O primeiro obstáculo é a sala. Pontuada por objetos, transcrições físicas de memória. É bom desfazer-se deles, fechá-los sob um plástico impermeável e deixá-los pendurados no portão, aguardando pelo caminhão do dia seguinte.
O caminhão segue. Uma família anônima pode estar mobiliando uma nova casa cheia de objetos velhos — minúsculos, mas em quantidade suficiente para preencherem um espaço imenso.
É preciso ter parcimônia. Assim, ao esvaziar uma coisa, mesmo sendo essa coisa uma casa. Apoiar-se sob um dos pares de parafusos da prateleira para, enfim, desengastá-la da parede. Lavar o chão com química. Fazer pilhas sem uso. Rasgar papéis em pequenos pedaços. Despachar os documentos falidos.
Haverá tempo para cada cômodo e esvaziar cada um deles é um pequeno vício saudável. Todos os humanos, sem exceção, são guiados pelo vício. Mesmo os que se vangloriam de não os tê-los. Mesmo os que utilizam técnicas para desvencilharem-se deles, meditando, fazendo coisas saudáveis, verduras e respirações que sejam; acabam viciando-se em desviciarem-se.
É bom começar a esvaziar uma gaveta e subitamente, parar. Interromper a atividade paulatina. Tocar violão. Tirar notas simples desarmoniosas e sentir certa dor nos ossos da mão esquerda. Há uma música, e dentro dela, uma letra recorrente na memória: o inferno é cromo.
Não a estampa colorida — e sim o cromo, elemento químico, liso e limpo, do qual é feito o inferno na música. Um lugar grandioso, polido e agradável. Cheio de edificações imensas e precisas.
Impossível, quando se é afeito a tal, não se sentir pertencido àli. Os amigos com apertos de mão sincrônicos. Uma paisagem sem a possibilidade do medo. O ar quente na medida certa. Terrivelmente agradável. E como o inferno se tornou isso? Simples. Todos os maiores cientistas estão aqui e a ciência pode resolver todas as coisas. Mesmo os maus, mesmo as piores pessoas que chegam aqui encontram a cura através da misericórdia da ciência. Uma misericórdia cega e perfeita: Sobre o leito, um par de ajudantes estica o corpo do monstro recém-chegado e um terceiro lhe aplica remédios à base de cromo. Ele se ergue, agradecido, não mais doente, e nos será infinitamente grato porque nem na terra e nem no céu ele teria tal oportunidade. Suas novas roupas ainda carregam o morno do recém-passado. Na terra reina o descaso. No céu reina a falta de lógica. Ambos aqui são inadmissíveis — A mão de meu novo amigo me toca o ombro com cordialidade. Vamos, ele diz.
Ainda não existe possibilidade para tal inferno perfeito. Apenas iniciações. E contrafeito a elas existe o quarto com a sua força barroca aglomerante. O quarto na penumbra. Sem relógio. Ignorante do tempo contido pela cortina. Esse lugar é o inferno: a boca de cantos perfeitos dando a entender não ser possível sair dali tão fácil. Não, esse lugar não é meu inferno, digo; pelo contrário: o inferno é cromo e não há cromo aqui. Ela diz concordo.
Permutamos. Quando na porta do seu quarto desconhecido ouço a voz feminina dizer entra. A voz ainda gravada nalgum lugar do ouvido. A sala com tacos salientes, velhos como os outros cômodos. Observo: Lençol desfeito, livros sobre a cama. Existem centenas de milhares de letras aqui e ainda assim você dorme. Quê? Nada. Um balbucio perdido. Mas não perco duas das mais raras e perfeitas palavras proferidas pela boca feminina: entra e concordo.
A mulher se debruça em busca dum livro sem título. Um diário-agenda. Mostra um conto: uma narrativa sobre pessoas que por vontade própria não possuem casa. Sua única responsabilidade é cuidar do corpo. Não existe nada que as acomode, as guarde e elas não sofrem porque não conhecem tal possibilidade: esta, a de ter uma casa financiada em três mil vezes, com água, luz, gás, eletricidade e formigas.
Obviamente o enredo se perdeu. Não houve como sustentar tal argumento. Ela abandonou o casal de namorados à noite, numa praça, com duas garrafas de vinho vazias. Nem título teve a narrativa.
O conto faliu porque mesmo em tal realidade alternativa o casal de namorados estava morando na praça quando do exato momento do abandono. Falharam no argumento de sua história falsa porque, assim como o vício, a gente tem a necessidade primordial infinita de morar nalgo.
A necessidade de morar sempre existe. Mesmo quem paira, como um fantasma ridículo, mora no ar. Dentro das cabeças. Apertado no sangue dos pensamentos porque lá é melhor do que o imenso vazio de carne do resto do cérebro.
Eu mesmo estou morando aqui agora, momentaneamente, nesse quarto que até então me era desconhecido e agora é um pouco menos: Esse ar de cheiro novo, esses retratos cheios de coadjuvantes, essas roupas usadas, aglomeradas a ponto de perderem a identidade e confundirem suas funções e suas cores, esses livros sendo aos poucos retirados de sobre a cama.
Eu poderia morar aqui de bom grado, nesse vão negativo perfumado de clavícula, aquecido; e meu céu seria o cabo tenso do sutiã. Sorrimos. O céu desaparece e tudo se faz numa desordem escura, a qual encontra, por si só, o seu sentido: surge um céu cego até então inalcançável. Nunca é o mesmo. Eis o segredo: nunca ser o mesmo. Um abrigo e um desabrigo permutado de forma única.
A gente precisa comer algo. A primeira frase inteligível após uma pilha de horas. Mais uma das milhares de necessidades em série. Comer. Beber. As mãos com unhas cortadas e polidas empunham uma tigela cromada com comida saudável dentro. Senta e diz adorar esses utensílios cromados, inoxidáveis. Por ela, todos os utensílios do gênero seriam feitos da matéria do cromo. A centelha ressurge.



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