29.8.09

Pulso



Entenderam? A prostituta é a morte e os doze poemas sem carbono são a vida. Hank pede para que ela leve tudo, menos a sua vida. O Anibal era o único poeta realmente poeta em atividade e agora toda a atividade restante será a leitura dos seus livros: a luz entrando pelos olhos e trazendo para dentro a forma e o significado das letras representando imagens subrreptícias.

Você lê e absorve a coisa. Essa da impressão contra o fundo branco (o mar indo e vindo, o cheiro do hortelã e do pescoço) e vai dormir um pouco mais inteligente. Oito dias depois você cria uma metáfora saída dessa bagunça de sangue e fios orgânicos emaranhados e se sente bem por isso: uma das funções da poesia.

Fiz várias coisas. Aulas. Leituras. Conversas com amigos. Idas ao supermercado. Olhares completamente embasbacados para as novas tatuagens de Josephinne. Detalhes perfeitos e filigranados subindo pelo pé e perna e, num dos pulsos, o símbolo:

25.8.09

Last Round


To The Whore Who Took My Poems
(Charles Bukowski)

some say we should keep personal remorse from the

poem,
stay abstract, and there is some reason in this,
but jezus;

twelve poems gone and I don't keep carbons and you have

my

paintings too, my best ones; its stifling:

are you trying to crush me out like the rest of them?

why didn't you take my money? they usually do

from the sleeping drunken pants sick in the corner.

next time take my left arm or a fifty
but not my poems:
I'm not Shakespeare
but sometime simply

there won't be any more, abstract or otherwise;

there'll always be mony and whores and drunkards

down to the last bomb,
but as God said,

crossing his legs,

I see where I have made plenty of poets

but not so very much

poetry.

(Anibal Beça: Manaus 1946/ Manaus 2009)

21.8.09

O Homem Assombrado pelos Gatos



Primeiro se faz necessário falar sobre o fantasma da cadeira:


Não lembro exatamente quando a cadeira apareceu ao lado da porta de entrada. Simplesmente apareceu com sua estrutura leve de alumínio e seus macarrões verdes e nunca resolvi mudá-la porque desde a primeira que a vi senti uma boa sensação de segurança. Aparentava haver algo ali. Um guarda invisível.

Sendo assim, coloquei ao seu lado uma planta para lhe fazer companhia. Passou o tempo e veio o sol. Forte, amarelo mais que laranja. A planta adoeceu por causa do Sol e seus raios. A retirei da porta e a coloquei sob uma sombra da cozinha, próxima da pia quente e úmida.

Curiosamente, a cadeira deixou sua posição estável e passou a ficar cada vez mais alheia à sua posição vigilante. Torta. Até mesmo caída com o vento. Talvez tentando fugir do sol que matou até mesmo os fungos da parede: uma companhia muda, porém constante.

Mas muito provavelmente por saudades da planta. Os seres de mentalidade simples e certos homens são os que mais sofrem quando lhes retiram pequenas coisas. Perder algo mínimo pelo qual se nutre um carinho imenso é uma ruína irreconstrutível.

Acontece que pouco tempo após o início da desordem de posições a cadeira estabilizou-se, novamente objetificada, e em seu lugar apareceu um gato branco: O fantasma talvez transmutado em bicho permanecia na frente da minha casa. Observando-me de forma minuciosa como que perguntando onde está a minha planta. Uma saudade desesperada sem perder a compostura. E a planta aqui dentro de casa com ramos se insinuando galhos. Gozando do conforto mínimo do mundo dos humanos que trabalham o dia inteiro para terem certa paz no final da noite.

Ignorei o gato. Ignorei a cadeira e o preço de tamanho descrédito desmerecido foi o aparecimento de estranhos fenômenos. Entre eles:


O gato demoníaco


Era algo com ter dado aulas e aulas. Na verdade era: eu dera aulas e aulas e estava em casa cansado o suficiente para não sentir sono. Meia-noite. Uma. Duas. Quando resolvo dormir, quase três, ouço baques na janela do meu quarto. Talvez um ladrão, forçando a tranca, tentando empurrar o condicionador de ar.

Dei um murro na janela e aguardei a reação no meio da madrugada silenciosa. Nada. Com certeza era um bicho. Um gato ou um passarinho insone, que fossem. Tentei dormir de novo. Pouco tempo depois ouço barulhos no cadeado da porta da frente. Tem alguém Tem alguém Tem alguém: em tais situações, essa sentença simplória mostra-se intermitente e assustadora.

Alópro: abro a porta da frente de súbito e quando vejo o que ela desvela dou um salto de três passos para trás: um gato laranja com uma lata na cabeça.

E o que há demais num gato laranja com uma lata a cabeça? Absolutamente nada demais, querida leitora que sabe, melhor do que ninguém, escolher os sapatos. A não ser que seja três e meia da noite, você esteja sozinha, ache que tem um ladrão rondando a sua casa e, quando bravamente você resolve abrir a porta de casa cheia de sentimentos contra a lei dos homens (tais como abrir talhos num braço desconhecido), no lugar dum sujeito suado de um metro e cinquenta e cinco, encontra um gato laranja cuja cabeça não existe: com os bigodes direcionadores espremidos por uma lata de comida canina ele move-se como um alien demoníaco, rastejando pela calçada.

Tentei ajudá-lo e não consegui. Ele rechaçava as minhas investidas de socorro. Corria cego e tentava usar as unhas. Resolvi esperar nascer o dia e procurar ajuda. Fui para a cama e entrei numa vigília de sonhos estranhos, ora lúbricos, ora planejando aulas, e às seis e pouco da manhã, fiz minha segunda investida desesperada na resolução do problema.

Nem tudo é azar ou situação absurda. Minha vizinha do lado estava varrendo a porta da sua casa. Chamei-a e, ao ver a criatura, ele teve quase a mesma reação de agonia e asco que eu tivera algumas horas antes. Vamos lá, Cristiane. Ela segurou as patas e eu segurei a lata. O gato esticou-se como num desenho de Tom & Jerry. Sofria, o bicho. Livrei as orelhas. Desviei as mandíbulas. O gato laranja viu a luz do sol novamente. Saltou, nos observou e saiu correndo sem nem ao menos dizer obrigado. A ingratidão, mesmo a do mundo animal irracional, é das coisas mais tristes.

Seria o fim da história se, assim como vocês, eu não estivesse esquecido do gato branco. Aquele, evoluído do fantasma da cadeira. O mesmo que tivera sua companheira planta arrancada de seu convívio. O mesmo que encontrara na permissividade de mau sentinela seu instrumento de vendeta.

Vendeta: Um gato laranja, desconhecido e vendado... Percebem? Vamos para a última parte.


As crias


Chego em casa depois de dois dias dormindo fora. Josephinne. Minha mulher evoluída do gato, por vezes pássaro e por vezes, por que não dizer, até um pouco cachorra, pediu que eu dormisse uma noite seguida em sua cama. Dormi: a Josephinne nada négo. Voltei para casa no dia seguinte. Três da tarde. Algo como um nômade se movendo pelo deserto — O calor! O calor! — com o bônus justíssimo de algumas latas de cerveja dentro de um saco de plástico branco. Encontro o portão em desordem. À sua frente, um saco anônimo de lixo meio rasgado. Arrumo o portão. Recolho o lixo desconhecido e o reúno aos meus. Tudo resolvido. Só me resta entrar em casa, limpá-la e escrever nela. Tudo se resolve com a limpeza das coisas.

Ouço alguns mios. Entro no quarto, vassoura em punho, e ponho um dos ouvidos próximos às grades da janela. Os mios não estão fora, estão dentro. O gatos estão dentro do meu quarto.

Ouço um pouco mais. Estão sob a minha cama. Deixei uma das folhas da janela da frente entreaberta e agora existem gatos sob a minha cama-caixa. A afasto: o gato branco revela-se gata quando vejo cinco gatinhos menores perseguindo seus mamilos. As crias alheias a tudo não percebem a ameaça que sou. A gata branca, evoluída do fantasma, percebe e sai correndo, invisível, na direção da porta da frente e lá estaciona, sentido-se vítima de sua imprudência. Observa-me.

O que faço? Não quero tocá-los. Tenho algo como um nojo misturado com medo de machucá-los: o mundo tão novo, escuro e úmido, rescendendo a leite ralo de mãe, subitamente interrompido, os faz chorar aos mios.

Chamo por Socorro: a empregada de minha vizinha — que também se chama Socorro — aparece alguns minutos depois para ajudar o vizinho inapto (a ponto de não lavar as próprias roupas e pagar a ela vinte reais a cada duas levas, uma maior e outra menor) para dar conta da prole.

Ela pega uma pá de lixeira. Me diz: eles vão se criar aqui, Júnior. Eu digo, e o que você quer que eu faça? Jogue eles fora?

É: ela diz.

Não. Eu jamais faria isso. Deixa eles em baixo daquela árvore que tem mais sombra, Socorro. Por favor.

Ela os deixa. E a gata, em permanente vigília, observa todo o processo para, em seguida, ir até eles e lambê-los, uma a um — A gata, até então um fantasma intangível, digerindo sua própria placenta e com um rasgo vermelho, sangue seco, sobre o dorso.

Eles estão lá, agora. Os observei pelo basculante. A mãe os lambendo e partindo para conseguir comida. Não posso dar comida a ela. Ela recusa meus potes de leite, recusa meus Texas burgers. Por aqui é tudo o que poderia oferecer a ela. Num prato plástico dissolvo algum leite em água e o deixo perto das crias. Elas farejam e duelam raivosas. Querem mais. Montam-se umas sobre as outras e, finalmente, chafurdam sobre a fonte desconhecida de alimento. Bebem.

Acho que fiz minha parte. Não posso acolher entre as paredes confortáveis de meu quarto toda uma prole felina originada de um fantasma cuja incursão dolorosa no mundo das coisas se deu porque sentia saudades de uma planta.



Entre as paredes de meu quarto só acolheria a mim e a Josephinne e a nossa prole única cujos nomes não revelo para que os invejosos não registrem os nomes antes. E a ajudaria a engolir a placenta. E os lamberia e a lamberia. E os alimentaria com meu leite artificial de pai e daria alimento mastigado na sua boca para que ela os alimentasse apropriadamente.



Encosto novamente o ouvido na grade de meu quarto. Ouço a matriarca vizinha do lado brigando com os filhos-netos. No lado oposto, ouço os ecos das crianças da oficina brincando longe dos olhos das mães. Suas crias não parecem se importar com nenhum dos acontecidos.


13.8.09

Emiliano


A cama projetada por Emiliano consiste num original e verdadeiro objeto composto pelos teares milenares intrincados e inacessíveis da arte manufaturada indígena. Ele, Emiliano, estivera com eles, os índios, durante quase toda a infância e a parte da vida necessária para se lembrar para sempre. Aprendera com eles o silêncio e a simplicidade dos mistérios ocultos dum mundo que sob olhos obnublados de quem é acostumado à autoproclamada civilização parece o ser o mesmo todo santo católico dia. Mas não é.


Prova visível é o espaldar da cama absolutamente tenso e ainda assim modificável: estalando certos extremos geometricamente correlacionados, Emiliano consegue formar o desenho de paisagens, iniciais de nomes, insinuações de curvas femininas e, com um pouco mais de alguns pares de minutos dentro dos quais suas mãos ajustam o que parece inajustável, desenhos de rostos sem quaisquer dúvidas de serem retratos específicos quando vemos neles representadas rugas de expressão e sorrisos sugeridos cercados por símbolos representando um rol de amantes.

No lugar onde se deita, milhares de feixes sobrepostos substituem o colchão (palavra grotesca) e dispensam a falsa epiderme de tecidos-extra para a proteção contra o frio — Bem como dispensam os ardis mecânicos para ludibriar o clima quente imposto pelo ambiente: ao comportar o corpo, ou os corpos, dependendo da noite, o feixe balanceia e contrabalanceia as temperaturas de quem está ou estão sobre eles: o corpo permanece acolhido seco e úmido como um índio pacífico após uma jornada de caça e pesca e dança e beberagem. A cama não range.

Haveria um problema: ser exígua. Mas não é. Possui o tamanho exato. Para ser perfeita, necessita apenas comportar um corpo ou dois abraçados: dissera-lhe o índio marceneiro entre palavras econômicas autoexplicativas o suficiente para não necessitarem do uso de floreamentos como exíguo ou marceneiro ou dois abraçados para se fazerem entender.

Sente saudades: esse floreio verbal específico com o qual conseguira contaminar os iguais entre os quais convivera durante doze anos. Sentem a sua falta e usam tal palavra entre os períodos econômicos nos quais falam sobre ele, Emiliano, e a sua necessidade de deixá-los dentro do mato inacessível e partir usando roupas que não cabiam direito: o gosto ácido e doce de peixe ainda impresso na língua, os pés inflando-se dentro do sapato, as mãos feitas teares.

Na primeira semana de chegada à cidade, encerrou-se. Ignorava a euforia dos familiares desconhecidos com cabelos untados e penteados para trás da fronte. Ainda sabe falar, Emiliano? Diziam em tom de chacota amistosa. Sim. Vamos te arrumar um trabalho: observar um maquinário burro e barulhento — peixes entrando por uma esteira com os olhos ainda vivos e pulsantes e saindo na forma de pequenos tijolos aglomerados pela sua própria gordura. Algo triste de se ver.

Volta para o quarto. Acende a luz e logo em seguida a apaga. Cria um fogo minúsculo o suficiente para iluminar tudo o que precisa. Ganhou de presente um tubo luminoso de dentro do qual saem imagens sem significado. Volta-se para a cama e a estala de forma misteriosa. Muda as imagens do espaldar.

Ouve um baque à porta. Frágil tentando serem fortes, os baques. Abre. A mulher pensa ser a penumbra um ardil romântico quando na verdade é apenas uma representação lúgubre duma solidão imensa. A observa e de forma engraçada e mágica a solidão se dissipa. A mulher abre alguns pacotes que trouxera dentro de um saco plástico branco e observa o espaldar da cama. Vê a ela mesma representada com uma pequena flor de manacá presa por entre os cabelos. Como você faz isso?

A cama urdida de forma elementar e mecânica impõe sua pujança milenar dentro do quarto mínimo. Deitam-se.


11.8.09

Corujas


Pára e me fita bem de perto com longuíssimos olhares de coruja. Aqueles globos belos sábios e pesados escondendo um passado desconhecido. Um passado vivido madrugada após madrugada aninhada num tronco rígido sobre o qual mantivera uma ferida verde aberta de seiva escorrendo. A unha agarrando a seiva e sutilmente a levando à boca: um alimento inútil e prazeroso misturado à saliva.


Repousa agora essa seiva verde misturada aos olhos humanos. O busto por vezes insinuando-se altivo e os gestos brancos lidando com os objetos sobre a mesa como se folheassem um livro. Abre-o. Cheira as palavras. As mói as enrola e as traga. Os globos belos e sábios do busto escuso insinuando-se novamente. Me oferece os três últimos tragos reminiscentes: o filtro seco de quem guarda a saliva sob a língua. A utiliza apenas nos momentos certos.

Tenta me ouvir. Eu falo baixo. Meus ancestrais falavam assim. Não tenho culpa. Na verdade tenho quando oscilo da voz baixa à quase gritante. As ondulações são moduladas pelo olhar reconhecedor por vezes doce por vezes sáfico quando fita uma ou outra garota. Retorna a mim.

Desce à cidade observada madrugada após madrugada com um vôo curto e planante pousado numa esquina fria onde encolhe-se uma fila de bichos de festa esperando para entrar na casa noturna. Lá dentro, encontramo-nos. Perguntei por educação porque chegara tão tarde. Beija-me o rosto.


Escorre a mão por ele. Um leve cheiro de cinza. Um forte cheiro de seiva repousado no interior da unha média. A pele negra do rosto mistura-se. A penugem mínima pairando nas orelhas e nuca. Por vezes fala com estranhos. Nutro profundo desprezo pelos estranhos que não conheço. Utiliza a ponta dos pés para aninhar-se sobre o banco. Equilibra-se.


Pousa uma das mãos sobre a mesa. A outra sobre meu braço. Esta pressiona a unha média de leve. Acho que o fura um pouco. Faz um rasgo imperceptível. A unha pigmentada por um azul desconhecido sob o qual repousa um cheiro oculto conhecido e desconhecido por mim. Talvez seja o braço apenas um galho e eu uma árvore agradável imutável e eterna. Mesmo assim insuficientemente antiga para os olhos da cabeça que dá voltas.



7.8.09

Cercas e caixas


Como assim eu sempre falo as mesmas coisas? Não é minha culpa. A gente vive dentro de uma cerca de palavras: pula e ninguém te entende.


Aos dezesseis anos, inventei um vocabulário com quarenta e três verbetes e três sinais básicos de pontuação: um para pausas curtas e dramáticas, outro para pausas atônitas — algo como alguém recém-portador de um segredo — e um terceiro para indicar uma sentença com carga erótica. Não funcionou.

Os sinais se reproduzem. Pensei em um sinal evoluído para indicar asas: A personagem ruiva com as asas batendo dolorosa e prazerosamente sob e sobre as costas. O personagem com as asas murchas porque acabou de descobrir um segredo. Duas personagens: um casal recém-descoberto, com suas asas tentando se adaptar à gravidade de nove e tantos metros por segundo.


Percebem o problema? Nunca ninguém conseguiu ser Osman ou Cortázar além deles.


Melhor voltar para dentro da cerca. O que há de tão especial com os casais se amando ao ar livre? O ar livre? Mas o ar não é o mesmo em todos os lugares? Não seria melhor o ar esfumaçado, palpável quase? Não seria melhor o ar do quarto [encerrado] controlado pelos amantes?

O ar visível saindo pelas bocas sem necessitar do frio é a resposta.



A caixa. Só é caixa se houver entrada; senão deixa de sê-la. Vira um cubo inútil e indecifrável.


Uma caixa. Para sê-la, necessita duma porta e uma janela pelo menos. Então, pense bem, tudo são caixas: até mesmo a mulher auto-encerrada sem se dar conta: Aquele mecanismo insano cujas formas são observáveis e, mesmo intrincadas, decidimos guardar nossos pertences dentro delas, mesmo correndo o risco de nunca mais reavê-los.

A arquitetura interna, intrincada e rubra. Seriam assim todas? Terrível mesmo seria a experiência da descoberta da arquitetura pálida após a doação dum segredo. Mas não existe tal coisa. Ao menos nunca ouvi quem descobrisse tal fenômeno negativo: mesmo os mais falastrões, expelidores de segredos dignos do meu sinal de pontuação invisível, nunca relataram tal fato.



O céu de boca, feminino e rubro, ósseo e muscular, maleável, ao mesmo tempo. Superior, quando comparado ao simulacro externo e mecânico da outra boca complementar e inferior, hominídea.



A caixa correta e superior sim: complementar, feminina e passiva, mas ao mesmo tempo cheia de mistérios por ser rubra; duma rubridez da qual só se vêm as laterais insinuando-se. Superiores, sim, e eis a prova dentro de uma analogia simples:


O que é mais sedutor? Um caderno ao descaso, ou um diário com uma tranca esquecida aberta esperando que alguém o leia?


O diário. Querido diário... e a sensação de leitura é mais excitante do que a de um clássico cujo início fora lido pares de vezes em quaisquer revistas. Mais do que isso? Um diário entreaberto pra você apenas.


Senta-se. À sua frente um diário entreaberto. Lê. Descobre segredos inúteis e preciosíssimos. No dia seguinte, a encontra. Lembra do diário em forma de bloco. Uma coisa encadernada que cabe na palma da mão, esquecida numa partição da estante do quarto. Abre: longilínea e pensada, a letra em diagonal com o auxílio duma régua invisível.


Imitando um padre receptor de volumes, as guarda na memória


(imagine aqui um ponto final diverso dos regulamentares)