13.5.09

Retorno


As pessoas moram ao redor da água. Quando a água desce sobe com a chuva e envolve as pernas os tórax os ombros e por fim as cabeças das pessoas.

As pessoas fogem para os abrigos porque não querem ser enterradas antes do tempo sob uma quantidade desmedida de terra. Não querem ter a morte notória da vítima. Não querem ser objeto do trabalho de coveiro inverso realizado pelos bombeiros.

Não querem ser enterradas com as roupas e os móveis. Junto aos eletrodomésticos. Ao filho no colo. À irmã no corredor.


Melhor sair e deixar para trás as paredes de rude emboço. A água é amiga e descerá da mesma forma que subiu. Mesmo que seja após duzentos e dez dias.

Algumas precisam se esconder no alto da casa. Subir nas cumeeiras para evitar o roubo dos cômodos afogados. Protegê-los dos ratos que cresceram e tomaram o leme do navio, o remo das canoas — Os inferiores entre os inferiores que aproveitam a adversidade para roubar e obter prazeres e privilégios sujos.


E o que fazer com essa gente, com esses sobreviventes de naufrágio? O que fazer com essas cidades afogadas completamente?

Oitenta e sete por cento, conforme vemos no telejornal enquanto descansamos do trabalho, enquanto comemos o almoço e a janta. Condoemo-nos, mesmo sem sabermos exatamente quanto é oitenta e sete por cento de uma cidade desconhecida do interior do Estado do Amazonas.

Mudamos de canal para não vermos mais uma vez o espetáculo de descontrole desse mundo velho e desregulado habitado por criaturas cujo maior pecado é acharem ser o mundo apenas paisagem. Por o acharem amigo e seguro — e não essa estrutura exagerada e eterna que, pensada ou absurda, é uma caixa de acidentes.

Clima. Doenças. Mais rochas do que gente. Mais insetos do que gente. Mais vírus do que gente com uma máscara ridícula sobre uma cara assustada que também desconhece os ardis da microscopia. As fotos dos microorganismos que habitam a nossa pele e o nosso corpo. Que entram na gente através do ar e nos transformam em universos ambulantes. Melhor não ver.


O consolo é que, mais dia menos dia, as pessoas domam a hostilidade burra do globo. Matam os insetos. Erradicam os vírus. Comem os animais. Encarceram os ladrões. Prendem as plantas com cercas.

O diabo é que essas mesmas pessoas se esquecem do globo: Após alguns dias de sol, com fé e um sorriso suado no rosto, constroem as casas no mesmo lugar, exatamente como os vírus despejados se rearmam num lugar escuro e esperam voltar a viver dentro delas.

O diabo é que elas esfregam as paredes sujas e pregam novamente sobre a porta novos cartazes políticos sobre os outros descascados pela chuva; da mesma forma que o topo do barranco se disfarça com uma nova camada amigável de grama.


Surge então uma terrível trégua momentânea.


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