Não bastasse bancarmos a ideologia do País, também bancamos a do Estado.
A musiquinha do governo martela em todos os lugares: “eu tenho orgulho de ser amazonense...” e vários artistas locais se revezam nas estrofes cheias de rimas pobres, dentre as quais “o sol se ilumina” rima com “meu Estado é minha vida”.
Para muitos, além da rima, também favoreceria a realidade a frase ser “meu Estado é minha sina”.
Não a minha. Sair daqui para qualquer outro lugar não faria diferença. A moeda é a mesma e o idioma é o mesmo. Basta ser mais esperto.
Quer dizer, ao menos acho que basta ser mais esperto. Esse negócio de ideologia é poderoso. Você acha que é independente, mas não é. Acha que não deve nada a ninguém e nesse exato momento um computador ressona silenciosamente, processando suas contas e impostos para, daqui a alguns dias, serem entregues por um carteiro também pago por você.
Estou no Brasil e a ele devo subordinação. Foi isso o que aprendi desde criança e confirmei sistematicamente ao longo dos anos: Paga os impostos e não terás problemas; pelo contrário: se você for esperto como um bom brasileiro, até te devolvemos um pouquinho dos juros alguns meses depois. Os impostos são a nossa segunda atmosfera. Você desiste; eles nunca.
Claro que, assim como todas as coisas, os impostos não são de todo ruim. Entre outras coisas, eles nos protegem de nós mesmos e dos compatriotas que tentam nos roubar. Não esqueço a madrugada na qual eu assistia tranquilamente um jogo da seleção feminina de vôlei e um policial militar bateu no portão da minha casa (estava de janelas abertas). Achei que ele quisesse um filar cigarro quando ele me disse para ficar atento porque ladrões andaram pulando alguns muros.
Voltando a musiquinha. Na segunda fase da propaganda, digamos assim, ela tem como interlúdio o depoimento de um popular. Numa delas, um sujeito olha para algumas vacas e diz: “é por essas e outras, que tenho orgulho de ser amazonense”. Realmente não sei se ele é extremamente ingênuo, cínico, ou os dois.
Noutras estrofes os cantores dizem “que tiram do rio o seu alimento e dessa floresta todo o seu sustento”, como fossem índios ou amantes da natureza; e não sujeitos que vão continuamente aos supermercados para comprarem produtos industrializados um pouco mais caros do que o normal porque não temos estradas para fora do nosso grande bairro.
Essas tentativas ufanistas de cantar o orgulho amazonense, paraense, soteropolitano, que seja, partem da ingenuidade e podem chegar ao puro bairrismo velado. Algo patético, como essa pura propaganda aos moldes clássicos disfarçada de musiquinha bem intencionada ilustrada por florestas, peixes, monumentos, e cidadãos sorridentes (devidamente remunerados pela sua participação).
É engraçado, na verdade tragicômico, esse negócio de Estado: Você paga para alguém falar sobre como ele é legal para você. E você deve ter orgulho disso.



1 comentários:
Johnny, gostei mesmo do disco do Mourricei (bem guei, como tu falou) e esse do Franz especialmente esta mais pra pistas mesmo...
Hah, sabe que eu estava pensando bem no que vc comentou sobre os famigerados hinos que tascam na tv... Aqui tambem rola e nao faz a minima diferenca, mas pelo menos eles sao mais orgulhosos que nos (mas de uma certa maneira mais burros, por que nao conseguem entender nenhuma outra cultura que nao a deles). Os asiaticos em geral sao estranhos seres, orgulhosos de muito, mas sem conteudo... Eh tipo uma inteligencia coletiva, que so um individuo nao vale nada.
Ah... tambem gostei do post sobre quadrinhos de dias atras!
Abracos
Alex
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