21.2.09

Tijolo



"A certa altura, Eunice me contava seu projeto de, se um dia abrisse uma editora, lançar Em Busca do Tempo Perdido em sessenta volumes.


Se a série fosse publicada em pequenos fascículos, digeríveis, talvez as pessoas lessem Proust. O problema do Proust é o tamanho. São sete livros. Quem lê tijolo, hoje em dia? Ninguém tem mais tempo para ler Guerra e Paz. Livro tem que ser fininho, tem que caber na bolsa, ela dizia.

Falei que sua idéia seria um fracasso, ao menos financeiramente. A questão não é compactar, falei, porque isso sempre se fez com versões reduzidas, facilitadas, dicionários literários de Shakespeare, Dante, Joyce, todos os grandes. Atualmente existem até mesmo versões para criança, em quadrinhos. Nem por isso se leu mais ou se adquiriu mais conhecimento dos clássicos. O ideal seria publicar os sete volumes de Proust num único, de cinco mil páginas. O mercado editorial hoje em dia, continuei, ao contrário do que você diz, é exatamente para tijolos, especialmente porque o leitor é preguiçoso. Se você compra um livro de cem páginas e não o lê, sente que está jogando dinheiro fora e isso é frustrante. Quem quer se frustrar? Mas se compra um Thomas Pynchon, bem, isso é diferente, é um projeto de vida, é como comprar uma casa, uma apólice, não interessa se você vai lê-lo ou não, só o fato de comprar já é uma atitude heróica, porque é heróico ler Thomas Pynchon, é heróico ler Don DeLillo, é heróico ler todos esses americanos de mil páginas. É excitante pensar que vamos ser heróis quando tivermos tempo, no fim do ano, nas próximas férias, depois da aposentadoria. Adiamos o malogro indefinidamente.

Eunice ria, com as bochechas coradas pelo efeito do álcool."


MELO, Patrícia. Jonas, O Copromanta. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 26-27

16.2.09

O Retorno do Bar Fantasma


No sábado pré-carnaval a gama de opções, minha e de Josephinne, se resumia a um possível bar onde haveria uma possível banda seguida de um possível tributo aos White Stripes.


Chegamos cedo e encontramos um primeiro bom indício: o bar existia. E mais, estava aberto. Prova eram os dois porteiros mirrados e um buraco na chapa metálica da fachada emanando a luz fraca da bilheteria. Além de nós, as menos de dez pessoas, todas longe da casa dos 20, aos poucos foram aumentando de volume com a chegada de carros dirigidos por pais preocupados de onde desciam do banco de trás adolescentes recém-liberados para saírem à noite.


Josephinne se sentiu um pouco constrangida ao acender um cigarro, mas isso logo passou porque viu que bem próxima a ela estava uma das adolescentes caseiras (a menor adolescente possível) dando tragadas desajeitadas. A música do bar melhorou, passou do trash-metal para o rockabilly. Entramos.


O bar possui uma estrutura antiga que vez ou outra muda de nome mas sempre continua a mesma bosta. Minha teoria científica é que existe uma cabeça de bode enterrada nalgum lugar. Isso porque sempre existe certo clima soturno e nada ali vinga por muito tempo. Dessa vez, a carcaça da casa estava pior do que nunca: banheiros sem tranca na porta, parapeito anão no mezanino, completa falta de decoração e toda uma lista de irregularidades que fariam qualquer fiscal da prefeitura esfregar as mãos com satisfação punitiva.


Já estamos aqui, Josephinne. Então olhemos para a metade (ou melhor, o ¼) cheio do copo. A primeira banda dissipou um pouco o clima de estranhamento. Boas coveres e músicas próprias com riffs dos anos 90. Sobre uma delas dava para cantar Digging The Grave inteirinha. Mesmo assim foi bom. Terminaram por cima. E fiquei feliz por ver, entre os frequentadores cada vez mais numerosos, um casal jovem usando roupas brancas e vermelhas.


Não existe nada mais irritante numa sequência de shows ao longo da noite do que você achar que vai entrar a banda mais aguardada e, do nada, aparece uma banda nada a ver para tocar antes. E quase sempre o show da banda nada a ver dura uma eternidade; acrescentada aí uma passagem de som que, logo aos primeiros minutos de show, se revela totalmente inútil. Na cronologia mental, o show demora mais que um do Pink Floyd, incluindo aí a execução na íntegra do Dark Side Of The Moon.


Claro que a banda chata não tinha nada disso. Porcos infláveis voando, instrumentos afinados, essas coisas. Eles tocavam umas coveres de bandas recentes; músicas que seriam bem legais de serem ouvidas não fosse os caras terem aprendido a tocá-las na segunda-feira. Uns chiados e desafinação agravados pelo sujeito da mesa de som que olhava para as luzinhas como o Homer fica olhando os botões da usina nuclear de Springfield.


A banda tentou um grand finale em uníssono mas errou o tempo dos acordes. Então tentou um final bagunçado trombando uns nos outros e buscando microfonias, mas também não deu certo. Então saíram, finalmente.


Com a ajuda de um amigo, o casal branco e vermelho arrumou rapidamente a bateria, o teclado, a guitarra e os dois microfones — um na posição normal e outro de costas para o público, de frente para a bateria — assim como Jack e Maggie fazem. Então sem dar boa noite ou qualquer outra desculpa, começam a tocar e têm um início surpreendente.


O garoto tem a voz muito parecida com a do Jack e, apesar de não ter uma Les Paul macia e cheia de truques, consegue executar as bases e os solos integramente. A garota também é uma graça, manda bem no desvirtuosismo e na doçura da Maggie. As músicas são voltadas mais para os primeiros álbuns. Um set bem ensaiado, bluesy, sujo, pensado no que era mais prazeroso para ambos e não no que os outros gostariam de ouvir. Mesmo fazendo uma paródia dos irmãos (?) idiossincráticos originais, o casal discreto e comportado salvou e encerrou a noite.


Voltemos lá pra cima. Ainda fora do bar. Eu conversando com Josephinne. Nossas frases permeadas por cheiros nas têmporas. Falávamos sobre um outro sábado atrás. Nós dois na Funhouse, conversando sobre tudo, cotovelos encostados naquele balcão mínimo, ouvindo um dj saudosista (anos 90 não óbvio) e esticando o braço para alcançarmos uma Bohemia com a atendente estilosa-gata-peitão-meio-Kat-Von-D [/aquiescência de Josephinne].


Esnobamos o lounge e esnobamos a banda legal depois de ouvirmos sua música mais legal porque já estava tarde e ainda havia muito, mas muito a ser feito. Voltamos caminhando até a Consolação e agora só tínhamos isso: esses adolescentes jogando bilhar sob uma luz fluorescente, esses adultos nas sombras, perdidos no vácuo cultural desse bar abandonado assombrado por fantasmas sedentos por diversão decente.


É o que a gente tem em mãos, me diz Josephinne. Eu observo seus tênis mais lindos do que qualquer outro ali, sua camiseta mais linda do que qualquer outra ali e ela toda mais linda que qualquer pessoa no mundo e me regozijo por estarmos naquela juntos. É verdade, eu digo.


13.2.09

Último Período


E as aulas começaram novamente. Só que desta vez, ao invés do eterno déjà vu entre roletas entulhadas de calouros e turmas veteranas vazias devido aos alunos ainda não matriculados (a crise! a crise!), tive uma súbita injeção de ânimo quando me toquei de que, finalmente, estou no último período.


Sem querer parecer blasé (prometo ser essa a última palavra fresca-francesa do texto), tal ânimo veio mais devido ao fim do que por um sentimento de “excelência” acadêmica. Claro que houve um bom acúmulo de conhecimento, aprendi muitas coisas e tal mas, no todo, não se compara ao prazer de se encerrar algo.


Minha primeira (e interrompida) faculdade foi um imbróglio. Engenharia Civil. Um curso de grade dificílima. A qual, somada às minhas dificuldades e desestímulo pelo lugar, pelas pessoas e pela profissão, me fizeram tomar a decisão de comprar um maço de cigarros no outro lado da cidade e nunca mais voltar. Sem trancamentos, despedidas, nada. Simplesmente saí andando.


Na de agora, Letras, foi tudo muito mais simples, mais enxuto. Distância. Horários. Afinidade acadêmica. Ambiente. Até mesmo o número de colegas mais próximos dobrou em relação à outra: antes era um, agora são dois.


Apenas rolou uma decepção ao perceber que o povo não dá a mínima para Literatura ou produção de textos. Na verdade, têm até um pouco de raiva. Querem mesmo é se formar para ensinar regras gramaticais em alguma escola. Nada contra, mas fazer o curso certamente não é apenas isso — Ser alguém que sabe usar crase e faz análise sintática mesmo bêbado andando de montanha-russa.


Apenas no período anterior um professor (de Literatura) falou o que eu gostaria de ouvir durante os outro cinco períodos: “Não penso ser esse curso apenas uma etapa na formação de professores; e sim algo que habilita profissionais em Língua Portuguesa. Ensinar, “dar aula”, é uma contingência.”


Ou seja, lecionar é um meio, não um fim. E o curso está cheio, lotado de gente que aposta na docência como objetivo de vida; normalmente cercado de um pensamento utópico que os faz quererem ser como aqueles professores do cinema que assumem uma sala cheia de delinquentes e os transforma em matemáticos ou escritores. Claro que não torço contra; mas todos sabem que a balança pende mais para a decepção do que para o milagre.


Quanto a mim, além do fim anunciado acima, não sei o que virá. Em relação a tudo. E isso me traz uma paz estranha.

Angustiosa, mas ainda paz. Um paz cheia de travessões e pontos-e-vírgulas.


11.2.09

Ladrões, Galinhas e Truculência


Observo as duas mulheres na tv dizendo quais números devemos ligar para eliminar beltrano ou cicrana do confinamento. Peitos grandes e dentes de cavalo, ambas. Pode-se por arreios, tirar leite e fotografias de cada uma delas. Batem palmas na porta. Fim do delírio.



Aqui em casa sempre faz um silêncio entrecortado por barulhos de pássaros e buzinas de carro. Mas nada é tão alto e incômodo quanto palmas na porta. Afasto as cortinas. Uma vizinha e um vizinho querem falar comigo.


Assim como meus pais, eles também se mudaram no início do conjunto. Meus pais partiram, eu e eles ficamos. Do início do conjunto até esse parágrafo são quase vinte e cinco anos. Os recebo ternamente, mesmo sabendo que a natureza da visita é algum alerta. E o fazem: Ladrões rondam a rua.


Meu vizinho, um cara tranquilíssimo, voz macia, arrendou uma parte do terreno em frente à sua casa, cercou, e começou a criar galinhas e legumes. Sua casa é grande e feia, porém tem uma varanda no segundo pavimento com uma visão panorâmica imensa.


Certo dia, manhã cedo, viu um sujeito dentro do seu cercado, esganando suas galinhas. Desceu e esmurrou o sujeito até as mãos não mais responderem. Então o imobilizou e o levou pelas unhas ao posto policial no final da rua. No posto policial não havia ninguém para assumir a situação. Nenhum guarda, nenhum carcereiro, nenhuma viatura. Nada, apenas as paredes emboçadas com o dinheiro do Estado.


Isso de sabermos ser aquele posto um poleiro inútil já havia acontecido antes. Certa vez eu caminhava tranquilamente quando dois sujeitos saídos do nada pularam no meu pescoço e roubaram minha mochila. Tudo sob as luzes do posto policial vazio. Os dois correram mas, logo em seguida, esse meu vizinho dobrou a rua de carro e, ao me ver esbaforido, perguntou se estava tudo bem para, logo em seguida, sair em perseguição aos sujeitos.


Os encontrou na curva da rua e jogou o carro em cima deles. Eles entraram no mato e sumiram. Ele voltou, pediu que eu entrasse no carro e fomos atrás dos dois, desta vez com um PM assustado no banco de trás para servir de testemunha. Não demoramos a encontrá-los: estavam num bar onde todos os vagabundos sem casa das redondezas passam todas as horas do dia. Os dois foram presos. Fiquei eternamente grato ao meu vizinho pelo socorro prestado, pelo comprometimento e pela truculência espontânea.


E agora, mais esse alerta. E mais um: ele também descobriu ser o ladrão de galinhas filho de um velho biscateiro sempre circulando pelas ruas. No dia seguinte à captura, o velho, pensando não estar sendo visto, parou na frente da casa de meu vizinho e, usando uma pedra calcária, marcou o muro com um X.


Ele desceu novamente. Sorrateiro, corpo seco de educação física, abriu o portão e cobriu o velho de tapas. Coisa feia, apanhar assim na cara, já velho, mas ele merecia. Revezando com os tapas, meu vizinho fez ameaças sinceras ao velho e ao filho preso. Ambos sumiram.


Vez o outra quando saio de casa dou uma olhada para o alto, à direita, e vejo meu vizinho observando a vista da varanda de sua casa feia. Dou um aceno curto. Ele retribui.


Criar plantas e galinhas é uma terapia que não o permite explodir sempre; que o faz manter a sanidade, penso. E pobre do sujeito que invadir novamente aquele certame da calma — Parafraseando Gullar, haverá, certamente, “sangue humano nos legumes”.


10.2.09

Fogo-fumaça



Vem assim e me obnubla, a fumaça da festa cheia de gente. Nós assim bem tão perto e o fogo verde dos olhos vencendo todas as coisas. Eu a observo: um balcão minúsculo. Nesse nela encostada, olhos em mim. Tento escondo as mãos pra disfarçar a tonteira. Ela sabe, mas finge não.


Música. Do chão sai fumaça de dentro. Redor absorvido. Não vejo nada. Nem mesmo o fogo por vezes. Daí sua mão amiga me guia até o mais claro: Um demônio. Uma ou duas. Vez outra uma desaparece e a outra aparece no lugar. Nunca duas no mesmo espaço mesmo. Coisa do diabo, por certo. Tenta um e outro, e mais deles. Volta rosto pro meu. Encara ele sem medopudor.


Finjo também não, sentir. Endureço. Mostro não ter medo algum quando, com a unha, mexo com o demo como se fosse onça recém e eu homem nunca criança. Afia os dentes, ela. Roça as unhas. O mesmo, as duas: o inimigo tonto por encontrar homenaltura. De quem do orgulho a culpa?


E também tonto eu, mas sabe? Com passar do tempo se fortalecem as coisas por certo. Tivesse mais cedo, eu ainda à igreja temente, correndo saía. Falta de medo de tudo. Saíme: encarei os bichos como bonitos filhotes felinos que eram. Raça única. Malívola. Toda uma vida de terra. Sereno, carne na boca. Não temo esse tipo não, desse assim, por mais ardiloso sendo. Mordedura tanta, minha. Aprendida. Despedaço-me-observo.


Pelo contrário de temo; gosto. Observo as duas dois e toco o queixo, ambas, sem medo de perder dedo ou alma. Respeitam-me? Me importa pouco: o importante é tenso. Testa testa, testa. A encaro, as, com olhos de mal visto e conhecido. Meu ardil, nosso: dela, os olhos verdes de fogo, traidor do demo compactuante. Minha.


O círculo se fecha, deveras. Ninguém se aproxima. Temem-nos. Por certo eles, tementes. Peleja dessas homem não se nega, mesmo saindo morto. Penso verdade minha. A honra mesmo torta faz os homens. Cara suja de terra sangue até. Mofino serei jamais – digo pensando.

Acertamos duelo embatendo aspiro de olhos. Nem fumaça se aproxima. Gentes nos esquecem. Saímos nos desviando de tudo, cegos. Mais, somos.


5.2.09

Personagens


Entrar num bar novamente, por mais que o frequente sempre, me causa um leve descontentamento. É algo como ter cedido à pressão de não aguentar a mim mesmo sozinho em casa. O garçom mais conhecido dando aquele sorrisinho cínico. Ainda bem que existem os amigos.


Jamais saí e jamais sairei sozinho. Não há nada mais patético do que um solitário bebendo, olhando casualmente ao redor, distribuindo expressões simpáticas, como se não estivesse desesperado com o fato de não esperar ninguém e, certamente, sair dali sem ninguém.


Meu amigo Bruno sempre chega atrasado. Ele sempre demora. No mínimo meia-hora. Nunca uma hora inteira. Só se for por equívoco. Mas sempre vem bem disposto, por mais cansado que esteja. Comigo também vale a regra. Mesmo cansado ou com preguiça, mesmo sendo tarde da noite, o telefonema é encarado como um chamado à guerra. Tudo transcorre de forma urgente, dinâmica. Em pouco tempo um de nós está conversando com o taxista.


Quando é mais cedo, o ar condicionado, a rádio FM e o motorista conversador são substituídos por um ponto de ônibus. Silencioso, moroso. Mas dessa vez aconteceu o contrário: mal cheguei e um ônibus abriu as portas à minha frente e a viagem rápida, quase sem paradas, me fez chegar muito cedo. Bruno, mesmo seguindo as regras sagradas, só chegaria dali a uma hora e meia.


O que fazer, então? O bar quase vazio. Ocupado apenas por grupinhos de amigos e pelos famigerados solitários. Estes últimos olho com certo pedantismo porque confio no Bruno. Então faço brincadeiras silenciosas, pequenas relações entre as coisas. Uma garota com um K na camisa conversa sobre o vestibular de direito. Impossível, ela diz. Paulo, é como chamam o sujeito falando sobre quando caiu de bicicleta e ficou quase louco com a perna presa no gesso.


Ótimo. Estou de penetra na festa dos personagens vítimas da tragédia ou do absurdo. Qual dos dois é o pior? A tragédia não é a quebra da normalidade? É possível a tragédia dentro do absurdo? Será que só o absurdo se basta e abraça até mesmo a tragédia como algo comum? Será que só pude entrar tão cedo no bar porque também pareço um personagem de livro?


Penso em qual deles seria. Primeiro, tiro da lista os impossíveis como o vestibular da menina: Michael Corleone, Sal Paradise, Ballard (talvez quando aprenda a dirigir). Mais alguns fantásticos. Sobra quem? Lendo meu velho diário, algo de Bandini. Olhando os peitos duma matrona precoce oprimidos num decote e lembrando de certa noite, um certo Leopold (incluído aí o efeito Molly). Mathieu? Não, ainda faltam quatro anos. Merda. Tantos livros e não sei nem quem sou eu mesmo.


Resigno-me e peço mais um chope homeopático enquanto Bruno não chega.


4.2.09

Trabalhadoras


Na volta, depois de quinze minutos tentando desvendar números por detrás das árvores, vejo um 218 nítido e entro nele. Sento na última fileira, bem no centro, e não há como não lembrar do Dustin Hoffman e da noiva em fuga, apesar de todo o concreto (Manaus, calor, solidão minha ali) ser completamente diferente.


O ônibus é controlado por duas mulheres. Uma toma conta da roleta reforçando a trava eletrônica com o pé calçado de meias e sapatilhas negras. À frente, a motorista deixa à mostra o braço rígido e uma luva vermelha de crochê. Pessoas entram e saem. Me indago como alguém aqui consegue ser completamente branco como aquele homem de óculos. Observem-no: ele está esbaforido, suado, mas continua extremamente branco e isso é um mistério que eu, moreno de braço bicolor, não entenderei jamais.


O caminho de volta ficou mais longo depois da inauguração de uma passagem de nível. Temos que ir muito além da entrada antiga e fazer o retorno centenas de metros à frente. No meu entender curto, tais artifícios, viadutos, passagens, serviriam para encurtar; e não alongar as distâncias.


O trânsito está mais lento do que o normal. Acidente, na certa. Ou obra, penso. A primeira opção fora a correta: pessoas se levantam dos bancos e olham pelas janelas do ônibus. Querem ver se ali há sangue e estrago. O que vemos é uma moto caída e um rapaz deitado sobre o canteiro central, observando o céu com uma expressão congelada de dor no rosto. Outros motociclistas estacionam. Uns tentam oferecer alguma ajuda, outros apenas observam, certamente pensando que poderiam estar no lugar do companheiro sem sorte.


Eu preciso voltar para casa. Preciso cuidar dela de várias formas. Abri-la, ocupa-la, fazer barulho para mantê-la viva. Empunho uma faca e encaro a revolta das plantas. A bungavília que não me deixa entrar em casa é a primeira. Corto, varro com a vassoura metálica, ancinho, arranco com as próprias mãos, esmago formigas que me mordem de forma furiosa. Formigas de fogo, possessas por terem sido arrancadas de seu trabalho cego e constante. É um trabalho sujo, chato e cansativo como o diabo. O meu e o das formigas. Mesmo assim termino ao menos a parte mais importante e entro com os músculos das pernas trêmulas e os braços doloridos. Sento no sofá e, fora de qualquer escolha, caio numa vigília de quase trinta minutos. O relógio à frente, registrando cada vez mais a idade.


Eu preciso voltar para casa. Josephinne é a minha casa. Preciso cuidar dela de várias formas. Abri-la, ocupa-la, fazer barulho para mantê-la viva. Eu moro nela e ela mora em mim. Sorte que ficamos a menos de meia-hora um do outro. Seria complicado procurar um aeroporto para encontrar quem me vê realmente.


Observo com certo gosto o trabalho que me derrubou a tarde: as escadas sem intermediários, a sarjeta penteada, limpa. Caminho. Aguardo surgirem novamente os números, dessa vez no ponto escuro do meu conjunto. Eles surgem em pouco tempo. A chamada “sorte de pobre”. Dentro, estão as mesmas mulheres do final da tarde.


Na viagem curta, tranquila, mesmo depois de horas e horas e voltas e voltas da duas pelos mesmos lugares, envergonho-me totalmente da simplicidade do meu trabalho e do meu esforço. Antes de descer, agradeço.


1.2.09

Xadrez


Gridshadow Breasted, originally uploaded by Trevor Haldenby.

O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...