Parto provisoriamente. Gosto de andar pela vizinhança, tanto a minha quanto a de Josephinne. Preciso comprar coisas. Mercado: coca-cola, cerveja, pão e arroz doce. Drogaria: preservativos.
Os fármacos. A palavra farmácia vem caindo em desuso crescente. Não sei absolutamente nada de química, mas sinto certo fascínio pela possibilidade da cura de diversos males através da mistura de elementos em um tubo de ensaio. Agora não existem mais tubos à mostra e os emplastros assumiram quase uma função mística. O farmacêutico, figura a princípio indispensável para a legalidade do negócio, assumiu uma aura meio Oz: sabemos que ele está lá, mas nunca o vimos — Em seu lugar estão sujeitos limpos, bem penteados e leigos a qualquer hora do dia.
Eles não são necessários quando vamos comprar preservativos. Podemos ir direto ao caixa: esta não tão bem humorada, com uma imensa gama cromática de marcas e modelos às suas costas. Uma triste atravessadora do ato sexual. Percebem quão grave se tornaram os tempos? Entre você e a sua amante é necessária uma atravessadora, e é necessário dinheiro, para que você não tenha complicações póstumas.
Ilustrando tais complicações está a mulher à minha frente. Cansada, ela tenta demover a filha (simiesca e minúscula) da idéia de comprar jujubas. A criança começa a chorar um choro seco e mimado. A mãe a ignora enquanto conversa com a caixa sobre pontos no cartão da drogaria.
Lembro do cartão de fidelidade. Mais um artifício dificultador da compra. É preciso dar o CPF para comprar uma cartela de analgésicos porque você pode tirar com isso uma ridícula vantagem monetária. Terrível. Acho curiosa a idéia do nome “cartão de fidelidade”. Alguém te faz a pergunta indiscreta: Você é fiel? E você responde lógico! Duvida? Olha aqui o meu cartão de fidelidade com 125 pontos.
Minha vez: eu queria essa aqui. Não, essa não, aquela ali. Isso, a do pacote azul. A do espermicida. A com veneno dentro. Óbvio que não pronunciei as duas últimas frases, e sim esta: Posso usar o cartão de fidelidade?
Sim, pode. Mas agora o cartão de fidelidade não pode mais ser usado para comprar remédios. Só pode ser usado para perfumaria ou conveniência.
E isso (os preservativos finalmente à mão) é conveniência?
Não. É perfumaria.



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