Bato nas comissuras dos ombros do casaco como se felicitasse a mim mesmo. O pó se eleva, como se meu fantasma vivesse sobre minha epiderme. Paira, em seguida desce. Talvez viva.
Se não mais limpa, ao menos minha forma externa, vestimenta, está agora diferente. Quantos anos estas mãos têm agora? Vinte e nove? Cento e quarenta e sete? Pele ou luva? As estalo e não sei dizer ao certo suas idades esquerda e direita.
Conhecemo-nos plantando algodão. Antes da indústria. Antes das ruas pavimentadas. Antes do primeiro pé de algodão ser agitado pela brisa. Colhíamos e por vezes machucávamos as mãos. Distração, falta de prática. Juntássemos todos os tufos manchados de sangue, montaríamos um enxoval vermelho.
Deixa eu ver isso, ela dizia sempre. O filete de sangue escapando pelo meu dedo rasgado. Sempre descuidado com as coisas. Meu indicador direito: uma concentração de acidentes. Ela e suas mãos pequenas e cuidadosas, cutículas calafetadas por algodão. Meus cortes contidos pelo calor dos seus dedos. Minha mão recomposta e o pé de algodão à minha frente entendendo toda a minha composição física. Voltávamos ao trabalho.
Sempre temi serem os meus cortes manuais um pouco mais profundos e, quando do curativo, ela visse uma ponta de algodão e ao tentar retirá-lo descobrisse que ele não era dos pés, e sim de mim — Um fiozinho contínuo que esvaziaria minha mão, meus braços, meu tórax, minhas pernas: todo um estofo para coração e mente exatamente como é o casaco de agora.
Nunca houve. Sempre permaneci inteiro. E como distração, levava um ou dois tufos de algodão no bolso. Anos décadas. Um tear. E agora esse casaco. Bato novamente. Agora no coração sob. Engraçado: dele não sobe poeira.
Volto. O sol regressa muitos círculos e volto à plantação recém-colhida. Depois da primeira safra (as bestas partindo, carregadas, depois de um tapa no lombo), sentamos no centro geométrico do campo podado e vazio e enrolamos um cigarro. É preciso ter cuidado para a chama do tabaco seco não tocar o meu estofo sob a língua.
Tanto tempo compenetrados, olhando os pés, nossos e das plantas, e vez ou outra olhando nossas mãos quando os pés se rebelavam e me infligiam cortes; e só então finalmente podíamos nos olhar de frente. Ela pergunta muitos cortes? — Não, nem tantos. Meu indicador sempre se sacrifica por eles.
Sorri e cofia os cabelos. Me olha e o cigarro como que me queima por dentro. Minha irmã negra de mãos intocadas e pés cheios de pequenos cortes que só agora percebo. Tomo um dos seus pés no colo. O calcanhar na palma da minha mão esquerda: uma fruta, uma criança minúscula.
Estanco os cortes. Cicatrizo. Cauterizo com a pequena chama do cigarro. Ela não parece se importar com a dor pequena. Mesmo assim fecha os olhos por vezes. Também não me importo tanto com meus cortes subcutâneos reclamando. Cicatrizados, deitamo-nos.
Ao nosso redor, os pés recomeçam a produzir algodão furiosamente.



1 comentários:
Descobriu tudo. Sou uma "blade runner".
:*
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