29.7.09

Perfumaria


Parto provisoriamente. Gosto de andar pela vizinhança, tanto a minha quanto a de Josephinne. Preciso comprar coisas. Mercado: coca-cola, cerveja, pão e arroz doce. Drogaria: preservativos.

Os fármacos. A palavra farmácia vem caindo em desuso crescente. Não sei absolutamente nada de química, mas sinto certo fascínio pela possibilidade da cura de diversos males através da mistura de elementos em um tubo de ensaio. Agora não existem mais tubos à mostra e os emplastros assumiram quase uma função mística. O farmacêutico, figura a princípio indispensável para a legalidade do negócio, assumiu uma aura meio Oz: sabemos que ele está lá, mas nunca o vimos — Em seu lugar estão sujeitos limpos, bem penteados e leigos a qualquer hora do dia.

Eles não são necessários quando vamos comprar preservativos. Podemos ir direto ao caixa: esta não tão bem humorada, com uma imensa gama cromática de marcas e modelos às suas costas. Uma triste atravessadora do ato sexual. Percebem quão grave se tornaram os tempos? Entre você e a sua amante é necessária uma atravessadora, e é necessário dinheiro, para que você não tenha complicações póstumas.

Ilustrando tais complicações está a mulher à minha frente. Cansada, ela tenta demover a filha (simiesca e minúscula) da idéia de comprar jujubas. A criança começa a chorar um choro seco e mimado. A mãe a ignora enquanto conversa com a caixa sobre pontos no cartão da drogaria.

Lembro do cartão de fidelidade. Mais um artifício dificultador da compra. É preciso dar o CPF para comprar uma cartela de analgésicos porque você pode tirar com isso uma ridícula vantagem monetária. Terrível. Acho curiosa a idéia do nome “cartão de fidelidade”. Alguém te faz a pergunta indiscreta: Você é fiel? E você responde lógico! Duvida? Olha aqui o meu cartão de fidelidade com 125 pontos.

Minha vez: eu queria essa aqui. Não, essa não, aquela ali. Isso, a do pacote azul. A do espermicida. A com veneno dentro. Óbvio que não pronunciei as duas últimas frases, e sim esta: Posso usar o cartão de fidelidade?

Sim, pode. Mas agora o cartão de fidelidade não pode mais ser usado para comprar remédios. Só pode ser usado para perfumaria ou conveniência.

E isso (os preservativos finalmente à mão) é conveniência?

Não. É perfumaria.

28.7.09

Peso



E tudo o que restou foi o peso. Na verdade a ilusão do. O lado do colchão esperando o peso do corpo. O travesseiro esperando a inusitada função negativa de exercer o peso confortável sobre o rosto. A cerâmica sob o chuveiro rangendo sob o peso dos pés molhados. A cerâmica inerte escapando sob a estrutura das mãos e das costas apoiadas sobre. O assento da cadeira marcado pelo peso do tronco. A grama marcada pelos passos e as formigas assassinadas involuntariamente carregadas pelas formigas reminiscentes. Os espaços vazios reclamam assim como reclamam os objetos e os móveis sem exigência. O sofá vazio no meio, aguardando repousar o corpo como que a vítima de um acidente seriada por espasmos lentos.




Acorda. Move-se lentamente e tenta abraçá-la. Não o deixa. Ainda sobre a cama tenta um último contato débil tentando se assegurar daquela realidade. Suas digitais sentem certa repulsa. Desiste. Uma a uma, despe as cruzetas multicoloridas. Dobra as roupas por critério cromático. Negras. Vermelhas. Azuis. Brancas. O uniforme. O rosto não apresenta desordem de sono. Não dormiu. Experimenta certo calor no rosto enquanto caminha em direção à saída: Uma cerca presa por uma corda. O mesmo carro passa sobre a mesma hora: Um astro automotor andando em círculos planos e exatos. Branco. O pára com um gesto simples. O automóvel é frio por dentro. Vê do lado de fora o portão entreaberto e torto ameaçado por uma colméia crescente. Parte.

26.7.09

Remarcações

Nós esperamos ansiosamente por shows internacionais que nunca vêm e quando parecem vir, mesmo já anunciados, acontece algo no sentido de cancelá-lo. Soube do cancelamento do mais recente e interessante enquanto estava na fila da farmácia.

Nunca viajei somente para ir a um show. Já fiz planos que na hora não deram certo Placebo em Brasília e Weezer em Curitiba e alguns outros (Radiohead em São Paulo) simplesmente não me comoveram o suficiente para voar até lá e aqui novamente.

A única banda gringa que vi até hoje foram os
White Stripes. Sendo que não foi bem um show, e sim algo como uma apresentação planejada para ser atípica. Claro que já vieram outras bandas gringas, de Iron Maiden a Ben Harper, mas estavam bem longe do meu campo de interesse.

Recentemente, foi o Depeche Mode quem anunciou a vinda ao Brasil, com datas e lugares, tudo organizado, e desmarcou tempos depois. Eu não iria, mas a minha garota iria e um sentimento de transferência assim meio Silvio Santos me faria achar legal porque gosto da banda e gostaria da idéia dela assistir ao show. Gosto bastante do Depeche Mode apesar de ser a banda preferida de um tio idiota e, apesar de detestar alguns sujeitos do estado do Rio de Janeiro, não faria mal algum minha garota sentir um pouco de frio e medo eufórico quando ouvisse
Behind the Wheel. Seria bom.

Mas não será. Soube da notícia enquanto estava comprando chazinhos de paracetamol. Li na tv muda passando notícias constantes do IG. Quando voltei ao carro entreguei a ela os remédios e a má nova. Depois do descrétido habitual, ela começou a assimilar a notícia e hoje acredita de forma resignada.

Quanto a mim, até poucos dias estava preocupado com a possibilidade do Wilco voltar a tocar no Brasil. As pessoas mais próximas a mim sabem que um dia eu acordei mais velho e passei a gostar da banda pra valer. Sendo assim, um show no meião do segundo semestre seria um problema porque eu poderia sofrer de duas formas diferentes: 1) complicações profissionais e, consequentemente, financeiras, pelo fato de pegar o 316 e ir em direção à banda ou; 2) sofrer sofrimento mesmo porque mais uma vez um grande show ficaria para trás.

Mas nada disso acontecerá. Ao menos não por enquanto: Dei uma olhada no site oficial da banda e vi que neste segundo semestre eles começarão tocando em Oslo, voltarão para o novo mundo, sairão novamente, e darão o último acorde, coletivo e barulhento, em Amsterdam, no clube Paradiso.

Que bom. Assim terei tempo para entender um pouco mais os álbuns que faltam, ficar um pouco mais velho e comprar a camisa ilustrativa deste post direto na banquinha do show, sem automóveis intermediários, negociando com uma garota de chicago.

Pensando bem, apesar de estranha, esta foi a grande colaboração de Jack and Meg White: ao menos em relação a shows de rock and roll, nada é impossível.


20.7.09

A Generosidade dos Estranhos


Stella

As pálpebras acordam antes de tudo. Debatem-se. Algo como uma porta tirando o resto do corpo da crisálida do sono. A saída dolorosa para o dia claro e novo. O namorado não está mais em casa. Apenas seus cheiros, vestígios, o café arrumado sobre a mesa.

Crianças pulam pelo corredor do ônibus, brincam salteando cadeiras. Crianças menores se debatem entre os colos das mães. Enquanto desce, crianças entrando pela porta da saída esbarram em seu corpo. Gosta, ama algumas mais próximas. Entretanto morre de medo de ser a porta para uma.

Prende o avental. Existe ali certo cheiro dela mesma. Isso torna o traje um pouco menos alheio. Prende os cabelos com fivelas extra. Serve as mesas. Pousa os pratos fumegantes. Marca o boleto das bebidas: Números óbvios e subsequentes de um bingo que não ganhará nunca. Uma. Duas. Dez. Às vezes confunde as marcas e as mesas. Não se envergonha por isso. As pessoas se parecem.

Nos intervalos, refugia-se na salinha de descanso. Come balas. Acende um cigarro. Observa as apostilas mastigadas pela bolsa entreaberta. Toda semana jura para si própria que começará a estudá-las. Os malditos concursos. Os editais surgidos perto demais para ter dinheiro e confiança na resolução duma prova de todo um domingo. A colega mais velha põe o rosto pela porta entreaberta. Sempre a deixa cinco minutos a mais no descanso. Simpática, representa um futuro incomodamente previsível. Devolve o sorriso, apaga o cigarro e retorna às mesas.


Gilberto

Lê-se nas costas de sua camisa pólo: Posso ajudar? E à frente, mais acima, lê-se no rosto um bandeide cruzando horizontalmente o nariz, protegendo o corte aberto. Uma ferida de quebrado no lábio superior. Um corte numa das maçãs. O olho esquerdo possui vermelhidão de tempestade interna e a olheira roxa de um insone por duas semanas ininterruptas.

O olho direito descansa e observa com fingido descaso os olhares incomodados pela falta de ordinariedade do rosto. As expressões secretamente fascinadas pelas marcas das brigas. Gente que nunca saiu no braço, nunca fez um gol de placa, nunca gozou duas vezes seguidas sem tirar de dentro. Ele fez tudo isso. Algumas mais de uma vez. Mais ganhar uma travessia a nado. Mais ganhar uma competição infanto-juvenil de xadrez. E nem por isso engrenou na vida: Tem que sair no braço com idiotas para enganar os três salários recebidos com o trabalho do dia.

Um bêbado aproximou-se e balançou o seu queixo como se ele fosse criança: Coisinha linda com essa camisa pólo! Os olhos injetados, procurando briga. Ele rebateu a mão desrespeitosa e recebeu como troco um murro no olho esquerdo. Antes de receber outro murro, pulou sobre o bêbado. Esmurrou-lhe duas vezes. Pisou-lhe o pescoço e a barriga. Uma coronhada anônima surgiu por trás e lhe rasgou um pedaço do rosto. Aproveitou o desequilíbrio do golpe e viu o novo sujeito. Idiotas valentões nunca andam sozinhos. Nunca. Deu outro chute, dessa vez no revolver à frente. A valentia do agressor desapareceu de súbito, como se estivesse nu, e sua surpresa continuou quando levou um chute no peito. O outro bêbado, pavimento, já desacordara antes do golpe. Finalmente surgiram os colegas.

Com os cortes recém-nascidos, brotando como plantas, acendeu um cigarro. A música voltou a tocar. Não recebeu nada em troca além da dispensa no outro final de semana. É assim que acontece: A música pára por alguns momentos, uma tragédia acontece, e depois ela volta a tocar como se nada houvesse acontecido.


Dário

No final das contas, tudo se resume a ajudar os outros com dúvidas gramaticais. Todas as linguísticas, todas as literaturas e matérias adjacentes ficam ofuscadas quando se disseca uma oração complexa através daquela maldita árvore estruturalista.

Sempre diz ser a gramática para os estudantes de Letras como a Bíblia para um pastor: indispensável; mas nem pensar em tentar entender, ou pior, seguir tudo o que está ali. Impossível. Ao menos o pastor possui a vantagem de não se preocupar com novíssimas atualizações do seu livro sagrado e não corre o risco de ver o selinho infame “atualizada com a nova ortografia” porque Deus é maior do que tudo isso.

Pior do que os leigos são os contestantes. As pessoas que têm dúvidas e não acreditam na solução que surge. Dia desses foi a namorada duvidando de uma frase, contígua e adversativa, ser iniciada por entretanto. Acredita em mim, pode sim. E qual é a regra que diz isso?: a expressão duvidosa de alguém suspeitando dum blefe; de alguém que não tem certeza do que está falando e tenta salvaguardar o seu diploma magro de licenciatura. Eu não sei qual é a regra. Eu apenas sei.

Não adianta dizer ser a gramática uma repetição formal do que foi dito pelos caras que realmente escreveram de verdade. Os escritores mandam na escrita e quando eles mudam, todos os livros mudam e a gramática precisa mudar também. E com ela toda a formatação das teses futuras dos acadêmicos anônimos que esguicham textos sobre a sombra dos objetos cênicos em contraste com os personagens coadjuvantes das novelas não publicadas de Aluísio Azevedo.

E o entretanto? Revisitando Brás Cubas com o auxílio da tecla F5 encontra uma bela meia-dúzia deles, entre os quais:

O caso dos meus amores andava mais público do que eu podia supor. Entretanto sorri, um sorriso curto, fugitivo e guloso, — palreiro como as pegas de Sintra.


Lígia

O começo da vida adulta é comprovado pela aura de afazeres que afasta as pessoas: Deixou de encontrar as três amigas por quase dois meses. Entretanto existem as confluências e agora estão reunidas, mais o marido de uma. Conversam amenidades porque é o que a falta de convívio permite de imediato.

Pede uma bebida e é acompanhada de forma tímida apenas por duas das amigas. Antes de pedir a primeira garrafa, já ouvira de antemão um neo-discurso de uma delas: sem álcool obnublante, apenas neo-meditação, neo-vegetarianismo e a velha maconha de sempre pelo menos uma vez por semana.

O casal tenta acompanhá-la mas não está muito a fim de beber como bebera antes. O amortecimento manso e saudável do casamento. Os golezinhos curtos e tímidos, como quem acompanha uma dança seguindo apenas os dois mais dois regulamentares. Resta uma, menos mal. Apesar de tudo, conversam. A garçonete marca mais um risco sobre o boleto das cervejas e dá um sorriso amistoso como o de quem gostaria de estar ali com ela, conversando, e não apenas ouvindo pontas.

O clima de amenidade aos poucos e progressivamente rui quando uma delas, a casada, lança o desafio: Você já tentou se divertir sem estar bebendo? Como assim? Assim, sem precisar de cerveja. Ué, claro que posso. Então vou te fazer uma proposta: você passar uma noite agradável, vendo filmes, jogando pôquer amador ou fazendo qualquer atividade lúdica, light, sem que para isso necessite estar virando uma garrafa atrás da outra. E qual o objetivo disso? Qual o objetivo? Provar que você não precisa do vício para se divertir! Provar que uma noite pode ser agradável sem que para isso você necessite do vício para se estragar no dia seguinte!

O colo, até então curvado sobre a mesa, se retrai e se apóia no encosto da cadeira. Tenta falar algo. Acende um cigarro e uma cinza de surpresa cai sobre o peito. Pensa em algo que constrangesse os olhares semelhantes aos dos ex-assassinos agora convertidos à religião evangélica. Ou os de elementos duma intervenção sobre uma amante de doces dentro de uma loja de doces à qual foi convidada por eles para comer doces. Eles a julgam em dúvida. Rejulgam.

Pensa em respostas, argumentos. Eles surgem na cabeça, obnublada porém pensante, arguta. Entretanto tais são pontuados por agressividade. Lembranças nas quais ela era mais sóbria e nem por isso... Impossível não pensar no protagonista de O Inimigo, de Rubem Fonseca. Poderia xingá-las com intimidade, mas constata algo terrível: são estranhas. E tal ato seria absurdo como xingar um estranho na rua ou ocupantes duma mesa na qual sentara por engano.

Outros argumentos da mulher surgem, porém não chegam mais aos ouvidos. A neo-compreensiva a observa com uma débil expressão pacífica. Omisso ao problema que não é dele, o marido continua seus goles curtos e silenciosos. A companheira de copo pousa o objeto, fingindo controle, e também a observa. Silenciosamente exigem uma resposta, um aceito, ou a já tradicional agressividade verbal que comprovaria os efeitos nocivos do álcool.

Prefere guardá-la, pulsante e vermelha, e enfrentar uma dor de estômago no dia seguinte. Entretanto, ainda existe um meio-termo entre a intimidade e a estranheza: olhando de um a um, os manda calar a boca. Assustados, aquiescem. O assunto, todos, morrem.


19.7.09

ABC

Sempre amei Paulina. Numa das minhas primeiras lembranças, Paulina e eu estamos ocultos numa obscura pracinha cercada de loureiros, num jardim com leões de pedra. Paulina me disse: "Gosto do azul, gosto das uvas, gosto do gelo, gosto das rosas, gosto dos cavalos brancos". Compreendi que minha felicidade havia começado, porque nessas preferências podia me identificar com Paulina. Nós nos parecíamos tão milagrosamente que, num livro sobre a reunião final das almas na alma do mundo, minha amiga escreveu na margem: As nossas já se reuniram. "Nossas", naquele tempo, significava a dela e a minha.

(CASARES, Adolfo Bioy. Em Memória de Paulina. In: Histórias fantásticas. Cosacnaify. Pg 07)


2.7.09

Cromo


O primeiro obstáculo é a sala. Pontuada por objetos, transcrições físicas de memória. É bom desfazer-se deles, fechá-los sob um plástico impermeável e deixá-los pendurados no portão, aguardando pelo caminhão do dia seguinte.


O caminhão segue. Uma família anônima pode estar mobiliando uma nova casa cheia de objetos velhos — minúsculos, mas em quantidade suficiente para preencherem um espaço imenso.

É preciso ter parcimônia. Assim, ao esvaziar uma coisa, mesmo sendo essa coisa uma casa. Apoiar-se sob um dos pares de parafusos da prateleira para, enfim, desengastá-la da parede. Lavar o chão com química. Fazer pilhas sem uso. Rasgar papéis em pequenos pedaços. Despachar os documentos falidos.

Haverá tempo para cada cômodo e esvaziar cada um deles é um pequeno vício saudável. Todos os humanos, sem exceção, são guiados pelo vício. Mesmo os que se vangloriam de não os tê-los. Mesmo os que utilizam técnicas para desvencilharem-se deles, meditando, fazendo coisas saudáveis, verduras e respirações que sejam; acabam viciando-se em desviciarem-se.

É bom começar a esvaziar uma gaveta e subitamente, parar. Interromper a atividade paulatina. Tocar violão. Tirar notas simples desarmoniosas e sentir certa dor nos ossos da mão esquerda. Há uma música, e dentro dela, uma letra recorrente na memória: o inferno é cromo.

Não a estampa colorida — e sim o cromo, elemento químico, liso e limpo, do qual é feito o inferno na música. Um lugar grandioso, polido e agradável. Cheio de edificações imensas e precisas.

Impossível, quando se é afeito a tal, não se sentir pertencido àli. Os amigos com apertos de mão sincrônicos. Uma paisagem sem a possibilidade do medo. O ar quente na medida certa. Terrivelmente agradável. E como o inferno se tornou isso? Simples. Todos os maiores cientistas estão aqui e a ciência pode resolver todas as coisas. Mesmo os maus, mesmo as piores pessoas que chegam aqui encontram a cura através da misericórdia da ciência. Uma misericórdia cega e perfeita: Sobre o leito, um par de ajudantes estica o corpo do monstro recém-chegado e um terceiro lhe aplica remédios à base de cromo. Ele se ergue, agradecido, não mais doente, e nos será infinitamente grato porque nem na terra e nem no céu ele teria tal oportunidade. Suas novas roupas ainda carregam o morno do recém-passado. Na terra reina o descaso. No céu reina a falta de lógica. Ambos aqui são inadmissíveis — A mão de meu novo amigo me toca o ombro com cordialidade. Vamos, ele diz.

Ainda não existe possibilidade para tal inferno perfeito. Apenas iniciações. E contrafeito a elas existe o quarto com a sua força barroca aglomerante. O quarto na penumbra. Sem relógio. Ignorante do tempo contido pela cortina. Esse lugar é o inferno: a boca de cantos perfeitos dando a entender não ser possível sair dali tão fácil. Não, esse lugar não é meu inferno, digo; pelo contrário: o inferno é cromo e não há cromo aqui. Ela diz concordo.

Permutamos. Quando na porta do seu quarto desconhecido ouço a voz feminina dizer entra. A voz ainda gravada nalgum lugar do ouvido. A sala com tacos salientes, velhos como os outros cômodos. Observo: Lençol desfeito, livros sobre a cama. Existem centenas de milhares de letras aqui e ainda assim você dorme. Quê? Nada. Um balbucio perdido. Mas não perco duas das mais raras e perfeitas palavras proferidas pela boca feminina: entra e concordo.

A mulher se debruça em busca dum livro sem título. Um diário-agenda. Mostra um conto: uma narrativa sobre pessoas que por vontade própria não possuem casa. Sua única responsabilidade é cuidar do corpo. Não existe nada que as acomode, as guarde e elas não sofrem porque não conhecem tal possibilidade: esta, a de ter uma casa financiada em três mil vezes, com água, luz, gás, eletricidade e formigas.

Obviamente o enredo se perdeu. Não houve como sustentar tal argumento. Ela abandonou o casal de namorados à noite, numa praça, com duas garrafas de vinho vazias. Nem título teve a narrativa.

O conto faliu porque mesmo em tal realidade alternativa o casal de namorados estava morando na praça quando do exato momento do abandono. Falharam no argumento de sua história falsa porque, assim como o vício, a gente tem a necessidade primordial infinita de morar nalgo.

A necessidade de morar sempre existe. Mesmo quem paira, como um fantasma ridículo, mora no ar. Dentro das cabeças. Apertado no sangue dos pensamentos porque lá é melhor do que o imenso vazio de carne do resto do cérebro.

Eu mesmo estou morando aqui agora, momentaneamente, nesse quarto que até então me era desconhecido e agora é um pouco menos: Esse ar de cheiro novo, esses retratos cheios de coadjuvantes, essas roupas usadas, aglomeradas a ponto de perderem a identidade e confundirem suas funções e suas cores, esses livros sendo aos poucos retirados de sobre a cama.

Eu poderia morar aqui de bom grado, nesse vão negativo perfumado de clavícula, aquecido; e meu céu seria o cabo tenso do sutiã. Sorrimos. O céu desaparece e tudo se faz numa desordem escura, a qual encontra, por si só, o seu sentido: surge um céu cego até então inalcançável. Nunca é o mesmo. Eis o segredo: nunca ser o mesmo. Um abrigo e um desabrigo permutado de forma única.

A gente precisa comer algo. A primeira frase inteligível após uma pilha de horas. Mais uma das milhares de necessidades em série. Comer. Beber. As mãos com unhas cortadas e polidas empunham uma tigela cromada com comida saudável dentro. Senta e diz adorar esses utensílios cromados, inoxidáveis. Por ela, todos os utensílios do gênero seriam feitos da matéria do cromo. A centelha ressurge.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...