29.5.09

Eudes Nº 08


Nem um cachorro de pelos curtos e nenhuma sensibilidade na epiderme consegue passar incólume ao calor do sol que rasga os céus inconstantes da cidade de Manaus.

Eudes está vestido de 8 sob o sol pleno das duas da tarde. Às vezes se distraem, ele e o colega que completa a dezena gigante do candidato e, quando isso acontece, o fiscal do grupo berra sob a sombra da marquise: Vamo se mexer seus porra que o sinal tá fechado!

Os números (Eudes e o colega) partem para a faixa de pedestres e começam a saltitar agitando os braços, sempre tendo cuidado para não atrapalhar a ordem numérica e causar uma confusão na hora do voto dos eleitores indecisos. Completando o grupo animado, três garotas sorridentes, de jeans apertado e barrigas à mostra, circulam entre os carros e distribuem santinhos.


Os números gigantes

Os números gigantes são vermelhos, temperatura interna de 50 graus Celsius. Para não destoar do conjunto, Eudes e o parceiro precisam pintar a cara também de vermelho. Ambos vestem luvas e sapatos brancos e fofinhos, para remeter aos personagens da Disney e, assim, segundo o homem do marketing, causar mais simpatia. O mesmo homem do marketing também acha que, se os motoristas indecisos não votarem pelo candidato, ao menos o farão por dó dos pobres diabos vestidos de números.

Quando o homenzinho verde do sinal de pedestres se torna intermitente, Eudes e seu companheiro precisam dar saltos mais longos para chegarem logo até a calçada e salvarem a integridade física porque a cidade de Manaus tem os piores motoristas do país, e só não os piores do mundo porque existe Bangladesh, onde se respeitam as vacas e não se respeitam os semáforos. Se os manauaras acreditassem em divindades coloridas e adorassem vacas seriam ao menos uma vez, mesmo que negativamente, os pontas de algo no mundo.

O emprego de 8 previa a quantia de 40 reais por 4 horas de trabalho diário. Um valor muito bom, diria um burro miserável. Eudes, porém, não depende mais de tal quantia porque possui 6.000 reais pagos em espécie pelo Vigia.


Vigia

Vigia nunca faltara ao trabalho, nunca chegara atrasado e, principalmente, nunca deixara nenhum vagabundo passar mais de alguns minutos inteiro após pular os muro da Escola Estadual Vera Mendonça. Como o emprego não previa revólver, o Vigia se virava com a faca. Facas, na verdade, duas, e um alfanje. O revólver não previsto e a pistola usava nas ruas, onde tirava o grosso do sustento matando gente por dinheiro, independente da causa ser raiva ou estratégia.

Eudes já cometera pequenos delitos e dera uns tiros num sujeito. Os tiros não foram por estratégia, e sim por raiva, outra história. O sujeito escapou por pouco. Vigia presenciara o fato, a ação, o marginal tendo o peito premiado com orifícios novos e ardentes. A imagem que ficara mais fixa foi a expressão impassível de Eudes, a inescrutabilidade enquanto pressionava o gatilho: um projétil e mais cinco, com intervalos idênticos de tempo.

Houve uma confluência demoníaca de duas situações. A primeira: Vigia recebera o serviço de matar dois políticos, um candidato e o vice do mesmo, mas teria que ser simultaneamente, o que implicaria no acionamento de um parceiro. A segunda: Eudes, o da expressão vazia, trabalhava de 8 vivo para a chapa política das duas vítimas.


Acêrto entre Eudes e Vigia


Como tá indo o emprego na política?

Mais um grito do filho-da-puta do fiscal e eu mando tudo à merda.

Ganha quanto?

Uma mixaria. Tão ridículo que dá mais vergonha falar o valor que vestir a porra do 8.

Eu tenho um daqueles serviços meus fora da escola que pode te dar uma grana boa.

Quanto?

Dez mil. Seis mil se topar queimar o peito, mais quatro se tudo der certo.

Se quisessem, eu podia queimar sem matar, como fiz com o Meirinho.

Tu não matou ele porque não quis?

Claro que não. Se tivesse errado cinco tiros com o cara ali tão perto tinha guardado o último pra mim mesmo. Quem o senhor quer que eu mate?

O vice do teu candidato.

Porra, gente grande. O vice? Caralho. Pra quando?

O quanto antes. Daqui a sete dias, no máximo. Consegue?


A terceira confluência demoníaca

Consigo. Esse cara aí, o vice, passa todo dia pelo cruzamento onde fico pulando igual a um corno. Ele é tipo um fiscal-chefe que verifica se tudo tá indo certo.

Então fechou. Só me responde mais uma coisa.

Pode perguntar.

Por que tu aceitou um emprego ridículo desse?

Porque preciso acumular raiva de todas as coisas pra descarregar com gosto e então não sentir mais nada. Nem raiva nem arrependimento. Coisa alguma.


Vigia sorriu, reconhecido. Pediu que Eudes voltasse na noite seguinte até a Escola Estadual Vera Mendonça seguinte para acertar os detalhes e pegar o revólver e o dinheiro.

Eudes disse à mãe que passaria o final de semana fora porque a campanha estava indo tão bem que o chamaram para dar um reforço ao partido no interior. A mãe sorriu. Ainda mais quando Eudes pousou na sua mão, quase sem contato da luz, mil reais em forma de onças estalantes. Eles pagam bem, mãe.


Preparativos para o sábado

No dia seguinte, quinta, Eudes não tinha mais muito de físico a planejar: todo o resto era repassado dentro de sua cabeça fria. Os braços queimados de sol, as mãos com pigmentação desproporcional por causa das luvas. O rosto ainda ardendo de tanto que esfregara para sair a tinta vermelha. As mãos lavadas com sabonete e critério para tirar o cheiro de óleo do revólver.

A moto e o celular foram favores fáceis depois dos seis balaços no peito do marginalzinho, agora morando em outro bairro e com o tórax cheio de marcas de retalhos feitos pelos profissionais do SUS. O principal seria lidar com o medo do fracasso, do azar, da morte ou, pior, da captura. No mais, estava pronto.

Na noite da véspera, sexta, esperou a namorada na saída da Escola Estadual Vera Mendonça. Vigia abriu o portão e fez um sinal de positivo para Eudes no outro lado da rua. Os alunos saíram naquela animação sem sentido reforçada pela euforia da sexta e pela despreocupação com a segurança. Vagabundos erravam a porta da Escola Estadual Vera Mendonça porque conheciam a boa fama do Vigia.


Karla

perguntou onde ele conseguira a moto. Comprei, ora. Acha que eu trabalho pra quê? Nem placa tem ainda, ela disse. A placa demora, mas pra andar aqui pelo bairro não tem problema. Quer ou não quer estrear ela?, Eudes perguntou. Karla sorriu, subiu na moto e fez os braços em cinto.

No quarto de Eudes o carinho gradualmente cede lugar ao ímpeto consentido. Eudes pensa em um vazio sendo demolido enquanto ouve os suspiros longínquos, cada vez mais fortes, até sentir o real de volta, o corpo de Karla sob, sobre agora, quando a calma volta na forma de um vazio diferente, pleno e silencioso, construído na forma de uma estrutura orgânica composta pelos corpos que se enlaçam como plantas.

Que desespero foi esse?, Karla pergunta, fêmea satisfeita, sem saber que também compartilhou a cama estreita com o medo da morte e da perda da liberdade. Existe uma espécie de crueldade maternal nas mulheres quando vêem o amante numa preocupação silenciosa. Algo que só passa quando o motivo, real ou inventado, vem à tona.


Sábado de manhã

Os integrantes da campanha sob o semáforo reuniam-se antes das sete da manhã para receberem as diretrizes ridículas do fiscal da equipe. Ninguém possuía ficha de identificação ou algo do gênero; a única obrigação era aparecer e não ir embora antes do tempo. Se alguém não aparecesse no dia seguinte, paciência, logo se arranjava outro. Os integrantes, constrangidos pelo emprego indigente, mal se falavam.

Isso tornaria o desaparecimento de Eudes muito mais fácil. Isso e a sua cara de nada, sua cara comum, de quem ignora de onde veio boa parte dos seus traços porque nunca teve qualquer contato físico ou pictórico com uma figura paterna. Curioso é que não fazia falta.

Sem vínculos de identificação, sem traços marcantes e, ainda por cima, com o rosto besuntado por tinta vermelha. Só precisaria aguardar o celular vibrar dentro do bolso: o sinal do Vigia indicando liberdade de ação. Eudes desistiu de contar as confluências demoníacas quando o fiscal falou que o vice-candidato passaria por lá à tarde: Vamo caprichar, vamo se agitar pra ele se empolgar com a gente!

Depois de tudo feito, partiria na moto emprestada, encostada na sombra da calçada, apontada para o sentido da fuga.


Sábado à tarde

Os boyzinhos tiravam sarro, as crianças acenavam e vários outros motoristas ficavam constrangidos enquanto Eudes e o outro número gigante balançavam os braços e saltitavam sobre a faixa de pedestres. Duas horas da tarde e nada. O celular dentro do bolso do jeans, ao lado do canivete. O revólver pronto, engastado na cintura.

Três horas. Quatro horas. Não acredito que essa porra não vai dar certo, Eudes pensou, com a adrenalina o ajudando a não ficar exausto como ficava sempre ao final do dia.

Olha ele lá, ele tá vindo!, berrou o fiscal quando viu a picape gigante se aproximando.

Enquanto saltitava, Eudes ouviu barulho de sirenes. O engarrafamento da encruzilhada de semáforos agitou-se com os carros de polícia tentando abrir caminho no sentido Centro-bairro. Os motoristas, incompetentes em sua maioria, não conseguiam abrir espaço. Um cruzamento engoliu o outro e as sirenes quase foram encobertas pelo som raivoso das buzinas. A encruzilhada ficou entulhada, os carros trançados, um mosaico barulhento. O vice-candidato preso, a cinqüenta metros de Eudes que sabia, certamente e por instinto, que aqueles policiais perseguiam o fato desencadeado por Vigia.

A preocupação quanto a ação de Vigia ter tido ou não sucesso se dissipou quando o celular vibrou dentro do bolso como um enorme inseto raivoso. Eudes, na calçada, tomado por sua súbita calma característica, começou a descalçar os sapatos, as luvas e, com as mãos livres dentro do grande 8, empunhou com a mão direita o canivete e com a esquerda o revólver, aguardando dentro do pequeno inferno vermelho o momento exato da ação.

Os carros de polícia finalmente se desvencilharam do cruzamento engarrafado e partiram em disparada para o sentido dos bairros. O vice-candidato parou o carro no acostamento. Ninguém pareceu perceber que um dos números, o 8, encostado na calçada, tinha uma de suas faces sorridentes cortada de cima a baixo.


O selvagem

Ao ver o carro, o fiscal do grupo formou em sua cabeça de poucas idéias a frase: O homem chegou! Vamo mostrar serviço, pessoal!, mas não chegou a cuspi-la no ar: o movimento de pescoço, já enrijecido pelo tom imperativo com que sempre se dirigia aos demais, foi interrompido, de súbito, por uma coronhada perto da têmpora. Desmaiou.

O vice-candidato, atônito, recebe a notícia da fatalidade pelo telefone celular quando ouve o barulho de um salto sobre o capô da picape gigante refrigerada. Um selvagem, de rosto vermelho e expressão fria, o observa. O susto não se processa plenamente, não dá lugar ao pânico: O selvagem aponta o revólver e efetua, em intervalos curtos e regulares, cinco disparos sobre o peito. O sexto, último, levemente mais cuidadoso, é entregue na testa.

O selvagem se ergue e respira fundo, descalço e desgrenhado, com o rosto vermelho impassível enquanto observa o engarrafamento paralisado com os barulhos dos disparos. Integrantes da equipe, motoristas, transeuntes, unidos pelo medo, todos, olham aterrorizados para o seu rosto vermelho inexpressivo e para o revólver fumegante, mais quente que o asfalto.

O ouvidos de Eudes se fecham. Ele corre para a moto e parte em disparada. O capacete deixa à mostra apenas os olhos de demônio enquanto ele costura os carros. Duzentos metros à frente está fora da via principal, em pouco mais de quinhentos metros está no bairro paralelo, na oficina do amigo, dono da moto. O mesmo que dá um salto de susto quando vê o rosto vermelho derretido.

Deixa a moto comigo. Vou transformar ela em outra, diz o amigo.


No pátio

Vigia dissera que o esperaria no portão da Escola Estadual Vera Mendonça quando fosse uma da madrugada. Eudes apareceu, recomposto, com as roupas que deixara na oficina. Ficou feliz em ver Vigia com as chaves (e as facas ocultas) de sempre, como se nada houvesse acontecido.

Destruiu o telefone, garoto?

Destruí. Foi complicado o seu lado?

Mais do que devia. Mesmo assim consegui chegar na escola no horário. Vou te mostrar onde tu vai ficar até segunda-feira. Entra.


A escola vazia possuía aspecto estranho. As portas das salas entreabertas, deixando escapar o cheiro de giz e das carteiras vazias. O depósito ficava nos fundos, após um portão paralelo e, dentro do depósito, outra divisória paralela guardava uma cama e alguns pertences do Vigia: um rádio, uma lanterna, pilhas de livros. Eudes entrou, Vigia saiu e trancou a porta.


Jornal de domingo

A porta foi aberta somente domingo à noite. Vigia trouxe mais alguma comida e o jornal. “Tragédia política”, dizia a manchete, e todo um caderno fora dedicado aos fatos e à trajetória dos dois candidatos, principal e vice, mortos. Se existisse a possibilidade absurda de ressurreição, certamente a candidatura dos dois seria impugnada por excesso de propaganda política póstuma.

Apesar de tantas explanações e entrevistas, o fato é que ninguém conseguia ao menos ter idéia de quem seriam os assassinos. A suspeita quanto aos possíveis mandantes recaiu, obviamente, sobre os dois outros principais concorrentes ao cargo. Algo totalmente injusto, segundo Vigia.

Os dois candidatos sobreviventes uniram-se no medo e passaram não mais aparecer em público, muito menos se jogarem nos braços do povo após o estranhíssimo assassinato do candidato principal em uma dessas caminhadas demagogas e suarentas. Outra história.

A polícia redobrara seus meios investigativos, tanto na direção do mandante quanto na dos executantes, assassinos profissionais que, certamente, estariam escondidos no interior do Estado. Na ânsia de suprir as cobranças da imprensa, a polícia conseguira até mesmo arrumar dois retratos falados: dois homens de meia-idade, de traços marcantes e expressão raivosa. Totalmente díspares da aparência neutra de Vigia e Eudes. Por falta de informação ou por constrangimento, o rosto do "número-assassino" (uma das muitas alcunhas ridículas boladas pela imprensa) não fora pintado de vermelho.

Vigia olha o livro ao lado de Eudes. Tinha ciúmes deles, dos seus livros. Comprara todos.

Amanhã de manhã cedo tu volta pra casa.

Tranqüilo. Já tenho passada e repassada a história.

Ficou com medo?

Da coisa toda, não. Só tive um medo estranho que agora me dá até vergonha.

Teve medo que eu te matasse pra te apagar e ficar com o teu dinheiro?

Isso.

É um medo normal. Instinto. Eu te mataria sem problemas se achasse que tu daria com a língua nos dentes, mas sei que tu jamais fará isso.

Sabe como?

Porque tu parece comigo. É dessa raça sem nome que por uma série de cruzamentos acidentais terminou em uma ponta que não tem medo da morte e que, ao mesmo tempo que se sente vazio, tem um instinto de sobrevivência imenso. Que mata pelos seus e pela raiva das coisas injustas do mundo, tudo ao mesmo tempo. Teve pena? Se arrependeu?

Não.

É disso que falo. Sempre teve gente desse tipo, assim como a gente. Quem tá em cima não enxerga e acha a gente fraco, burro, preguiçoso, esquecendo o sangue de gente selvagem e estranha que ainda corre aqui dentro. A gente é apenas o fio condutor para que eles lá em cima destruam uns aos outros porque eles sempre vão destruir uns aos outros porque assim é que segue a história do mundo.


A humilhação para o caboclo é como o cautério, tem a força da vergastada. E como os grandes rios da sua terra, que têm capacidade para comportar grandes massas d´água, mas que um dia, dada a impetuosidade da enchente, fazem transbordar essa água — assim ele pode suportar anos e anos de sofrimento, anos e anos de humilhação, anos e anos de martírio, porém, em dado momento, tal como as aluviões, o seu ódio extravasado é capaz de derrubar as maiores barreiras e levam tudo de vencida. É questão de circunstância”, Eudes leu.

Isso. Vejo que tu começou pelo livro certo. Não esquece dos detalhes depois.

Não esqueço.


Eudes, que nunca esquecia nada, voltou ao livro. Chegou em casa antes da alvorada. Fazia o frio efêmero de início do dia que sempre ilude os manauaras antes do calor implacável.

Na sala já havia vida, mãe, luz fraca incandescente, cheiro de café.

Entrou e trancou a porta.





27.5.09

Cassie contra o Mal






























Todo leitor que se preze, por mais atribulado com afazeres menos importantes do que a leitura, mais as leituras mais importantes, mais as leituras chatas e necessárias; em suma, todas as coisas que exigem ser lidas, deve dedicar um tempo às leituras ruins e divertidas.


Minha leitura boba e ruim preferida é Hack Slash: um quadrinho norteamericano que tem como protagonista uma teenager matadora de slashers.


Cassie Hack caça slashers, aqueles assassinos mortos-vivos que nunca morrem porque têm um ódio irracional. Algo como o Jason, ou o Chucky ou o Mike Myers e o Freddy Krueger.


E isso é tudo. Todo o argumento. E nada melhor do que um argumento simples acrescido de todos, digo, todos os elementos dessa cultura underground que faz parte da vida de todas as pessoas que dignaram algumas horas da vida a ver um filme sem sentido protagonizado por um serial killer sobrenatural que nunca morre ou, quando morre, ressuscita de forma ainda mais absurda.


Além do argumento ruim, várias coisas me fazem gostar das histórias protagonizadas por Cassie Hack, ela própria filha duma serial-killer e que, para exorcizar a infância traumática, percorre todos os Estados Unidos da América: O bom humor, a leveza, mesmo em meio a tanto sangue, o traço que me lembra as saudosas Penthouse Comics, mas sem nada original; apenas as tramas que seguem a mesma linha de pensamento da falsa mitologia moderna: juntar tudo de todas as coisas já criadas para, no final, conseguir um resultado medíocre.


Se fosse um livro Hack Slash seria, realmente, uma porcaria ofensiva. Mas não o é porque é desenhado. Porque podemos ver Cassie em enquadramentos generosos enquanto destroça zumbis ou foge dum inferno composto por capetas lovecraftianos para, em seguida, combater roqueiros com almas perdidas e, na mesma história, divagar sobre sua ambiguidade sexual. Tudo e nada ao mesmo tempo.


Sem sequelas, apenas diversão para quem se interessa por essa temática que brinca com um imaginário bobo sobrenatural sem início nem fim. Algo que, assim como um machado entrando no ombro dum morto-vivo, não dói. E, com certo esforço, é até bom.


19.5.09

Aquiesce?

wilco
























Will comply?


Essa expressãozinha de comunicação entre rádios é espremida numa outra: wilco.



E o Wilco, maiúsculo, é uma das melhores bandas da atualidade porque compacta tudo o que o rock norte-americano tem de melhor: country, blues e todos aqueles elementos que resenhistas ranhetas usam para tentar genealizar o som duma banda para mostrarem o quanto supostamente entendem de música mesmo sem conseguirem tocar guitarra-base e tragar ao mesmo tempo.


Mas você, companheiro, sabe que aqui resenha não tem vez. Resenha é uma droga. É parcial, descritiva demais. Quem conhece discorda e quem não conhece fica voando. Sendo assim, falar o quê?


Ajuda falar que Wilco (the álbum), é excelente e é bom ouvi-lo muitas e muitas vezes. Eles são bons que assusta e ficam melhores a cada álbum.


Porque tudo está contido no som da banda. Aquelas camadas. Referências daqui e dali que, como boa ponta de obra, possui as sonoridades de todas as anteriores — Muitas vezes numa única música, como Deeper Down, a qual possui o vocal quase como única linha-guia. Seria uma simplificação absurda comentar as faixas. Melhor é desvendá-las tão parcialmente quanto o possível e criar seu álbum próprio.


E desvendá-las não é assim tão simples. Falo por mim, que até pouco tempo nem gostar da banda gostava e agora sou fã de todos os álbuns: Sky Blue Sky, Summerteeh e outros. O pessoal bradando ao vivo a resposta pra pergunta: Do you still love rock and roll ? feita de forma assustadoramente pacífica por um cara de barba mal feita.


Não só o cara, Jeff Tweedy, mas também os seus companheiros, que conseguiram a façanha de se superarem mais uma vez. Sem alarde. Chegando antes do tempo porque os fãs são ansiosos demais. Querem ouvi-los o quanto antes.


Querem ouvi-los nos shows-celebrações. No som compacto junto aos ouvidos que os fazem sentirem-se elevados mesmo em meio a tanta gente.

Numa noite silenciosa, onde é sábio falar baixo para não acordar toda a rua; não acordar todo o mundo antes do tempo com o barulho dos pés descalços.


Tentem.



13.5.09

Retorno


As pessoas moram ao redor da água. Quando a água desce sobe com a chuva e envolve as pernas os tórax os ombros e por fim as cabeças das pessoas.

As pessoas fogem para os abrigos porque não querem ser enterradas antes do tempo sob uma quantidade desmedida de terra. Não querem ter a morte notória da vítima. Não querem ser objeto do trabalho de coveiro inverso realizado pelos bombeiros.

Não querem ser enterradas com as roupas e os móveis. Junto aos eletrodomésticos. Ao filho no colo. À irmã no corredor.


Melhor sair e deixar para trás as paredes de rude emboço. A água é amiga e descerá da mesma forma que subiu. Mesmo que seja após duzentos e dez dias.

Algumas precisam se esconder no alto da casa. Subir nas cumeeiras para evitar o roubo dos cômodos afogados. Protegê-los dos ratos que cresceram e tomaram o leme do navio, o remo das canoas — Os inferiores entre os inferiores que aproveitam a adversidade para roubar e obter prazeres e privilégios sujos.


E o que fazer com essa gente, com esses sobreviventes de naufrágio? O que fazer com essas cidades afogadas completamente?

Oitenta e sete por cento, conforme vemos no telejornal enquanto descansamos do trabalho, enquanto comemos o almoço e a janta. Condoemo-nos, mesmo sem sabermos exatamente quanto é oitenta e sete por cento de uma cidade desconhecida do interior do Estado do Amazonas.

Mudamos de canal para não vermos mais uma vez o espetáculo de descontrole desse mundo velho e desregulado habitado por criaturas cujo maior pecado é acharem ser o mundo apenas paisagem. Por o acharem amigo e seguro — e não essa estrutura exagerada e eterna que, pensada ou absurda, é uma caixa de acidentes.

Clima. Doenças. Mais rochas do que gente. Mais insetos do que gente. Mais vírus do que gente com uma máscara ridícula sobre uma cara assustada que também desconhece os ardis da microscopia. As fotos dos microorganismos que habitam a nossa pele e o nosso corpo. Que entram na gente através do ar e nos transformam em universos ambulantes. Melhor não ver.


O consolo é que, mais dia menos dia, as pessoas domam a hostilidade burra do globo. Matam os insetos. Erradicam os vírus. Comem os animais. Encarceram os ladrões. Prendem as plantas com cercas.

O diabo é que essas mesmas pessoas se esquecem do globo: Após alguns dias de sol, com fé e um sorriso suado no rosto, constroem as casas no mesmo lugar, exatamente como os vírus despejados se rearmam num lugar escuro e esperam voltar a viver dentro delas.

O diabo é que elas esfregam as paredes sujas e pregam novamente sobre a porta novos cartazes políticos sobre os outros descascados pela chuva; da mesma forma que o topo do barranco se disfarça com uma nova camada amigável de grama.


Surge então uma terrível trégua momentânea.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...