Entrar num bar novamente, por mais que o frequente sempre, me causa um leve descontentamento. É algo como ter cedido à pressão de não aguentar a mim mesmo sozinho em casa. O garçom mais conhecido dando aquele sorrisinho cínico. Ainda bem que existem os amigos.
Jamais saí e jamais sairei sozinho. Não há nada mais patético do que um solitário bebendo, olhando casualmente ao redor, distribuindo expressões simpáticas, como se não estivesse desesperado com o fato de não esperar ninguém e, certamente, sair dali sem ninguém.
Meu amigo Bruno sempre chega atrasado. Ele sempre demora. No mínimo meia-hora. Nunca uma hora inteira. Só se for por equívoco. Mas sempre vem bem disposto, por mais cansado que esteja. Comigo também vale a regra. Mesmo cansado ou com preguiça, mesmo sendo tarde da noite, o telefonema é encarado como um chamado à guerra. Tudo transcorre de forma urgente, dinâmica. Em pouco tempo um de nós está conversando com o taxista.
Quando é mais cedo, o ar condicionado, a rádio FM e o motorista conversador são substituídos por um ponto de ônibus. Silencioso, moroso. Mas dessa vez aconteceu o contrário: mal cheguei e um ônibus abriu as portas à minha frente e a viagem rápida, quase sem paradas, me fez chegar muito cedo. Bruno, mesmo seguindo as regras sagradas, só chegaria dali a uma hora e meia.
O que fazer, então? O bar quase vazio. Ocupado apenas por grupinhos de amigos e pelos famigerados solitários. Estes últimos olho com certo pedantismo porque confio no Bruno. Então faço brincadeiras silenciosas, pequenas relações entre as coisas. Uma garota com um K na camisa conversa sobre o vestibular de direito. Impossível, ela diz. Paulo, é como chamam o sujeito falando sobre quando caiu de bicicleta e ficou quase louco com a perna presa no gesso.
Ótimo. Estou de penetra na festa dos personagens vítimas da tragédia ou do absurdo. Qual dos dois é o pior? A tragédia não é a quebra da normalidade? É possível a tragédia dentro do absurdo? Será que só o absurdo se basta e abraça até mesmo a tragédia como algo comum? Será que só pude entrar tão cedo no bar porque também pareço um personagem de livro?
Penso em qual deles seria. Primeiro, tiro da lista os impossíveis como o vestibular da menina: Michael Corleone, Sal Paradise, Ballard (talvez quando aprenda a dirigir). Mais alguns fantásticos. Sobra quem? Lendo meu velho diário, algo de Bandini. Olhando os peitos duma matrona precoce oprimidos num decote e lembrando de certa noite, um certo Leopold (incluído aí o efeito Molly). Mathieu? Não, ainda faltam quatro anos. Merda. Tantos livros e não sei nem quem sou eu mesmo.
Resigno-me e peço mais um chope homeopático enquanto Bruno não chega.



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