
Sempre relacionei o nome de Susan Sontag ao engajamento e ativismo intelectual em questões que iam desde o feminismo até a países sob guerras absurdas. Também sabia ser ela uma autora profícua; no entanto pensava ser sua produção igualmente direcionada às questões intelectuais e políticas nas quais ela se envolvia.
Estava enganado. Sua produção artística também foi vasta. E a descoberta de tal produção vertiginosa, multimídia e multifacetada aos moldes sartreanos, surgiu pela curiosidade infame de saber um pouco mais sobre a vida da autora após ler um grande livro escrito por ela.
Esse grande livro é O Amante do Vulcão. Uma história que tem como base um personagem real, Sir William Hamilton, e na qual a narradora recria, em riqueza de detalhes e vigor narrativo, uma época riquíssima em fatos e personalidades marcantes.
Ao longo da história, que se passa entre o final do século XVIII e início do século XIX, o inglês, rebatizado com a alcunha italiana de Cavaliere, convive com fatos e personalidades históricas em meio a apreciações estéticas e intervenções da narradora situada em Manhattan, nos anos 80.
Tais técnicas do romance moderno, o qual usa e abusa do discurso indireto livre, servem como pano de fundo para os dois elementos principais do romance: a personalidade de Cavaliere e a representação do vulcão perante tal personalidade.
A personalidade de Cavaliere é, primordialmente, a de um colecionador. Porém tal não é exposta simplesmente como a de alguém que tenta apreender o passado e presente sob a forma de antiguidades e toda sorte de objetos; e sim alguém que usa tal compulsão, colecionar, como uma forma segura de canalizar algo mais secreto: o desejo de possuir.
"Em criança colecionara moedas, depois autômatos, depois instrumentos musicais. Colecionar expressa um desejo livre, flutuante, que se apega e reapega — é uma sucessão de desejos."
Partindo das moedas, o colecionador Cavaliere passa a tentar colecionar o mundo que o cerca. Não apenas objetos, também sensações. Para tal, ele se coloca como admirador dos excessos alheios. Nunca, porém, como protagonista.
É assim com o rei de Nápoles, um bufão escatológico de sensualidade exacerbada. Ou Charles, o sobrinho solteirão e bon vivant que recusou as convenções sociais. Da mesma forma como sente pela cartomante Eufrasina, à qual transfere seu secreto apego pelo sobrenatural. Assim como por seu sobrinho William, um dândi que não recusa os prazeres da vida.
Cavaliere não vive, não experimenta. Deseja ser escatológico e sensual, bon vivant e supersticioso, caloroso e libertino; porém não o faz. Não por ser covarde — e sim por ser algo pior: um inapto.
Ao covarde sempre existe a possibilidade da revolta, algo que o faça sair de si frente a uma situação limite. Ao inapto Cavaliere, não. Por mais que tente algo ou mesmo se comporte de forma ousada, inconsequente, ele será sempre “o Cavaliere agindo de forma ousada, o Cavaliere experimentando algo”.
A natureza de colecionador o faz se contentar apenas em observar os outros. Em guardar objetos, sensações. Um voierismo que, somado à personalidade original, encontra na acomodação burguesa uma forma segura de sentir sem que para isso necessite arriscar o que já possui. Um “epicurismo racional”, como define a narradora.
Ironicamente, Cavaliere, o colecionador nato, o avaliador apurado, não escolhe a primeira esposa: Catherine chega a ele como um arranjo social e, ao longo de todo o casamento, ameno e estável como todo bom casamento burguês, é quase tão hermética quanto o marido. Cada um no seu mundo, num respeito mútuo e assexuado.
Até a chegada de sua morte precoce, a qual foi “absorvida pelo metabolismo bem afinado do Cavaliere”, Catherine não experimentou nenhuma sensação mais febril além de um amor platônico desenvolvido por William. Não pelo marido William, e sim pelo seu sobrinho dândi.
Mesmo após a morte de Catherine, Cavaliere não altera sua rotina burguesa. Não se lança na vida, não experimenta os sentimentos reais de suas personagens de fascínio, mesmo tendo à mão todas as possibilidades. No entanto, tanto quanto o comodismo, a vontade de colecionar permanece.
Cavaliere resolve então colecionar uma vênus. Não uma vênus como tantas outras em seu porão: e sim uma vênus viva — Ao conhecer a jovem Emma, Cavaliere vê, finalmente, a possibilidade de possuir uma obra autêntica, a qual, além da beleza notável, também oferece a possibilidade de ser alguém que se possa adestrar, ensinar truques sociais e traquejos artísticos.
Seu novo objeto de cobiça é algo acabado e inacabado ao mesmo tempo. Ao contrário de Catherine, que fora oferecida a ele como um objeto pré-forjado, irretocável, sua vênus, adquirida sem qualquer regateio, é uma bela página em branco sobre a qual poderá imprimir todos os traços intelectuais e culturais que achasse convenientes.
Emma recebe aulas, adquire cultura, descobre talentos musicais e dramáticos e neles se aperfeiçoa a cada dia. Causa encanto nos círculos nobres e acaba se transformando no item mais desejado da coleção de Cavaliere. O qual, para oficializar a sua posse, decide aprisionar a musa, mesmo contra a vontade de todos os seus familiares:
"Até mesmo a Bela, que gostava de agradar e acreditava que costumava agradar, não conseguiu iludir-se a ponto de acreditar que os parentes do Cavaliere aprovavam o casamento, por mais que ela o fizesse feliz."
A história permanece atracada aos poréns: Mesmo totalmente culta e capaz, Emma não consegue comungar com a arte e a cultura que possui — Por mais que encante os outros com seus talentos e se porte como uma autêntica mulher culta, o que anseia realmente é ter apenas uma casa e um marido.
Sendo assim, se resigna como uma mulher treinada para ser a acompanhante de um homem que, exceto por um ou outro rompante de ardor, é um protetor carinhoso e moderado. Um determinismo guia ambos.
Então no horizonte surge um navio. Mais. Um navio vencedor capitaneado por um herói. Mais do que isso, um herói que, ao contrário de Cavaliere, se atirou nos desafios e, mesmo definitivamente marcado, conseguiu a glória: apesar das cicatrizes, das doenças crônicas de navegante e do vazio no lugar do braço direito, ele, sem duvida alguma, além dos méritos, possui a aura do herói.
Sua figura causa fascínio na corte napolitana e em Cavaliere, quanto este, além de ter conhecimento da coleção de méritos do herói, também vê frente a frente a coleção de medalhas que o acompanha sobre o peito. O herói por si só se basta. E tudo o que precisa está em seu corpo mutilado.
Nenhum fascínio, porém, supera o de Emma. O qual, aos poucos, passa a ser uma paixão mútua que não tarda a ser consumada. Cavaliere, cada vez mais idoso, reservado e preocupado com suas coleções exiladas, os deixa de lado:
“Quando papai saiu e as crianças ficaram sozinhas, a dama gorda e o homem baixo de um braço só viram-se um para o outro e beijam-se.”
O romance, tórrido e perigoso como todo bom romance proibido, corre à revelia do colecionador. Mesmo quando Emma, mais gorda do que o normal durante os meses subsequentes, faz uma visita à família distante e retorna ao seu palacete um pouco mais magra, triste e sem tantos panos para esconderem a comprovação de seu adultério.
Cavaliere não se importa mais porque a sua vida, mesmo longa para os padrões da época, passou. E mais do que se preocupar com ardis da corte e tantos outros dentro de sua própria alcova, possui uma preocupação mais importante: o vulcão.
O vulcão é o perigo pleno. Uma opção para consumir-se, dissolver-se, abandonar definitivamente o mundo e tornar-se apenas uma lembrança cinza.
A boca do vulcão é um referência obscena ao desejo sexual. Suas bordas circundando o orifício flamejante que pode ser a entrada para a glória ou para a desgraça sem precedentes. Sempre apreciadas, desejadas, retratadas, tocadas; porém sempre com parcimônia porque um vulcão não é algo seguro de ser apreciado: dependendo de uma série de fatores escusos, sua reação, até então prevista, pode transformar o fascínio do observador em desgraça. Pode marcá-lo definitivamente. Pode traumatizá-lo como uma paixão intensa consome e isola suas vítimas.
A paixão por algo tão perigoso seria então uma “falha” no temperamento sóbrio e cômodo de Cavaliere. Um lume de descontrole em meio a uma vida pontuada pela razoabilizade. Ao menos isso, dentro de uma personalidade tão retraída. É o que se pensa logo no início da história.
Mas ao avaliarmos mais apuradamente, vemos que nem ao menos no vulcão existe qualquer desvario. Descobrimos que Cavaliere, inapto às coisas da paixão plena, só poderia amar plenamente um vulcão.
Isso se justifica quando nos damos conta de que, mesmo perigoso, letal, o vulcão é algo estático. Ele pode ser observado a uma distância segura, pode ser estudado, ter suas erupções previstas depois de um tempo e, quando tais acontecem, podem ser observadas com segurança na varanda do palacete.
O vulcão, para Cavaliere, é como uma amante casada ou comprometida de forma irreversível: por mais que sejam vivenciados períodos de paixão intensa, lascívia e todos os riscos possíveis, ela sempre estará repousada sobre o mesmo sopé. Mesmo inconscientemente, é a inaptidão e o comodismo que guiam tal paixão. Apesar dos riscos, nada muda, nada sai do lugar.
Assim, o grande nó do romance é a incapacidade de Cavaliere de se libertar de si mesmo. Uma peleja que o acompanha por toda a vida e que só será resolvida pelo tempo quando este aprisiona definitivamente Cavaliere sobre o leito.
Colecionando apenas ruídos da mulher, dos criados e da morte ali bem próxima, Cavaliere, ele mesmo agora transformado em ítem colecionável, estático e enfermo, encerra seus dias reafirmando em cada um deles a conclusão:
"Gostaria de ser lembrado pelo vulcão”.



0 comentários:
Postar um comentário