31.3.09

Um Dia a Mais


Um dia a mais. Uma hora a mais antes de pôr os pés no chão e finalmente encerrar mais um ciclo. Esse mês prolixo que parecem dois. Parecia duas — Metade compromisso, metade reticência para esquecer a leveza das festas do início do ano. Um minuto a mais na cama, um dia a mais no mês, um ano a mais de nossas vidas.


Março é grande a ponto de nos fazer confundir (novamente) as festas do ano passado com as festas dos anos anteriores. Janeiro e sua morosidade. Fevereiro turbo, quase um anexo ao mês primeiro. Essa tristeza pela falta de dias mais leves, o trabalho permeando tudo. E o trabalho necessita ser feito. Todos por todo mundo.


Não há de ser nada, eu dizia, ágil, afastando as sandálias para os pezinhos não tocarem o chão frio e não serem canal aberto para a gripe e os espirros. E o mês de março é cheio deles. Febres, espirros. Consequência desse calor e dessas nuvens sobre as nossas cabeças. Também parte psicossomaticidade. Hoje não quero ir, você diz. Mas o trabalho tem que ser feito, eu digo. As pessoas estão te esperando.


A expressão resignada antes do corpo se erguer da cama. Arrastando partes de lençol, almofadas. Despindo as confortáveis peles do sono. As sandálias de borracha, agora engastadas nos pezinhos, a levam, gradativamente, à primeira porta de uma série de outras que a levarão aos compromissos. E o ano mal está no começo. Mas passa rápido. E logo chega o meu Dezembro.


26.3.09

Vigilantes


Cara leitora, se você olhar os marcadores desse blog, bem ali à direita, abaixo dos arquivos (anda, dá uma olhada), verá que cinema e quadrinhos são os dois temas menos comentados por aqui.

Então o que falar sobre Watchmen, um filme adaptado dos quadrinhos?


Várias coisas. Então vamos lá. Dois marcadores em um.


Assisti domingo. Sozinho porque Josephinne estava atribulada com coisas do trabalho e também não tava muito a fim de encarar quase três horas de película. Mesmo sendo domingo, J. aquiesceu ao meu apelo após eu contar sobre a obra e sobre como ficara impressionado com as imagens que vi num especial na MTV. Ao ver os enquadramentos e algumas cenas, algo na minha memória se reacendeu e lembrei de como a obra fora uma leitura marcante.


Além disso, havia também a impressionante reconstituição cenográfica e uma fidelidade quase literal ao texto original. Mérito de Zack Snider, o diretor famoso pelos chroma-keys de 300 e Sin City.

Só que em Watchmen o diretor deixou, na medida do possível, o computador de lado e investiu na atuação. A qual, somada à força do texto e à competência dos atores faz com que Watchmen seja não um filme de super-heróis; e sim um filme com super-heróis.


E um filme pesado. Tanto no tempo quanto na temática e na ambientação: uma América oitentista alternativa vivendo um absurdo terceiro mandato de Nixon e à beira da inevitável explosão da guerra com a então arquirrival URSS.


A cena inicial, com brigas e o corpo do Comediante sendo defenestrado, dá a idéia de Watchmen ser um filme de ação como tantos outros. Idéia logo abalada pela longa sequência de abertura que mostra a ascensão e queda de um grupo de super-heróis antecessores (os Minutemen) ao som de “Times, They Are A-Changin”, de Bob Dylan.


Que tipo de filme de super-herói começa assim? Bob Dylan? Guerra Fria? Em poucos minutos, a película faz a sua primeira peneira com o público.


Além desse anticlímax inicial, longo o suficiente para tirar qualquer glamour ou divindade dos super-heróis, a verossimilhança, apesar da realidade, é ainda mais reforçada pela atuação dos Watchmen: Heróis incomodamente humanos, que sabem estar passando ridículo dentro de suas roupas colantes e, para compensar a ausência de qualquer super-poder fascinante, disfarçam com pantomimas as suas habilidades acima da média.


Heróis que só o são por algumas horas do dia porque precisam cuidar da vida; que usam a inteligência para ficar ricos, que têm conflitos familiares, que fazem sexo e vez ou outra sucumbem ao descontrole e a apatia. Esse meio-termo exato entre humanidade e heroísmo é um dos muitos fatores que tornam Watchmen uma história única.


Duas figuras, porém, escapam da banalidade inevitável e criam, através de seus atos, uma aura fantástica, apesar do realismo: Dr. Manhattan e Roschach. Fazendo uma comparação grosseira, porém pertinente, os dois estão para os Watchmen como Superman e Batman estão para o universo DC.


Dr. Manhattan, mesmo tendo seus super-poderes desenvolvidos como consequência de um acidente nuclear, uma premissa clássica, desenvolve uma postura bem mais complexa do que a do super-herói “comum”. Por não estar mais sujeito ao tempo e ao espaço e por manipular a matéria, Dr. Manhattan, ao invés de mudar de roupa dentro de cabines telefônicas e voar pelo planeta, se transforma em um diletante. Alguém extremamente angustiado e solitário pelo fato de, mesmo controlando o tempo e o espaço, não encontrar uma significação para o universo que não seja a de uma infinita quantidade de matéria em constante decomposição e recomposição.


Roschach, por sua vez, é como um Bruce Wayne sem grana e artefatos que compensa tal deficiência com uma desilusão pela raça humana que faz o Homem-Morcego parecer um guru de auto-ajuda.

Seu diário, lido em off por ele próprio, além de fio-condutor da história também brinda a audiência com vários monólogos duros e desiludidos, cheios de frases antológicas. O personagem, feio, franzino, porém com uma voz e olhar assustadoramente sombrios, é encarado com perfeição por Jackie Earle Haley — o grande nome em meio a um grande elenco rigorosamente escolhido por critérios dramáticos e físicos.


Após as quase três longas horas de idas e vindas de Dr. Manhattan, Roschach e os outros “heróis” do grupo, Watchmen, o filme, dá ao espectador a sensação de estar lendo um romance caudaloso no qual o resto da história, mesmo estando nas suas últimas páginas, deixa claro que não entregará o final tão fácil.


Uma história truncada, indigesta, mas que tem a sua importância autenticada pelo argumento genial e personagens inesquecíveis. Assim como aqueles clássicos que protelamos e quando finalmente lemos, mesmo com uma sensação esquisita, passamos um bom tempo recordando e descobrindo novos significados.


25.3.09

Desfragmentador


As fragmentações irreversíveis. Considerar algo apenas imagem e não conseguir personificar novamente. Mesmo tendo sido vivo, três dimensões e tudo. Mesmo tendo sido tocado e tendo interagido.


Nunca fui do tipo empedernido com qualquer um. Isso de adotar a dureza como estilo. Por definição, empedernido é algo que foi transformado em pedra, tornado duro — Algo naturalmente impossível para alguém que vira pó. Então não faz sentido alguém ser absolutamente empedernido. Mesmo assim se tenta. Para quê? Talvez para ser mais.


Assim como se tenta ser contrário da pedra. Não no sentido da rigidez, e sim no sentido da inexistência. Um não-ligar-a-mínima para as coisas e para os seres transformados em coisas. Pensa-se, quando se tenta ser o contrário da pedra, que esse não-ligar é sinônimo de consistência, de concentração existencial, mas não é.


Pelo contrário. Ao tentar dissipar o mundo de significados, quem se dissipa é o próprio pseudo-autônomo. O mundo reage como um espelho em frente a um feitiço. Ele se volta contra. O mundo segue o seu curso, as pessoas seguem a sua vida; e o recluso pensante, profundo entendedor da natureza das coisas e da sua própria, se desfragmenta definitivamente. Por mais boa vontade que se tenha, a coisa fica tão difícil quanto fazer de cabeça aquelas sinistras ligações químicas.


Impossível não lembrar de uma música do Radiohead: How to disappear completely (and never be found) e de como a própria banda conseguiu isso. Ao menos comigo. Tal fato se deu após os anos e anos de reclusão e de por aqui se tornarem mais imagem do que realidade. Álbuns lindos e herméticos, encartes misteriosos, videoclipes estranhos. Depois de tanto tempo, passei a considerá-los uma imagem virtual, não uma banda de verdade.


Não que seja problema da banda. É um problema meu, essa incapacidade de reagrupar partículas e constituir novamente algo físico. É por isso que às vezes esbarro com pessoas outrora conhecidas e sou incapaz de dizer palavra. Uma atitude que possivelmente pode ser confundida com raiva ou rancor quando, na verdade, é algo mais estranho.


Pessoas tão reais e existentes quanto este texto. Compreensível, atuante, mas impossível de ser transformado em carne e sangue e pele e atos e cheiros e memórias pregressas que inspirem ao menos simpatia.


A solução talvez seja algo fantástico, como deve ter sido o show da banda. Algo que eu, certamente, consideraria inverossímil até o final da segunda música para então, finalmente, olhar ao redor com todas as partículas do Thom e seus comparsas reagrupadas em minha mente.


Então eu pularia.



14.3.09

Leibniz Undergournd






















"Certa noite, sem nenhuma razão especial, saiu perambulando pelos arredores sem vida, entre as ruas 50 e 60 Oeste, e entrou em um bar onde as garçonetes serviam com os peitos de fora. Quando estava sentado em sua mesa tomando uma cerveja, de repente se viu ao lado de uma voluptuosa jovem nua. Ela se curvou sobre A., pelo lado, e começou a descrever todas as coisas lascivas que ia fazer com ele, se lhe pagasse para ir "ao quarto dos fundos". Havia algo tão francamente jocoso e jovial na abordagem da mulher que A., por fim, aceitou seu convite. O melhor, resolveram, seria ela chupar seu pênis, uma vez que a moça alegava possuir um talento especial para a atividade. E de fato ela se lançou à sua tarefa com um entusiasmo que o deixou justamente admirado. Quando gozou na boca da moça alguns instantes depois, com um longo e palpitante jorro de sêmen, ele teve uma visão, naquele exato segundo, que continuou a cintilar dentro dele: cada ejaculação contém vários bilhões de células de esperma — ou mais ou menos o mesmo número de pessoas que existem no mundo —, o que significa que, em si mesmo, cada homem possui o potencial de um mundo inteiro. E o que aconteceria, se fosse possível acontecer, era todo o espectro de possibilidades: uma desova de idiotas e de gênios, de formosuras e deformidades, de santos, catatônicos, ladrões, corretores de ações e equilibristas da corda bamba. Cada homem, portanto, é um mundo inteiro, traz em seus germes uma memória de toda a humanidade. Ou, como Leibiniz escreveu, "toda substância viva é um espelho vivo e perpétuo do universo". Pois o fato é que somos feitos da mesma matéria que se formou com a primeira explosão da primeira faísca do vácuo infinito do espaço. Pelo menos foi o que ele disse a si mesmo naquele momento, enquanto o pênis explodia na boca da mulher nua, cujo nome ele agora esqueceu. Pensou: a mônada irreversível. E então, como que enfim se apoderando daquilo, pensou na célula microscópica e furtiva que abrira caminho através do corpo de sua esposa, uns três anos antes, para se transformar no seu filho".


(AUSTER, Paul. A Invenção da Solidão. São Paulo: Companhia das Letras, 1982.)

7.3.09

Teia de Empatia


As coisas acontecem.


A decisão mais simples abre a porta para o outro nível. Algo como você tentar sair de uma fase de um jogo de video-game e, mesmo lendo todas as dicas possíveis e jogando um bocado, algo sempre dá errado e você, frustrado e irritado, termina desligando tudo para tentar depois.


Então um dia como tantos outros você acorda, liga o jogo e, do nada, descobre uma passagem secreta que estava ali há tanto tempo sem ser percebida e termina passando de fase sem nenhum sofrimento. E a fase, mesmo outrora sendo vista em fotografias de tela, é totalmente mais rica, vasta e interessante do que as descrições lidas tantas vezes.


Tais coisas também acontecem fora do vídeo. Você faz uma oficina de Língua Inglesa, conhece pessoas legais e, um ano depois, alguém te liga convidando para fazer uma entrevista.


O seu currículo já chegara antes. Aí você fala sobre você durante um tempinho e depois, em inglês, conversa um tanto sobre várias coisas que você gostaria de fazer e tentar fazer. Volta pra casa e um dia depois recebe um telefonema. Na segunda-feira, você está com os alunos à sua frente.


Simples assim? Não.

Digo isso ao tentar imaginar a teia de acontecimentos caóticos que causaram tal confluência. É uma coisa louca. Não verdade são coisas loucas e incertas que ditam grande parte dos rumos de nossas vidas. Louco não no sentido da insanidade; e sim no sentido de uma lógica que escapa ao pensamento linear e simplista.


E graças a uma série dessas lógicas escusas e incompreensíveis, pontuadas pela empatia, tenho nas mãos esse novo nível, com novos personagens, novas regras e novos objetivos. Só que, ao contrário dos video-games, tudo é mais agradável do que antes.


É fascinante pensar que, além dessa nova ordem, desvelada e positiva, existem tantas outras teias imperceptíveis guiando todos os nosso rumos futuros.

3.3.09

O Amante do Vulcão






Sempre relacionei o nome de Susan Sontag ao engajamento e ativismo intelectual em questões que iam desde o feminismo até a países sob guerras absurdas. Também sabia ser ela uma autora profícua; no entanto pensava ser sua produção igualmente direcionada às questões intelectuais e políticas nas quais ela se envolvia.

Estava enganado. Sua produção artística também foi vasta. E a descoberta de tal produção vertiginosa, multimídia e multifacetada aos moldes sartreanos, surgiu pela curiosidade infame de saber um pouco mais sobre a vida da autora após ler um grande livro escrito por ela.


Esse grande livro é O Amante do Vulcão. Uma história que tem como base um personagem real, Sir William Hamilton, e na qual a narradora recria, em riqueza de detalhes e vigor narrativo, uma época riquíssima em fatos e personalidades marcantes.


Ao longo da história, que se passa entre o final do século XVIII e início do século XIX, o inglês, rebatizado com a alcunha italiana de Cavaliere, convive com fatos e personalidades históricas em meio a apreciações estéticas e intervenções da narradora situada em Manhattan, nos anos 80.

Tais técnicas do romance moderno, o qual usa e abusa do discurso indireto livre, servem como pano de fundo para os dois elementos principais do romance: a personalidade de Cavaliere e a representação do vulcão perante tal personalidade.


A personalidade de Cavaliere é, primordialmente, a de um colecionador. Porém tal não é exposta simplesmente como a de alguém que tenta apreender o passado e presente sob a forma de antiguidades e toda sorte de objetos; e sim alguém que usa tal compulsão, colecionar, como uma forma segura de canalizar algo mais secreto: o desejo de possuir.


"Em criança colecionara moedas, depois autômatos, depois instrumentos musicais. Colecionar expressa um desejo livre, flutuante, que se apega e reapega — é uma sucessão de desejos."


Partindo das moedas, o colecionador Cavaliere passa a tentar colecionar o mundo que o cerca. Não apenas objetos, também sensações. Para tal, ele se coloca como admirador dos excessos alheios. Nunca, porém, como protagonista.


É assim com o rei de Nápoles, um bufão escatológico de sensualidade exacerbada. Ou Charles, o sobrinho solteirão e bon vivant que recusou as convenções sociais. Da mesma forma como sente pela cartomante Eufrasina, à qual transfere seu secreto apego pelo sobrenatural. Assim como por seu sobrinho William, um dândi que não recusa os prazeres da vida.


Cavaliere não vive, não experimenta. Deseja ser escatológico e sensual, bon vivant e supersticioso, caloroso e libertino; porém não o faz. Não por ser covarde — e sim por ser algo pior: um inapto.


Ao covarde sempre existe a possibilidade da revolta, algo que o faça sair de si frente a uma situação limite. Ao inapto Cavaliere, não. Por mais que tente algo ou mesmo se comporte de forma ousada, inconsequente, ele será sempre “o Cavaliere agindo de forma ousada, o Cavaliere experimentando algo”.


A natureza de colecionador o faz se contentar apenas em observar os outros. Em guardar objetos, sensações. Um voierismo que, somado à personalidade original, encontra na acomodação burguesa uma forma segura de sentir sem que para isso necessite arriscar o que já possui. Um “epicurismo racional”, como define a narradora.


Ironicamente, Cavaliere, o colecionador nato, o avaliador apurado, não escolhe a primeira esposa: Catherine chega a ele como um arranjo social e, ao longo de todo o casamento, ameno e estável como todo bom casamento burguês, é quase tão hermética quanto o marido. Cada um no seu mundo, num respeito mútuo e assexuado.


Até a chegada de sua morte precoce, a qual foi “absorvida pelo metabolismo bem afinado do Cavaliere”, Catherine não experimentou nenhuma sensação mais febril além de um amor platônico desenvolvido por William. Não pelo marido William, e sim pelo seu sobrinho dândi.


Mesmo após a morte de Catherine, Cavaliere não altera sua rotina burguesa. Não se lança na vida, não experimenta os sentimentos reais de suas personagens de fascínio, mesmo tendo à mão todas as possibilidades. No entanto, tanto quanto o comodismo, a vontade de colecionar permanece.


Cavaliere resolve então colecionar uma vênus. Não uma vênus como tantas outras em seu porão: e sim uma vênus viva — Ao conhecer a jovem Emma, Cavaliere vê, finalmente, a possibilidade de possuir uma obra autêntica, a qual, além da beleza notável, também oferece a possibilidade de ser alguém que se possa adestrar, ensinar truques sociais e traquejos artísticos.


Seu novo objeto de cobiça é algo acabado e inacabado ao mesmo tempo. Ao contrário de Catherine, que fora oferecida a ele como um objeto pré-forjado, irretocável, sua vênus, adquirida sem qualquer regateio, é uma bela página em branco sobre a qual poderá imprimir todos os traços intelectuais e culturais que achasse convenientes.


Emma recebe aulas, adquire cultura, descobre talentos musicais e dramáticos e neles se aperfeiçoa a cada dia. Causa encanto nos círculos nobres e acaba se transformando no item mais desejado da coleção de Cavaliere. O qual, para oficializar a sua posse, decide aprisionar a musa, mesmo contra a vontade de todos os seus familiares:


"Até mesmo a Bela, que gostava de agradar e acreditava que costumava agradar, não conseguiu iludir-se a ponto de acreditar que os parentes do Cavaliere aprovavam o casamento, por mais que ela o fizesse feliz."


A história permanece atracada aos poréns: Mesmo totalmente culta e capaz, Emma não consegue comungar com a arte e a cultura que possui — Por mais que encante os outros com seus talentos e se porte como uma autêntica mulher culta, o que anseia realmente é ter apenas uma casa e um marido.

Sendo assim, se resigna como uma mulher treinada para ser a acompanhante de um homem que, exceto por um ou outro rompante de ardor, é um protetor carinhoso e moderado. Um determinismo guia ambos.


Então no horizonte surge um navio. Mais. Um navio vencedor capitaneado por um herói. Mais do que isso, um herói que, ao contrário de Cavaliere, se atirou nos desafios e, mesmo definitivamente marcado, conseguiu a glória: apesar das cicatrizes, das doenças crônicas de navegante e do vazio no lugar do braço direito, ele, sem duvida alguma, além dos méritos, possui a aura do herói.


Sua figura causa fascínio na corte napolitana e em Cavaliere, quanto este, além de ter conhecimento da coleção de méritos do herói, também vê frente a frente a coleção de medalhas que o acompanha sobre o peito. O herói por si só se basta. E tudo o que precisa está em seu corpo mutilado.

Nenhum fascínio, porém, supera o de Emma. O qual, aos poucos, passa a ser uma paixão mútua que não tarda a ser consumada. Cavaliere, cada vez mais idoso, reservado e preocupado com suas coleções exiladas, os deixa de lado:


Quando papai saiu e as crianças ficaram sozinhas, a dama gorda e o homem baixo de um braço só viram-se um para o outro e beijam-se.


O romance, tórrido e perigoso como todo bom romance proibido, corre à revelia do colecionador. Mesmo quando Emma, mais gorda do que o normal durante os meses subsequentes, faz uma visita à família distante e retorna ao seu palacete um pouco mais magra, triste e sem tantos panos para esconderem a comprovação de seu adultério.


Cavaliere não se importa mais porque a sua vida, mesmo longa para os padrões da época, passou. E mais do que se preocupar com ardis da corte e tantos outros dentro de sua própria alcova, possui uma preocupação mais importante: o vulcão.


O vulcão é o perigo pleno. Uma opção para consumir-se, dissolver-se, abandonar definitivamente o mundo e tornar-se apenas uma lembrança cinza.


A boca do vulcão é um referência obscena ao desejo sexual. Suas bordas circundando o orifício flamejante que pode ser a entrada para a glória ou para a desgraça sem precedentes. Sempre apreciadas, desejadas, retratadas, tocadas; porém sempre com parcimônia porque um vulcão não é algo seguro de ser apreciado: dependendo de uma série de fatores escusos, sua reação, até então prevista, pode transformar o fascínio do observador em desgraça. Pode marcá-lo definitivamente. Pode traumatizá-lo como uma paixão intensa consome e isola suas vítimas.


A paixão por algo tão perigoso seria então uma “falha” no temperamento sóbrio e cômodo de Cavaliere. Um lume de descontrole em meio a uma vida pontuada pela razoabilizade. Ao menos isso, dentro de uma personalidade tão retraída. É o que se pensa logo no início da história.

Mas ao avaliarmos mais apuradamente, vemos que nem ao menos no vulcão existe qualquer desvario. Descobrimos que Cavaliere, inapto às coisas da paixão plena, só poderia amar plenamente um vulcão.


Isso se justifica quando nos damos conta de que, mesmo perigoso, letal, o vulcão é algo estático. Ele pode ser observado a uma distância segura, pode ser estudado, ter suas erupções previstas depois de um tempo e, quando tais acontecem, podem ser observadas com segurança na varanda do palacete.


O vulcão, para Cavaliere, é como uma amante casada ou comprometida de forma irreversível: por mais que sejam vivenciados períodos de paixão intensa, lascívia e todos os riscos possíveis, ela sempre estará repousada sobre o mesmo sopé. Mesmo inconscientemente, é a inaptidão e o comodismo que guiam tal paixão. Apesar dos riscos, nada muda, nada sai do lugar.


Assim, o grande nó do romance é a incapacidade de Cavaliere de se libertar de si mesmo. Uma peleja que o acompanha por toda a vida e que só será resolvida pelo tempo quando este aprisiona definitivamente Cavaliere sobre o leito.


Colecionando apenas ruídos da mulher, dos criados e da morte ali bem próxima, Cavaliere, ele mesmo agora transformado em ítem colecionável, estático e enfermo, encerra seus dias reafirmando em cada um deles a conclusão:


"Gostaria de ser lembrado pelo vulcão”.


1.3.09

Oportunidades


As pessoas que executam tarefas simples fazem-me ter uma consciência social senão plena, ao menos bem mais ampla do que eu tivera.



Isso surgiu com a imensa gama de oportunidades surgidas após eu encerrar o tempo do meu último emprego. Digo imensa porque me situei irreversivelmente entre duas áreas, exatas e humanas e, somadas a elas, vi à disposição toda uma gama de serviços aos quais eu certamente recorreria se estivesse em sérios apuros: escritório, atendente e tantos outros dos quais só excluo o de michê porque sou avesso a mulheres coroas e homens de todas as idades.


Se você pegar o jornal de domingo, Manaus, verá: 581 oportunidades de emprego. Quinhentas e oitenta e uma! Como alguém pode se queixar sobre a falta de oportunidades? Pior, como alguém pode ficar desempregado e enfrentar dificuldades com tantos contratantes oferecendo empregos?


A resposta, ao meu ver, é bem simples: as vagas existem, o inferno é se enquadrar numa delas.


Não falo quanto às especializadas, isso seria óbvio; e sim quanto a nós mesmos em relação às intelectualmente e fisicamente compatíveis: com o passar do tempo você se enquadra numa certa atividade e, com mais um punhado de anos, se estabiliza nela e deixa de olhar tanto para cima quanto pra baixo. (Considerem o "a" a mais na subida como um símbolo para a dificuldade)


Depois de certo tempo, torna-se impossível almejar algo superior e um pesadelo vergonhoso ter que prestar um serviço aquém da capacidade itelectual e do comodismo físico de outrora. Algo como o mestre que encontra uma barreira ininteligível para chegar a um pós-doutorado, ou um comeciante bem sucedido que não vê possibilidade em chegar ao primeiro bilhão. O oposto de tais exemplos seria o primeiro se ver obrigado a dar aulas para o sexto ano do ensino básico e o segundo passar a atender bebuns numa mercearia em um bairro planejado (tomando como base uma tela de Pollock). Ou seja, depois de algum tempo, o ideal é se manter equilibrado: nem glória e nem fracasso. Qualquer oscilação nessa balança causa uma náusea constante.


Acho que esqueci de algo... Sim! Os sonhos! Como realizá-los tendo que acordar todos as melhores manhãs do ano para trabalhar e pagar as contas?


Amiga leitora, se eu soubesse... A primeira coisa que me ocorre é a de sempre: ganhar um prêmio milionário. 30 milhões na loteria. Aí sim, poderíamos realizar nosso melhor talento entre todos: não fazer nada. Claro que não aquele nada "nada"; e sim o nada legal, cheio de atividades prazerosas.


Também poderíamos aguardar um milagre de Deus. O que, comparado com os 50.063.860 para 1 — a probabilidade de acerto de 1 bilhete da Mega-Sena — é bem mais possível.

Digo isso após consultar as probabilidades de se ficar louco.



Boa segunda-feira.