31.1.09

Despachando Vampiros


Dei um suspiro de resignação e encarei a poeira da minha casa fechada há dez dias. Apesar de gostar cada vez mais da sala, mesmo sendo kitsch (culpa de minha mãe), decidi começar pelo meu quarto depois de acordar no meio da noite anterior aspirando como um pássaro asmático. Questão de saúde própria.



Acontece que meu quarto é cheio de livros. Expostos nas prateleiras fixas, (os mais novos e os mais importantes), empilhados nas prateleiras de plástico do Makro, dentro de gavetas de um criado-mudo de plástico e de uma caixa de rádio gravador. Sou pobre, porém sou culto e limpinho, aspirante.


Assim como eu e as traças, a poeira também é culta, adora livros e tão logo conhece um título, não larga mais dele. Fica ali, se acumula, cada vez mais densa. Ela tem esse problema de se apegar a qualquer título. E para tira-la dessa posição tão cômoda, silenciosa, porém nociva, só dando a cara a tapa sentido na forma de espirros. Muitos.


Decidi fazer uma triagem rigorosa nas prateleiras de plástico para diminuir o volume dos livros: dos antigos, apenas os clássicos realmente clássicos ficaram. Cem Anos de Solidão. A Idade da Razão e mais outros vitais. Os demais (falei com uma vizinha professora) vou tentar doar para alguma biblioteca comunitária. Fora também com Clive Barker e Stephen King. Chega de sangue e argumentos roliudianos.

Fora com os vampiros da Anne Rice. Lestat, Louis, Claudia, Pandora, Akasha, Vittorio... Nada pessoal, gente. Ou melhor, vampiros. Paguei a minha cota adolescente e agora passarei vocês para outros olhos.
Não foi nenhum protesto ao fato da Anne Rice ter traído o movimento vampiresco e virado evangélica, foi falta de espaço mesmo; somado ao fato de que nunca mais os leria novamente porque são novelas e novela quando acaba, acaba de vez.


Separei os tomos e enfiei na mochila. Acompanhando os vampiros, um Harry Potter desgarrado, um livro água com açúcar do Tony Parsons, Pai e Filho, e o livro mais envergonhante que já comprei: Cem Escovadas Antes de Ir para a Cama, escrito por uma italianinha. Vergonhoso não pela temática, e sim por ser um livro ruim como os diabos.


Refiz a pilha no balcão do sebo. Você não vende livros a um sebo, doa. No dia seguinte, ao receber o papel com a “avaliação”, vi que tudo valia R$ 35,50. Estes últimos centavos certamente relativos ao livro da italianinha libertina.


Mesmo sub-valorizado, o negócio foi bom para ambas as partes. Para mim, que tirei uma grana de algo que jogaria fora sem remorso; e para o sebo, que deve tirar um bom lucro em pouco tempo; visto que até hoje livros da Anne Rice não esquentam prateleiras. porque sempre haverá adolescentes com ojeriza ao sol e almejando a vida eterna. Eu há muito aceitei o sol com um abraço. Vida eterna? Só se eu continuar de pau duro.


A minha prateleira, agora fria e limpa, respira aliviada. Mesmo tendo uma tranquilidade apenas momentânea, como toda boa novela de terror.



27.1.09

Ordem na Casa


Existe um princípio de ordem na casa. Fotografias resgatadas do limbo. Poeira contida em sacos de plástico. O preço de mexer com o passado vem na forma de espirros.

Então ouve uma voz e, subitamente, vê a si mesmo surpreso e descomposto como se fosse parte de uma fotografia maior, viva. É um provincianismo estranho, esse de ser pego sem aviso, suado sem blusa. Ouve o seu nome mais uma vez. O inconsciente não grita tão alto.

A mulher lá fora de sorriso etéreo lindo, vestido lilás, chamando seu nome através das grades.

Entra, ele diz. Ela ignora os moleques os observando sobre o muro, como se estivessem num conto kafkiano tropical mal escrito, e pula em seus braços. Mal o deixa abrir a porta, mal o deixa fechá-la porque você já está aberta a ele. Ele vê a maldade divina em seu rosto.

A reconhece em cada detalhe quando está pronta. Saliva, olhar, consistência da pele. Poderia faltar a ele quaisquer um dos sentidos e ainda seria ela. Poderia não possuir mais nenhum e ainda seria ela: a força de um corpo impresso ao longo dos anos. Esquece de fechar a porta da frente. Volta. As testas e os olhos dos garotos não estão mais sobre o muro. Melhor assim porque está quase sem roupa quando fecha a porta. Abre a porta do quarto. Vê a mulher sobre a cama. Entra.

Calor. Mais ainda dentro. Ela o puxa. Seus ardis o fazem querer ficar para sempre entre. Dentro. Tenta manter em suspenso o momento porém, paradoxo, quer o prazer do fim mas não quer o fim. Não ainda. Ela se vira.

Torna-se anônima, mostra apenas as omoplatas, a tatuagem infinita entre elas. O ato de erguer a bunda faz com que ele compreenda o melhor sentido do que significa passivo-agressivo. Embrenha-se novamente. Entra, sai e observa a cena como se estivesse de fora e tudo se torna duplo. Exposta, a toca com a ponta dos dedos, a roça em círculos delicados como se fosse um sonho prestes e se desfazer frente a qualquer raciocínio lógico.

Pára, ela diz. Cínica. Uma mulher com várias dentro de si. Negras e brancas. E cada uma delas se dando, revezando-se em intervalos de tempo. Esposa. Puta. Virgem impenetrável. Namoradinha. Atriz pornô. O canto do rosto deixa escapar um traço da sua boca entreaberta. Vira, pede novamente. E se dissolve a observando, planta, perdido no fogo verde dos olhos.

Descansam brevemente. O seu corpo de fêmea fodida com gosto possui algo de latente, levemente vulcânico, exalando cheiros imperceptíveis porém imensos em seus efeitos. Não tem medo, pelo contrário; se debruça em frente a ela. Expõe o rosto, a boca, a língua, a observa com fascínio tão próximo e íntimo.

Lembra da primeira vez, ainda tímido, quando sua mão repousou ali bem próximo, parte interna da coxa, e sentiu por sobre os tecidos o calor. Estavam no banco de trás de um carro e ela o deixava em casa, úmido, e partia, úmida.

Agora a tem bem próxima, os tecidos foram soltos, sente o gosto e acompanha todo o processo desse pequeno milagre, minúsculo, cada vez mais túrgido, exigindo um método animalesco, porém cuidadoso, para que nada nela se perca ou se desperdice. Minimamente ereta na ponta da língua. Levemente possessa, perdida, ela tenta voltar à tona o puxando do fundo.

Depois de certo tempo, aprendeu a sorvê-la e a colocou definitivamente entre seus gostos preferidos. Aceitou o fato de não mais pertencer ao seu corpo, a si mesmo, e se ver ora em terceira pessoa, ora como uma única, em pé de igualdade entre partes, cheiros e gostos de um no outro. Descompostos, felizes.

25.1.09

Orgulho


Não bastasse bancarmos a ideologia do País, também bancamos a do Estado.


A musiquinha do governo martela em todos os lugares: “eu tenho orgulho de ser amazonense...” e vários artistas locais se revezam nas estrofes cheias de rimas pobres, dentre as quais “o sol se ilumina” rima com “meu Estado é minha vida”.

Para muitos, além da rima, também favoreceria a realidade a frase ser “meu Estado é minha sina”.


Não a minha. Sair daqui para qualquer outro lugar não faria diferença. A moeda é a mesma e o idioma é o mesmo. Basta ser mais esperto.

Quer dizer, ao menos acho que basta ser mais esperto. Esse negócio de ideologia é poderoso. Você acha que é independente, mas não é. Acha que não deve nada a ninguém e nesse exato momento um computador ressona silenciosamente, processando suas contas e impostos para, daqui a alguns dias, serem entregues por um carteiro também pago por você.

Estou no Brasil e a ele devo subordinação. Foi isso o que aprendi desde criança e confirmei sistematicamente ao longo dos anos: Paga os impostos e não terás problemas; pelo contrário: se você for esperto como um bom brasileiro, até te devolvemos um pouquinho dos juros alguns meses depois. Os impostos são a nossa segunda atmosfera. Você desiste; eles nunca.


Claro que, assim como todas as coisas, os impostos não são de todo ruim. Entre outras coisas, eles nos protegem de nós mesmos e dos compatriotas que tentam nos roubar. Não esqueço a madrugada na qual eu assistia tranquilamente um jogo da seleção feminina de vôlei e um policial militar bateu no portão da minha casa (estava de janelas abertas). Achei que ele quisesse um filar cigarro quando ele me disse para ficar atento porque ladrões andaram pulando alguns muros.



Voltando a musiquinha. Na segunda fase da propaganda, digamos assim, ela tem como interlúdio o depoimento de um popular. Numa delas, um sujeito olha para algumas vacas e diz: “é por essas e outras, que tenho orgulho de ser amazonense”. Realmente não sei se ele é extremamente ingênuo, cínico, ou os dois.


Noutras estrofes os cantores dizem “que tiram do rio o seu alimento e dessa floresta todo o seu sustento”, como fossem índios ou amantes da natureza; e não sujeitos que vão continuamente aos supermercados para comprarem produtos industrializados um pouco mais caros do que o normal porque não temos estradas para fora do nosso grande bairro.



Essas tentativas ufanistas de cantar o orgulho amazonense, paraense, soteropolitano, que seja, partem da ingenuidade e podem chegar ao puro bairrismo velado. Algo patético, como essa pura propaganda aos moldes clássicos disfarçada de musiquinha bem intencionada ilustrada por florestas, peixes, monumentos, e cidadãos sorridentes (devidamente remunerados pela sua participação).



É engraçado, na verdade tragicômico, esse negócio de Estado: Você paga para alguém falar sobre como ele é legal para você.
E você deve ter orgulho disso.


23.1.09

Jonas






















Para tentar explicar os mistérios da existência e saber o porvir, o ser humano tende a acreditar em qualquer merda.


Jonas, protagonista do romance mais recente de Patrícia Melo, acredita literalmente. Ele é um copromanta, ou seja, alguém capaz de prever o futuro através da leitura das fezes.


Tal dom, porém, é mantido em segredo pelo motivo óbvio. Rejeição alheia. Não pelo absurdo de se prever o desconhecido; e sim pela forma indigna pelo qual ele se revela. Na ânsia de saber o futuro, os seres humanos acreditam em coisas que vão desde pedrinhas polidas até planetas inteiros; porém consideram um completo desvario acreditar em seus despejos no vaso sanitário.


Como tais seres comuns, Jonas também pensava de tal forma, até diversos acontecimentos futuros se tornarem coincidências espantosas com as formas propostas pelos seus bolos fecais. Frente a tais fenômenos, começou a sistematizá-las, tecer paralelos com outros símbolos dentre os quais a escrita copta, usada no antigo Egito, possuía uma semelhança espantosa e uma coerência assustadora frente à confirmação de novas previsões.


A partir desse correlato milenar, Jonas cria regras, diagramas para a sua técnica e, conforme avança em suas análises hermenêuticas, científicas e filosóficas, se depara com a grande revelação: suas profecias são, sem sombra de dúvida, enviadas por Deus.


Sua rotina de copromanta solitário, único no mundo sofre, porém, um grave abalo: a leitura do conto “Copromancia”, escrito por Rubem Fonseca em “Excreções, Secreções e Desatinos”: uma história que não só revela a nomenclatura obscura, copromancia, como também descreve praticamente todo o processo desenvolvido por Jonas para prever o futuro.


Surge a constatação: Rubem Fonseca, seu ídolo, o plagiou. E para ser tão específico, tão revelador, certamente espionou seu apartamento, investigou sua rotina, entrevistou seus colegas e suas amantes. Rubem Fonseca é um escritor, um senhor escritor; e escritores, todos sabem, não possuem escrúpulos.


Para agravar ainda mais as suspeitas, o escritor passa a frequentar a biblioteca na qual Jonas trabalha e complica ainda mais sua dúvida: Rubem Fonseca é um espião, um companheiro de crença ou o diabo em pessoa?


* * *

Assim como Valis, de Philip K. Dick, o livro de Patrícia Melo é uma fábula sobre a solidão humana. Uma solidão metafísica que necessita desesperadamente de uma explicação para a tríade incômoda de perguntas: quem somos, de onde viemos, para onde iremos.


Da mesma forma que Horselover Fat tenta aliar todos os conhecimentos teológicos possíveis para entender Valis; Jonas, munido de sua teologia escatológica, tenta desesperadamente confirmar suas crenças para, assim, voltar a ter uma função, um propósito em sua vida após remistificar seu dom. Algo que, apesar de grotesco, não difere muito do desenvolvimento de outras crenças. Desde as globais, até as mais obscuras.


A observação de fenômenos, a sua relação com fatos que assumem um caráter sobrenatural percebido por um pequeno grupo (quando não um único indivíduo) para logo depois serem postulados como se fossem uma ciência incontestável possuem o mesmo cerne de solidão, a mesma necessidade desesperada de explicação do desconhecido. Uma necessidade que, em sua forma branda, traz explicação e alento e, em sua forma radical, intolerância e todo um rol de insanidades.


O diferencial entre Jonas e todas elas foi o de não ter tido a sorte ou a desgraça de encontrar outros tantos que se debruçassem ou ajoelhassem de forma semelhante.


21.1.09

Rubem


rubem fonseca, originally uploaded by rodrigo.sicuro.

19.1.09

Lorena Augusta


Deixei meu par de tênis e meu par de sandálias ao lado da lixeira discreta sob a pia do quarto do Hotel Fórmula 1. Ambos bastante gastos, tiveram seus longos trabalhos encerrados quando passaram e repassaram as ruas de São Paulo.


A cidade me fez começar escrevendo sobre eles porque estar sobre ela, seu chão, seu piso móvel de trem subterrâneo, é estar por si só; é olhar apenas para os próprios pés para não sentir a vertigem do imenso, do anonimato pleno em meio a tantos e tantos outros rostos olhando para os próprios sapatos ou com os narizes sentindo o cheiro das letras dum livro.


O consolo é tudo isso ser superfície.


Constatei isso quando, desacompanhado e anônimo, segui pela Paulista e desci pela Augusta em busca de uma livraria da Vila. As quadras se permutavam e nada de chegar a alameda Lorena.


Lorena com Augusta, a livraria, lembro. Informação passada e repassada. No entanto apareciam apenas seguranças taciturnos em frente a lojas caras, gente rica tomando café por trás de vitrinas com letras em itálico. Quarteirões independentes, galerias diminutas.


Deve estar aqui em algum lugar, uma livraria não se esconde assim tão fácil, penso. E com um movimento sutil de pescoço a surpreendo com suas portas abertas e seus livros à mostra.


Então eu e minha amiga nova em folha como os livros da sua livraria conversamos brevemente sobre tudo como se fôssemos velhos conhecidos.


5.1.09

Mike, The Devil
































Tive a alegria de ganhar de aniversário a caixa The Godfather — The Coppola Restoration, a qual, segundo a propaganda, tem os filmes com a iluminação melhorada digitalmente e com mais uma série de comentários extras.



Na primeira cena do primeiro filme, todos esses detalhes técnicos ficam pra trás. Não dá pra comparar a luz do cinema com a da TV ou do DVD remasterizado quando, em primeiro plano, estão Marlon Brando, Robert Duvall, Robert De Niro e, mais presente do que todos, Al Pacino incorporando Michael Corleone.


Mais do que as reviravoltas policiais, mais do que as conspirações e o jeito cool dos mafiosos, o que prevalece é a força e a complexidade dos personagens criados por Mario Puzo. Seja em forma de romance ou de roteiro, a dualidade de caráter e a tenuidade entre o bem e o mal sempre ganham uma nova interpretação cada vez que revemos a história.


Isso acontece com os clássicos. E somente após assistir novamente aos dois filmes que correspondem ao livro, pude despir a figura de Michael Corleone de todo aquele discurso familiar e perceber a maldade inata encontrando terreno fértil quando, para manter o seu lugar no mundo, se faz necessária.


Michael descobre o seu lugar no mundo: a posição de comando. É ser o Don. O Chefe. Algo outrora temido por ele próprio porque sabia que, se chegasse ao poder, cederia à sua verdadeira natureza.


Após a morte do pai, sua única subordinação moral, Michael se viu livre para atuar em um mundo criminal que, por ser cada vez mais cruel e hostil, só se curva e respeita quem é mais cruel e mais hostil.

Implacável, a figura de Michael ganha ainda mais consistência quando a câmera enquadra o seu rosto e percebemos que, sob a expressão neutra, está uma frieza maléfica que só é denunciável pelos olhos. Outras peculiaridades, como a de sempre beber apenas água e adotar cores mais sombrias à medida que mantém sua posição à custa de mortes, só tornam o personagem ainda mais consistente.


O terceiro filme, cuja história não faz parte do livro original, acumulou mais controvérsias do que méritos. Algo justificável, frente a densidade dos dois primeiros — filmes gêmeos por fazerem parte de um mesmo livro.


A terceira parte da história gira em torno da tentativa redenção de Michael através da legalização dos negócios da família enquanto lida com a falência estrutural da mesma e com a culpa pelos atos do passado.

Considero esse terceiro Michael, velho e arrependido, um apêndice alternativo, visto que não está no livro original.


O Mike original — na verdade, Don Michael Corleone — ficará para sempre olhando o lago de sua propriedade, com consciência dos seus atos, sem se arrepender porque eles foram a contingência que o fizeram continuar sendo o Don. O Chefe demoníaco por ser, ao mesmo tempo, amoral e sedutor.


3.1.09

Purgatórios em Quadrinhos



























Após passar um bom tempo no excelente Action e Comics tentando me atualizar sobre quadrinhos, fiz algumas constatações.


A primeira é a de que, se não em estilo, ao menos em número os quadrinhos se nivelaram à literatura: É impossível, mesmo se concentrando apenas nos dois principais universos, Marvel e DC, conseguir saber de tudo o que aconteceu ou está acontecendo.


Isto se dá por esta segunda e última constatação: a de que tais universos, cujos principais pilares são os super-heróis clássicos, se tornaram de uma repetitividade cruel.


Após ler alguns números mais recentes do Batman e do Superman, ambos da DC Comics, e Homem de Ferro e Novos Vingadores, da Marvel, desejei haver algo como uma lei de controle criativo que impedisse que personagens clássicos fossem explorados de forma inconsequente, quando não sádica, por editores “revolucionários”.


Sob o disfarce bem-intencionado de “revigorar” os super-heróis, tais editores fazem com que os personagens se percam numa série de desventuras e “reviravoltas” que têm como único objetivo atrair a atenção dos leitores para aumentar as vendas de forma pouco digna e original: Ao invés de se concentrarem em tramas contínuas, bem escritas, virou um lugar-comum a utilização do bom e velho recurso da desgraça utilizado pelas telenovelas.


O diferencial trágico é que o sofrimento das personagens das telenovelas tem fim, e o dos super-heróis, não. Suas desventuras, ao contrário dos órfãos criados por Lemony Snicket, não se encerram após treze volumes.


Funciona como uma ameaça velada: se você parar de comprar a revista, o seu personagem cairá em desgraça. Se você parar mesmo de comprar a revista, ele morre de forma indigna. E não volta.

São tantos casos que mesmo um fã sazonal como eu pode citar de memória pelo menos meia-dúzía de tragédias envolvendo personagens de quadrinhos, senão envolvendo um mesmo personagem.


Digo isso depois de recentemente ver o Batman chegar perto da insanidade após ser achicalhado por uma gangue francesa (francesa!) e o Superman ter um início de auto-destruição após suas células terem uma overdose de luz solar em um plano urdido por quem? quem? Lex Luthor!


O Homem-Aranha, após ter a identidade secreta revelada em rede nacional, ter ganhado um casamento problemático e enterrado a querida Tia May, sofreu literalmente um reset dos editores e voltou para o ponto zero.


Tony Stark, após ter a sua vida de gênio playboy milionário ameaçada pelo alcoolismo, chegou perto de ser tornar um vilão com a mesma Guerra Civil que tirou a máscara de Peter Parker e que, para terminar em tom "dramático", matou o Capitão América.


Depois desses e tantos outros absurdos de falta de criatividade, resolvi interromper a leitura dos títulos de todos os heróis clássicos e dificilmente voltarei a ler qualquer coisa atual sobre eles. Nem baixando.


Farei isso porque gosto e tenho respeito pelos personagens como criação em si; e não por serem protagonistas de uma soap opera (em português, Malhação) onde todo mundo vive perdido num tempo e espaço que só tem como novidade uma ou outra catástrofe.


Só lamento não ter tido a mesma atitude alguns anos antes de Bruce Wayne ter ficado paralítico e Clark Kent ter retornado do reino dos mortos usando mullets.


Toda boa história, por melhores e mais carismáticos que sejam seus personagens, tem que ter um fim. É assim com tantos mangás geniais. Foi assim com Sandman, certamente a melhor HQ ocidental já escrita.


Os protagonistas de Sandman, chamados de Eternos, hoje descansam em seu panteão literário. Paradoxalmente, os personagens do planeta Terra viverão para sempre tirando fotografias e arrebentando botões de camisa dentro de cabines telefônicas.


Sandman provou que encerrar a publicação de uma revista não é uma tragédia; e sim o fechamento, o encerramento de uma obra que, por ser universal, é inesgotável em seus significados e sempre será revista pelos leitores cativos e redescoberta pelos novos.


Tentar perverter uma ordem tão básica quanto a de princípio-meio-fim é transformar os personagens em marionetes e os leitores em esclerosados.


Sendo assim, só me resta esperar o surgimento da Legião de Supereditores: seres supremos que, além do poder de reeditar as histórias dos grandes super-heróis deixando apenas o substancial, farão com que eles, enfim, descansem em paz.


1.1.09

Primeiro Dia


Penso como seria se, mesmo em casa, todos sempre andassem como se estivessem prontos para uma festa de ano-novo. Não necessariamente de branco, prateado ou qualquer outra furta-cor com alinho ou capricho excessivo — E sim, mais importante, com aquela rutilância espontânea, aquele jeito de final feliz.


Seria bom. E o ponto principal é o pendor de uma coisa a outra, o final efetivo de um ciclo.


A última meia-noite de dezembro servirá como referência para outros ciclos menores ao longo do ano. Um porvir que, anseio e espero, será iniciado e encerrado com sucesso. E então virá, novamente, a sensação boa de fim de ano à revelia da hora e data. Se bem vestido e alimentado, melhor ainda.


Aquela satisfação silenciosa como a que tivemos durante a nossa celebração que se passou e se estendeu longe de qualquer tom anônimo, exagerado e dispendioso. A sensação do autêntico. O dia novo em folha chegando claro e consciente, revestido de uma luz clara de manhã de domingo. Não era domingo, era quinta-feira, mas a renomeei domingo-claro.


Além do mais, não havia mundo suficiente para contestações e ainda teríamos energia suficiente para ir à feira da Liberdade no outro lado do país se não tivéssemos marcado para a semana seguinte.


Iremos. E os pequenos ciclos fechados e satisfatórios virão ao longo dos dias seguintes. Desejo isso a mim e a vocês.