
“Não , a sério, espera, deixe-me desapertar-lhe o soutien. Apaga-se uma das luzes na mesa de cabeceira, um pudico véu de penumbra sobre os lençóis, como nos rostos das graves senhoras desconhecidas das visitas de pêsames da minha infância, instaladas em torno de um bule de prata para chás solenes, roçando de leve os pratos de biscoitos com as luvas de camurça. Eu descalço as peúgas sentado na cama, você luta com o fecho éclair das calças numa impaciência de taxista diante do sinal vermelho, e pode ser que pairem, com um pouco de sorte, neste quarto, doces atmosferas conjugais feitas de uma teia de hábitos comuns pacientemente conquistados. Mas deixe-me desapertar-lhe o soutien: adoro estes fechos pequeninos, complicados, que se abrem sempre ao contrário do que de início se pensa, e os seios que por fim me deixam na mão o seu invólucro de pano, como as cobras dependuram nos arbustos as peles abandonadas. Já reparou como os seios nascem como luas dos vestidos, redondos, brancos, macios, opalinos, de uma morna claridade interior de veias e de leite, erguendo-se sobre a cidade deitada do meu corpo num vagar triunfal? Gosto de ver os seios surgirem-me do flanco, subirem, indiferentes, à altura trêmula e sequiosa dos meus beijos, cobrir com a nuvem do braço a sua suavidade calma, debruçar-me para a auréola dos mamilos em cuidados desajeitados de astronauta, pousar a testa no côncavo intervalo que os separa, e sentir dentro de mim, de olhos fechados, a funda tranqüilidade de um mar finalmente em repouso, tocado de leve pelo halo indeciso de um peito que amanhece.”
(ANTUNES, António Lobo. Os Cus de Judas. Rio de Janeiro: Alfaguara. Pg. 157)



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