18.4.09

Sobrolho


As cenas reais também funcionam em freimes, os quais vão ficando gastos com o passar do tempo.

Chego ao mesmo ponto de ônibus. O mesmo de sempre. Escuro. Eu ouvindo música por dentro. Não é mais meu walkman amarelo ou o discman monstro cinzento, mas a trilha é basicamente a mesma. Assim como também é mesma a reação a um anônimo mal educado que chega e pede uma informação como se à minha frente estivesse um balcão e eu estivesse sendo pago por isso.


Eu sei que ela está falando comigo mas a ignoro. Ela para e me observa. Acena em seguida. Desta vez eu a encaro. Pauso a música sob a camisa e meu queixo pergunta o quê. Ela murmura algo sobre T3 e eu encerro com um não antes de voltar a olhar para o horizonte.


Antes disso observo a reação diminuta: as pálpebras inferiores semerguidas — uma reação involuntária em resposta a um comportamento petulante. Seus sobrolhos voltam ao lugar, ela cruza os braços e eu, neste exato momento, sentado no banco cinzento do ponto escuro de ônibus, começo a escrever esses parágrafos sem usar papel. Muito antes de estar aqui, sozinho no apartamento da minha garota, antes de todos chegarem e antes de todos, ela mesma, daqui a vinte minutos.

Acreditem, a coisa mais desconfortável desse apartamento vazio é esse teclado. Duro, induz ao erro. Mas deixa eu voltar à linha de pensamento: entrei no ônibus refrigerado e, ao sentar sem ninguém ao lado, um freime antigo, sobregravado dezenas de vezes misturou ao presente uma sensação fantasma.


Lembrei-me de algumas semanas nas quais eu voltava da Escola Técnica e uma garota sentava ao meu lado e implicávamos durante todo o caminho. Coisas como ela iniciando um diálogo banal do tipo:


Meu sobrinho começou a andar com seis meses de idade.

Sério? E quantos anos ele tem agora?

Quatro anos.

Nossa, ele deve tá longe.


Depois de entender o ardil semântico presente na resposta ela reclamava do meu senso de humor e a coisa ia assim durante todo o percurso.

Lembranças cândidas de uma idade na qual tal comportamento atritante é puro indicador de interesse romântico. Qual o nome da garota? Não sei.


Não tenho a menor noção de quem ela tenha sido apesar da plena certeza dela ter existido. Lembro de algumas frases e de alguns empurrões no ombro mas, realmente, não tenho a menor lembrança de quem fora a garota.

A menor. Altura. Cor de cabelo. Até mesmo perfume. Nada. Mesmo me esforçando durante todo o caminho, passando pelo minimercado e subindo os quinze andares de elevador até chegar aqui com a desconfiança de que, num futuro próximo, todas as figuras irrelevantes do meu passado serão transformas em uma ou outra paráfrase.


Talvez não seja eu o culpado. Talvez a culpada seja Josephinne. Ela mesma, que acabou de entrar no apartamento, sentou em meu colo, leu tudo o que eu escrevera e seguiu para o quarto para terminar de chegar em casa.


Falei a ela sobre a minha suspeita de ela mesma, Josephinne, inalar aos poucos os meus pensamentos durante o sono. Como assim? Simples, eu digo. Você encosta o nariz sobre os meus cabelos e retira da minha mente as lembranças de garotas passadas, deixando apenas ecos de verbos.

Ela não disse nada em defesa: Ergueu-se do meu colo e agora circula entre os cômodos do apartamento.


Sem contar as outras que devo ter esquecido totalmente e não consigo mais incluir sequer num gesto involuntário. Se duvidar até o pensamento mais arraigado, Carla com K, também esteja se refugiando para não ser silenciosamente inalado. Outra história.


7.4.09

Algodão



Bato nas comissuras dos ombros do casaco como se felicitasse a mim mesmo. O pó se eleva, como se meu fantasma vivesse sobre minha epiderme. Paira, em seguida desce. Talvez viva.


Se não mais limpa, ao menos minha forma externa, vestimenta, está agora diferente. Quantos anos estas mãos têm agora? Vinte e nove? Cento e quarenta e sete? Pele ou luva? As estalo e não sei dizer ao certo suas idades esquerda e direita.


Conhecemo-nos plantando algodão. Antes da indústria. Antes das ruas pavimentadas. Antes do primeiro pé de algodão ser agitado pela brisa. Colhíamos e por vezes machucávamos as mãos. Distração, falta de prática. Juntássemos todos os tufos manchados de sangue, montaríamos um enxoval vermelho.


Deixa eu ver isso, ela dizia sempre. O filete de sangue escapando pelo meu dedo rasgado. Sempre descuidado com as coisas. Meu indicador direito: uma concentração de acidentes. Ela e suas mãos pequenas e cuidadosas, cutículas calafetadas por algodão. Meus cortes contidos pelo calor dos seus dedos. Minha mão recomposta e o pé de algodão à minha frente entendendo toda a minha composição física. Voltávamos ao trabalho.


Sempre temi serem os meus cortes manuais um pouco mais profundos e, quando do curativo, ela visse uma ponta de algodão e ao tentar retirá-lo descobrisse que ele não era dos pés, e sim de mim — Um fiozinho contínuo que esvaziaria minha mão, meus braços, meu tórax, minhas pernas: todo um estofo para coração e mente exatamente como é o casaco de agora.


Nunca houve. Sempre permaneci inteiro. E como distração, levava um ou dois tufos de algodão no bolso. Anos décadas. Um tear. E agora esse casaco. Bato novamente. Agora no coração sob. Engraçado: dele não sobe poeira.


Volto. O sol regressa muitos círculos e volto à plantação recém-colhida. Depois da primeira safra (as bestas partindo, carregadas, depois de um tapa no lombo), sentamos no centro geométrico do campo podado e vazio e enrolamos um cigarro. É preciso ter cuidado para a chama do tabaco seco não tocar o meu estofo sob a língua.


Tanto tempo compenetrados, olhando os pés, nossos e das plantas, e vez ou outra olhando nossas mãos quando os pés se rebelavam e me infligiam cortes; e só então finalmente podíamos nos olhar de frente. Ela pergunta muitos cortes? — Não, nem tantos. Meu indicador sempre se sacrifica por eles.


Sorri e cofia os cabelos. Me olha e o cigarro como que me queima por dentro. Minha irmã negra de mãos intocadas e pés cheios de pequenos cortes que só agora percebo. Tomo um dos seus pés no colo. O calcanhar na palma da minha mão esquerda: uma fruta, uma criança minúscula.


Estanco os cortes. Cicatrizo. Cauterizo com a pequena chama do cigarro. Ela não parece se importar com a dor pequena. Mesmo assim fecha os olhos por vezes. Também não me importo tanto com meus cortes subcutâneos reclamando. Cicatrizados, deitamo-nos.


Ao nosso redor, os pés recomeçam a produzir algodão furiosamente.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...