouço berros no pátio aberto agora encoberto por folhas tortas de compensado. Os sujeitos invisíveis batem nos sacos de areia, o nome Everlast é esmurrado com agressividade contínua. A academia funcionando como uma embaixada improvisada da Tailândia: pátria irascível onde se punem traficantes com fuzilamento ou pisada de elefante na cabeça.

Imagino que eles devem correr à beça, bem como fazer exercícios extra; os alunos do bairro da Redenção: para lutar muay tai é necessário ter os joelhos e os cotovelos transformados em pedra. Exatamente como Jean-Claude Van Damme em "Retroceder Nunca, Render-se Jamais" e em mais uma dúzia de filmes: a canela açoitando o coqueiro, os fundamentos marciais sendo repassados no fundo do lago.


Após o treinamento, o mestre fica à porta de sua academia improvisada. Assim como Jean-Claude Van Damme, ele usa o short passando o umbigo em muito. Os músculos ressequidos (já não é jovem) e as veias funcionando quase como dutos expostos o fazem girar o pescoço e levar um cigarro com filtro amarelo à boca.

Ele observa a paisagem em tom de desafio. É o único mestre de muay tai das redondezas. Está cercado por evangélicos pobres, comerciantes iletrados, atendentes de padaria semi-transsexuais, marceneiros com pedaços de dedos faltando e serralheiros com as pupilas comprometidas.

Dá um trago profundo. Passa a direita sobre o couro da cabeça. A esquerda ainda segura as luvas.


16.9.09

Opereta




O Muse me fez (re)começar a ouvir rock progressivo sem eu me dar conta disso.

A estranha combinação de glam rock e teclados de seriado japonês que sempre gostei de ouvir gruda nos ouvidos. As sonatinhas de piano que eu costumava ouvir incidentalmente quando era criança:
Aquelas músicas tristes e belas cujo número a gente não lembra nunca.

Aparecem também as orquestrações de filmes com seus violinos e mais violinos. E mais as coisas espaciais e marciais misturadas com sintetizadores dos discos do Bowie e os falsetes do Thom Yorke misturados a refrães estilo Queen com vocais dobrando-se de forma operesca.

Tantos elementos misturados são suficientes para se amar ou odiar The Resistance, o novo álbum da banda. "Rock progressivo é tão chato! Como alguém pode ter saco para ouvir Rush, Pink Floyd, Muse e etc?"

Porque quem começou a ouvir essas bandas quando eles eram... humanos, digamos assim, foi gradualmente conduzido a essas novas sonoridades. E porque muitas vezes gostar de uma banda é algo irreversível, por mais que às vezes essa banda irrite.

Algo como ter começado a ouvir Radiohead na é poça em que se podia tocar Freak em qualquer violão e agora ser admirador de uma sucessão labiríntica de palavras misturadas a fraseados de guitarra e barulhinhos impossíveis de serem reproduzidos por ninguém além deles mesmos.

Da mesma forma que os fãs de longa data de tais bandas, eu comecei a ouvir The Resistance com um preconceito empático porque já fora guiado do britpop assim meio cópia do Radiohead até essa coisa pretensiosa, megalômana, resvalando no cafona, mas que no todo se salva por soar algo apaixonado.

E a passionalidade é o único lado bom da megalomania.


7.9.09

Elevador




O cabeleireiro do programa de moda disse a ela que o cabelo não deve ser preso com tanta tensão: aqueles fios esticados como o cabelo da Mônica (sete fios ou oito?). A tensão contida pela liga colorida pode expor demais os pontos negativos do rosto, comprometer a harmonia das maçãs. O couro cabeludo fica tenso. A vida fica mais difícil.

Toda essa teoria não importa porque ela está de ressaca e quase tragicamente atrasada para o trabalho. Passar um secador pela cabeça seria como um suicídio lento e doloroso. Procura seus pertences pelo quarto. Moedas. A bolsa cor de rosa. A calcinha mais feia e mais confortável de todas. Pragueja quando precisa se abaixar para resgatar o tênis fugido para baixo da cama. Ele escapa, tenta fugir através do dedos. O ata aos pés. Em seguida, cobre os olhos amassados com um óculos gigante e faz um coque mais tenso do que as relações na fronteira inexistente da Palestina.

Olha-se no espelho do elevador. Ainda está um pouco alta a ponto de se achar outra olhando para si própria. Como quando se muda de visual ou se sofre um acidente trágico de cicatrizes grotescas. Encosta a testa no vidro e fala para si mesma: eu poderia cometer um assassinato se o que estivesse em jogo fosse a minha eterna felicidade romântica.

E como seria, seria com uma faca? Como seria?: A garota idêntica, com duas dimensões apenas, o cabelo louro com as pontas escuras como que se tivessem sido mergulhadas numa calda de chocolate constante a indaga, ergue o nariz e exige uma resposta.

Seria rápido, com certeza seria rápido. O golpe recém-aplicado. Faca. Tenho medo de barulho de arma. A nova boca branca, pronta para esguichar sangue. E valeria a pena morrer por ele? É, esse mesmo que você pensa antes de todas as memórias, antes mesmo de acordar e se reposicionar no dia e no turbilhão de voltas e voltas que te levarão irrevogavelmente a perder o contato com a passagem dos anos. Você pensa nele e se sente silenciosamente feliz dentro dessa prisão ridícula.

Ele mesmo. Cinco centímetros mais alto, com a barba mal-feita no pescoço e com uma insegurança de moleque de quinze anos quando já está pra lá dos chegando aos vinte e cinco. Esse mesmo que jamais te dará um daqueles casamentos opulentos a ponto de serem documentados pelo Discovery Home & Health.

Sim. E não me arrependo da imensa partição neurológica que esse filho-da-puta ocupa em minha cabeça. E você poderia pensar tanta coisa! Poderia até escrever livros se, ao invés de ficar imaginando realidades que não acontecerão nunca, se ao invés de ficar perdendo tempo nos teus sonhos lúbricos de final de noite — início de dia, passasse a encarar a vida de forma mais prática: Iria encontrar um homem com planos, um cara objetivo, com o carro ainda cheirando a novo, totalmente disposto a ser um cachorro: a te lamber e fazer todas, digo, todas as coisas que você quisesse.

Mas não quero isso!: ela recupera a senhoria dos movimentos e aprisiona novamente a mulher plana como mera imitadora dela mesma porque, sim, mesmo velocíssima, a luz só ocorre microtempos depois e então cada reflexo de espelho é uma imitação do que fizemos há uma centena momentânea quântica antes.

O cabeleireiro estava certo. Antes de pousar no térreo (o elevador tranquilo e silencioso, ocultando a possibilidade iminente do abismo), ela solta os cabelos. Eles respiram e se equilibram com as pontas dos pés sobre a pele de seu busto. Os pezinhos unos sujos de chocolate.

Ela corrige um pedaço de boca vermelha tentando escapar pelo lábio superior. Respira. Arruma os peitos. Sai para o trabalho.


5.9.09

The book group thing



The book group thing was JJ´s idea. He said people do it a lot in America, read books and talk about them; Martin reckoned it was become fashionable here, too, but I´d never heard of it, so it can´t be that fashionable, or I´d have read about Dazed and Confused. The point of it was to talk about Something Else, sort of thing, and not get into rows about who was a berk and who was a prat, which was how the afternoons in Starbucks usually ended up. And what we decided was, we were going to read books by people who´d killed themselves. They were, like, our people, and so we thought we ought to find what was going into their heads. Martin said he thought we might learn more from people who hadn´t killed themselves – we should be reading up on what was so great about staying alive, not what was so great about topping yourself. But it turned out there were like a billion writers who hadn´t killed themselves, and three or four who had, so we took the easy option, and went for the smaller pile. We voted on using funds from our media appearances to buy ourselves the books.

Anyway, it turned out not to be the easy option at all. Fucking hell! You should try and read the stuff by people who´ve killed themselves! We started with Virginia Woolf, and I only read like two pages of this book about a lighthouse, but I read enough to know why she killed herself: she killed herself because she couldn´t make herself understood. You only have to read one sentence to see that. I sort of identify with her a bit, because I suffer from that sometimes, but her mistake was to go public with it. I mean, it was lucky in a way, because she left a sort of souvenir behind so that people like us could learn from her difficulties and that, but it was bad lick for her. And she had some bad luck, too, if you think about it, because in the olden days anyone could get a book published because there wasn´t so much competition. So you could march into a publisher´s office and go, you know, I want this published, and they´d go, Oh, ok then. Whereas now they´d go, Oh, ok then. Whereas now they´d go, No, dear, go away, no one will understand you. Try pilates or salsa dancing instead.

(HORNBY, Nick. A Long Way Down. London: Penguin Books. Pg 146)

29.8.09

Pulso



Entenderam? A prostituta é a morte e os doze poemas sem carbono são a vida. Hank pede para que ela leve tudo, menos a sua vida. O Anibal era o único poeta realmente poeta em atividade e agora toda a atividade restante será a leitura dos seus livros: a luz entrando pelos olhos e trazendo para dentro a forma e o significado das letras representando imagens subrreptícias.

Você lê e absorve a coisa. Essa da impressão contra o fundo branco (o mar indo e vindo, o cheiro do hortelã e do pescoço) e vai dormir um pouco mais inteligente. Oito dias depois você cria uma metáfora saída dessa bagunça de sangue e fios orgânicos emaranhados e se sente bem por isso: uma das funções da poesia.

Fiz várias coisas. Aulas. Leituras. Conversas com amigos. Idas ao supermercado. Olhares completamente embasbacados para as novas tatuagens de Josephinne. Detalhes perfeitos e filigranados subindo pelo pé e perna e, num dos pulsos, o símbolo:

25.8.09

Last Round


To The Whore Who Took My Poems
(Charles Bukowski)

some say we should keep personal remorse from the

poem,
stay abstract, and there is some reason in this,
but jezus;

twelve poems gone and I don't keep carbons and you have

my

paintings too, my best ones; its stifling:

are you trying to crush me out like the rest of them?

why didn't you take my money? they usually do

from the sleeping drunken pants sick in the corner.

next time take my left arm or a fifty
but not my poems:
I'm not Shakespeare
but sometime simply

there won't be any more, abstract or otherwise;

there'll always be mony and whores and drunkards

down to the last bomb,
but as God said,

crossing his legs,

I see where I have made plenty of poets

but not so very much

poetry.

(Anibal Beça: Manaus 1946/ Manaus 2009)

21.8.09

O Homem Assombrado pelos Gatos



Primeiro se faz necessário falar sobre o fantasma da cadeira:


Não lembro exatamente quando a cadeira apareceu ao lado da porta de entrada. Simplesmente apareceu com sua estrutura leve de alumínio e seus macarrões verdes e nunca resolvi mudá-la porque desde a primeira que a vi senti uma boa sensação de segurança. Aparentava haver algo ali. Um guarda invisível.

Sendo assim, coloquei ao seu lado uma planta para lhe fazer companhia. Passou o tempo e veio o sol. Forte, amarelo mais que laranja. A planta adoeceu por causa do Sol e seus raios. A retirei da porta e a coloquei sob uma sombra da cozinha, próxima da pia quente e úmida.

Curiosamente, a cadeira deixou sua posição estável e passou a ficar cada vez mais alheia à sua posição vigilante. Torta. Até mesmo caída com o vento. Talvez tentando fugir do sol que matou até mesmo os fungos da parede: uma companhia muda, porém constante.

Mas muito provavelmente por saudades da planta. Os seres de mentalidade simples e certos homens são os que mais sofrem quando lhes retiram pequenas coisas. Perder algo mínimo pelo qual se nutre um carinho imenso é uma ruína irreconstrutível.

Acontece que pouco tempo após o início da desordem de posições a cadeira estabilizou-se, novamente objetificada, e em seu lugar apareceu um gato branco: O fantasma talvez transmutado em bicho permanecia na frente da minha casa. Observando-me de forma minuciosa como que perguntando onde está a minha planta. Uma saudade desesperada sem perder a compostura. E a planta aqui dentro de casa com ramos se insinuando galhos. Gozando do conforto mínimo do mundo dos humanos que trabalham o dia inteiro para terem certa paz no final da noite.

Ignorei o gato. Ignorei a cadeira e o preço de tamanho descrédito desmerecido foi o aparecimento de estranhos fenômenos. Entre eles:


O gato demoníaco


Era algo com ter dado aulas e aulas. Na verdade era: eu dera aulas e aulas e estava em casa cansado o suficiente para não sentir sono. Meia-noite. Uma. Duas. Quando resolvo dormir, quase três, ouço baques na janela do meu quarto. Talvez um ladrão, forçando a tranca, tentando empurrar o condicionador de ar.

Dei um murro na janela e aguardei a reação no meio da madrugada silenciosa. Nada. Com certeza era um bicho. Um gato ou um passarinho insone, que fossem. Tentei dormir de novo. Pouco tempo depois ouço barulhos no cadeado da porta da frente. Tem alguém Tem alguém Tem alguém: em tais situações, essa sentença simplória mostra-se intermitente e assustadora.

Alópro: abro a porta da frente de súbito e quando vejo o que ela desvela dou um salto de três passos para trás: um gato laranja com uma lata na cabeça.

E o que há demais num gato laranja com uma lata a cabeça? Absolutamente nada demais, querida leitora que sabe, melhor do que ninguém, escolher os sapatos. A não ser que seja três e meia da noite, você esteja sozinha, ache que tem um ladrão rondando a sua casa e, quando bravamente você resolve abrir a porta de casa cheia de sentimentos contra a lei dos homens (tais como abrir talhos num braço desconhecido), no lugar dum sujeito suado de um metro e cinquenta e cinco, encontra um gato laranja cuja cabeça não existe: com os bigodes direcionadores espremidos por uma lata de comida canina ele move-se como um alien demoníaco, rastejando pela calçada.

Tentei ajudá-lo e não consegui. Ele rechaçava as minhas investidas de socorro. Corria cego e tentava usar as unhas. Resolvi esperar nascer o dia e procurar ajuda. Fui para a cama e entrei numa vigília de sonhos estranhos, ora lúbricos, ora planejando aulas, e às seis e pouco da manhã, fiz minha segunda investida desesperada na resolução do problema.

Nem tudo é azar ou situação absurda. Minha vizinha do lado estava varrendo a porta da sua casa. Chamei-a e, ao ver a criatura, ele teve quase a mesma reação de agonia e asco que eu tivera algumas horas antes. Vamos lá, Cristiane. Ela segurou as patas e eu segurei a lata. O gato esticou-se como num desenho de Tom & Jerry. Sofria, o bicho. Livrei as orelhas. Desviei as mandíbulas. O gato laranja viu a luz do sol novamente. Saltou, nos observou e saiu correndo sem nem ao menos dizer obrigado. A ingratidão, mesmo a do mundo animal irracional, é das coisas mais tristes.

Seria o fim da história se, assim como vocês, eu não estivesse esquecido do gato branco. Aquele, evoluído do fantasma da cadeira. O mesmo que tivera sua companheira planta arrancada de seu convívio. O mesmo que encontrara na permissividade de mau sentinela seu instrumento de vendeta.

Vendeta: Um gato laranja, desconhecido e vendado... Percebem? Vamos para a última parte.


As crias


Chego em casa depois de dois dias dormindo fora. Josephinne. Minha mulher evoluída do gato, por vezes pássaro e por vezes, por que não dizer, até um pouco cachorra, pediu que eu dormisse uma noite seguida em sua cama. Dormi: a Josephinne nada négo. Voltei para casa no dia seguinte. Três da tarde. Algo como um nômade se movendo pelo deserto — O calor! O calor! — com o bônus justíssimo de algumas latas de cerveja dentro de um saco de plástico branco. Encontro o portão em desordem. À sua frente, um saco anônimo de lixo meio rasgado. Arrumo o portão. Recolho o lixo desconhecido e o reúno aos meus. Tudo resolvido. Só me resta entrar em casa, limpá-la e escrever nela. Tudo se resolve com a limpeza das coisas.

Ouço alguns mios. Entro no quarto, vassoura em punho, e ponho um dos ouvidos próximos às grades da janela. Os mios não estão fora, estão dentro. O gatos estão dentro do meu quarto.

Ouço um pouco mais. Estão sob a minha cama. Deixei uma das folhas da janela da frente entreaberta e agora existem gatos sob a minha cama-caixa. A afasto: o gato branco revela-se gata quando vejo cinco gatinhos menores perseguindo seus mamilos. As crias alheias a tudo não percebem a ameaça que sou. A gata branca, evoluída do fantasma, percebe e sai correndo, invisível, na direção da porta da frente e lá estaciona, sentido-se vítima de sua imprudência. Observa-me.

O que faço? Não quero tocá-los. Tenho algo como um nojo misturado com medo de machucá-los: o mundo tão novo, escuro e úmido, rescendendo a leite ralo de mãe, subitamente interrompido, os faz chorar aos mios.

Chamo por Socorro: a empregada de minha vizinha — que também se chama Socorro — aparece alguns minutos depois para ajudar o vizinho inapto (a ponto de não lavar as próprias roupas e pagar a ela vinte reais a cada duas levas, uma maior e outra menor) para dar conta da prole.

Ela pega uma pá de lixeira. Me diz: eles vão se criar aqui, Júnior. Eu digo, e o que você quer que eu faça? Jogue eles fora?

É: ela diz.

Não. Eu jamais faria isso. Deixa eles em baixo daquela árvore que tem mais sombra, Socorro. Por favor.

Ela os deixa. E a gata, em permanente vigília, observa todo o processo para, em seguida, ir até eles e lambê-los, uma a um — A gata, até então um fantasma intangível, digerindo sua própria placenta e com um rasgo vermelho, sangue seco, sobre o dorso.

Eles estão lá, agora. Os observei pelo basculante. A mãe os lambendo e partindo para conseguir comida. Não posso dar comida a ela. Ela recusa meus potes de leite, recusa meus Texas burgers. Por aqui é tudo o que poderia oferecer a ela. Num prato plástico dissolvo algum leite em água e o deixo perto das crias. Elas farejam e duelam raivosas. Querem mais. Montam-se umas sobre as outras e, finalmente, chafurdam sobre a fonte desconhecida de alimento. Bebem.

Acho que fiz minha parte. Não posso acolher entre as paredes confortáveis de meu quarto toda uma prole felina originada de um fantasma cuja incursão dolorosa no mundo das coisas se deu porque sentia saudades de uma planta.



Entre as paredes de meu quarto só acolheria a mim e a Josephinne e a nossa prole única cujos nomes não revelo para que os invejosos não registrem os nomes antes. E a ajudaria a engolir a placenta. E os lamberia e a lamberia. E os alimentaria com meu leite artificial de pai e daria alimento mastigado na sua boca para que ela os alimentasse apropriadamente.



Encosto novamente o ouvido na grade de meu quarto. Ouço a matriarca vizinha do lado brigando com os filhos-netos. No lado oposto, ouço os ecos das crianças da oficina brincando longe dos olhos das mães. Suas crias não parecem se importar com nenhum dos acontecidos.


13.8.09

Emiliano


A cama projetada por Emiliano consiste num original e verdadeiro objeto composto pelos teares milenares intrincados e inacessíveis da arte manufaturada indígena. Ele, Emiliano, estivera com eles, os índios, durante quase toda a infância e a parte da vida necessária para se lembrar para sempre. Aprendera com eles o silêncio e a simplicidade dos mistérios ocultos dum mundo que sob olhos obnublados de quem é acostumado à autoproclamada civilização parece o ser o mesmo todo santo católico dia. Mas não é.


Prova visível é o espaldar da cama absolutamente tenso e ainda assim modificável: estalando certos extremos geometricamente correlacionados, Emiliano consegue formar o desenho de paisagens, iniciais de nomes, insinuações de curvas femininas e, com um pouco mais de alguns pares de minutos dentro dos quais suas mãos ajustam o que parece inajustável, desenhos de rostos sem quaisquer dúvidas de serem retratos específicos quando vemos neles representadas rugas de expressão e sorrisos sugeridos cercados por símbolos representando um rol de amantes.

No lugar onde se deita, milhares de feixes sobrepostos substituem o colchão (palavra grotesca) e dispensam a falsa epiderme de tecidos-extra para a proteção contra o frio — Bem como dispensam os ardis mecânicos para ludibriar o clima quente imposto pelo ambiente: ao comportar o corpo, ou os corpos, dependendo da noite, o feixe balanceia e contrabalanceia as temperaturas de quem está ou estão sobre eles: o corpo permanece acolhido seco e úmido como um índio pacífico após uma jornada de caça e pesca e dança e beberagem. A cama não range.

Haveria um problema: ser exígua. Mas não é. Possui o tamanho exato. Para ser perfeita, necessita apenas comportar um corpo ou dois abraçados: dissera-lhe o índio marceneiro entre palavras econômicas autoexplicativas o suficiente para não necessitarem do uso de floreamentos como exíguo ou marceneiro ou dois abraçados para se fazerem entender.

Sente saudades: esse floreio verbal específico com o qual conseguira contaminar os iguais entre os quais convivera durante doze anos. Sentem a sua falta e usam tal palavra entre os períodos econômicos nos quais falam sobre ele, Emiliano, e a sua necessidade de deixá-los dentro do mato inacessível e partir usando roupas que não cabiam direito: o gosto ácido e doce de peixe ainda impresso na língua, os pés inflando-se dentro do sapato, as mãos feitas teares.

Na primeira semana de chegada à cidade, encerrou-se. Ignorava a euforia dos familiares desconhecidos com cabelos untados e penteados para trás da fronte. Ainda sabe falar, Emiliano? Diziam em tom de chacota amistosa. Sim. Vamos te arrumar um trabalho: observar um maquinário burro e barulhento — peixes entrando por uma esteira com os olhos ainda vivos e pulsantes e saindo na forma de pequenos tijolos aglomerados pela sua própria gordura. Algo triste de se ver.

Volta para o quarto. Acende a luz e logo em seguida a apaga. Cria um fogo minúsculo o suficiente para iluminar tudo o que precisa. Ganhou de presente um tubo luminoso de dentro do qual saem imagens sem significado. Volta-se para a cama e a estala de forma misteriosa. Muda as imagens do espaldar.

Ouve um baque à porta. Frágil tentando serem fortes, os baques. Abre. A mulher pensa ser a penumbra um ardil romântico quando na verdade é apenas uma representação lúgubre duma solidão imensa. A observa e de forma engraçada e mágica a solidão se dissipa. A mulher abre alguns pacotes que trouxera dentro de um saco plástico branco e observa o espaldar da cama. Vê a ela mesma representada com uma pequena flor de manacá presa por entre os cabelos. Como você faz isso?

A cama urdida de forma elementar e mecânica impõe sua pujança milenar dentro do quarto mínimo. Deitam-se.


11.8.09

Corujas


Pára e me fita bem de perto com longuíssimos olhares de coruja. Aqueles globos belos sábios e pesados escondendo um passado desconhecido. Um passado vivido madrugada após madrugada aninhada num tronco rígido sobre o qual mantivera uma ferida verde aberta de seiva escorrendo. A unha agarrando a seiva e sutilmente a levando à boca: um alimento inútil e prazeroso misturado à saliva.


Repousa agora essa seiva verde misturada aos olhos humanos. O busto por vezes insinuando-se altivo e os gestos brancos lidando com os objetos sobre a mesa como se folheassem um livro. Abre-o. Cheira as palavras. As mói as enrola e as traga. Os globos belos e sábios do busto escuso insinuando-se novamente. Me oferece os três últimos tragos reminiscentes: o filtro seco de quem guarda a saliva sob a língua. A utiliza apenas nos momentos certos.

Tenta me ouvir. Eu falo baixo. Meus ancestrais falavam assim. Não tenho culpa. Na verdade tenho quando oscilo da voz baixa à quase gritante. As ondulações são moduladas pelo olhar reconhecedor por vezes doce por vezes sáfico quando fita uma ou outra garota. Retorna a mim.

Desce à cidade observada madrugada após madrugada com um vôo curto e planante pousado numa esquina fria onde encolhe-se uma fila de bichos de festa esperando para entrar na casa noturna. Lá dentro, encontramo-nos. Perguntei por educação porque chegara tão tarde. Beija-me o rosto.


Escorre a mão por ele. Um leve cheiro de cinza. Um forte cheiro de seiva repousado no interior da unha média. A pele negra do rosto mistura-se. A penugem mínima pairando nas orelhas e nuca. Por vezes fala com estranhos. Nutro profundo desprezo pelos estranhos que não conheço. Utiliza a ponta dos pés para aninhar-se sobre o banco. Equilibra-se.


Pousa uma das mãos sobre a mesa. A outra sobre meu braço. Esta pressiona a unha média de leve. Acho que o fura um pouco. Faz um rasgo imperceptível. A unha pigmentada por um azul desconhecido sob o qual repousa um cheiro oculto conhecido e desconhecido por mim. Talvez seja o braço apenas um galho e eu uma árvore agradável imutável e eterna. Mesmo assim insuficientemente antiga para os olhos da cabeça que dá voltas.



7.8.09

Cercas e caixas


Como assim eu sempre falo as mesmas coisas? Não é minha culpa. A gente vive dentro de uma cerca de palavras: pula e ninguém te entende.


Aos dezesseis anos, inventei um vocabulário com quarenta e três verbetes e três sinais básicos de pontuação: um para pausas curtas e dramáticas, outro para pausas atônitas — algo como alguém recém-portador de um segredo — e um terceiro para indicar uma sentença com carga erótica. Não funcionou.

Os sinais se reproduzem. Pensei em um sinal evoluído para indicar asas: A personagem ruiva com as asas batendo dolorosa e prazerosamente sob e sobre as costas. O personagem com as asas murchas porque acabou de descobrir um segredo. Duas personagens: um casal recém-descoberto, com suas asas tentando se adaptar à gravidade de nove e tantos metros por segundo.


Percebem o problema? Nunca ninguém conseguiu ser Osman ou Cortázar além deles.


Melhor voltar para dentro da cerca. O que há de tão especial com os casais se amando ao ar livre? O ar livre? Mas o ar não é o mesmo em todos os lugares? Não seria melhor o ar esfumaçado, palpável quase? Não seria melhor o ar do quarto [encerrado] controlado pelos amantes?

O ar visível saindo pelas bocas sem necessitar do frio é a resposta.



A caixa. Só é caixa se houver entrada; senão deixa de sê-la. Vira um cubo inútil e indecifrável.


Uma caixa. Para sê-la, necessita duma porta e uma janela pelo menos. Então, pense bem, tudo são caixas: até mesmo a mulher auto-encerrada sem se dar conta: Aquele mecanismo insano cujas formas são observáveis e, mesmo intrincadas, decidimos guardar nossos pertences dentro delas, mesmo correndo o risco de nunca mais reavê-los.

A arquitetura interna, intrincada e rubra. Seriam assim todas? Terrível mesmo seria a experiência da descoberta da arquitetura pálida após a doação dum segredo. Mas não existe tal coisa. Ao menos nunca ouvi quem descobrisse tal fenômeno negativo: mesmo os mais falastrões, expelidores de segredos dignos do meu sinal de pontuação invisível, nunca relataram tal fato.



O céu de boca, feminino e rubro, ósseo e muscular, maleável, ao mesmo tempo. Superior, quando comparado ao simulacro externo e mecânico da outra boca complementar e inferior, hominídea.



A caixa correta e superior sim: complementar, feminina e passiva, mas ao mesmo tempo cheia de mistérios por ser rubra; duma rubridez da qual só se vêm as laterais insinuando-se. Superiores, sim, e eis a prova dentro de uma analogia simples:


O que é mais sedutor? Um caderno ao descaso, ou um diário com uma tranca esquecida aberta esperando que alguém o leia?


O diário. Querido diário... e a sensação de leitura é mais excitante do que a de um clássico cujo início fora lido pares de vezes em quaisquer revistas. Mais do que isso? Um diário entreaberto pra você apenas.


Senta-se. À sua frente um diário entreaberto. Lê. Descobre segredos inúteis e preciosíssimos. No dia seguinte, a encontra. Lembra do diário em forma de bloco. Uma coisa encadernada que cabe na palma da mão, esquecida numa partição da estante do quarto. Abre: longilínea e pensada, a letra em diagonal com o auxílio duma régua invisível.


Imitando um padre receptor de volumes, as guarda na memória


(imagine aqui um ponto final diverso dos regulamentares)


29.7.09

Perfumaria


Parto provisoriamente. Gosto de andar pela vizinhança, tanto a minha quanto a de Josephinne. Preciso comprar coisas. Mercado: coca-cola, cerveja, pão e arroz doce. Drogaria: preservativos.

Os fármacos. A palavra farmácia vem caindo em desuso crescente. Não sei absolutamente nada de química, mas sinto certo fascínio pela possibilidade da cura de diversos males através da mistura de elementos em um tubo de ensaio. Agora não existem mais tubos à mostra e os emplastros assumiram quase uma função mística. O farmacêutico, figura a princípio indispensável para a legalidade do negócio, assumiu uma aura meio Oz: sabemos que ele está lá, mas nunca o vimos — Em seu lugar estão sujeitos limpos, bem penteados e leigos a qualquer hora do dia.

Eles não são necessários quando vamos comprar preservativos. Podemos ir direto ao caixa: esta não tão bem humorada, com uma imensa gama cromática de marcas e modelos às suas costas. Uma triste atravessadora do ato sexual. Percebem quão grave se tornaram os tempos? Entre você e a sua amante é necessária uma atravessadora, e é necessário dinheiro, para que você não tenha complicações póstumas.

Ilustrando tais complicações está a mulher à minha frente. Cansada, ela tenta demover a filha (simiesca e minúscula) da idéia de comprar jujubas. A criança começa a chorar um choro seco e mimado. A mãe a ignora enquanto conversa com a caixa sobre pontos no cartão da drogaria.

Lembro do cartão de fidelidade. Mais um artifício dificultador da compra. É preciso dar o CPF para comprar uma cartela de analgésicos porque você pode tirar com isso uma ridícula vantagem monetária. Terrível. Acho curiosa a idéia do nome “cartão de fidelidade”. Alguém te faz a pergunta indiscreta: Você é fiel? E você responde lógico! Duvida? Olha aqui o meu cartão de fidelidade com 125 pontos.

Minha vez: eu queria essa aqui. Não, essa não, aquela ali. Isso, a do pacote azul. A do espermicida. A com veneno dentro. Óbvio que não pronunciei as duas últimas frases, e sim esta: Posso usar o cartão de fidelidade?

Sim, pode. Mas agora o cartão de fidelidade não pode mais ser usado para comprar remédios. Só pode ser usado para perfumaria ou conveniência.

E isso (os preservativos finalmente à mão) é conveniência?

Não. É perfumaria.

O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...