25.3.09

Desfragmentador


As fragmentações irreversíveis. Considerar algo apenas imagem e não conseguir personificar novamente. Mesmo tendo sido vivo, três dimensões e tudo. Mesmo tendo sido tocado e tendo interagido.


Nunca fui do tipo empedernido com qualquer um. Isso de adotar a dureza como estilo. Por definição, empedernido é algo que foi transformado em pedra, tornado duro — Algo naturalmente impossível para alguém que vira pó. Então não faz sentido alguém ser absolutamente empedernido. Mesmo assim se tenta. Para quê? Talvez para ser mais.


Assim como se tenta ser contrário da pedra. Não no sentido da rigidez, e sim no sentido da inexistência. Um não-ligar-a-mínima para as coisas e para os seres transformados em coisas. Pensa-se, quando se tenta ser o contrário da pedra, que esse não-ligar é sinônimo de consistência, de concentração existencial, mas não é.


Pelo contrário. Ao tentar dissipar o mundo de significados, quem se dissipa é o próprio pseudo-autônomo. O mundo reage como um espelho em frente a um feitiço. Ele se volta contra. O mundo segue o seu curso, as pessoas seguem a sua vida; e o recluso pensante, profundo entendedor da natureza das coisas e da sua própria, se desfragmenta definitivamente. Por mais boa vontade que se tenha, a coisa fica tão difícil quanto fazer de cabeça aquelas sinistras ligações químicas.


Impossível não lembrar de uma música do Radiohead: How to disappear completely (and never be found) e de como a própria banda conseguiu isso. Ao menos comigo. Tal fato se deu após os anos e anos de reclusão e de por aqui se tornarem mais imagem do que realidade. Álbuns lindos e herméticos, encartes misteriosos, videoclipes estranhos. Depois de tanto tempo, passei a considerá-los uma imagem virtual, não uma banda de verdade.


Não que seja problema da banda. É um problema meu, essa incapacidade de reagrupar partículas e constituir novamente algo físico. É por isso que às vezes esbarro com pessoas outrora conhecidas e sou incapaz de dizer palavra. Uma atitude que possivelmente pode ser confundida com raiva ou rancor quando, na verdade, é algo mais estranho.


Pessoas tão reais e existentes quanto este texto. Compreensível, atuante, mas impossível de ser transformado em carne e sangue e pele e atos e cheiros e memórias pregressas que inspirem ao menos simpatia.


A solução talvez seja algo fantástico, como deve ter sido o show da banda. Algo que eu, certamente, consideraria inverossímil até o final da segunda música para então, finalmente, olhar ao redor com todas as partículas do Thom e seus comparsas reagrupadas em minha mente.


Então eu pularia.



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