26.3.09

Vigilantes


















Cara leitora, se você olhar os marcadores desse blog, bem ali à direita, abaixo dos arquivos (anda, dá uma olhada), verá que cinema e quadrinhos são os dois temas menos comentados por aqui.

Então o que falar sobre Watchmen, um filme adaptado dos quadrinhos?


Várias coisas. Então vamos lá. Dois marcadores em um.


Assisti domingo. Sozinho porque Josephinne estava atribulada com coisas do trabalho e também não tava muito a fim de encarar quase três horas de película. Mesmo sendo domingo, J. aquiesceu ao meu apelo após eu contar sobre a obra e sobre como ficara impressionado com as imagens que vi num especial na MTV. Ao ver os enquadramentos e algumas cenas, algo na minha memória se reacendeu e lembrei de como a obra fora uma leitura marcante.


Além disso, havia também a impressionante reconstituição cenográfica e uma fidelidade quase literal ao texto original. Mérito de Zack Snider, o diretor famoso pelos chroma-keys de 300 e Sin City.

Só que em Watchmen o diretor deixou, na medida do possível, o computador de lado e investiu na atuação. A qual, somada à força do texto e à competência dos atores faz com que Watchmen seja não um filme de super-heróis; e sim um filme com super-heróis.


E um filme pesado. Tanto no tempo quanto na temática e na ambientação: uma América oitentista alternativa vivendo um absurdo terceiro mandato de Nixon e à beira da inevitável explosão da guerra com a então arquirrival URSS.


A cena inicial, com brigas e o corpo do Comediante sendo defenestrado, dá a idéia de Watchmen ser um filme de ação como tantos outros. Idéia logo abalada pela longa sequência de abertura que mostra a ascensão e queda de um grupo de super-heróis antecessores (os Minutemen) ao som de “Times, They Are A-Changin”, de Bob Dylan.


Que tipo de filme de super-herói começa assim? Bob Dylan? Guerra Fria? Em poucos minutos, a película faz a sua primeira peneira com o público.


Além desse anticlímax inicial, longo o suficiente para tirar qualquer glamour ou divindade dos super-heróis, a verossimilhança, apesar da realidade, é ainda mais reforçada pela atuação dos Watchmen: Heróis incomodamente humanos, que sabem estar passando ridículo dentro de suas roupas colantes e, para compensar a ausência de qualquer super-poder fascinante, disfarçam com pantomimas as suas habilidades acima da média.


Heróis que só o são por algumas horas do dia porque precisam cuidar da vida; que usam a inteligência para ficar ricos, que têm conflitos familiares, que fazem sexo e vez ou outra sucumbem ao descontrole e a apatia. Esse meio-termo exato entre humanidade e heroísmo é um dos muitos fatores que tornam Watchmen uma história única.


Duas figuras, porém, escapam da banalidade inevitável e criam, através de seus atos, uma aura fantástica, apesar do realismo: Dr. Manhattan e Roschach. Fazendo uma comparação grosseira, porém pertinente, os dois estão para os Watchmen como Superman e Batman estão para o universo DC.


Dr. Manhattan, mesmo tendo seus super-poderes desenvolvidos como consequência de um acidente nuclear, uma premissa clássica, desenvolve uma postura bem mais complexa do que a do super-herói “comum”. Por não estar mais sujeito ao tempo e ao espaço e por manipular a matéria, Dr. Manhattan, ao invés de mudar de roupa dentro de cabines telefônicas e voar pelo planeta, se transforma em um diletante. Alguém extremamente angustiado e solitário pelo fato de, mesmo controlando o tempo e o espaço, não encontrar uma significação para o universo que não seja a de uma infinita quantidade de matéria em constante decomposição e recomposição.


Roschach, por sua vez, é como um Bruce Wayne sem grana e artefatos que compensa tal deficiência com uma desilusão pela raça humana que faz o Homem-Morcego parecer um guru de auto-ajuda.

Seu diário, lido em off por ele próprio, além de fio-condutor da história também brinda a audiência com vários monólogos duros e desiludidos, cheios de frases antológicas. O personagem, feio, franzino, porém com uma voz e olhar assustadoramente sombrios, é encarado com perfeição por Jackie Earle Haley — o grande nome em meio a um grande elenco rigorosamente escolhido por critérios dramáticos e físicos.


Após as quase três longas horas de idas e vindas de Dr. Manhattan, Roschach e os outros “heróis” do grupo, Watchmen, o filme, dá ao espectador a sensação de estar lendo um romance caudaloso no qual o resto da história, mesmo estando nas suas últimas páginas, deixa claro que não entregará o final tão fácil.


Uma história truncada, indigesta, mas que tem a sua importância autenticada pelo argumento genial e personagens inesquecíveis. Assim como aqueles clássicos que protelamos e quando finalmente lemos, mesmo com uma sensação esquisita, passamos um bom tempo recordando e descobrindo novos significados.


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